quinta-feira, 28 de maio de 2026

Câmara aprova fim da escala 6×1, The News

 

(Imagem: Brenno Carvalho | Agência O Globo)

A Câmara dos Deputados aprovou na noite de ontem a PEC que prevê o fim da escala 6x1 e a redução da jornada semanal de trabalho de 44h para 40h. A proposta agora segue para votação no Senado. Veja como votou cada deputado.

A relevância: A mudança pode impactar diretamente cerca de 16 milhões de trabalhadores.

O que muda na prática

O projeto garante ao menos duas folgas semanais — preferencialmente aos domingos — e reduz a carga horária em duas etapas:

  1. Redução de 2h de trabalho após dois meses da promulgação;

  2. Redução das 2h restantes ao longo dos 12 meses seguintes — tudo sem qualquer redução salarial.

A PEC mantém acordos coletivos, banco de horas e modelos especiais de jornada, como a escala 12x36. A medida também permite que o funcionário trabalhe mais dias seguidos em uma semana e compensar com mais folgas na seguinte, desde que a média mensal mantenha duas folgas semanais.

  • Além disso, trabalhadores com ensino superior e salários acima de cerca de R$ 21 mil ficam fora das novas regras.

Os dois lados da moeda do debate

👍 O que dizem os defensores

Argumentam que a diminuição da carga horária poderá melhorar a saúde mental do trabalhador e resultar em um aumento real de produtividade, além de alinhar o Brasil a movimentos que já acontecem em outros países.

Um estudo feito pela Reconnect Happiness Network com 250 empresas que adotaram o modelo 4×3 indicou que houve uma redução de 30% na ansiedade dos funcionários e uma melhora de 56% na execução das tarefas.

👎 O que dizem os críticos

Entidades econômicas alertam que a mudança elevará o custo sobre a folha de pagamentos de empresas em R$ 158 bilhões.

Com isso, o setor produtivo prevê quatro possíveis consequências: (i) repasse de custos para a inflação, diminuindo o poder de compra; (ii) demissão de funcionários mais velhos para corte de gastos; (iii) avanço da informalidade e (iv) aceleração da automação para cortar postos de trabalho.

Outro ponto que divide opiniões é a velocidade da transição. O modelo brasileiro prevê uma adaptação muito mais rápida do que a adotada por outros países da América Latina, como México, Colômbia e Chile, que implementaram mudanças semelhantes ao longo de 4 a 5 anos.

Waldemar Magaldi Filho - Indústria da baixa autoestima transforma sofrimento em nicho de mercado -FSP (definitivo)

 Waldemar Magaldi Filho

Analista junguiano, mestre e doutor em ciências da religião e fundador do IJEP (Instituto Junguiano de Ensino e Pesquisa). Autor de "Dinheiro, Saúde e Sagrado"

Você já se sentiu um fracassado? Já acordou pensando que todos ao seu redor venceram na vida, menos você? Pois saiba que existe um exército de pessoas esperando exatamente por esse momento de fragilidade. Elas não estão aqui para te ajudar. Elas estão aqui para te vender uma solução mágica e cobrar caro por isso.

Pense naquele colega de trabalho arrogante, que humilha os outros. Será que ele tem alta autoestima? É exatamente o oposto. Arrogância é a máscara de quem, por dentro, se sente um nada. Baixa autoestima não é só timidez ou choro. Muitas vezes, ela se veste de fúria, de desprezo e de necessidade de dominar.

