segunda-feira, 24 de agosto de 2026

‘Se livre dos tributaristas. Agora, o Fisco interpreta a lei’, diz coautor da reforma tributária, OESP

 “Perdeu, playboy”. Esse é o recado do advogado e professor Eurico Santi, um dos idealizadores da reforma tributária, para os colegas tributaristas. Para Santi, a simplificação dos impostos trazida pela nova legislação marca o fim das estratégias fiscais das empresas e tornará cada vez menos necessários os serviços de advogados especializados nesta matéria.

Pelo menos três grandes mudanças contribuem para isso, na visão de Santi. A reforma tributária, sancionada ano passado e em processo de implementação em 2026, elimina os impostos PIS, Cofins, IPI, ICMS e ISS. Na legislação antiga, os três primeiros são cobrados pela União em cima das receitas ou faturamento das empresas (PIS e Cofins) e dos produtos industrializados (IPI), enquanto os dois últimos pelos Estados e municípios, respectivamente, em cima de mercadorias e serviços.

Cada um dos cerca de 5,6 mil entes, entre municípios e Estados, tinha regras próprias de aplicação dos tributos de sua competência, o que gerava grande complexidade tributária e alimentava uma série de litígios judiciais por diferenças na interpretação da lei.

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A nova legislação substitui o PIS e Cofins pela Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), enquanto o ICMS e o ISS são substituídos pelo Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), cuja regra é única, em vez de uma para cada ente. Um comitê unificado, chamado Comitê Gestor do IBS, será responsável por administrar o novo tributo dos entes Estaduais e municipais e uniformizar a interpretação sobre a aplicação do imposto.

Juntos, CBS e IBS formam o modelo de Imposto sobre Valor Agregado (IVA) dual adotado pelo Brasil. O IPI, por sua vez, terá alíquotas zeradas para a maior parte dos produtos. “Brinco até com o Nietzsche: ‘Deus está morto’, acabou o contencioso. Agora o fisco antecipa a interpretação (da lei). Antes, nós tínhamos o maior contencioso tributário do mundo”, diz Santi.

Outro ponto é que a tributação da CBS e do IBS sai da origem para o destino. Em termos simples, antes, as empresas faziam planejamento tributário escolhendo construir fábricas em Estados com alíquotas mais baixas de imposto. Havia uma competição entre os entes para atrair grandes empresas para suas regiões, utilizando o imposto como chamariz. Agora, além de uma regra uniforme, a lógica foi invertida: o imposto é recolhido onde o produto é consumido. “Vai mudar tudo. Não adianta mais saber onde está a fábrica, então as empresas estão desesperadas”, aponta Santi.

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Por fim, o novo sistema também reduz parte do trabalho das empresas no recolhimento dos impostos. A reforma tributária vem com um novo sistema, chamado de “Split Payment”, em que, no momento do pagamento de uma operação, os valores correspondentes aos impostos devidos são separados e enviados diretamente ao Fisco. Antes, as empresas precisavam separar o dinheiro e pagar a Receita.

Claro, há algumas exceções. Contudo, de forma geral, com a simplificação dos impostos, a uniformização do entendimento de como aplicá-los pelo Comitê Gestor do IBS e pela Receita Federal e a automatização de parte do recolhimento dos tributos, Santi prevê que as áreas de tributário das empresas, hoje robustas, devem perder relevância.

“Vão ter de aprender a fazer outra coisa em vez de ficar decorando legislação e buscando brechas, porque não vão encontrar brecha, é uma lei só. Perdeu, playboy!”, brinca o coautor da reforma tributária.

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A reforma tributária vai aumentar os impostos?

Primeiro, quando se fala em reforma tributária todo mundo fica apavorado e tem apenas uma leitura: “vai aumentar imposto”. Só que isso é falso.

A gente fez uma armadilha na Constituição: antes de vigorar a reforma, determinou-se um teste de um ano com alíquota de 1% (unindo IBS e CBS). E só se poderá arrecadar, durante toda a transição, a média daquilo que se arrecadou nos anos de 2024 e 2025 com ICMS, ISS, PIS/Cofins e IPI.

Já é possível determinar qual vai ser a alíquota de imposto ao final de tudo?

