quinta-feira, 28 de maio de 2026

Estudo premiado descreve estratégia usada pelo mofo azul para devastar frutas cítricas, Agência Fapesp

 Maria Fernanda Ziegler | Agência FAPESP – Só de ver um pontinho branco-azulado em laranjas, limões ou tangerinas, quase todo agricultor já sabe que o resultado será uma caixa inteira de frutas mofadas. Quando o fungo Penicillium italicum, responsável pelo mofo azul, se instala na casca da fruta, a planta rapidamente ativa um verdadeiro arsenal químico de defesa para tentar impedir a invasão.

Mas o trabalho é praticamente em vão, uma vez que o P. italicum libera moléculas químicas capazes de neutralizar não só as defesas naturais da fruta como também os microrganismos benéficos (endofíticos) que vivem na superfície desses vegetais.

Esse roteiro de ataque do patógeno foi desvendado pela primeira vez por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e da Universidade de São Paulo (USP) em estudos apoiados pela FAPESP (projetos 22/02992-0 e 19/17721-9). A descoberta abre caminho para o desenvolvimento de novas estratégias de combate ao fungo, que é uma das principais pragas da citricultura brasileira.

Publicado no Journal of Agricultural and Food Chemistry, o trabalho detalhando essas descobertas foi selecionado pela revista americana como o melhor artigo científico de 2025.

“O Brasil é o maior produtor de laranja e líder mundial na exportação de suco, mas enfrenta sérios prejuízos no pós-colheita causados por fungos. O mofo azul [P. italicum] é o segundo mais problemático, atrás apenas do mofo verde [P. digitatum], responsável por até 90% das perdas em regiões tropicais. Apesar disso, o mofo azul ainda recebe pouca atenção”, afirma Taícia Pacheco Fill, professora do Instituto de Química (IQ) da Unicamp e autora principal do estudo.

“Por isso, compreender melhor as estratégias e o arsenal químico desses patógenos é fundamental para desenvolver formas de controle mais eficazes sem depender de agrotóxicos”, completa a pesquisadora.

Atualmente, o controle do mofo azul depende de fungicidas sintéticos como imazalil e tiabendazol, que apresentam resistência crescente e preocupações ambientais.

Para o mapeamento das moléculas que atacam os microrganismos benéficos, os pesquisadores estudaram o conjunto de substâncias químicas produzidas pelo patógeno durante a infecção no fruto, usando técnicas de metabolômica avançada (que analisa os produtos do metabolismo do organismo). “Com isso, conseguimos identificar compostos essenciais para o desenvolvimento da infecção. Verificamos em laboratório que, sem essas substâncias químicas, o fungo P. italicum cresce só um pouquinho, o que abre espaço para novas estratégias de combate. Tanto que o nosso próximo passo é desenvolver inibidores específicos dessas vias metabólicas, capazes de desarmar o patógeno sem afetar o hospedeiro [o fruto]”, conta Fill. Essa parte do estudo foi publicada em artigo posterior, na revista Postharvest Biology and Technology.

Passo a passo

A rápida disseminação do fungo nas caixas de frutas é um processo conhecido como nesting, responsável por até 50% das perdas da cultura na China, o terceiro maior produtor de laranja do mundo e um país de clima majoritariamente temperado, onde o mofo azul se desenvolve melhor.

Ao analisar diferentes dias de infecção, os pesquisadores identificaram que o fungo se instala na casca da fruta por meio de microlesões. “Nos primeiros dias, ele desmonta a parede celular da fruta com enzimas, enquanto esta reage produzindo compostos naturais bioativos [flavonoides] antifúngicos, como a naringenina e a diosmina. No entanto, o fungo contra-ataca produzindo também compostos naturais bioativos como a brevianamida F e a desoxibrevianamida E”, detalha Evandro Silva, bolsista da FAPESP e primeiro autor do estudo.

Os pesquisadores também utilizaram técnicas de imageamento por espectrometria de massa para mapear a distribuição espacial das moléculas durante a infecção. “O patógeno não luta apenas contra as defesas da fruta, mas também contra os microrganismos ‘do bem’ [endofíticos] que vivem na casca e tentam protegê-la. Ele usa esses compostos para modular a comunidade microbiana e se instalar, enquanto enfrenta as defesas da fruta. Acaba sendo um combate múltiplo em que ele consegue se sobrepor a esses outros microrganismos e prosperar”, explica Fill.