A ilustração mostra uma pessoa sentada em um sofá durante a noite, com o corpo curvado para frente e a cabeça baixa, transmitindo cansaço ou introspecção. O ambiente é uma sala com tons azulados e iluminação baixa. Ao fundo, há uma porta ou janela aberta para uma varanda, decorada com luzes amarelas em formato de cordão e fogos de artifício no céu noturno, além da silhueta de uma palmeira. À frente da pessoa, uma mesa baixa sustenta uma garrafa, um prato com comida e um livro fechado. A cena cria um contraste entre a atmosfera festiva do lado de fora e o clima silencioso e solitário do interior.
As pessoas inseguras são convencidas de que precisam de técnicas, imersões, mentorias e rituais particularmente caros para se sentirem alguém, escreve autor - Catarina Pignato

A baixa autoestima escava crateras internas por onde escorrem medos antigos que, quando não reconhecidos, se inflam em agressividade. É como se o sujeito, sentindo-se pequeno demais, resolvesse subir em um salto psíquico tão alto que até tropeça na própria sombra.

Em vez de mergulhar em si, corre para o barulho da multidão que promete alívio rápido, pois ali ninguém precisa lidar com a própria fragilidade. Nesse tumulto, o indivíduo vira apenas um fragmento perdido, enfeitiçado por promessas de futuro brilhante que o afastam de qualquer presente possível. É nesse vazio que líderes autoritários plantam suas sementes e florescem na terra fértil da insegurança coletiva.

Quando o ego se sente impotente, reage como um cachorro acuado que late para tudo. A agressividade não vem da força, mas do medo. A pessoa que não suporta olhar para sua vulnerabilidade se agarra a gestos duros, poses grandiosas e convicções inflamadas. É um teatro interno que precisa de plateia externa para parecer convincente.

Assim, o conflito não nasce da coragem, mas da incapacidade de lidar com a própria dor. A dor, quando negada, vira arrogância. A projeção se torna esporte nacional. A sombra que não foi abraçada se transforma em arma. Onde falta interioridade, sobra barulho.

Quando uma sociedade inteira se afasta do próprio eixo, abre-se espaço para falsos salvadores. Eles não criam o fanatismo, apenas o organizam. Absorvem as frustrações das massas e as devolvem como bandeiras tremulantes. Transformam mal-estar em slogan. Oferecem certezas prontas embaladas como se fossem sabedoria.

Na verdade, vendem conforto para quem não aguenta mais a própria complexidade. O que chamam de tradição é muitas vezes regressão. O que chamam de valores é medo com roupa de gala. Assim, líderes autoritários surgem como caricaturas de heróis que prometem restaurar o que nunca existiu.

Nesse mesmo ecossistema, floresce a grande indústria do empoderamento, aquela que transforma a insegurança em oportunidade de negócio e faz do sofrimento um bom nicho de mercado. Ali, quem está fragilizado vira cliente preferencial.

Os novos profetas vendem autoestima em parcelas e personalidade em workshops. Prometem despertar guerreiros interiores, feminilidades divinas, milionários adormecidos e propósitos cósmicos em formato pocket. É como se dissessem: "Não se preocupe com sua dor, eu tenho a versão premium dela". Quanto maior a vulnerabilidade, maior o preço. Não existe nada mais lucrativo que a vergonha humana.

As pessoas inseguras são convencidas de que precisam de técnicas, imersões, mentorias e rituais particularmente caros para se sentirem alguém. O resultado é um ciclo de dependência elegante, com marketing sedutor e hashtags inspiradoras. Por trás, há o mesmo mecanismo antigo: quem perdeu o centro busca alguém que decida por ele. Quando o método não funciona, a culpa volta para o indivíduo, alimentando ainda mais a sensação de fracasso que pede mais um curso. É uma economia emocional que gira sem parar, movida a culpa e esperança.

No fundo, tudo isso nasce da associação entre miséria externa e miséria interna. Quando o sujeito se sente pequeno, tenta vestir identidades gigantes. Quando perde o chão, procura líderes que prometem asas. Quando não suporta a própria dúvida, se entrega a certezas autoritárias. Assim, se afasta de si mesmo, acreditando que o empoderamento vem de slogans e não de silêncio. Só que nenhuma frase motivacional cura feridas profundas e não há certificado para maturidade.

