quinta-feira, 12 de março de 2026

Na estrada para se tornar imenso canavial de novo- acervo OESP

 31 de Ago de 2006

Na estrada para se tornar imenso canavial de novo

Marcos Sá Correa*

A distância entre o futuro e o passado às vezes depende do ponto de vista. Por exemplo: no Brasil, há filas de dois meses para comprar o Honda Civic, lançado em abril. Ele é idêntico, por fora, ao modelo que circula no resto do mundo.

Descende de uma linhagem nascida nos anos 70 no Japão, ao embalo da primeira crise do petróleo. Pouco poluente, era um modelo de virtudes cívicas. Daí o título que leva na lataria.

A versão básica do novo Civic nacional, com 140 cavalos debaixo do capô, que prometem cobrir 7,5 quilômetros com um litro de gasolina, sai por R$ 62 mil. Com o logotipo EXS e seus devidos penduricalhos, custa R$ 78 mil.

Faltam-lhe, no entanto, detalhes incorporados a seu irmão gêmeo que circula lá fora, como piloto automático e, sobretudo, o logotipo AT-P2EV. Em inglês, a sigla designa um veículo com "tecnologia avançada de baixa emissão". No caso, um automóvel híbrido, com dois motores - um convencional, a explosão, outro elétrico, de 93 HPs - que se alternam, para levá-lo o mais longe possível com o mínimo de combustível. Sua bateria dura 10 anos. O consumo fica na faixa dos 22 quilômetros por litro.

Ele bebe três vezes menos que o similar brasileiro e é quase 50% mais barato que o nosso, mesmo equipado com sistema eletrônico de navegação por satélite. Anuncia-se nos EUA como o carro de gente que sabe o que é ser esperto.

Em Gainesville, na Flórida, incorporou-se como atestado ambulante de decência ambiental à frota da GRU, concessionária dos serviços municipais de água, esgoto, eletricidade, gás natural, telecomunicações, parques e jardins. Em Londres, é a radiopatrulha da polícia inglesa. Nos Estados Unidos, foi considerado o veículo "mais verde" de 2006.

Antes que alguém os confunda, convém avisar que os híbridos de lá pouco ou nada têm a ver com os "flexpower" daqui, apelido em inglês da tecnologia nativa. Os híbridos usam motor convencional para as arrancadas e elétrico para o resto. Recarregam-se andando. No caso da Honda, os pistões vão parando, um a um, dentro dos cilindros, à medida que alcança a velocidade de cruzeiro.

Gato por Lebre

Você ainda terá um? Ninguém sabe. Mas, na dúvida, não custa ficar de olho nos carros híbridos, para não embarcar no programa do etanol e no biodiesel, como se o governo Lula estivesse prestes a resolver os problemas do planeta. Para isso, o Brasil teria, no mínimo, que atear fogo às vestes. Ou seja, à sua cobertura vegetal.

E não seria a primeira vez.

Já fez isso há 500 anos, quando derrubou a cotação do açúcar no mercado mundial cortando árvores a torto e a direito na mata atlântica. Foi desse jeito que o Nordeste perdeu seus 36,8% de floresta nativa, e ganhou em troca o semi-árido, seu projeto de deserto artificial.

Naquele primeiro surto de desenvolvimentismo colonial, dizia o sociólogo Gilberto Freyre, "o canavial desvirginou todo esse mato grosso pelo modo mais cru", deixando em seu lugar o cenário "hoje tão nosso" que, "com um tanto de ironia", chamamos de "Zona da Mata" nordestina.

Aprendeu-se alguma coisa com a ganância dos engenhos? Quem dera. As últimas lembranças da mata atlântica que restavam em Alagoas nos anos 70 foram queimadas, com incentivos fiscais do Proálcool, na primeira febre de especulação no mercado das energias renováveis.

Agora, com o Wall Street Journal anunciando que o etanol brasileiro pode ser o melhor investimento da guerra no Oriente Médio e o Piauí está pronto para se converter em emirado da mamona, o economista Roberto Schaeffer adverte que, só para mover os 180 milhões de carros dos Estados Unidos, seria preciso encher de cana o dobro da área cultivada no Brasil.

Em outras palavras, fazer do país um imenso canavial. Dito assim, assusta. Mas, pela experiência pátria na matéria, não faltará quem goste da idéia.