Os cientistas destacam que identificar as moléculas produzidas pelo patógeno é o primeiro passo para desenvolver estratégias de controle específicas. “Nosso laboratório tem trabalhado com essa lógica de descrever como se dá o ataque de patógenos e reconhecer os metabólitos [produtos do metabolismo] usados por eles. Isso possibilita o desenvolvimento de inibidores mais seguros para o meio ambiente, menos nocivos à saúde humana e com menor risco à resistência fúngica ou bacteriana”, conta a pesquisadora.

O artigo Decoding the Penicillium italicum-citrus interaction: untargeted metabolomics sheds light on a neglected postharvest pathogen pode ser lido em: pubs.acs.org/doi/10.1021/acs.jafc.5c07618.c

Irã faz Trump engolir sapo, mas ele jura que é lagosta, Thomas Friedman NYT FSP

Restam apenas duas perguntas sobre a guerra dos Estados Unidos com o Irã. Primeira: quão grande será o sapo que o presidente Donald Trump terá que engolir para encerrar esse conflito com pelo menos algumas conquistas? E segunda: ele vai nos dizer que a humilhação que está engolindo tem gosto de lagosta ou de filé mignon?

Pessoalmente, não me importo se Trump tiver que engolir uma montanha de humilhação —por exemplo, a "rendição incondicional" do Irã que ele prometeu não vai acontecer— se isso resultar no Irã abrindo mão de suas aproximadamente 450 quilos de urânio quase em grau de armamento. Isso tiraria a ameaça imediata de uma bomba iraniana da mesa, e isso seria muito bom.

Mas, por favor, me poupem da bobagem de que Trump garantiu um acordo perfeito e delicioso. Porque assegurar esse urânio altamente enriquecido não apenas deixará o regime vil e assassino da república islâmica no poder (e ainda com cerca de 10 toneladas de urânio de baixo enriquecimento), mas na verdade o fortalecerá de maneiras preocupantes.

O presidente dos EUA, Donald Trump, durante evento em Nova York - Brendan Smialowski - 22.mai.26/AFP

Para começar, Trump, o vice-presidente J.D. Vance, o secretário de Defesa, Pete Hegseth, e o secretário de Estado, Marco Rubio, serão todos lembrados como a equipe que deu à república islâmica uma segunda chance de vida justamente quando ela estava mais acuada do que nunca pelo seu próprio povo.

Isso porque a única maneira de o Irã abrir mão desse urânio quase em grau de bomba será como parte de um acordo que, ao longo do tempo, suspenda o bloqueio americano às exportações de petróleo do Irã e toda a teia de sanções econômicas dos EUA sobre Teerã.

Esse alívio proporcionará ao regime uma enorme injeção de dinheiro que poderá ser usada para comprar —ou continuar reprimindo— seus opositores internos e para alimentar seus grupos aliados no Líbano, no Iraque e no Iêmen.

"Trump lançou esta guerra de escolha com o objetivo transformador de mudança de regime", disse-me Robert Litwak, especialista em controle de armas. "Ele está prestes a encerrá-la por meio de um acordo transacional que será uma variante do acordo que Barack Obama negociou em 2015, e que Trump imprudentemente abandonou em 2018, que restringia as ambições nucleares do Irã."

Como Trump e sua equipe de segurança nacional aparentemente não fizeram nenhum planejamento de cenários antes da guerra —confiando apenas nas promessas do primeiro-ministro Binyamin Netanyahu de Israel de que o regime iraniano cairia como um castelo de cartas após algumas semanas de bombardeio pesado— eles falharam em antecipar o que o Irã poderia fazer com as costas contra a parede.

A primeira foi fechar o estreito de Hormuz, a vital rota de transporte de petróleo por onde cerca de 20% do petróleo bruto mundial precisa passar, uma medida que fez o preço que se paga na bomba disparar.

Com apenas alguns drones, mísseis de cruzeiro e a Guarda Revolucionária em lanchas disparando metralhadoras, o Irã descobriu que poderia colocar a economia dos EUA e muitas outras em um estrangulamento.

