sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

Há um tanto de teatro no veto ao projeto da dosimetria, FSP

 A invasão das sedes dos três Poderes, em 8 de janeiro de 2023, foi uma estupidez bolsonarista que muito favoreceu o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT), no qual desaguou o apoio da sociedade, das instituições e da comunidade internacional à ordem democrática. Não por acaso, Lula trata de lembrar a data com atos políticos.

No evento do primeiro aniversário, em 2024, o mandatário se uniu a Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, em defesa da regulação de conteúdos na internet, proposta que não prosperou devido a suas inclinações censórias; em 2025, o petista se associou ao sucesso global do filme "Ainda Estou Aqui", ambientado na ditadura militar.

Nesta quinta (8), havia providência a anunciar: o veto ao projeto que muda a dosimetria em condenações por golpismo, concebido para reduzir as penas aplicadas a Jair Bolsonaro (PL) e seus parceiros de ataque à democracia, incluindo a infantaria que vandalizou há três anos o Planalto, o Congresso Nacional e o Supremo.

Há um tanto de teatro em torno da medida, antecipada havia semanas pelos canais oficiosos de Brasília —e tampouco houve surpresa com a ausência na cerimônia dos presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado, Casas onde o projeto foi gestado.

Todos sabem, a começar por Lula, que é real a possibilidade de derrubada do veto presidencial pelos parlamentares. O texto obteve apoio expressivo entre os deputados, que o aprovaram por 291 votos a 148; entre os senadores, o placar foi menos elástico, de 48 a 25, mas ainda assim configurando a maioria absoluta necessária para desfazer o veto.

Discursos inflamados à parte, o governismo tratou a tramitação da dosimetria de modo pragmático. Em 17 de dezembro, o líder no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), fechou acordo de procedimento que permitiu a votação do diploma. Em troca, tampouco houve obstrução a uma proposta que reduzia benefícios fiscais, de interesse do Planalto.

A ministra Gleisi Hoffmann, das Relações Institucionais, e o próprio Lula, em termos mais amenos, cuidaram de desautorizar posteriormente o acordo. Fato é que Wagner, petista histórico e de lealdade comprovada, segue intocado na liderança.

Resta saber se, em caso de queda do veto, partidos de esquerda tentarão judicializar o tema por meio de um recurso ao STF, o que poderia criar uma nova área de atrito entre os Poderes. A pacificação do debate não é trivial.

A nova dosimetria foi a alternativa negociada no mundo político à anistia absurda pleiteada pelos bolsonaristas. Fica estabelecido que os crimes similares de golpe de Estado e abolição violenta do Estado de Direito não terão as penas somadas, como o Supremo vem fazendo e resultando em punições não raro exageradas.

As revisões, pelo texto ora vetado, devem ser examinadas caso a caso na Justiça e, de mais meritório, golpistas não escapam de pagar pela afronta à democracia.

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Lewandowski deixa governo Lula após série de desgastes e com principais apostas pendentes no Congresso, FSP

 O ministro da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Lewandowski, deixará o cargo nesta sexta-feira (9), encerrando uma gestão de quase dois anos. Embora tenha chegado à pasta com elevado capital, ele se despede sem uma marca própria consolidada e com os principais projetos ainda em tramitação no Congresso.

Na carta de demissão enviada ao presidente Lula (PT) nesta quinta (9), Lewandowski destacou limitações políticas, conjunturais e orçamentárias enfrentadas durante a gestão.

Sua escolha, à época, foi interpretada como uma aposta de Lula para reaproximar o governo do Judiciário, objetivo que Lewandowski conseguiu cumprir. Ex-ministro do STF (Supremo Tribunal Federal), ele atuou como uma ponte institucional em um período de sensibilidade entre os Poderes.

Desde o início da gestão, porém, a área da segurança pública foi atravessada por sucessivos desgastes. Em 2023, a fuga de dois detentos ligados ao Comando Vermelho do presídio federal de Mossoró expôs fragilidades no sistema prisional federal.

Dois homens idosos de cabelos brancos vestem ternos escuros. Um deles usa gravata vermelha e o outro gravata preta com padrão. Eles estão próximos, com um colocando a mão no ombro do outro, em ambiente interno com fundo desfocado.
Presidente Lula (PT) e ministro da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Lewandowski, durante evento dos três anos dos atos golpistas do 8 de janeiro

Já em 2025, a morte de 122 pessoas em uma operação policial no Rio de Janeiro contra supostos membros do Comando Vermelho reacendeu o debate sobre o papel do governo federal na coordenação da política de segurança.

Entre as principais apostas da gestão para uma ação mais efetiva do governo na segurança pública e o combate mais eficaz ao crime organizado esteve a tentativa de criar um novo arcabouço legal para a área, por meio da chamada PEC (Proposta de Emenda à Constituição) da Segurança e do PL Antifacção.