(Com a reforma tributária) Estaremos mudando tudo, vamos mudar a microeconomia, os modelos dos negócios. Então, em primeiro lugar, nenhum economista consegue prever o que vai acontecer. Quem prevê o futuro é astrólogo, profeta. O economista não consegue nem dizer o Produto Interno Bruto (PIB) do ano passado, tudo depende dos cálculos.

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Todo mundo está se metendo a fazer esse cálculo, mas sem ter objetividade para fazer porque o modelo vai baixar o preço do custo de todos os fornecedores. A regra é que a carga tributária deve ficar estável por 10 anos. No final desse período, vamos descobrir quanto a base nova arrecada. Por isso, temos uma alíquota-teste de 1% esse ano.

Se esse 1% arrecadar R$ 100 bilhões no ano e a média histórica é de R$ 1,5 trilhão, saberemos que para atingir o patamar histórico precisaremos de uma alíquota de 15%.

Por que os modelos de negócio vão mudar?

São várias mudanças relevantes. A primeira delas é que hoje a tributação de serviços é cobrada onde está sediada a empresa. Por isso essa guerra entre Barueri e São Paulo, por exemplo: uma Amazon paga 5% em São Paulo, Barueri chama para pagar 3%. Aí São Paulo propõe pagar 1% e dá um terreno de graça. Isso é tudo custo de transação que sai no preço dos produtos.

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No Brasil, o ICMS e o ISS (impostos sobre o consumo) tinham esse aspecto em que o local da empresa definia (a alíquota paga). Além de conceder uma possibilidade de o prefeito ou governador, junto com seus parlamentares, atraírem uma Ford, Audi ou Toyota para Goiás, uma BMW para Amazonas. Isso dava popularidade, dava voto, por criar alguns empregos - digo “alguns” porque as fábricas já são muito automatizadas -, mas dava problema social, de saúde e custo também, porque é muito mais barato produzir uma motocicleta em São Paulo e vender para o Brasil inteiro do que produzir na Amazônia.

Agora, o novo IVA é cobrado no destino. Vai mudar tudo. Não adianta mais saber onde está a fábrica, então as empresas estão desesperadas. Até hoje, elas trabalhavam no planejamento tributário (construindo plantas em estados com tributos mais baixos).

Podemos decretar a morte das estratégias fiscais, é isso?

O meu recado é que os custos vão cair e não adianta mais fazer nenhuma manobra tributária. Agora, existe o princípio da neutralidade. O sistema tributário não deve induzir consumo, nem alocação de capital e trabalho.

Estamos em um momento de “desplanejamento tributário”, em que o tributo vai se tornar cada vez menos relevante (nas operações das empresas). Os tributaristas estão desesperados. E me odeiam. Eles (tributaristas) têm de vender alguma coisa, né? Precisam passar o terror de que (a reforma) vai aumentar a carga, que vai precisar de uma assessoria tributária específica.

A Receita Federal está se entendendo (alinhando a operacionalização prática da lei) com o Conselho Federal de Contabilidade e criando uma ponte. E uma ponte sobre quem? Sobre os crocodilos tributaristas, que vão ter de aprender a fazer outra coisa em vez de ficar decorando legislação e buscando brechas, porque não vão encontrar brecha, é uma lei só. Perdeu, playboy!

O ano de 2026 é de implementação. O que as empresas precisam fazer agora para se preparar?

Primeira economia: mandar os tributaristas embora. Se livrar dos tributaristas, porque agora quem vai interpretar a lei é o Fisco. Quando o Fisco interpreta, ele dá previsibilidade e não pode mudar a interpretação.

Acabou a complexidade do imposto. Os fundamentos são: simplicidade para quem paga; transparência para quem efetivamente sofre a carga tributária no consumo, que é o trabalhador; neutralidade para todas as empresas para garantir a competitividade e o ambiente de negócios; e justiça, que é bom para todo mundo.

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Brinco até com o Nietzsche: “Deus está morto”, acabou o contencioso. Agora o fisco antecipa a interpretação (da lei). Antes, nós tínhamos o maior contencioso tributário do mundo.