Talvez a saída não seja empoderar, mas desempoderar: tirar o peso das fantasias de grandeza, largar o desejo infantil de ser salvo e abandonar a ilusão de que existe alguém que sabe mais sobre a nossa alma do que nós mesmos.

Recuperar a humanidade exige atravessar o deserto sem promessas de oásis instantâneos. Exige humor para rir das próprias pretensões e poesia para habitar a própria sombra sem medo. Exige coragem para ser pequeno e, ainda assim, verdadeiro, em que o gesto mais revolucionário seja desaprender a lógica da força que, em vez de integrar a sombra, tenta usá-la como arma.

Talvez recuperar o amor e a empatia passe por abandonar o desejo infantil de ser salvo ou de salvar o mundo através de doutrinas mágicas. Recuperar o amor é abandonar o ódio como defesa. Recuperar a empatia é abandonar o líder que nos promete grandeza. Recuperar a humanidade é lembrar o que esquecemos quando fugimos de nós mesmos.

A luz que falta não virá de fora. Nenhum guru, líder ou método vai nos entregar o que nasce apenas quando ousamos estar conosco. A única tocha que ilumina o caminho é a que acendemos quando paramos de buscar atalhos e começamos a caminhar por dentro.

Partido do MBL se inspira em ultradireita do Vale do Silício para desafiar Bolsonaro, FSP

 


Ana Luiza Albuquerque

Repórter de Política, é mestre em Jornalismo Político pela universidade Columbia (EUA) e autora do podcast Autoritários


[RESUMO] Legenda derivada do MBL, fundada em novembro de 2025, o partido Missão vem investindo na formação ideológica da sua base eleitoral, inspirando-se em nomes extremistas e reacionários, para se posicionar em um cenário de possível ocaso do bolsonarismo.

Certa vez, nos primeiros minutos de uma entrevista, o diretor de um instituto húngaro de direita me perguntou: "Você já ouviu falar de Antonio Gramsci?".

Eu havia procurado Frank Furedi em 2023 para uma reportagem que seria publicada na revista americana Foreign Policy. O foco era a estratégia do então primeiro-ministro Viktor Orbán, responsável por transformar a Hungria em um hub global da ultradireita ao financiar uma série de think tanks conservadores.

Acenei positivamente com a cabeça. Gramsci, o famoso teórico marxista italiano, desenvolveu o conceito de hegemonia, segundo o qual as ideias dominantes em uma sociedade são as ideias da classe dominante. Ou seja, a dominação não se dá apenas pela força, mas também pela cultura, por meio de aparatos como a mídia e as escolas.

"A sobrevivência a longo prazo do tipo de projeto que ele tem demanda algum grau de hegemonia intelectual na sociedade", Furedi disse sobre Orbán. "Ele precisa criar uma ‘contraintelectualidade’ para criar as bases de um regime político mais durável."

Renan Santos no 8º Congresso Nacional do MBL - Zanone Fraissat - 4.nov.23/Folhapress

O Missão (ou a Missão, como seus membros preferem), partido de direita derivado do MBL (Movimento Brasil Livre), fundado no fim do ano passado, também parece ter lido —e aplicado— Gramsci.

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Com uma revista de artigos políticos escritos por líderes do movimento e colaboradores, um clube do livro, uma academia de formação de quadros e uma espécie de cartilha do partido (O Livro Amarelo), o Missão engaja sua base eleitoral de jovens a partir da disputa ideológica.

É essa base o principal ativo de Renan Santos, um dos fundadores do MBL, presidente da legenda e pré-candidato à Presidência.

Nas redes, ele adota um discurso antissistema e conta que tem feito um tour de carro pelo Brasil financiado por apoiadores, buscando se diferenciar de adversários com grandes estruturas e recursos partidários. Santos também tem viajado à Europa e aos Estados Unidos para encontrar lideranças da direita.

No passado, ele ficou mais conhecido pelo "tour des blondes". Em um dos áudios sexistas sobre mulheres ucranianas enviados em 2022, o ex-deputado estadual Arthur do Val, o Mamãe Falei, disse que Santos viajava ao exterior "só para pegar loira".

