quinta-feira, 26 de março de 2026

Sem concorrência, Re.green leva primeiro leilão federal de reflorestamento com venda de créditos de carbono, FSP

 Tamara Nassif

Guilherme Weffort
São Paulo

Re.green foi a única companhia desenvolvedora de crédito de carbono a participar do primeiro leilão federal de restauro florestal, realizado nesta quarta-feira (25) na B3, em São Paulo.

A empresa ficará responsável por restaurar cerca de 59 mil hectares da Floresta Nacional do Bom Futuro, em Porto Velho (RO), durante 40 anos. A área concedida representa apenas um dos dois lotes ofertados no certame –o outro, de 39,27 mil hectares, não recebeu ofertas.

Em troca, a empresa venderá cerca de 1,5 milhão de créditos de carbono –um crédito equivale a uma tonelada de carbono absorvida da atmosfera.

Estrada de terra divide área de floresta densa verde à direita e área desmatada com árvores queimadas e solo exposto à esquerda, vista aérea.
Área desmatada na APA Rio Pardo no limite com a Floresta Nacional Bom Futuro em Rondônia. - Lalo de Almeida - 14.ago.2018/Folhapress

O lance proposto pela Re.green atingiu os valores máximos nos critérios técnicos do edital e, na outorga variável, ficou pouco acima do piso estipulado, em 0,7% –o mínimo era 0,69%. A outorga é a fatia da receita bruta da desenvolvedora que precisará ser repassada ao governo federal, que manterá a titularidade da terra.

A desenvolvedora ainda será criada, sob regime de Sociedade de Propósito Específico. Valores fixos não foram divulgados, mas a estimativa é que o total do investimento, somado com a área que não foi leiloada, fique em mais de R$ 2 milhões para cada um dos 40 anos de vigência da concessão.

A falta de concorrência frustra expectativas do governo federal em relação ao mercado de carbono voluntário.

No ano passado, a concessão da floresta de Bom Futuro para desenvolvedoras de crédito de carbono era vista dentro do setor como um dos eventos mais aguardados, já que contaria pela primeira vez com o respaldo da União.

Em março do ano passado, o governo do Pará também organizou um leilão para restauro da Unidade de Recuperação Triunfo do Xingu (URTX), na cidade de Altamira. Assim como no certame organizado pelo governo federal, apenas uma empresa participou da disputa.

A ministra Marina Silva (Meio Ambiente e Mudança do Clima), presente no evento, elogiou o modelo de concessão e afirmou que considera o leilão um sucesso.

"É uma proposta inédita que está sendo implementada. Somos um país com uma cultura secular extrativista, e aqui estamos restaurando, e o fruto da restauração vai ser o retorno financeiro", disse ela em entrevista coletiva.

O ineditismo é, na visão dela e de Garo Batmanian, diretor-geral do SFB (Serviço Florestal Brasileiro), a principal causa para a falta de concorrência. Marina ressaltou que o início das concessões florestais, em 2006, também foi marcado por baixo interesse e que agora, 20 anos depois, o modelo "já se firmou".

Há ainda o que ela chama de "medo conjuntural": por se tratar de um setor incipiente, o temor é que falte fôlego ou interesse público para sustentá-lo no longo prazo.

"O medo conjuntural é: isso vai continuar? Vai continuar tendo apoio financeiro? Vai continuar tendo segurança para a área não ser invadida? Ninguém quer fazer um investimento de 40 anos para que, daqui a oito meses, tudo vá por terra abaixo", disse ela, em alusão às eleições para Presidência.

"Falta uma visão estratégica em relação a algo que é tão importante, que tem tantas sinergias com clima, biodiversidade, comunidade, recursos hídricos. Falta ver isso como um ponto pacífico que independe de ideologia. As pessoas têm inseguranças. Isso é um fator psicológico no processo, não uma insegurança objetiva", complementou.

Para Batmanian, poucas empresas no país são especializadas em restauração e integram o mercado de crédito de carbono –o que também pode explicar a falta de concorrência. Ele afirma que "a maioria é startup", inclusive a Re.green, e "não há nenhuma grande empresa no Brasil que trabalhe nisso".