Colocando de outra forma, Trump e Netanyahu presumiram que seus sistemas de armas gigantes de bilhões de dólares poderiam ser usados para bombardear o Irã até que ele abrisse mão de seus ingredientes para uma arma de destruição em massa.

Acidentalmente, porém, eles permitiram que o Irã descobrisse que tinha uma arma de "destruição em massa" —drones baratos que poderiam fechar Hormuz.

Agora, e para sempre, os iranianos saberão que nós sabemos que Teerã pode fechar a torneira de petróleo mais importante do mundo quando quiser. Essa nova fonte de alavancagem para o regime iraniano não tem preço. O fracasso de Trump em antecipar isso não é acidente. É porque ele acha que sabe tudo —quando não sabe nada.

Lembra quando Trump e Vance deram lição ao presidente da Ucrânia, Volodimir Zelenski, no Salão Oval no ano passado, dizendo-lhe que ele não tinha "cartas" e essencialmente tinha que se submeter à vontade da paixonite de Trump, Vladimir Putin?

Imagine se Trump e Vance tivessem sido curiosos e humildes e perguntado a Zelenski: "Volodimir, sua capacidade de resistir à superpotência russa tem sido incrível. Que cartas você conseguiu jogar para fazer isso?"

Zelenski teria dito: "Sr. Trump, Sr. Vance, deixem-me contar como os drones reformularam o campo de batalha moderno e permitiram que o pequeno agisse como grande e o fraco agisse como forte."

Talvez então Trump pudesse ter perguntado a Hegseth antes de começar esta guerra com ataques enormes: "Ei, Pete, mas e se o Irã fizer como a Ucrânia e simplesmente jogar alguns drones de US$ 30 mil em Hormuz e fechá-lo? O que faremos então?"

Como Trump aparentemente nunca fez essa pergunta, e Hegseth era ignorante ou medroso demais para fazê-la, o regime da Guarda Revolucionária do Irã "alcançou o equivalente funcional de uma arma nuclear por meio de sua capacidade de estrangular a economia global fechando Hormuz e de manter como reféns o petróleo e a infraestrutura civil dos Estados do Golfo", disse Litwak.

Grande anúncio em fachada curva de edifício mostra close de rosto com texto em inglês e persa: 'At The Breaking Point'. Trânsito com carros e motocicleta em primeiro plano, palmeiras e vegetação ao redor.
Outdoor mostra Trump amordaçado pelo estreito de Hormuz em praça no centro de Teerã - Patricia Campos Mello - 18.mai.26/Folhapress

O que Trump também nunca perguntou foi: E se o Irã responder aos ataques aéreos dos EUA tentando atingir a infraestrutura petrolífera dos aliados árabes do Golfo da América —Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Qatar, Kuwait e Bahrein?

Foi exatamente isso que o Irã fez. Entre outras coisas, com ataques de drones e mísseis de cruzeiro em março, a Reuters reportou que o Irã "derrubou 17% da capacidade de exportação de gás natural liquefeito do Qatar, causando uma perda estimada de US$ 20 bilhões em receita anual e ameaçando o fornecimento para a Europa e a Ásia". Acrescentou: "Os reparos deixarão 12,8 milhões de toneladas por ano de GNL fora de operação por três a cinco anos."

Três a cinco anos! Agora você entende por que os produtores árabes de petróleo absolutamente não querem ver Trump reiniciando a guerra, e como Teerã está usando isso como alavancagem em suas negociações com Washington.

Eis o que mais tanto o Irã quanto nossos aliados também podem ver. Trump não é uma pessoa mentalmente estável e, portanto, ele —e sua América— não são confiáveis. A evidência mais recente é uma proposta que Trump lançou que era tão desequilibrada que deve ter vindo de alguém sentado ao lado dele no bar de Mar-a-Lago.

Trump disse em uma postagem no Truth Social que, à luz de "todo o trabalho feito pelos Estados Unidos para tentar montar esse quebra-cabeça muito complexo", ele estava "solicitando obrigatoriamente que todos os países assinem imediatamente os Acordos de Abraão".