A pré-campanha do presidente do Missão ainda não furou a bolha, mas pode ter ganhado um incentivo diante do baque enfrentado pela pré-candidatura de Flávio Bolsonaro (PL). No último dia 13, o site The Intercept Brasil revelou conversas em que o filho de Jair Bolsonaro (PL) cobrava de Daniel Vorcaro, do Banco Master, o pagamento de parcelas do financiamento do filme "Dark Horse", uma ode à história do pai.

Após a divulgação dos áudios, houve aumento nas buscas pelo nome de Santos no Google Trends, ferramenta que permite acompanhar a popularidade das pesquisas no buscador. Foi o maior pico de interesse no líder do MBL no último ano, o que poderia indicar um desejo do eleitorado de direita de encontrar um candidato alternativo.

Na primeira pesquisa do Datafolha feita integralmente após a eclosão do caso "Dark Horse" , o presidente Lula ampliou de 3 para 9 pontos a vantagem sobre o senador, com 40% das intenções ante 31% do rival. Os ex-governadores Ronaldo Caiado (PSD, 4%) e Romeu Zema (Novo, 3%) empataram com Renan Santos (Missão) e Samara Martins (UP), ambos com 3%. No cenário de segundo turno, a igualdade em 45% se transformou agora em vantagem de 47% a 43% para o petista sobre Flávio.

O fato de o líder do partido não ter subido e se aproximado dos dois dígitos na pesquisa não representa necessariamente um fracasso. Isso porque a disputa do Missão não é para agora, diz Odilon Caldeira Neto, professor de história da UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora) e pesquisador do neofascismo e da extrema direita. "Eles estão se colocando em um processo político mais amplo, pensando em um certo ocaso do próprio bolsonarismo."

É nessa construção a longo prazo que se inserem as iniciativas de formação ideológica no movimento. A revista Valete, por exemplo, foi criada com a intenção de se tornar um "hub intelectual da direita", como afirma um editorial de um exemplar de 2023.

As ideias norteadoras do partido ou quais autores seus líderes têm como referência não são informações de fácil acesso ao público. Uma edição avulsa da Valete custa R$ 100, enquanto a série do Livro Amarelo sai por R$ 589.

Professor de Ciências Sociais na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), Jorge Chaloub diz que o Livro Amarelo reúne pílulas de anarcocapitalismo, ideias voltadas a hierarquias de gênero e raciais, uma mobilização de elementos cristãos e um "certo apelo à violência". "Nessa ideia de mudança rápida e radical, vão trabalhando uma certa vertigem de referências."

A Folha procurou o fundador do MBL para uma entrevista. Santos primeiro resistiu: disse que se a conversa fosse sobre populismo digital, um assunto para ele ultrapassado, não perderia seu tempo.

"Adoraria colaborar, mas não vou colaborar com algo que seja uma visão rasa sobre algo muito novo que está acontecendo", afirmou em mensagem de áudio. "Tenho muito pouco tempo a perder. Se for voltar a ter conversa de 2015, 2016, é ‘pointless’ [inútil]."

Respondi que, na verdade, gostaria de saber mais sobre as referências intelectuais e ideológicas do Missão. Ele então pareceu animado, mas, nas semanas posteriores, não respondeu mais aos contatos. Na troca de áudios, disse que o partido é hoje "o grupo político que mais produz conteúdo ideológico e intelectual no Brasil".

Se as referências teóricas da legenda são pouco divulgadas, o mesmo não pode ser dito das propostas da pré-campanha de Santos, que parecem ter sido pensadas para fazer barulho.

Com uma estratégia digital agressiva, típica do movimento que ajudou a criar, ele costuma viralizar nas redes com falas radicais ou exaltadas, como ao defender uma intervenção federal no Maranhão e a separação do Rio de Janeiro do Brasil, ou ao dizer que Flávio Bolsonaro tem que morrer (posteriormente, afirmou que se referia à morte política).

