quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

BC decreta liquidação da Reag, investigada por fraudes no caso Master, FSP

 

Brasília

Banco Central decretou nesta quinta-feira (15) a liquidação da Reag Trust, instituição investigada por participar de suposta ciranda financeira que inflava artificialmente ativos no caso Master com o uso de fundos de investimento. Ela também é suspeita de elo com o PCC (Primeiro Comando da Capital).

A Reag tinha R$ 352 bilhões sob administração em novembro, segundo dados da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais). No ranking de administradoras, ela aparece na 11ª posição no país.

Prédio comercial alto visto de baixo para cima, com fachada em tons claros e janelas de vidro em destaque. Entrada principal com marquise preta e portas de vidro, protegida por grades metálicas. Céu azul ao fundo.
Fachada da sede do Banco Master, localizada na rua Elvira Ferraz, no bairro da Vila Olímpia, em São Paulo, com visão frontal do edifício corporativo e gradis de proteção na entrada principal - Rafaela Araújo -29.dez.25/Folhapress

A liquidação foi decretada um dia depois de a Polícia Federal deflagrar a segunda fase da operação Compliance Zero, que apura a atuação de fundos de investimentos que teriam sido usados para inflar o patrimônio do Master.

Essa nova etapa da investigação teve como alvos endereços ligados a Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, a parentes dele e a empresários, incluindo Nelson Tanure e João Carlos Mansur, ex-dono da Reag –gestora investigada no caso Master e suspeita de envolvimento com o crime organizado.

Após a operação da PF, a defesa de Mansur disse que não teve acesso a investigação, mas que está à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos.

Mansur deixou o cargo de presidente do Conselho de Administração da Reag em setembro de 2025 para conter crise de credibilidade depois da operação Carbono Oculto. A Reag foi um dos alvos do ato deflagrado pela PF para investigar um esquema de lavagem de dinheiro ligado ao PCC no mercado financeiro.

Na ocasião, a Reag negou conexão com o PCC. "Desde o início das apurações relacionadas à Operação Carbono Oculto, a Reag tem colaborado integralmente com as autoridades, fornecendo informações, documentos e acesso aos seus sistemas sempre que solicitado."

No ato em que determinou a liquidação da Reag, o presidente do BC, Gabriel Galípolo, nomeou como liquidante a APS Serviços Especializados de Apoio Administrativo, tendo como responsável técnico Antonio Pereira de Souza.

A instituição hoje é denominada CBSF Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários e se enquadrada no segmento S4 (porte inferior a 0,1% do PIB), representando menos de 0,001% do ativo total ajustado do sistema financeiro nacional. Com a liquidação, os fundos terão de buscar outros administradores.

Em nota, o BC disse que a liquidação foi motivada "por graves violações às normas" que regem as atividades das instituições que integram o sistema financeiro.

"O Banco Central continuará tomando todas as medidas cabíveis para apurar as responsabilidades nos termos de suas competências legais. O resultado das apurações poderá levar à aplicação de medidas sancionadoras de caráter administrativo e a comunicações às autoridades competentes, observadas as disposições legais aplicáveis", disse.

A liquidação é adotada quando o BC avalia que a situação da instituição financeira é irrecuperável. Nesse caso, o funcionamento da instituição é interrompido e ela é retirada do sistema financeiro nacional. Com o ato, ficam indisponíveis os bens dos controladores e dos ex-administradores da instituição.

Existe a possibilidade de o liquidante, caso seja autorizado pelo BC, requerer a falência da instituição. Nesse caso, é um processo conduzido pela via judicial.

Criada em 2012, a Reag teve um acelerado processo de crescimento, com aquisições e diversificação de investimentos, tornando-se uma das maiores gestoras independentes do país, sem ligação com um banco. Seu principal foco é a gestão de recursos e de patrimônio.

Como mostrou a Folha, um relatório do BC enviado ao TCU (Tribunal de Contas da União) apontou indícios de fraude em operações financeiras realizadas pelo Master em conjunto com fundos administrados pela Reag Trust Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários.

