quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Escândalo do Master é escândalo máster?, FSP

 O caso conhecido midiaticamente como "escândalo do Banco Master" tem escala bilionária e tentáculos espalhados por diversas esferas de poder, justificando a afirmação do ministro da Fazenda, Fernando Haddad, de que as investigações podem revelar "a maior fraude do país".

Tem ainda um traço de linguagem que, modesto diante das estripulias financeiras do banco liquidado, merece registro: por uma coincidência linguística, o "escândalo do Master" parece ser também nosso escândalo máster – o maior de todos, o imbatível.

Esse significado do substantivo-adjetivo "máster" ainda não foi reconhecido por nossos melhores dicionários, que se limitam a registrar o sentido de "referente a matriz, original a partir do qual se faz uma cópia", como na fita máster.

A palavra vem do inglês "master" (senhor), do latim "magister" (mestre, aquele que guia). Por influência desse idioma ou extensão doméstica de sentido, foi se transformando na língua do dia a dia em selo de superioridade, marca de superlativização.

O melhor exemplo é a "suíte máster", que, por ser aquela em que dorme o dono, é a maior e mais luxuosa da casa. (Numa intromissão da ortografia inglesa, a palavra costuma ser escrita sem o acento agudo, que em português é obrigatório para que não se pronuncie "mastér").

Na evolução semântica de "máster", é evidente o empurrão do marketing, o mesmo que enche nossa paisagem textual de entulhos cintilantes como "premium", "mega", "plus", "platinum" e outras cafonices sinalizadoras de excelência, exclusividade etc.

"Máster" é uma palavra relativamente nova, chegada ao português no século 20, e ao projetar sua sombra na expressão "escândalo do Master" ajuda a revigorar um substantivo velho de séculos que, tão difundido quanto abusado, corre o risco de já não dizer grande coisa.

Escândalo, sonoro vocábulo proparoxítono, é um termo do glossário sempre requisitado da indignação, do ultraje, da revolta moral. Nesse campo é sem dúvida um dos termos preferidos da língua portuguesa —e não só dela, fazendo o mesmo efeito em francês ("scandale"), inglês ("scandal") e outros idiomas.

Tudo isso tem origem no latim eclesiástico "scandalum", aquilo em que se tropeça, derivado por sua vez do grego "skándalon", pedra de tropeço, armadilha. Escândalo era o que provocava a queda no pecado.

O caminho entre a fonte teológica e o uso mundano da palavra fica mais claro quando se leva em conta sua acepção original em francês, que a adotou já no século 12, duzentos anos antes do português.

Segundo o referencial "Trésor de la Langue Française", escândalo é antes de mais nada "aquilo que parece incompreensível e, consequentemente, representa um problema para a consciência, confunde a razão e perturba a fé". Por exemplo: se Deus existe, por que permite a existência de Donald Trump?

Depois que a modernidade transformou o escândalo em mercadoria, primeiro para vender jornal e mais tarde para caçar cliques, estamos sempre correndo o risco de banalizá-lo. Eis por que "escândalo máster" é uma expressão feliz.

Isolacionismo de Trump é tiro no pé que vai contra a história dos EUA, Lúcia Guimarães, FSP

 Deve ser difícil a rotina de professores que precisam explicar a jovens as manchetes contemporâneas. Comecemos por reconhecer que as manchetes já refletem a confusão desta alquebrada classe redatora dos primeiros rascunhos da história.

O que aconteceu em Washington nesta quarta-feira (14)? Um antigo aliado diplomático dos EUA despachou dois representantes para explicar ao vice-presidente e ao secretário de Estado que gostaria de não sofrer uma invasão militar. E mais: que não tem interesse em renunciar a um território maior do que as áreas de Reino UnidoAlemanhaFrançaEspanha e Itália somadas.

Homem de cabelos grisalhos e sobretudo preto sobe escada de embarque de avião contra céu azul claro.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao embarcar no avião presidencial americano, em Maryland - Anna Moneymaker/Getty Images via AFP

O Reino da Dinamarca, a quem pertence a Groenlândia, desde o século 18, não foi um aliado oportunista dos Estados Unidos. Foi um membro fundador da Otan. Mandou seus soldados lutarem e morrerem ao lado dos americanos no Afeganistão e no Iraque.

Ao contrário de culturas de países que sofreram golpes na armadilha bipolar da Guerra Fria, os dinamarqueses, até a década passada, expressavam franco afeto pelo Tio Sam.

A insistência em ameaçar um país com menos habitantes do que Nova York e frequentador do topo das listas de bem-estar populacional é um tiro no pé que nem o experiente secretário Marco Rubio pode explicar a portas fechadas sem esconder um par de dedos cruzados nas costas.

A Groenlândia precisa de proteção americana contra a gula da Rússia e da China? Não, a maior ilha do mundo já está sob a proteção da maior e mais bem-sucedida aliança militar da história, a Otan.

Faltam bases militares no território inóspito de menos de 60 mil habitantes? Foram os EUA que desocuparam e abandonaram mais de 30 bases militares que operaram na Groenlândia no período da Guerra Fria, deixando para trás lixo químico e radioativo.

É seguro apostar que uma vasta parcela da população dos EUA não sabe localizar a Groenlândia no mapa. Assim, chama atenção a mais nova pesquisa realizada esta semana: só 17% dos americanos se declararam a favor de qualquer iniciativa para anexar o território e 71% condenaram a ideia de tomar a ilha pela força.

Os demagogos que hoje regurgitam clichês isolacionistas e citam com ignorância a Doutrina Monroe do século 19 —que, além de não ser doutrina, era uma declaração contra o colonialismo europeu— ignoram que o país dependeu de aliados para sua fundação, com o apoio decisivo da França contra o império britânico. Além disso, a república sobreviveu ao seu conflito mais sangrento, a Guerra Civil, graças à febril atividade diplomática que manteve países como França e Reino Unido, decididos a não reconhecer a autonomia do sul escravagista.

Uma agressão à Groenlândia deve, como preveem líderes europeus, representar o colapso da Otan que conhecemos hoje. E não há vodca suficiente no Kremlin para animar a comemoração desta morte anunciada.

E, por favor, vamos parar de chamar impulsos de "doutrina". O próprio Barack Obama, a quem tentaram atribuir uma filosofia diplomática, confessou que a dele, depois da aventura do Iraque, podia ser resumida por "não fazer merda".

A explicação para este dia surreal está facilmente ilustrada num momento de candor do presidente imobiliário durante seu primeiro mandato. "Adoro mapas", disse Trump ao casal de repórteres Peter Baker e Susan Glass. "Olha o tamanho disso", e apontou para a Groenlândia. "É enorme e deve fazer parte dos Estados Unidos."