segunda-feira, 14 de julho de 2025

Ronaldo Lemos = Tarifas dos EUA são o preço que o Brasil paga pela estagnação, FSP

 A carta que anunciou tarifas de 50% sobre produtos brasileiros exportados para os EUA menciona a Seção 301 da Lei de Comércio Exterior. Esse dispositivo é um velho conhecido do Brasil. Já foi usado para pressionar o país com relação a diversas questões comerciais, parte delas com sucesso. É perturbador que esteja sendo usado agora para pressão política.

O dispositivo dá poderes ao Escritório de Comércio para impor sanções unilaterais (como tarifas) contra os países. O Brasil foi pressionado com esse instrumento nos anos 1990 porque não reconhecia patentes de medicamentos. Sob pressão, o país reagiu em pânico. Aprovou a lei de propriedade intelectual de 1996 e reconheceu as patentes para medicamentos, o que é positivo. Só que no afã de agradar aos EUA, abdicou de todas as flexibilidades que o Brasil poderia exercer sob a OMC para fabricar medicamentos genéricos.

Um homem com cabelo loiro e uma roupa escura está em um ambiente externo, acenando com a mão direita. Ele parece estar em um espaço verde, com grama ao fundo e uma estrutura ao fundo que não é claramente visível. O homem tem uma expressão séria e está olhando para a frente.
O presidente estadounidense, Donald Trump, na Casa Blanca, em Washington, D.C., Estados Unido - Hu Yousong/Xinhua - 11.jul.2025

O resultado foi desastroso. A Índia, por exemplo, não abriu mão do direito de fabricar genéricos e construiu a maior indústria do mundo nessa área. Vende hoje 47% dos genéricos consumidos nos EUA. Já o Brasil ficou para trás e levou anos para começar a se recuperar.

Por falar em Índia, por que os EUA se sentiram tão à vontade para tarifar de forma agressiva o Brasil, um país com o qual têm superávit comercial? Talvez justamente por conta da nossa estagnação econômica, inclusive dentro do bloco dos Brics. Em 2010, ano seguinte à criação dos Brics, o PIB do Brasil era de US$ 2,2 trilhões. O da China era US$ 6 trilhões, a Índia US$ 1,6 tri, a Rússia era US$ 1,5 tri. A África do Sul não fazia parte do bloco criado pelo economista Jim O’Neill. Foi colocada só depois.

Gráfico de barras mostrando o crescimento percentual do PIB dos integrantes originais dos BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China) entre 2010 e 2024, conforme estimativas do economista Jim O'Neill. A barra mais alta representa a China, seguida pela Índia, com a Rússia e o Brasil apresentando valores significativamente menores.
Atividade econômica de Brasil, Rússia, Índia e China - Reprodução

A aposta do economista era que esses países cresceriam enormemente e se tornariam centrais. Ele acertou na mosca. Exceto com relação ao Brasil. Quinze anos depois da criação dos Brics, o PIB da China é hoje de US$ 19 trilhões. O da Índia é US$ 4,2 tri e a Rússia de US$ 2 tri. O do Brasil diminuiu para US$ 2,17 trilhões.

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Essa é uma posição de enorme fragilidade. A economia do país falhou em se diversificar e aumentar sua complexidade, dependendo hoje da extração direta da natureza. Com a exceção louvável da Embraer, vendemos para os EUA (e para boa parte do mundo) café, ferro-gusa, suco de laranja, petróleo bruto e açúcar. Itens que o Brasil não tem impacto significativo na formação do preço e que sofrem com o avanço de novos concorrentes (por exemplo, o café do Vietnã).

Por isso é estarrecedor que nossa reação às tarifas impostas ao Brasil tenha sido de ficar procurando quem é o culpado. Que vergonha. Em vez de perguntar "de quem é a culpa?" o país deveria perguntar "o que fazer?". E há muito por fazer.

Vou dar dois exemplos. Desenvolver com urgência a produção e beneficiamento de terras raras, recurso estratégico global. Foi a dominância em terras raras que permitiu à China negociar com os EUA a reversão de tarifas. O Brasil também tem terras raras essenciais. Só não tem rumo.