De acordo com o documento, as transações suspeitas somariam R$ 11,5 bilhões e foram consideradas pelo BC como portadoras de "falhas graves", em desacordo com normas do sistema financeiro nacional. O órgão regulador comunicou o caso ao Ministério Público Federal.

Além da antiga Reag, o BC também decretou nesta quinta a liquidação da Advanced Corretora de Câmbio, que tem sede em São Paulo. A instituição está enquadrada no segmento S5 (porte inferior a 0,1% do PIB), tem baixa representatividade no sistema financeiro e ocupa a 56ª posição no ranking de câmbio do BC, considerando as operações realizadas em 2025.

De acordo com a autoridade monetária, neste período, as operações da corretora representaram 0,081% do volume financeiro e 0,14% da quantidade de operações de câmbio cursadas no sistema financeiro.

"A decretação da liquidação extrajudicial foi motivada pelo comprometimento da situação econômico-financeira da corretora, bem como por graves violações às normas que regem as atividades das instituições integrantes do SFN [sistema financeiro nacional]", afirmou o BC em nota.

Em ato assinado por Galípolo, o BC nomeou Fabiano Fabri Bayarri como liquidante da corretora de câmbio.

Resort que uniu fundo ligado a Vorcaro e parentes de Toffoli hoje pertence a advogado da JBS, FSP

 

Brasília

O resort que tinha como acionistas os irmãos e um primo do ministro Dias Toffoli, do STF (Supremo Tribunal Federal), e um fundo ligado à ciranda financeira montada por Daniel Vorcaro hoje está sob controle de um advogado goiano que atua para a JBS, dos irmãos Joesley e Wesley Batista.

O atual proprietário do resort Tayayá, em Ribeirão Claro (PR), é Paulo Humberto Barbosa, que entrou no negócio em fevereiro de 2025. Ele comprou a participação que era da Maridt, empresa de José Carlos e José Eugênio Dias Toffoli, irmãos do ministro do STF. Na época, o negócio foi estimado em R$ 3,5 milhões.

O primo do ministro do Supremo Mario Umberto Degani seguiu no negócio até setembro de 2025, quando também vendeu a sua parte para Paulo Humberto Barbosa.

Durante quatro anos (entre 2021 e 2025), como mostrou a Folhaos irmãos de Toffoli dividiram o controle do Tayayá com o fundo de investimentos Arleen, que faz parte da intrincada rede montada pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Master. O primo de Toffoli, Degani, também participou da sociedade com o fundo.

O Tayayá Aquaparque, resort de luxo em Ribeirão Claro (PR)
O Tayayá Aquaparque, resort de luxo em Ribeirão Claro (PR) - Reprodução

Os investigadores apuram se o Master usava uma rede de fundos, hospedada na gestora Reag, para inflar o patrimônio deles artificialmente. Esses recursos se originariam em empréstimos simulados do Master para empresas que, ao invés de usar o dinheiro, aplicavam nesses fundos, que por sua vez produziam uma valorização acelerada -e muitas vezes sem comprovação- dos ativos. A suspeita é que o dinheiro desviado do Master irrigava o que os investigadores chamam de "laranjas do Vorcaro".

O fundo Arleen era sócio de parentes do ministro do STF também na DGEP (uma firma de incorporação imobiliária) desde 2021. A entrada do fundo na empresa rendeu à época R$ 3,2 milhões aos irmãos do ministro. A sede da empresa registrada na Receita Federal fica no mesmo endereço do resort Tayayá, e o email informado na criação da empresa foi gerencia@tayaya.com.br.

A saída dos irmãos de Toffoli do negócio, no ano passado, ocorreu um mês antes do anúncio de compra do Banco Master pelo BRB (Banco Regional de Brasília), tentativa essa que acabou negada pelo Banco Central.

Procurados pela reportagem, o ministro Dias Toffoli, seus irmãos, Mario Umberto Degani e Paulo Henrique Barbosa não se manifestaram.