*Jornalista e editor do site
O Eco (www.oeco.com.br)

OESP, 31/08/2006, Vida, p. A21

GPA, Raízen e Intercement: Por que tantas empresas têm entrado com pedidos de recuperação?, OESP

 Juros elevados por um período prolongado, somados a problemas de gestão em alguns casos e de governança em outros, estão por trás das crises que atingem grandes empresas brasileiras com dívidas bilionárias. Além da Raízen e do Grupo Pão de Açúcar – que pediram recuperação extrajudicial na terça-feira, 10 –, companhias como Ambipar, CSN, Intercement e Braskem também estão enfrentando uma fase turbulenta, o que tem exigido medidas adicionais para contornar a situação, como venda de ativos, negociação com novos sócios e reestruturação de débitos.

“Do segundo semestre do ano passado para cá, não tem sido fácil para as empresas, por uma combinação de fatores. Mas o juro é o principal deles. Só que juro não machuca quem não está endividado”, diz Renato Donatti, diretor de rating de empresas da agência de classificação de risco Fitch.

Para você

Na visão de Donatti, a taxa de juro é o denominador comum desses casos. Desde junho do ano passado, a taxa básica de juros (a Selic) está em 15% – no maior patamar em quase duas décadas. Para trazer a inflação para a meta de 3%, o Comitê de Política Monetária (Copom) endureceu a condução da política monetária, o que impactou diretamente o custo de financiamento das companhias. Isso afetou, principalmente, empresas que fizeram grandes investimentos quando o juro estava baixo com premissas que não incluíam uma Selic de 15%.

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Donatti destaca que a trajetória da Selic não só a partir de junho, mas desde 2022 tem afetado as empresas. Nos últimos quatro anos, a média da Selic ficou em 13%, e as projeções indicam que ela não cairá para menos de 10% até o fim de 2027. “É muito difícil para uma empresa aguentar a pressão de uma taxa de juro dessa por seis ou sete anos.”

Segundo cálculos da Fitch, empresas brasileiras que hoje têm uma dívida equivalente a três vezes sua geração de caixa operacional anual gastam 50% de sua geração de caixa pagando juros de dívida. Com os 50% restantes, ainda é preciso arcar com custos como impostos e capital de giro.

A diretora da agência de classificação de risco Moodys Patricia Maniero também destaca o juro como principal explicação para as crises. Ela pondera, entretanto, que há um grupo de companhias mais cautelosas – como as do setor de locação de veículos – que estão avançando apesar do juro elevado. “Tem empresas que reavaliaram sua estratégia financeira, ajustaram custos, repensaram a alocação de capital, e estão conseguindo navegar.”

Para o sócio-gestor do escritório de advocacia Pinheiro Neto, Fernando Alves Meira, crises no setor corporativo brasileiro não são uma novidade, mas, desta vez, o volume das dívidas chamam atenção. “Quando você vê o tamanho dessas empresas, é muito impactante”, diz. “O que frustra é que empresas não aprendem que têm de ser prudentes. Grupos que deveriam ser os mais fortes, com mais condições de se defender em um cenário adverso, estão com muita dificuldade.”

O tamanho do problema

Um levantamento realizado pela NEOT - uma plataforma que consolida os casos de recuperação judicial e insolvência - ajuda a dimensionar o tamanho da dificuldade das companhias brasileiras. No ano passado, foram 1.987 pedidos de recuperação judicial e 112 de recuperação extrajudicial.

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Em 2024, foram 2.146 pedidos de recuperação judicial e 95 de extrajudicial.

“O aumento da taxa de juros dificulta o acesso ao crédito no mercado bancário habitual”, afirma Júlio Moretti, CEO da NEOT. “E, para as grandes empresas, esse não é o maior dos problemas, mas torna muito mais cara a captação própria por meio de debêntures.”

Segundo Max Mustrangi, CEO da Excellance e especialista em recuperação judicial, a situação financeira das empresas foi corroída por dentro, após anos de juros elevados, crédito seletivo e margens comprimidas, em meio a um ambiente econômico “aparentemente estável”. “Se em 2016 a crise chegou de fora para dentro, agora ela vem de dentro para fora.”

Em 2016, destaca Mustrangi, a crise das companhias resultou de uma recessão profunda que paralisou a economia e desmontou cadeias inteiras de investimento.

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O alívio virá?