Segundo, acordar para a gigantesca dependência digital do país com relação aos EUA. Hoje 60% da carga digital brasileira está hospedada em datacenters no estado da Virgínia nos EUA. Isso inclui sites, aplicativos, comércio eletrônico, operações bancárias, Pix e até serviços públicos como o SUS. O país precisa cair em si sobre a importância de ter sua própria infraestrutura digital.

Enquanto continuarmos estagnados brigando entre nós para achar culpados em vez de agir com sabedoria e velocidade, seremos cada vez mais mariola de outros países.

'Graças a Deus, o presidente é fraco!', Marcus André Melo, FSP

 Consistente com minha expectativa, a insatisfação com a democracia, entre eleitores, no Brasil subiu 5 pontos percentuais de um ano para cá (passou de 54% para 59% na nova pesquisa Pew). De 2023 para 2024, a insatisfação havia diminuído. Estamos abaixo de EUA (62%), França (66%), Espanha (69%) e Itália (67%) e acima de Alemanha (39%) e Suécia (25%). As evidências confirmam a importância do hiato vencedores x perdedores (o eleitorado que apoia o incumbente melhora sua avaliação, e vice-versa). Os dados para o Brasil não estão disponíveis, mas em 2024 o hiato era de 25%.

Nos EUA, a satisfação com a democracia aumentou entre republicanos após a eleição de Donald Trump e desabou entre democratas. Na Alemanha, ela melhorou após o CDU/CSU ganhar as eleições em fevereiro de 2025. O mesmo aconteceu entre eleitores do Partido Trabalhista Britânico, que chegou ao poder após 14 anos. E na África do Sul também com a oposição mais satisfeita após o ANC perder a maioria do parlamento pela primeira vez.

Por outro lado, quando se observa queda no apoio em geral —casos da Polônia e da Coreia do Sul—, o aumento da insatisfação é preditor de derrota para o incumbente. O PIS elegeu o presidente na Polônia e o presidente sul-coreano sofreu impeachment.

Há também um hiato vencedor-perdedor na percepção pelos representantes eleitos (e não na opinião pública) sobre o funcionamento da democracia, como mostra pesquisa com 2.445 deputados e senadores de 17 países latino-americanos publicada na Swiss Political Science Review. Nela o principal fator negativo na avaliação da democracia para os perdedores (os que declararam não apoiar o governo, independentemente de partido) são os poderes legislativos dos presidentes. Entre os ganhadores, o lamento é em relação à fragmentação legislativa. No Brasil, declaram-se independentes 27%, segundo a Quaest; 9% não sabem responder!.

O presidente Luiz Inacio Lula da Silva,  em cerimonia em defesa a democracia em memória ao atos golpistas de 8 de janeiro. Na parte de cima da imagem, o quadro Orixás', de Djanira da Motta e Silva
O presidente Lula, em cerimonia em defesa a democracia em memória ao atos golpistas de 8 de janeiro. Na parte de cima da imagem, o quadro Orixás', de Djanira da Motta e Silva - Gabriela Biló/Folhapress

Os autores concluem que presidentes constitucionalmente fortes causam insatisfação com a democracia para independentes e oposição. Parece mantra de Motta Alcolumbre. O inverso é verdadeiro: parceiros da coalizão queixam-se de presidentes fracos. Singh e Carlyn, em outra pesquisa, concluíram que a satisfação com a democracia é maior quando um presidente tem poderes médios, nem fortes nem fracos.

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Nossa situação é insólita porque nossas instituições são perversamente consensualistas, para usar o jargão. O presidencialismo hiperminoritário produz falsos ganhadores: presidentes sem suporte parlamentar. Ganha, mas não leva tudo. E também falsos perdedores: a perda nunca é total. A agenda pública é dominada por itens de apoio geral. Mas o risco permanente aqui é a inação ou paralisia. O Executivo quase nunca logra impor sua agenda unilateralmente.

Parte da opinião pública deu "graças a Deus" pelo fato de que sob Bolsonaro o Executivo era débil e vulnerável. Da mesma forma que os perdedores de hoje festejam a fraqueza do presidente sob Lula 3.

A teoria democrática empírica sustenta que essa alternância gera aprendizado coletivo e moderação.

Desconfio de que somos "não bayesianos", ou seja: os cidadãos e elites não revisam suas crenças em função de novas informações e experiência. As crenças permanecem e até recrudescem.