Toffoli é hoje o relator do caso Master no STF, o que significa que as investigações contra a instituição estão sob sua responsabilidade. Vorcaro e o Master são alvo dos investigadores em inquérito que apura a venda de R$ 12,2 bilhões em créditos sem lastro para o BRB. Vorcaro chegou a ser preso nesse processo, mas foi liberado pouco tempo depois.

Nesta quarta (14), a Polícia Federal deflagrou nova fase da apuração contra Vorcaro, dessa vez centrada nos possíveis envolvidos na teia dos fundos de investimentos.

Em dezembro, Toffoli decidiu que o caso deveria ser julgado no STF e não mais na Justiça Federal de Brasília, com o argumento de que, entre os achados, havia o nome de um deputado federal (que tem prerrogativa de foro no Supremo). Toffoli também colocou sob sigilo todo o processo. Poucos dias antes, Toffoli pegou carona num avião em que estava um advogado que trabalha no caso Master. Eles foram ao Peru assistir a um jogo de futebol.

Nos últimos anos, Barbosa advogou para a empresa e para os irmãos Wesley e Joesley Batista, donos do grupo, em causas tributárias no TJ-GO (Tribunal de Justiça de Goiás) e na Secretaria de Fazenda estadual.

A JBS afirmou em nota que Paulo Humberto defendeu a empresa em ações no estado de Goiás. "Nem a companhia nem os acionistas possuem qualquer relação com as empresas citadas ou qualquer outro negócio do advogado", acrescentou.

Barbosa divide uma empresa, a Petra Participações, com Gabriel Paes Fortes, genro de José Batista Jr., irmão mais velho de Joesley e Wesley, e Renato Costa, executivo da Friboi.

Fortes disse à Folha que Barbosa advoga para ele em algumas ações de empresas que possui. "Conheci ele em Goiânia, onde moro. Não conheço através da minha relação familiar", disse. Ele afirmou também que não conhece o ministro Toffoli e nunca esteve com ele.

Paulo Humberto também adquiriu a participação dos parentes de Toffoli na DGEP. Os irmãos (via Maridt) venderam a sua fatia em fevereiro de 2025 e o primo, em setembro de 2025. Dessa forma, o advogado goiano passou a ser o único dono do resort paranaense e da DGEP.

Atualmente, parte das cotas do resort pertence à PHB Holding e Participações Ltda, de Barbosa, e o restante foi transferido para a Angra Doce Investimentos Ltda, que é formada por empresas que também pertencem ao advogado.

O Arleen por sua vez foi liquidado em 22 de dezembro do ano passado. A decisão foi tomada no início de novembro, menos de duas semanas antes de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, ser preso ao tentar embarcar em um voo para Malta.

Na complicada cadeia de interposição de fundos, o Arleen aparece como sócio do Maia 95, citado pelos investigadores, em outro fundo, o RWM Plus.

Em nota, a defesa de Vorcaro negou qualquer irregularidade ou envolvimento do Master com fraudes, fundos ilícitos ou operações destinadas a beneficiar terceiros. Disse que a reportagem estabelece "conexões inexistentes e distorce fatos ao sugerir vínculo entre o banco, seus executivos e investimentos mencionados".

"O banco nunca foi gestor, administrador ou cotista dos referidos fundos", declarou a defesa, que disse ainda seguir colaborando integralmente com as autoridades.

O Arleen e todos os demais fundos da teia têm como gestora a Reag, que também é investigada na operação Carbono Oculto, por suspeita de lavar dinheiro para o PCC (Primeiro Comando da Capital).


'Verdade Oculta' é uma das melhores séries de 2025, FSP

 Só agora em janeiro assisti a uma das melhores séries de 2025, "Verdade Oculta", lançada no Brasil pela Disney+, sem grande alarde, em dezembro passado.