O CEO da Re.green, Thiago Picolo, afirma que, antes de disputar a concessão, a empresa se reuniu com grandes compradoras de créditos de carbono, acionistas e consultorias. O retorno desses contatos deu segurança para que a companhia seguisse com a operação.

"Além do ineditismo, tem a complexidade de um projeto como esse. É um investimento com muitas variáveis. Mas nós somos uma empresa bem capitalizada, então isso permite que nos dediquemos intensamente", afirma ele.

Um dos desafios, por exemplo, é que parte da Floresta Nacional do Bom Futuro foi desmatada por ação ilegal. A recuperação desses trechos vai exigir mais esforços em infraestrutura do que a companhia está acostumada a lidar.

"Esperamos criar a receita de bolo para que outras empresas entrem nessas concessões com mais facilidade daqui para frente", disse Picolo.

A Re.green tem o bilionário João Moreira Salles entre seus cofundadores e Arminio Fraga, ex-presidente do Banco Central, no conselho. Picolo foi CEO do Hortifruti Natural da Terra e do Grupo Technos, da indústria de relógios.

Em nome do Pai, do Filho e da santa hipocrisia, Deus é alistado na guerra do Irã - Lucia Guimarães, FSP

 Não é preciso cavar fundo para encontrar o túmulo da ironia quando ouvimos líderes políticos e militares invocando Cristo para justificar a guerra contra uma teocracia islâmica.

Dias após o início dos bombardeios contra o Irã, uma ONG especializada em proteger a liberdade religiosa dos militares americanos recebeu mais de 200 queixas de soldados e oficiais de todos os ramos das Forças Armadas sobre o uso de linguagem da Bíblia para justificar a decisão de iniciar a guerra.

Sete homens vestidos com ternos escuros sentados ao redor de uma mesa de conferência, com dois copos de água e papéis à frente. Um homem está em pé ao lado direito, com as mãos apoiadas na mesa. Todos têm as cabeças inclinadas e olhos fechados, em postura de concentração ou oração. Ao fundo, cortinas marrons e uma bandeira dos Estados Unidos parcialmente visível.
O presidente dos EUA, Donald Trump, ora com membros do gabinete durante reunião em fevereiro de 2025 - Jim Watson - 26.fev.25/AFP

De acordo com uma das queixas examinadas pelo jornal britânico The Guardian, um comandante havia "nos instado a dizer às tropas que aquilo era ‘tudo parte do plano de Deus’." Os soldados teriam ouvido também que deveriam arriscar a vida para facilitar o retorno iminente de Jesus Cristo.

Ao pedir preces pela vitória, o secretário de Defesa, Pete Hegseth, conclamou os americanos a rezar "todos os dias, de joelhos, com a família, nas escolas, nas igrejas, em nome de Jesus Cristo". Ele disse isso do púlpito do Pentágono, o comando central da mais poderosa força militar do planeta, nesta República fundada sob o princípio da separação entre Igreja e Estado.

Ajoelhados na sepultura da ironia, descobrimos também que o mais próximo conselheiro espiritual de Hegseth, o pastor evangélico Brooks Potteiger, declarou que tem rezado para Deus matar o seminarista presbiteriano James Talarico, um democrata do Texas que concorre ao Senado denunciando o nacionalismo cristão como contrário ao Evangelho.

Durante a homilia do último dia 15, o Papa Leão 14 condenou o uso do nome de Deus para justificar uma guerra. "Deus não pode ser alistado para a escuridão," disse o primeiro papa americano, talvez o mais enérgico pontífice crítico de uma campanha militar dos Estados Unidos. Na segunda-feira (23), Leão pediu que os bombardeios aéreos sejam banidos para sempre. Depois das tragédias do século 20, disse ele, "não temos progresso, temos retrocesso."