As propostas, bem avaliadas por especialistas, continuam em tramitação na Câmara dos Deputados e ainda não têm data para análise. O governo contava com a aprovação das duas propostas em 2025, véspera de ano eleitoral, para responder a críticas da oposição e a cobranças da sociedade.

O tema reacendeu a disputa entre governo e adversários pela agenda da segurança pública, uma das maiores preocupações dos brasileiros e um campo em que governos de esquerda historicamente têm dificuldade.

Durante sua gestão, algumas declarações também provocaram descontentamento entre profissionais da área. Lewandowski enfrentou uma crise ao afirmar que "a polícia prende mal e o Judiciário é obrigado a soltar", frase que foi duramente criticada por associações de policiais e por gestores estaduais.

Secretários estaduais de segurança pública e do sistema penitenciário relatam, sob reserva, que a gestão foi marcada por avanços e fragilidades. Entre os pontos negativos, citam o pouco diálogo, inclusive para a construção dos textos que tramitam no Congresso. Essa mesma queixa foi feita por parlamentares ouvidos pela reportagem.

Por outro lado, reconhecem melhorias na execução e no controle da aplicação dos recursos do Fundo Nacional de Segurança pública, que tem dado mais previsibilidade financeira aos estados.

Na gestão do ministro foi criado o Núcleo de Combate ao Crime Organizado, com a missão de integrar esforços entre diferentes órgãos. A partir dessa articulação e da abertura de um inquérito na Polícia Federal, foi deflagrada a Operação Carbono Oculto, considerada a maior da história do país no enfrentamento à infiltração do crime organizado na economia formal. A ação teve como alvo o PCC (Primeiro Comando da Capital).

Houve o protocolo do uso da força, que estabelece regras e padrões para garantir abordagens mais equilibradas, reduzindo o risco de ações desproporcionais. Há ainda o programa de câmeras corporais, que reúne diretrizes normativas e apoio à aquisição de equipamentos e visa aumentar a transparência nas operações policiais.

Mas projetos também ficaram limitados por conta de orçamento, como o de recompra de armas, que não saiu do papel. O projeto Captura tinha sido pensado inicialmente para dar recompensa por pista de criminosos, mas essa parte não avançou.

O ministro manteve e aprofundou políticas iniciadas pelo antecessor, Flávio Dino, que deixou o ministério para assumir uma vaga no STF. Nesse eixo, o programa Celular Seguro teve suas funcionalidades ampliadas, e garantiu orçamento para a transferência dos CACs (caçadores, atiradores e colecionadores) do Exército para a Polícia Federal.

Sob o comando de Lewandowski, o ministério assinou 21 portarias declaratórias de terras indígenas, etapa final antes da demarcação, que depende de ato do presidente da República. Desde 2018, não havia novas demarcações.

No campo da política penal, a gestão desenhou o programa Pena Justa, que busca enfrentar a crise estrutural do sistema prisional, reduzir a superlotação e ampliar alternativas penais, em articulação com estados e o Judiciário.

A gestão investiu na modernização da segurança, com a compra de armas, viaturas blindadas, drones, sistemas antidrones e equipamentos de varredura eletrônica. Secretários estaduais, porém, reclamam da redução dos repasses do fundo penitenciário, o que, segundo eles, compromete a execução das políticas.

O ministério também ampliou os Cais (Centros de Acesso a Direitos e Inclusão Social), voltados ao atendimento de pessoas em situação de extrema vulnerabilidade, especialmente com demandas relacionadas ao uso problemático de drogas, e lançou o Escuta SUSP, programa de apoio psicológico a profissionais da segurança pública.

Gestão foi marcada ainda pelo fortalecimento de políticas de enfrentamento ao tráfico de pessoas e ao contrabando de migrantes.

Estados e municípios terão que cobrir rombo dos fundos de previdência com Master, FSP

 Fábio Pupo

Brasília

O governo federal concluiu que estados e municípios serão os responsáveis finais por cobrir rombos em fundos de previdência caso tenham prejuízo em investimentos feitos em títulos vendidos pelo Banco Master. Institutos que pagam aposentadorias a servidores aplicaram ao menos R$ 1,8 bilhão em Letras Financeiras do banco, que teve liquidação decretada há menos de dois meses.

Fachada de vidro de agência do Banco Master com logo azul e branco à esquerda e nome BANCO MASTER em letras prateadas refletindo luz natural.
Fachada da sede do Banco Master, localizada na Vila Olímpia, em São Paulo - Rafaela Araújo - 29.dez.2025/Folhapress

A conclusão está em documento formulado pelo Ministério da Previdência Social em resposta a questionamentos feitos pela deputada federal Laura Carneiro (PSD-RJ), que requisitou informações sobre o caso do Rioprevidência (Fundo Único de Previdência Social do Estado do Rio de Janeiro).

