quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Por um uso da força policial alinhado aos valores do Estado democrático de Direito, Ricardo Lewandowski, FSP

Ricardo Lewandowski

Professor Emérito da Universidade de São Paulo, é ex-Ministro de Estado da Justiça e Segurança Pública e Ministro aposentado do Supremo Tribunal Federal

 O Ministério da Justiça e Segurança Pública editou recentemente um conjunto de portarias que, longe de representar mera atualização administrativa, inaugura uma verdadeira nova doutrina para a atuação das forças policiais no Brasil, plenamente alinhada aos valores do Estado democrático de Direito consagrado pela Constituição de 1988.

Entre essas normas, destaco a Portaria 648/24, que disciplina o uso de câmaras corporais; a Portaria 885/25, que estabelece diretrizes claras sobre o uso progressivo da força; a Portaria 961/25, voltada à aplicação da tecnologia da informação em atividades de investigação e inteligência; e a Portaria 1122/26, que aperfeiçoa os protocolos de reconhecimento de suspeitos como meio de prova. Em conjunto, elas compõem um marco regulatório moderno, orientado pela eficiência, pela transparência, pela valorização dos profissionais da segurança pública e, sobretudo, pelo respeito aos direitos humanos.

Linha de policiais uniformizados em pé, alinhados lado a lado, de frente para uma fileira de motos estacionadas em calçada de rua urbana. Edifícios altos e sinalização de trânsito aparecem ao fundo.
Policiais participam do Programa Territórios Pela Paz (TerPaz) na região metropolitana de Belém; iniciativa do governo do Pará foi implementado em 2019 por meio de complexos comunitários para levar ações de esporte, lazer, saúde e educação para as comunidades da região - Divulgação/Segup

A Portaria 885/25 ocupa lugar central nesse novo paradigma. Ela reafirma um princípio elementar, mas nem sempre observado na prática: em um Estado democrático de Direito, a força letal jamais pode ser a primeira resposta do Estado. O uso progressivo da força deve ser racional, consciente e sistemático, começando pelo diálogo, avançando —apenas quando necessário— para instrumentos de contenção e armas não letais, e chegando ao uso de armas de fogo exclusivamente como última instância, quando todos os demais meios se mostrarem insuficientes para preservar vidas.

Ao estabelecer que ações policiais devem ser previamente planejadas para evitar mortes, ferimentos e constrangimentos desnecessários, a norma protege não apenas o cidadão, mas também o próprio policial, que passa a contar com regras claras, objetivas e juridicamente seguras para orientar sua atuação. Não se trata de fragilizar a ação policial, mas de conferir-lhe legitimidade, previsibilidade e respaldo institucional.

As portarias deixam igualmente inequívoco que não há espaço para discriminação. A atuação policial deve ser isenta de preconceitos de raça, cor, gênero, religião, origem social, orientação sexual ou opinião política. Abordagens baseadas em estereótipos ou em uma vaga "fundada suspeita" não se compatibilizam com a ordem constitucional. A legalidade da ação estatal exige critérios objetivos, transparência e respeito à dignidade humana.

O uso de algemas, por exemplo, só se justifica diante de resistência, risco de fuga ou ameaça à integridade do próprio detido, dos agentes ou de terceiros. Da mesma forma, armas de fogo não podem ser utilizadas contra pessoas desarmadas, subjugadas ou em fuga, nem como forma de intimidação. Esses limites não enfraquecem a polícia; ao contrário, fortalecem-na institucionalmente, ao afastar arbitrariedades que corroem a confiança da sociedade.

Outro avanço relevante é a exigência de prestação de contas. Sempre que o uso da força resultar em ferimentos ou mortes, impõe-se o dever de relatório circunstanciado, de pronto socorro às vítimas, de preservação do local e de comunicação ao Ministério Público. Corregedorias autônomas e procedimentos transparentes asseguram tanto a apuração de eventuais desvios quanto o direito ao devido processo legal dos policiais envolvidos.

Essas portarias, obrigatórias para as forças federais e também para as estaduais e municipais que recebam recursos da União, representam um passo decisivo na construção de um sistema nacional de segurança pública moderno, eficiente e democrático. Elas não são contra os policiais. São, ao contrário, instrumentos que lhes oferecem firmeza, proteção jurídica e reconhecimento institucional, ao mesmo tempo em que reafirmam o compromisso do Estado brasileiro com a legalidade, a proporcionalidade e o valor supremo da vida.

Conexões de Tanure com Master envolvem Maurício Quadrado, ex-sócio do banco, FSP

 Alexa Salomão

São Paulo

É tortuosa a teia que interliga o Banco Master e o empresário Nelson Tanure, que foi alvo de busca e apreensão, nesta quarta-feira (14), na segunda fase da Operação Compliance Zero.

As conexões envolvem fundos de investimento, movimentações com instrumentos financeiros, participações cruzadas e sociedades com terceiros, além de um personagem que vinha se mantendo fora do radar: Maurício Quadrado, que também foi alvo de busca e apreensão nesta quarta.

Quadrado foi sócio do Master de setembro de 2020 a setembro de 2024 e liderou a área de investimentos do banco nesse período. Ele é dono, desde 2022, da Trustee DTVM, corretora atuava como prestadora de serviços para o Master e que aparece em diferentes investigações envolvendo o banco de Daniel Vorcaro.

