quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Por que a invasão da Venezuela interessa mais a Nvidia do que a Exxon, Alvaro Dias Machado - FSP

 Os manuais de história ensinam que, sob a regra implacável dos impérios, a soberania dos fracos dura até que suas riquezas se tornem necessárias. Trump parece não ter lido os manuais. Invadiu a Venezuela com o objetivo declarado de roubar o petróleo do país, como se ainda estivéssemos em 1973.

A Venezuela tem as maiores e as piores reservas de petróleo do mundo: 303 bilhões de barris, extrapesado, caro de extrair e refinar. A infraestrutura está em ruínas, com oleodutos de 50 anos sem manutenção. Retomar o patamar dos anos 1990 custaria US$ 110 bilhões e levaria 5-7 anos, sendo que o consenso até ontem era de que o óleo estaria morto antes de 2040. Quando consultadas às vésperas da invasão, as petroleiras recusaram. Quem diria.

Homem com capacete branco e macacão bege está em plataforma metálica amarela, ao lado de grande estrutura cilíndrica de metal com tubulações e válvulas.
Trabalhador venezuelano da estatal PDVSA durante abastecimento de petroleiro em terminal a 200 milhas a leste de Caracas - Jorge Silva - 1.fev.03/Reuters

Trump tem mais três anos de mandato, o retorno do investimento leva o dobro, forçando a aposta a incorporar a política externa de seu sucessor e a passividade futura de um país que segue bolivariano até segundo aviso. Para piorar, o crude venezuelano gera um desconto sobre o Brent que chega a 34% do valor antes de qualquer lucro.

Na terça-feira (6), Trump anunciou que a Venezuela entregará "30-50 milhões de barris de petróleo de alta qualidade" aos EUA, "com o dinheiro controlado por mim". Isso equivale a dois dias e meio de demanda. A conta não fecha.

O petróleo importa, mas não só dessa maneira. Cortar o fluxo à China, que compra 76% das exportações venezuelanas, e asfixiar Cuba são objetivos reais. Pequim, que quer Taiwan, protesta em público mas anota o precedente. Minerais críticos e gás dão o empurrão que falta.

Em 12/2024, a China baniu exportações de gálio, germânio e antimônio aos EUA, os quais são essenciais para os semicondutores. Quatro meses depois, adicionou sete terras raras, levando os americanos a retroceder na guerra tarifária.

Há um mês, a administração Trump lançou a iniciativa Pax Silica para assegurar essas cadeias, calcanhar de Aquiles na geopolítica da IA. A Venezuela tem coltan, ouro, bauxita e reservas de terras raras ainda não mapeadas, concentradas no Arco Minero del Orinoco, que possui 300 mil toneladas desses minérios, atualmente explorados por garimpeiros ilegais e compradores chineses. O secretário de Comércio americano foi direto: "Vocês têm todos os minerais críticos" (...) Trump vai consertar isso".

Na segunda-feira, enquanto a Chevron subia 5% com a promessa de reconstruir a indústria petroleira, as ações da USA Rare Earth dispararam 14%, apostando que a mudança de presidente abrirá acesso ao neodímio venezuelano, insumo dos ímãs que a empresa produzirá em Oklahoma a partir deste ano. A conexão com a Groenlândia é óbvia: Trump ameaçou invadi-la no dia seguinte à captura de Maduro. Timing é tudo.

O mesmo raciocínio vale para o gás natural: datacenters americanos devem triplicar seu consumo de energia até 2030, com gás respondendo por mais de 40% da matriz. A Venezuela tem 200 trilhões de pés cúbicos que nunca exportou. Um gasoduto de 16 km conectaria o campo Dragon ao terminal de GNL de Trinidad, transformando o Caribe em entreposto energético americano em 18 meses, uma fração do tempo que o petróleo exige.

Trump fala em petróleo porque o seu público adora isso. Mas a aposta também é pela infraestrutura do futuro.


Manifesto que será lido em ato no Largo de São Francisco defende 8/1 como vitória da democracia, FSP

 Um manifesto que será lido nesta quinta-feira (8) na Faculdade de Direito da USP diz que o dia 8 de janeiro se tornou uma data para celebrar a vitória da democracia sobre os atos golpistas de três anos atrás.

O documento, que já conta com mais de 200 assinaturas, será apresentado no Largo de São Francisco, em evento promovido pelo PT-SP, o centro acadêmico XI de Agosto e o grupo Prerrogativas.

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Golpistas invadiram a praça dos Três Poderes e depredaram o patrimônio público em ato de 2023 - Gabriela Biló - 8.jan.2023/Folhapress

Entre os que apoiam o documento, estão Marco Aurélio de Carvalho, coordenador do grupo jurídico Prerrogativas, a senadora Teresa Leitão (PT-PE) e o advogado Pierpaolo Bottini.

"O dia demarca, primeiramente, uma festa cívica histórica em defesa da democracia. Deve, porém, ser também uma data na qual todos nós, brasileiras e brasileiros, redobremos as atenções diante de toda e qualquer ameaça interna ou externa ao Estado Democrático de Direito Brasileiro e à nossa soberania nacional", afirma o texto.

"O dia 8 de janeiro desde então é a data nacional de celebração da vitória da democracia, pois a memória é fundamental para que novos atos deste tipo não sejam tolerados", continua.