A parlamentar perguntou sobre os riscos aos quais o fundo está exposto e sobre uma eventual moratória do banco. De acordo com o Ministério da Previdência, caso faltem recursos nos institutos de previdência para o pagamento das aposentadorias e pensões em decorrência do caso Master, esses valores serão de responsabilidade dos Tesouros dos respectivos entes federativos.

"Com a liquidação do Banco Master realizada pelo Banco Central do Brasil em 18 de novembro de 2025, caso as contribuições do regime ou recursos por ele acumulados venham a se tornar insuficientes, o ente é o responsável por adimplir com essas obrigações", afirma a pasta.

lei nº 9.717/1998 estabelece que União, estados, Distrito Federal e os municípios são responsáveis pela cobertura de eventuais insuficiências financeiras do respectivo regime próprio decorrentes do pagamento de benefícios previdenciários. A interpretação do governo é que não há necessidade imediata de aporte decorrente do caso Master, mas a lei obriga esse repasse caso faltem recursos no futuro.

Conforme mostrou a Folha, 18 institutos municipais e estaduais investiram em Letras Financeiras do Master nos últimos anos. Entre eles, destacam-se o Rioprevidência, do estado do Rio de Janeiro, com R$ 970 milhões investidos, a Amprev (estado do Amapá), com R$ 400 milhões, e o Iprev de Maceió, com R$ 97 milhões.

Além destas, o instituto de previdência de São Roque, no interior de São Paulo, com 79 mil habitantes, aplicou R$ 93 milhões em Letras Financeiras. Os dados são do Ministério da Previdência Social.

Diferentemente dos CDBs, que foram vendidos pelo Master no mercado, as Letras Financeiras não são garantidas pelo FGC (Fundo Garantidor de Créditos), que ressarce investidores ao limite de R$ 250 mil por CPF.

Por isso, os aportes de quase R$ 2 bilhões feitos pelas previdências dos estados e municípios serão contabilizados como dívida durante o processo de liquidação do banco, o que torna a recuperação dos valores incerta.

O governo ressaltou no documento que a União não tem competência legal para intervir na gestão dos fundos nem para punir diretamente gestores locais, e que seu trabalho é limitado à fiscalização do cumprimento das normas gerais.

A principal sanção disponível é a suspensão do Certificado de Regularidade Previdenciária (CRP), documento exigido para o recebimento de transferências voluntárias da União e para a contratação de empréstimos com aval federal.

De acordo com o ministério, a ampliação de investimentos em ativos considerados mais arriscados foi identificada ainda em 2024 por meio das análises de risco usadas na supervisão dos regimes previdenciários.

Ao todo, 29 entes federativos foram selecionados para auditorias por aplicações em Letras Financeiras, seja por meio de intermediários, seja em instituições de menor porte. Dezessete deles tinham investimentos diretos no Banco Master. Além do Rio de Janeiro, estados como Amapá e Amazonas aparecem entre os entes analisados.

Atualmente, o Estado do Rio de Janeiro está sem CRP válido, em razão do descumprimento de limites legais para aplicações financeiras do regime previdenciário, segundo o ministério.

Procurados, os institutos de previdência não retornaram até a publicação. Há cerca de dois meses, quando os valores investidos por fundos de previdência foram revelados, o Rioprevidência afirmou em nota que o pagamento dos benefícios está garantido e que negociava a substituição das letras por precatórios federais.

A Amprev, do estado do Amapá, disse na ocasião acompanhar o caso junto às autoridades reguladoras e afirmou que as aplicações realizadas no Banco Master seguiram integralmente normas do Sistema Financeiro Nacional e a Política de Investimentos do Regime Próprio da Previdência Social (RPPS).

O Iprev de Maceió afirmou na época que os investimentos representam menos de 10% do patrimônio total do Instituto, hoje em R$ 1,4 bilhão. A entidade também afirma que, à época das aplicações, o Master estava habilitado no Banco Central, e contava com grau de investimento atribuído por agência de classificação de risco.

O São Roque Prev disse na ocasião monitorar a liquidação extrajudicial do Banco Master e afirmou ter adquirido os títulos seguindo os ritos legais e técnicos, com pareceres de assessoria de investimentos, aprovação do comitê de investimentos, ciência e homologação dos conselhos fiscal e deliberativo.

Em resposta ao episódio, em dezembro, o Conselho Monetário Nacional aprovou um novo regramento que endurece as exigências para investimentos dos regimes de previdência, com restrições à intermediação financeira, critérios mais rigorosos de solidez das instituições e maior detalhamento obrigatório na gestão de riscos.