Professor Eurico Santi, coautor da reforma tributária
Professor Eurico Santi, coautor da reforma tributária Foto: PAULO VITALE

Mas nessa fase de implementação, em que os dois sistemas terão de conviver, os advogados tributaristas não se tornarão ainda mais necessários? Em 2026, por exemplo, já temos a necessidade de preenchimento dos campos relativos à CBS e ao IBS em documentos fiscais.

Os advogados tributaristas terão de ressignificar a função deles. O que todo mundo fala (sobre a fase de transição, com dois sistemas convivendo) é: “olha, agora tem mais impostos, antes eram cinco, agora são sete”. Alguns (advogados tributaristas) brincam comigo dizendo: “Eurico, vamos erguer uma estátua para você. A gente vai ganhar mais dinheiro graças ao sistema complexo que você criou”. De certa forma, eles têm razão.

Mas o que acontece é que não existirá mais 5,6 mil legislações de imposto. É uma legislação só que vale para o CBS e para o IBS. O direito tributário viveu muito desse contencioso, da discussão de teses junto às empresas. O contencioso vai acabar. Eles vão ter de atuar de outra forma, ajudando as empresas a entenderem esse novo modelo de negócios.

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E como tudo isso afeta o preço para o consumidor?

Hoje temos algo que se chama tributação em cascata ou cumulatividade (imposto sobre imposto, que encarece o preço final dos produtos). No novo modelo, vamos supor que a alíquota seja de 15%, será a mesma para todo mundo, com certas exceções. Isto porque agora fato gerador que dá dinheiro para o Fisco é o consumo. Entre empresas não há tributação (acumulada), e isso foi para desonerar todo o setor produtivo (o imposto pago em uma etapa da cadeia vira crédito integral para a etapa seguinte).

Quem paga (o tributo) é o consumidor no destino e o dinheiro vai para a prefeitura onde você mora, vai para o Estado onde você mora. A gente mudou a tributação da produção para a tributação sobre o consumo. Então, o que que vai acontecer? Todos os preços vão cair no fornecimento. O mundo ideal dos honestos é manter o lucro e repassar a baixa de preços.

domingo, 23 de agosto de 2026

O fator Lulinha na reta final- Elio Gaspari, FSP

 No dia 22 de março de 2024, numa troca de mensagens com a advogada Roberta Luchsinger, Lulinha queixou-se: "Trabalho pra caralho e nunca dá em nada".

As encrencas em Pindorama são tantas que é necessário recriar o contexto em que elas ocorrem e Lulinha se queixa.

Homem de cabelo curto e escuro veste camiseta preta e está sentado, olhando para a direita. Ao fundo, outras pessoas aparecem parcialmente, uma com camisa xadrez preta e branca e outra com camiseta vermelha.
O empresário Fábio Luís Lula da Silva, filho do presidente Lula (PT) - Nelson Almeida/AFP

Em 2023, a J&F dos irmãos Batista contratou um parecer de Ricardo Lewandowski, logo após sua aposentadoria do STF e antes de se tornar ministro da Justiça de Lula, para seu litígio em torno da Eldorado Celulose. Em 2024, o banqueiro Daniel Vorcaro contratou a banca de advocacia da mulher do ministro Alexandre de Moraes com remuneração de R$ 3,6 milhões mensais por três anos. No mesmo ano, o ministro Dias Toffoli suspendeu os pagamentos das multas devidas pela empreiteira Odebrecht, decorrentes do acordo de leniência firmado com o juízo da Lava Jato. Dias depois, o ministro mandou investigar a ONG Transparência Brasil. Tudo normal e legal.

Nesse cenário, a advogada Roberta Luchsinger e Antonio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, conceberam um negócio de fornecer ao governo federal, sem licitação, 1,2 milhão de frascos de 36 tipos diferentes de remédios com base em canabidiol, segundo o jornal O Globo. Seria um negócio de R$ 626 milhões.

Era motivo de euforia para Luchsinger: "Nosso nível tá outro. Nosso futuro é Suíça. Poucos negócio é bom [sic]. Esse povo aqui tá em outra vibe".

Em 2024, Antunes só era conhecido por seu povo como Careca do INSS. O escândalo do roubo praticado nas aposentadorias só viria a público no ano seguinte.

Além de Lulinha, a dupla acreditava ter como gazua o chefe de gabinete de Lula, Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola.