Criada por Sterlin Harjo, a dramédia se passa em Tulsa, segunda maior cidade de Oklahoma, e traz Ethan Hawke como protagonista. Ele interpreta Lee Raybon, um "historiador da verdade" ("truthstorian"), uma espécie de jornalista independente, dedicado a revelar tramoias, golpes e crimes que a grande mídia evita investigar.

O título original da série, "The Lowdown", se refere a uma gíria usada por jornalistas. É um substantivo que significa "os fatos essenciais" ou "as informações inéditas" sobre um determinado assunto. Como adjetivo, "lowdown" descreve alguém ou algo desprezível.

Cartaz da série 'Verdade Oculta'
Cartaz da série 'Verdade Oculta' - Divulgação


A série gira em torno da investigação sobre o suicídio de um ricaço de Tulsa, irmão de um candidato a governador do Estado. Desconfiado de que haja algo criminoso por trás dessa morte, Raybon se envolve em inúmeras confusões e toma várias surras, seguidamente, enquanto vai conectando os fios da trama, que envolvem especulação imobiliária, supremacistas brancos e alguns assassinatos.

A atmosfera lembra um pouco "Fargo", a série, com vilões cartunescos, capangas ignorantes e assistentes do herói trapalhões. O protagonista ganha a vida com uma livraria que vende obras raras e se orgulha de escrever para uma revista que publica reportagens longas.

Lee Raybon faz pensar em Hunter S. Thompson (1937-2005), o jornalista gonzo, que trabalhava chapado, interpretado por Johnny Depp em "Medo e Delírio em Las Vegas" (1998). Mas o personagem é livremente inspirado em Lee Roy Chapman (1969-2015), um historiador e ativista que publicou vários artigos sobre a história não contada de Oklahoma.

Hawke se entrega ao papel com enorme prazer. Está ótimo. Também merecem destaque Keith David como Marty Brunner, um detetive particular, a serviço do político Donald Washberg, vivido por Kyle MacLachlan, o eterno agente Dale Cooper de "Twin Peaks". Peter Hayden Dinklage aparece em um dos oito episódios como ex-sócio de Raybon.

Ethan Hawke em Nova York na estreia de 'Verdade Oculta' - Jamie McCarthy - 18.set.25/Getty Images via AFP


Hoje a segunda maior cidade de Oklahoma, Tulsa acumula um histórico de tensões e violências contra indígenas e negros. A cidade foi fundada no século 19 sobre um assentamento das etnias creek, kickapoo e osage, que posteriormente foram removidas a força de suas terras. Também foi lar de uma próspera comunidade negra, vítima de um massacre racial em 1921.

Antes de "Verdade Oculta", esse violento e tumultuado passado de Tulsa já havia sido evocado em algumas importantes produções audiovisuais.

A minissérie "Watchmen", exibida em 2019, que tirou inspiração da célebre HQ de Alan Moore e David Gibbons, relembra em detalhes a chacina de 1921. Vencedora de 11 prêmios Emmy, a produção da HBO deu nova visibilidade ao conflito racial, que teve início sob o pretexto de punir um homem negro que teria violentado uma mulher branca.

Jeremy Irons em cena de 'Watchmen' - Divulgação


Igualmente premiada, "Reservation Dogs", ambientada na zona rural de Oklahoma, foi a primeira série americana a apresentar roteiristas, diretores e um elenco quase inteiramente formado por indígenas.

A produção coloca em primeiro plano quatro adolescentes, que buscam se equilibrar entre o respeito à própria herança cultural e o desejo de se aventurar fora dos limites da reserva onde vivem. Criada por Sterlin Harjo, o mesmo de "The Lowdown", e Taika Waititi, a série de 2021 tem três temporadas, disponíveis no Disney +.

Sterlin Harjo, cocriador da série 'Reservation Dogs' - Jeremy Dennis - 16.dez.21/NYT


Lançada nos EUA em setembro, "Verdade Oculta" dialoga bastante com essas duas produções. Uma segunda temporada já foi encomendada. Recomendo muito.