Santos nega que esse tipo de conteúdo faça parte de uma estratégia de viralização. "Não é estratégia, é política pública. Se fosse estratégia, eu não falaria que vou fazer uma nova Reforma da Previdência, que tira voto", disse ele a jornalistas após participação em evento do grupo Esfera, neste sábado (23).

"Ser polêmico não é problema. Ter boa capacidade de comunicação não é problema. Havia uma propaganda dos anos 1990, da Pirelli, que era 'potência não é nada sem controle'. Ser só potência, barulho em rede, não serve para nada se você não tiver o controle. Basta ver o Pablo Marçal, potente em redes, mas que era um completo pateta. Fora que era um estelionatário. Eu não estou aqui para isso."

Em um país onde a maioria avassaladora dos mortos pela polícia são negros, o Missão abraça a controversa teoria do direito penal do inimigo. O partido defende que criminosos do Comando Vermelho e do PCC não tenham direito a um processo criminal com ampla defesa.

Adotando um discurso linha-dura na segurança, Santos também costuma tecer longos elogios a Nayib Bukele, o presidente salvadorenho aspirante a ditador. Ou, ao menos, longos o bastante para caber em um vídeo vertical de poucos minutos.

Em artigo intitulado "Eu não sou só um rostinho (bonito?) na sua timeline. Ou não gostaria de ser (ainda que seja inevitável, e isso realmente é um saco)", publicado em 2023 na Valete, Santos critica a atuação da direita brasileira, que, segundo ele, vive de "espetáculo barato, entretenimento para redes sociais e polêmicas de bar". Ao mesmo tempo, reconhece que também está inserido na lógica das redes.

"Fazer política como grito de negação, como fragmento desesperado, como meme que desaparece na timeline, não deve ser nosso caminho. Pode ser uma das armas, uma alternativa tática para enfrentamento e ocupação de espaços. Mas é pouco, pouco demais", escreveu.

O Missão não apenas faz parte desse fenômeno, como é um de seus precursores no Brasil. O MBL, fundado há 12 anos, cresceu amparado em suas táticas de viralização (o grupo tinha uma dupla de integrantes que passava o dia criando memes, os "memeiros"), muitas vezes de conteúdos mentirosos. Uma marca inapagável de sua história foi o compartilhamento de uma publicação que sugeria, falsamente, que a vereadora Marielle Franco, assassinada em 2018, teria relação com o tráfico de drogas.

Outros líderes do Missão apresentam um discurso ainda mais radical. Orlando Lima, editor da Valete, defende o fim do sufrágio universal (segundo ele, "o maior problema da democracia") e o que chama de uma "gradação de cidadanias" —quem recebe auxílio do governo, para Lima, não deveria ter direito ao voto. "Pessoas com propriedade, família, trabalho, essas pessoas, sim, seriam plenas de direitos." A reportagem o procurou para saber mais sobre suas ideias, mas não houve resposta.

Tecnofascismo ou tecno-otimismo?

Ainda que não exista um manifesto público do Missão, há algumas pistas para entender com quais universos ideológicos a legenda dialoga.

No festival nacional do MBL, no fim do ano passado, a combinação curiosa de alguns elementos estéticos gerou acusações de que o grupo estaria adotando uma linguagem fascista.

Renan Santos vestia uma jaqueta militar, com insígnias no peito, e carregava uma espada. A sua volta no palco, havia vários estandartes representando os estados, e um deles levava a imagem da bandeira imperial. Esse último era conduzido por uma pessoa fantasiada de onça, o símbolo do partido —uma escolha que alude à identidade nacional.

"Existe um elemento estético realmente provocativo. Eu diria que tem um certo pastiche das formas públicas do Estado Novo brasileiro durante a era Vargas, da exaltação da nacionalidade", diz Caldeira Neto.