Lulinha e o 'Careca'

Em janeiro de 2025, Lulinha e sua família viajaram à Noruega e à Finlândia para ver a aurora boreal. A viagem foi organizada por Marina Mantega, filha do ex-ministro Guido Mantega e "luxury travel specialist". A vilegiatura foi paga por Roberta Luschinger, que era financiada pelo "Careca do INSS", seu parceiro no possível negócio dos frascos de canabidiol.

(Nesses dias Flávio Bolsonaro tratava com o banqueiro Daniel Vorcaro de recursos para o filme "Dark Horse" e o grupo J&F, dos irmãos Batista, pagou R$ 25,9 milhões a uma empresa que comprou a participação da família do ministro Dias Toffoli, do STF, no resort Tayayá.)

Meses depois, a Polícia Federal revelou que o Careca do INSS recebeu R$ 53,5 milhões de entidades metidas nas roubalheiras contra os segurados da Previdência.

Na noite de 8 de novembro de 2024, dois passageiros embarcaram no voo JJ-8148 da Latam com destino a Lisboa. Lulinha foi para o assento 6J e o Careca foi para o 3A. Viajaram em assentos separados, com o mesmo objetivo: prospectar empresas portuguesas para o fornecimento dos 1,2 milhão de frascos de canabidiol. Lulinha admitiu que o Careca pagou as passagens e as diárias do hotel. Careca montou uma empresa, a Candango Consulting, na cidade de Porto e, em fevereiro de 2025, comprou um galpão por 2,7 milhões de euros.

Em dezembro de 2025, saiu na imprensa a informação de que um ex-funcionário do Careca havia dito que Lulinha recebia do patrão uma mesada de R$ 300 mil e se referia a ele como "filho do rapaz".

Lulinha, o 'Careca' e 'Marcola'

A venda de canabidiol para o Ministério da Saúde poderia ser um bom negócio, com o filho do presidente no lance, teria o pescoço comprido. Faltava incluir a girafa no rol de medicamentos do SUS. Incluindo-o, o que não é fácil, seria necessário licitá-lo.

A essa altura, entra Roberta Luchsinger, amiga de Lulinha e de Marco Aurélio Santana Ribeiro, o "Marcola". Chefe de gabinete e guardião da porta de Lula. No início de agosto, o site Poder360 revelou que o discreto "Marcola" tomou R$ 249 mil emprestados a Luchsinger, quitando-o.

Em 2024, os dois tratam também da compra de joias para o Dia das Mães. (Não se sabe mãe de quem.)

Na quinta-feira, os repórteres Eduardo Gonçalves e Sarah Teófilo revelaram que a Polícia Federal encontrou nos celulares de Luchsinger e do Careca a minuta de um contrato e o plano de negócio da compra de 1,2 milhão de 36 tipos de remédios à base de canabidiol, sem a praga dos finórios, a licitação. O destinatário da minuta era Marcola.

"É contratação, sim. Ele sabe que é dispensa. É a nova lei das licitações, não sei se você já deu uma lida. Devido ao cenário de emergência, podemos criar um documento bem robusto pedindo a dispensa de licitação", disse Luchsinger. "Ele" poderia ser "Marcola".

"Pousei. Vou lá no Berge", disse Roberta a Fábio em 6 de março de 2024. "Que ótimo. Vai com tudo. Manda bjo [beijo] pro Berge e fala que não fui pq vc não chamou", ironizou Lulinha.

Berge é Swedenberger Barbosa, então secretário-executivo da pasta, quadro histórico da infantaria petista, hoje no Planalto.

O canabidiol não está no rol de fármacos do SUS, licitação não se suspende só com telefonemas ou almoços e nenhum frasco foi comprado. A cobiça dos finórios e a soberba palaciana bombaram uma crise a um mês da eleição.

Lulinha reclamava que dava duro e seus negócios davam em nada. Ainda bem que a Viúva não comprou o canabidiol do Careca.

Lulinha vive na Espanha, depois de mais de um ano de trabalho na sua blindagem, a defesa do primogênito do presidente admitiu que ele venha ao Brasil para prestar os devidos esclarecimentos. Podiam ter feito isso há meses.