Nelson Tanure, alvo da segunda fase da Operação Compliance Zero, que apura suspeitas de manipulação de mercado e fraudes financeiras - 22.ago.08/ Divulgação Alerj

O executivo entrou e saiu da sociedade do Master fazendo inúmeros negócios com Tanure, usando a Trustee.

A assessoria de imprensa de Maurício Quadrado disse que, apesar de ele não ter exclusividade na prestação de serviços financeiros, é antigo parceiro comercial do empresário Nelson Tanure, e que sempre opera dentro da lei.

Tanure, por sua vez, também confirmou que foi cliente do Master, nas mesmas condições que outras empresas e instituições financeiras, e que em décadas de atuação no mercado jamais enfrentou qualquer processo criminal.

INVESTIGAÇÕES E SUSPEITAS

A CVM (Comissão de Valores Mobiliários) investiga uma possível manipulação acionária envolvendo a aquisição da Upcom, adquirida pela incorporadora imobiliária Gafisa, na qual Tanure atuou como acionista relevante e membro do conselho de administração. O caso também deu origem à abertura de uma queixa-crime pela polícia. O processo criminal, que corre em sigilo, investiga a participação conjunta de Tanure, Quadrado e o CEO do Master, Daniel Vorcaro, por meio de fundos e da Trustee.

O caso, que corre em sigilo, mas ao qual a Folha teve acesso, tramita na 5ª Vara Criminal Federal de São Paulo, mas a própria defesa pediu que fosse remetido ao Supremo Tribunal Federal por ter relação com o Master.

A CVM ainda investiga se a Trustee participou de um suposto movimento organizado para valorizar ações da Ambipar, quando Quadrado ainda estava no Master. Segundo a área técnica da autarquia, o movimento foi feito feito em conjunto pelo controlador da Ambipar, Tércio Borlenghi Junior, e fundos sob a gestão da Trustee. Todos os citados negam a manipulação.

As ações da Ambipar serviam como garantia para Tanure sustentar a compra da Emae, empresa de energia privatizada pelo governo do estado de São Paulo em 2024. A alta dos papéis da Ambipar foi de 863%, de 31 de maio a 19 de agosto daquele ano.

Um fundo ligado a Tanure havia vencido a privatização da Emae, mas ele perdeu a empresa no ano passado, numa execução de garantias, e entrou em disputa com a Sabesp, que assumiu o controle. Ele agora está envolvido em discussões judiciais e regulatórias para tentar reaver a empresa.

A mesma Trustee ainda foi alvo da operação Carbono Oculto, em 28 de agosto de 2025, por suspeita de operar com recursos de alvos ligados ao PCC.

TRAJETÓRIA CONTROVERSA

A busca e apreensão desta quarta é uma espécie de ápice na trilha de controvérsias que marcam a trajetória de Tanure desde a década de 1990 —sempre a partir do Rio de Janeiro, para onde se mudou depois de deixar a Bahia, sua terra natal.

Quem já trabalhou com ele conta que o empresário tem carisma. Quando entra na gestão e fala com a equipe, é um motivador. No trato pessoal é conhecido como pessoa gentil e culta. Coleciona obras de arte e frequenta óperas.

Outra marca é a discrição na vida pessoal. Não expõe a família ou sua rotina, também não ostenta patrimônio pessoal. Raramente concede entrevistas ou participa de eventos sociais.

O filho Nelson Queiroz Tanure é um dos poucos familiares conhecidos publicamente. Chamou a atenção atuando na Prio, a empresa do setor de óleo e gás na qual o pai tem participação. Diferentemente da maioria dos negócios do empresário baiano, a companhia é bem avaliada e não enfrenta nenhum dos problemas que costumam marcar os negócios do empresário. Segundo reportagem da agência Bloomberg publicada nesta quarta, o empresário se desfez de suas ações da Prio para pagar credores.

O mercado já se acostumou a ligar o botão de alerta quando Tanure entra num negócio. Ele é conhecido pela polêmica estratégia de investir em empresas que estejam em dificuldade ou em processos de reestruturação mais sensíveis —mudanças de controle, renegociações de dívida e disputas societárias bem diversos, como energia, óleo e gás, saúde, imobiliário, varejo e até mídia.

Foi acionista relevante da operadora de telefonia Oi no período mais crítico da empresa e assumiu o controle do tradicional jornal econômico Gazeta Mercantil em um momento de grave crise que culminou com o encerramento das operações. Nessa área, também foi dono do Jornal do Brasil.

Outro método de atuação que causa discussões é fazer operações cruzadas entre suas empresas —usa a estrutura e os recursos de um negócio para fazer investimentos em outros. Um exemplo recente disso ocorreu na área de energia.

Um dos investimentos mais importantes de Tanure hoje é a Light, distribuidora que atende a região metropolitana do Rio de Janeiro. A companhia enfrenta uma prolongada crise financeira e operacional.

Quando tinha ingerência na Emae, Tanure tentou usar recursos da empresa para comprar debêntures da Light. A transação acabou não ocorrendo porque foi vetada pela Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica).

No setor de saúde, Tanure está ligado ao controle da Alliança Saúde, antiga Alliar. A empresa de medicina diagnóstica foi palco de disputas societárias, discussões sobre oferta pública de aquisição e processos administrativos no mercado de capitais, além de mudanças estratégicas e de gestão nos últimos anos.

No final do ano passado comprou parte das ações do GPA, dono da rede de supermercados Pão de Açúcar. No mercado, a avaliação de analistas é que Tanure pode tentar uma fusão com a Rede Dia, que ele também adquiriu, por meio de um fundo, no final do ano passado.