"Instrumental ou não, a própria escolha manifesta que o universo fascista acabou impregnando a linguagem nas direitas brasileiras e deixa subentendido que, para os membros do partido Missão, os elementos fascistoides são partes legítimas do seu abecedário e elemento de mobilização política."

Coordenador nacional do MBL, Ricardo Almeida afirmou em participação no podcast 3 Irmãos que a crítica é "muito burra" porque pressupõe que toda estética de orgulho nacional é necessariamente fascista.

"Eu estava na escolha daquela jaqueta, não tem nada a ver com Plínio Salgado ou Mussolini. A espada é uma das intuições simbólicas que o Renan está tendo. O MBL sempre foi muito experienciador de estética", afirmou. "Está rolando uma estética meio imperial, ‘somos brasileiros’, ‘temos que retomar essa terra’. Incentivar o patriotismo nos movimentos de direita é uma coisa muito boa."

Editor-chefe da Valete e coordenador do Livro Amarelo, Almeida foi aluno de Olavo de Carvalho, guru da ultradireita brasileira. Muçulmano, é admirador do escritor francês René Guénon, convertido ao islamismo e precursor do tradicionalismo, uma ideologia de rejeição à modernidade, tratada como uma fase de decadência.

As ideias de Guénon foram absorvidas pelo escritor italiano reacionário Julius Evola e influenciam expoentes da direita iliberal ao redor do mundo, do ideólogo russo Aleksandr Dugin a grupos radicais como a brasileira Nova Resistência, classificada pelo governo dos Estados Unidos como uma organização neofascista. Almeida não respondeu a um pedido de entrevista da Folha.

O festival do MBL também rendeu críticas por outro motivo: a presença do blogueiro neorreacionário americano Curtis Yarvin, também conhecido pelo pseudônimo Mencius Moldbug, precursor do movimento do iluminismo sombrio.

A vereadora Amanda Vettorazzo (União Brasil), ao lado do neorreacionário Curtis Yarvin e de Wolf Tivy, fundador da revista Palladium, associada à direita tecnológica do Vale do Silício

Yarvin argumenta que a democracia é um modelo fraco de governança e que deveria ser substituída por uma monarquia liderada por um CEO. Suas ideias são a manifestação do que os críticos passaram a chamar de tecnofascismo: a junção de tecnologias avançadas, controladas por uma elite de bilionários, com aspirações antidemocráticas.

Por muito tempo, os escritos de Yarvin, um engenheiro da computação, ficaram contidos nas franjas da internet. Nos últimos anos, porém, ele ganhou influência sobre figuras do entorno de Donald Trump, como o vice-presidente J.D. Vance e Michael Anton, que foi um alto funcionário do governo. Yarvin também mantém laços com bilionários do Vale do Silício, como Marc Andreessen e Peter Thiel.

Para além dos escritos antidemocráticos, Yarvin tem ainda um rol de declarações controversas sobre raça. Já afirmou, por exemplo, "que é muito difícil argumentar que a Guerra Civil americana tornou a vida de alguém mais agradável, incluindo a dos escravos libertos".

Segundo perfil de Yarvin publicado na revista The New Yorker, ele chegou a escrever em seu blog, ao tratar da população mais pobre da cidade de San Francisco, que era fundamental encontrar "uma alternativa humana ao genocídio", um desfecho que "alcance o mesmo resultado que o assassinato em massa (a eliminação de elementos indesejáveis da sociedade), mas sem qualquer estigma moral".

Chaloub diz que o convite a Yarvin se insere numa profunda preocupação do MBL com a estética e com a ideia de se vender como um produto.

"Quando mobilizam o Yarvin, não necessariamente vão comprar tudo dele, por mais que comprem em boa medida", afirma. "O Yarvin surge como alguém que sinaliza uma série de coisas. Sinaliza popularidade nos Estados Unidos, proximidade com a base trumpista, um radicalismo muito importante para o discurso deles. Eles querem reivindicar essa radicalidade, esse papel de transformação total."