A lista incluía a Turquia, cujo líder detesta Netanyahu e já tem laços com Israel; o Paquistão, que há muito nutre animosidade em relação a Israel; Jordânia e Egito, que já têm tratados de paz com Israel, então por que precisariam aderir aos Acordos de Abraão?; e a Arábia Saudita, que deixou abundantemente claro que a única maneira de normalizar relações com Israel é se Israel abrir um caminho com os palestinos em direção a uma solução de dois Estados.

Trump até afirmou que vários aliados lhe disseram que "ficariam honrados" se o próprio Irã aderisse aos acordos. Se o Irã assinar "será o acordo mais importante que qualquer um desses grandes, mas sempre em conflito, países jamais assinará", escreveu ele. "Nada no passado, ou no futuro, o superará."

Em que planeta da Via Láctea esse regime em Teerã, que é praticamente fundado no ódio a Israel, simplesmente faria as pazes com ele após esta guerra?

Então deixe-me terminar com o que disse no dia em que Trump e Netanyahu começaram esta guerra: nada melhoraria mais o futuro do Oriente Médio do que se esse terrível regime em Teerã fosse derrubado e suas ambições nucleares eliminadas.

Mas para conseguir isso era necessário ter um plano muito sofisticado e ter pensado em todos os diferentes cenários e reunido o máximo de aliados e legitimidade global possível, porque isso seria difícil e levaria tempo. Trump e sua equipe de palhaços não fizeram nada disso.

Sim, eles empregaram imensa força militar e danificaram as capacidades militares nucleares e convencionais do Irã. Essas são coisas muito boas. E se Trump conseguir tirar o urânio quase em grau de bomba, isso seria ainda melhor.

Mas seus apoiadores não deveriam se enganar nem a nossos aliados: Mesmo que ele consiga essas coisas, agora teremos que pagar por elas dando a um dos piores regimes do mundo uma nova chance de vida, um estrangulamento permanente sobre suprimentos críticos de petróleo mundial —e os recursos para continuar causando terríveis problemas na região.

Então, por favor, não me digam que isso é lagosta ou filé mignon.

Câmara aprova fim da escala 6×1, The News

 

(Imagem: Brenno Carvalho | Agência O Globo)

A Câmara dos Deputados aprovou na noite de ontem a PEC que prevê o fim da escala 6x1 e a redução da jornada semanal de trabalho de 44h para 40h. A proposta agora segue para votação no Senado. Veja como votou cada deputado.

A relevância: A mudança pode impactar diretamente cerca de 16 milhões de trabalhadores.

O que muda na prática

O projeto garante ao menos duas folgas semanais — preferencialmente aos domingos — e reduz a carga horária em duas etapas:

  1. Redução de 2h de trabalho após dois meses da promulgação;

  2. Redução das 2h restantes ao longo dos 12 meses seguintes — tudo sem qualquer redução salarial.

A PEC mantém acordos coletivos, banco de horas e modelos especiais de jornada, como a escala 12x36. A medida também permite que o funcionário trabalhe mais dias seguidos em uma semana e compensar com mais folgas na seguinte, desde que a média mensal mantenha duas folgas semanais.

  • Além disso, trabalhadores com ensino superior e salários acima de cerca de R$ 21 mil ficam fora das novas regras.

Os dois lados da moeda do debate

👍 O que dizem os defensores

Argumentam que a diminuição da carga horária poderá melhorar a saúde mental do trabalhador e resultar em um aumento real de produtividade, além de alinhar o Brasil a movimentos que já acontecem em outros países.

Um estudo feito pela Reconnect Happiness Network com 250 empresas que adotaram o modelo 4×3 indicou que houve uma redução de 30% na ansiedade dos funcionários e uma melhora de 56% na execução das tarefas.

👎 O que dizem os críticos

Entidades econômicas alertam que a mudança elevará o custo sobre a folha de pagamentos de empresas em R$ 158 bilhões.

Com isso, o setor produtivo prevê quatro possíveis consequências: (i) repasse de custos para a inflação, diminuindo o poder de compra; (ii) demissão de funcionários mais velhos para corte de gastos; (iii) avanço da informalidade e (iv) aceleração da automação para cortar postos de trabalho.

Outro ponto que divide opiniões é a velocidade da transição. O modelo brasileiro prevê uma adaptação muito mais rápida do que a adotada por outros países da América Latina, como México, Colômbia e Chile, que implementaram mudanças semelhantes ao longo de 4 a 5 anos.