A grande dúvida é se o alívio dos juros vai mesmo acontecer.

No encontro de janeiro, o Copom manteve a Selic em 15%, mas indicou que o ciclo de corte poderia começar no encontro de março, que ocorre na semana que vem.

A ampla expectativa era de um corte de 0,50 ponto porcentual, mas a guerra no Irã e a consequente alta do preço do petróleo trouxeram dúvidas em relação aos próximos passos do Banco Central.

“A gente acha que começa (o corte de juros) em março, e o Banco Central tem espaço para conduzir um ciclo de queda”, afirma Tadeu Arantes, head de alocação da Ghia Multi Family Office. “Na nossa cabeça, o ciclo de corte é algo entre 2,5 pontos porcentuais e 3 pontos porcentuais, obviamente, se o cenário continuar conforme esperado, com inflação convergindo para a meta e o mercado de trabalho desacelerando um pouco.”

No último relatório Focus, do Banco Central, os analistas consultados estimam que a taxa de juros deve encerrar o ano ao redor de 12%. Para 2027, a expectativa é a de que os juros recuem para 10,50%. / Colaborou Márcia De Chiara

quarta-feira, 11 de março de 2026

Escândalo do Master é show de cafonice -Sergio Rodrigues, FSP

 O escândalo do Master tem monopolizado a economia da atenção no Brasil. Justo que seja assim, embora um espírito cosmopolita possa estranhar que ele consiga gritar tão mais alto do que o desvario trumpista no Irã, que muita gente sensata já considera o início da Terceira Guerra e quem sabe do fim da vida humana na Terra.

Ensurdecedor, o barulho arrastou o Supremo Tribunal Federal para a maior crise da sua história, embora ainda falte incluir na fatura e investigar na medida justa o papel do Banco Central presidido por Roberto Campos Neto e de um vasto elenco de políticos –quase todos de direita– na ascensão apoteótica do tal Daniel Vorcaro.

Mesmo com todo esse falatório, tem passado despercebido um aspecto da chacina institucional promovida pelo ex-banqueiro: o grau de cafonice dos envolvidos. Reavivar a palavra cafona, que anda meio escanteada, pode ser a peça que faltava no quebra-cabeça.

Para quem não sabe ou já não se lembra, cafona é uma gíria brasileira nascida nos anos 1960. Adjetivo e substantivo pejorativo de dois gêneros, vindo provavelmente do italiano "cafone" (inculto, sem modos), significa de mau gosto, vulgar.

A palavra já foi e continua a ser usada como simples sinônimo de tosco, jeca –com valor negativo basicamente classista, portanto. Esse sentido também está nos dicionários.

No entanto, me arrisco a dizer que a acepção principal de cafona, em torno da qual se cristalizaram seus sentidos mais funcionais e intraduzíveis, fala de uma vulgaridade diferente.

A vulgaridade cafona envolve ostentação de luxo, encenação de superioridade, rusticidade de espírito, fanfarronice, falta de senso de ridículo e uma profunda insensibilidade social.

Tudo o que teria atingido o ápice na festa que o chefão do Master contratou na Sicília em 2023 por R$ 200 milhões —dos quais a banda Coldplay, responsável por um show privê, teria levado um quarto. A Polícia Federal não confirma se a festa contratada chegou a ocorrer.

Em Taormina ou em Trancoso, passando por Londres, num circuito que inclui de eventos para debate de "ideias" a degustações promíscuas do uí$que Macallan —tudo pago com dinheiro de investidores brasileiros lesados, não custa lembrar—, a cafonice que irmana setores da elite econômica e administrativa do país bate todos os récordes.

Cafonas, sim. Um bilhão de vezes cafonas. Num país que, ainda por cima, está entre os mais desiguais do mundo, a absoluta falta de elegância da turma do Master —os que compraram e os que se venderam— deveria ser, por si só, crime hediondo.

É preciso ter cuidado. Quando há indícios de que até quem teria muito a perder, como Alexandre de Moraes, pode ter se enredado em trama tão grosseira, o desalento político-institucional ameaça engolir tudo. A velha cafonice passa a refletir então uma nova —e profunda— falência cívica.

Se bem que, se o cafona-mor do Trump trabalhar direitinho, nosso desalento terá ao menos a vantagem de durar pouco —só até o grande fade-out sem créditos e sem música num cinema vazio do tamanho do mundo.