O partido no controle do Executivo e do Judiciário dos EUA parece esquecer uma lição recente. O republicano George W. Bush invocou as Cruzadas logo após os ataques do 11 de setembro, enquadrando a necessária reação americana ao terrorismo da Al Qaeda como uma guerra religiosa e fornecendo, assim, munição ao recrutamento de terroristas.

Curiosamente, o gabinete de Donald Trump é recheado de católicos praticantes, incluindo o vice-presidente, J. D. Vance, e o secretário de Estado, Marco Rubio. Pela primeira vez, seis dos nove juízes da Suprema Corte americana são católicos. Nota-se que esses devotos no poder se esquivam de confrontar em público Leão 14 com a destreza de trombadinhas evitando a polícia no centro de São Paulo.

O alistamento militar do Todo Poderoso coincide com o falecimento do movimento conservador nos EUA. O mais importante fundador do conservadorismo anglo-saxão, o filósofo irlandês Edmund Burke, argumentava que os costumes são mais importantes do que as leis. "A lei nos toca apenas aqui e ali. Os costumes são aquilo que nos aflige ou nos apazigua, nos corrompe ou nos purifica, nos exalta ou nos avilta, nos barbariza ou nos refina," escreveu.

Peter Wehner, veterano dos governos Reagan, Bush pai e Bush filho, que jogou a toalha em 2016, acredita que o legado deste momento no país será uma deformação coletiva de temperamento resultante da reprogramação do circuito moral dos cristãos.

Os amadores venceram - Ruy Castro FSP

 

  • A experiência e a especialização estão dando lugar aos improvisadores
  • Qualquer um hoje pode ser fotógrafo, taxista ou hoteleiro. Neurocirurgião ainda não
  • Salvar artigos

    Recurso exclusivo para assinantes

    assine ou faça login

  • 44

Em 1956, o compositor americano Johnny Mercer assistia à televisão. Mercer era letrista, coautor de "Blues in the Night", "Midnight Sun", "One for my Baby" e outras obras-primas. Minha favorita é "Too Marvelous for Words", com suas incríveis rimas internas como "I search for phrases/ To sing your praises/ But there aren’t any magic adjectives/ To tell you all you are.// You’re much too much/ And just too very very/ To ever be/ In Webster’s Dictionary". De repente, surgiu na TV um jovem cantor de que ele ouvira falar: Elvis Presley. Quando Elvis mandou a introdução de "Tutti-Frutti", seu hit nas paradas —"Wop-Bop-a Loo-Bop-a-Lop-Bam-Boom!"—, Mercer suspirou: "Os amadores venceram".

O compositor norte-americano Johnny Mercer em foto de 1956
O compositor norte-americano Johnny Mercer (1909-1976) em foto de 1956 - Reprodução

Mercer ainda teria alguns anos de carreira para escrever "Something’s Gotta Give", "Days of Wine and Roses" e "Moon River". Ao se referir aos amadores, estava comparando-os com os músicos com quem trabalhava, virtuoses da composição ou de seus instrumentos e vozes, ameaçados de repente por rapazes cuja formação musical se dava na garagem dos pais. Anos se passaram e hoje temos muitas razões para concordar: os amadores venceram.

Os fotógrafos profissionais, com anos de domínio de técnicas de lentes e iluminação, deram lugar a uma multidão armada de celulares produzindo, segundo Bob Wolfenson, as piores fotos de todos os tempos. Os taxistas de verdade, para quem as cidades não têm segredos, estão sendo aposentados pelos motoristas de Uber, incapazes de seguir até o GPS sem o qual não saberiam chegar a lugar nenhum. E os hotéis, com seus saguões cosmopolitas, séculos de bem atender e brigadas de funcionários treinados, estão fechando as portas, vencidos pelo AirBnB com seus precários critérios de avaliação. E assim em muitas outras profissões sérias.

Por sorte, ainda não se admitem amadores em certas especialidades, como a dos neurocirurgiões, engenheiros aeroespaciais, farmacologistas, pilotos de aviação comercial.

Pelo menos até que as escolas que os formam também não sejam tomadas por amadores.