O americano foi recebido como estrela no festival do MBL, tietado por integrantes e líderes do movimento, e entrevistado como parte do conteúdo premium da revista Valete.

Lideranças do grupo já replicaram ideias projetadas por Yarvin sem citá-lo. Orlando Lima (o que defende o fim do voto universal), por exemplo, afirmou nas redes que o tempo atual demanda o cesarismo, sistema de governo autoritário, centrado em torno de um único líder, geralmente militar.

"Bukele é um César. A figura do César [...] só existe em momentos de decadência. Só existem duas saídas, a ascensão do César para interromper o ciclo ou a dissolução daquela nação", disse em um vídeo com uma imagem de inteligência artificial que transformou Renan Santos em uma espécie de Júlio César.

O cesarismo faz parte do léxico de Yarvin, Anton e de outros expoentes da ultradireita americana.

Um homem com cabelo castanho e encaracolado está sentado à mesa, gesticulando com as mãos enquanto fala. Ele usa uma camisa branca e está em um ambiente com paredes amarelas e uma mesa de madeira. O fundo é composto por cortinas amarelas que criam uma atmosfera acolhedora.
Renan Santos, presidente do partido Missão e pré-candidato à Presidência - Jardiel Carvalho - 16.set.25/Folhapress

Em abril, veio à tona outra referência teórica do movimento, a partir de uma reportagem do portal Metrópoles, que divulgou conversas que Santos manteve em um grupo no Instagram. Em uma das mensagens, o líder do MBL pergunta se os participantes já leram BAP. "Vocês têm que ler a Valete. Tem várias pistas desses autores por lá", escreveu.

BAP é a sigla para Bronze Age Pervert, uma personalidade de extrema direita conhecida por seus ensaios e por sua influência na machosfera. Veículos de mídia americanos já associaram o pseudônimo ao escritor romeno-americano Costin Vlad Alamariu.

"Eu acredito no fascismo ou em ‘algo pior’ e posso afirmar isso sem ambiguidades porque, ao contrário de outros, há muito tempo desisti de qualquer esperança de fazer parte do mundo respeitável ou de conquistar um público respeitável", escreveu BAP em texto publicado em 2021 na J'accuse, newsletter britânica da direita radical. "Há muito tempo venho dizendo que acredito no governo de uma casta militar de homens capazes de guiar a sociedade rumo a uma moralidade eugênica."

Ao Metrópoles, Santos disse que não concorda "com as coisas do BAP". "Agora, o BAP é um ator muito influente", afirmou.

De fato, seu livro "Bronze Age Mindset" (mentalidade da Idade do Bronze), publicado em 2018, se tornou bastante influente entre funcionários do governo trumpista. Segundo o site de notícias Politico, Michael Anton recebeu o livro como um presente de Curtis Yarvin.

O ex-funcionário do governo Trump escreveu em uma resenha de 2019 que a importância do livro de BAP "reside no fato de que ele aborda diretamente a insatisfação dos jovens (especialmente entre os homens brancos) com a igualdade tal como é propagada e imposta nos dias de hoje".

Para Caldeira Neto, o Missão está tateando esse universo ideológico para explorar uma nova roupagem, a partir da leitura de que o campo bolsonarista já está sedimentado.

"Eles estão buscando uma orientação afeiçoada a dinâmicas estadunidenses, o pessoal do aceleracionismo da extrema direita, Curtis Yarvin… Mostra que estão antenados com o fenômeno das plataformas digitais, da relação com esses oligarcas dos meios digitais e [associado] a um certo discurso elitista", afirma.

Em entrevista à revista Crusoé, perguntado sobre qual a ideologia do Missão, Orlando Lima, editor da Valete, afirmou que o partido representa "a direita do terceiro milênio".

"Nós somos a direita tecno-otimista. Estamos atraindo a atenção de muitos jovens que facilmente poderiam estar trabalhando no Vale do Silício e que se sentem abandonados pela atual conjuntura política do Brasil."