Também há referências ao ataque dos Estados Unidos à Venezuela, em um trecho que diz que os signatários da carta defendem a ordem democrática e a soberania brasileira, "para que nosso país jamais seja visto como quintal de nenhuma outra nação".

"Defendemos, de forma irrestrita, o respeito ao Estado Democrático de Direito Brasileiro e à soberania do Brasil e de nossa região", escrevem as entidades.

"Nós, signatários, defendemos que a Democracia não se impõe pela força, mas é construída diariamente pela participação, pelo diálogo, pela vontade popular e pela cooperação entre os cidadãos, respeitando-se a autodeterminação dos povos, os direitos humanos, o ordenamento jurídico nacional e o direito internacional, bem como os organismos de cooperação multilateral."

Por que ler ficção faz bem para o seu cérebro, FSP

 The Summer Hunter

Os livros de ficção têm o poder de nos transportar para outros lugares, países e até universos. Por meio de histórias escritas por outras pessoas, experimentamos sensações e vivências distantes do nosso cotidiano, estimulando a imaginação e a criatividade.

Não à toa, nosso primeiro contato com a literatura costuma ser através da ficção: seja na infância, com os contos de fadas e as fábulas; seja na adolescência, com os clássicos da escola. Mas ler títulos ficcionais é muito mais do que um entretenimento delicioso. Estudos mostram que esse hábito pode melhorar nossas capacidades cognitivas e a forma como enxergamos o mundo.

Sol amarelo sorridente segura livro e lê para dragão verde formado por letras pretas em fundo verde.
The Summer Hunter

Novas perspectivas

Pesquisa recente realizada por pesquisadores da Maximilian University of Würzburg, na Alemanha, confirmou que a ficção tem um impacto positivo na empatia e na compreensão do pensamento alheio. O estudo ainda apontou que ler é mais benéfico do que assistir às mesmas histórias na tela, além de fortalecer habilidades verbais, de raciocínio e de resolução de problemas.

De acordo com outra pesquisa publicada em 2013 na revista Science, ler ficção aumenta a nossa capacidade de compreender os estados mentais dos outros e de entender que as pessoas podem ter crenças, valores e ideias diferentes das nossas.

"Temos o luxo de frequentar esse espaço em que a gente só quer segurar a mão de pessoas que não existem ou conversar com alguém que pode ter morrido há séculos, e isso é absurdamente poderoso", disse o tradutor e ensaísta Caetano Galindo em uma conversa sobre o poder da ficção, mediada pelo The Summer Hunter na 23ª edição da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty).

Além de ampliar a empatia e a compreensão do outro, a leitura de ficção atua diretamente sobre funções essenciais do cérebro. Ao acompanhar narrativas complexas, universos imaginários e personagens multifacetados, o leitor exercita a criatividade e a imaginação de forma profunda e contínua. Diferente de estímulos audiovisuais, o texto exige participação ativa: é preciso construir cenários mentalmente, interpretar intenções, antecipar desfechos. Esse processo fortalece a memória, a atenção e a capacidade de concentração.

A ficção também favorece o desenvolvimento do pensamento crítico, pois estimula o leitor a questionar motivações, analisar conflitos e refletir sobre dilemas morais e sociais apresentados na história. Ao entrar em contato com pontos de vista distintos, épocas diferentes e realidades diversas, ampliamos nosso repertório simbólico e nossa capacidade de interpretar o mundo com mais nuance e sensibilidade.

A mente em outro ritmo

Ler ficção também pode funcionar como uma poderosa ferramenta de redução do estresse, ajudando a desacelerar o ritmo mental e a criar momentos de pausa em meio à rotina acelerada. O envolvimento com histórias promove relaxamento, diminui a ansiedade e contribui para uma sensação geral de equilíbrio.

A longo prazo, esse hábito também está associado à chamada longevidade cognitiva: manter o cérebro ativo, curioso e desafiado por meio da leitura pode retardar o declínio de funções mentais, especialmente com o avanço da idade.

Além disso, ao oferecer novas lentes para compreender comportamentos humanos, relações sociais e estruturas culturais, a ficção aprofunda nossa compreensão da sociedade e de nós mesmos. Ler histórias não apenas entretém —amplia horizontes, fortalece o pensamento e nos torna leitores mais atentos do mundo que nos cerca.

Retomando o hábito

Apesar de todos esses benefícios, estamos lendo cada vez menos. Segundo a edição mais recente da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada a cada cinco anos, a média anual de livros lidos pelos brasileiros diminuiu de 4,95 em 2019 para 3,96 em 2024. Apenas 47% da população com mais de cinco anos de idade havia lido pelo menos parte de um livro nos três meses anteriores ao estudo.

Quando perguntados sobre os motivos pelos quais estão lendo menos, 46% dos brasileiros responderam "falta de tempo". Em parte, isso tem a ver com as horas que passamos com o celular na mão, o que soma mais um fator a essa equação: o excesso de telas e a enxurrada de estímulos digitais tornam cada vez mais difícil focar em uma única atividade por muito tempo —e a leitura acaba ficando em segundo plano.

E aí entram, novamente, os livros de ficção, já que podem ser um ótimo jeito de retomar —ou até começar — o hábito de leitura. A curiosidade para descobrir o que acontece nos próximos capítulos e a conexão com os personagens são fatores que ajudam a manter o ritmo e diminuem as chances de abandonar a história na metade. E nem precisa de muito: lendo em torno de oito a dez páginas por dia, já dá para terminar um ou até mais livros por mês.