segunda-feira, 14 de julho de 2025

Imagem justa e veríssima do Congresso, Muniz Sodré _FSP

 Muito já se escreveu sobre humor, mas nada sobre seu poder antecipatório. Quando Freud diz que se trata de "um dom precioso e raro" (em "O Chiste e suas Relações com o Inconsciente"), adianta que pode ser também álibi para uma verdade que não podia ser expressa. No psiquismo, o inconsciente abre caminho pelo riso, sem o sofrimento dos sintomas, para uma realidade recalcada. Mas antecipar é virtude desconhecida ou deixada de lado.

Oportuno, assim, evocar Justo Veríssimo, personagem do saudoso Chico Anysio nos anos 90, prefiguração hilária de um deputado que abominava desprovidos da sorte, trabalhadores, o povo em geral. "Eu quero que o pobre se exploda!", seu bordão. A criação televisiva ia ao encontro de uma ácida denominação, recorrente na coluna de Stanislaw Ponte Preta (pseudônimo de Sérgio Porto), década de 60: "Depufede".

Justo Veríssimo (Chico Anysio)
Justo Veríssimo, personagem de Chico Anysio - Thiago Prado Neris/TV Globo

Isso existia ainda em grau concebível de indecência quando Lula em 1993 resumiu sua experiência parlamentar numa frase lapidar sobre a composição do Congresso: "Uma maioria de 300 picaretas cuidando apenas de seus próprios interesses. E não caíram de paraquedas, foram eleitos". Havia, portanto, bases político-sociais para que o humorismo antecipasse o choque de hoje ante um Congresso, necessário à República, mas por inteiro alienado da representação popular. Representação definida apenas pelo conceito numérico da votação é uma falácia, avessa à real delegação de classe social.

Focado na centralização presidencial, o eleitorado é letárgico frente ao Legislativo. Mas agora o chorume moral do "depufede" chega às narinas populares. E assim surge a Frente Povo sem Medo, que prega a taxação dos bilionários, junto com a redução dos salários de deputados e senadores. Cada Justo Veríssimo embolsa por mês um total de R$ 341.297 (R$ 47.700 de salário, R$ 94.300 de verba de gabinete, R$ 53.400 de auxílio paletó, R$ 5 mil de combustível, R$ 22 mil de auxílio moradia, R$ 59 mil de passagens aéreas, R$ 17.997 de auxílio saúde, R$ 12.100 de auxílio educação, R$ 16.400 de auxílio restaurante, R$ 13.400 de auxílio cultural). Para o eleitor pobre, um salário mínimo de R$ 1.518. Logo, que se exploda.

A imagem mostra uma grande multidão reunida em uma manifestação noturna em uma rua de São Paulo. Muitas pessoas seguram bandeiras vermelhas e cartazes. Um dos cartazes é amarelo e contém a frase 'TRUMP E BOLSONARO INIMIGOS DO BRASIL'. No fundo, há um grande balão azul com a inscrição 'NESPT'. Edifícios altos e árvores estão visíveis ao redor, e há iluminação urbana ao fundo.
Ato da esquerda na avenida Paulista, em São Paulo

Mas a questão não se contém nesse mensalão obsceno. A derrama das emendas é tanto rombo orçamentário descontrolado quanto sintoma de surda conspiração contra a governabilidade executiva. Decorre das circunstâncias eleitorais, que seriam em princípio pretexto de reorganização da ordem do Estado. Eleições parlamentares, entretanto, passaram a favorecer a desorganização da ordem liberal, a saber, obstrução da participação democrática a partir da ideia de representação. Assim como os partidos (exceto talvez os pequenos) não espelham fração de classe nenhuma, a eleição de deputados e senadores não constitui forma de democracia direta pelo voto. É autonomia patrimonialista da atividade política.

Deste modo, o poder de legislar, moldado cada vez mais pelo princípio do vazio social, abre-se ao pleno dos interesses pessoais. Emendas sem transparência são mecanismos de reeleição e manutenção de feudos regionais, assim como instrumentos de chantagem contra um Executivo acuado. Nada menos que uma modulação do golpismo permanente, modernizado em 2016. Para Justo Veríssimo se atualizar, só lhe faltam um punhal verde e amarelo nos porões, boné de Trump nos palanques e pitadas de inglês para conspirar lá fora contra o país dos pobres.

Ruy Castro - O perfeito final infeliz, FSP

 Há dias contei como meu amigo João Luiz de Albuquerque, inconformado com a sequência final de "Casablanca", usou cópias em VHS do clássico de 1942 e, numa ilha de edição, remontou-a como ele achava que devia ser. No filme original, Ingrid Bergman toma o avião salvador para Lisboa com seu marido, o ativista antifascista vivido por Paul Henreid, e os dois escapam dos nazistas em Casablanca. Esse voo só foi possível porque Humphrey Bogart, com quem ela vivera uma breve, mas arrebatadora história de amor ao som de "As Time Goes By", cedeu-lhes o visto que ele próprio ia usar para fugir. Na versão de João Luiz, o avião levanta voo, mas Ingrid surge na névoa do aeroporto e se joga nos braços de Bogart. Deixara o marido ir sozinho.

Hoje se sabe que a Warner, produtora do filme, também pensou nesse final. E por que não? Era como os espectadores gostariam que a história terminasse –com os amantes apaixonados ficando juntos, e o marido que fosse lamber sabão. Além disso, Bogart não era James Stewart ou Gary Cooper, que jamais fariam essa indignidade. Ao contrário, Bogart era sempre um herói com tintas de vilão. Mas nem com ele a Warner se atreveria a glorificar um sujeito que tomasse a mulher de outro homem.

E havia outro impedimento. No filme, Ingrid, como Ilsa, era casada com Victor Laszlo, interpretado por Henreid. Isso significava que ela "já tinha sido dele". E era muito raro que um herói de filme de Hollywood nos anos 1940 se unisse a uma mulher com "um passado". Nem se fosse viúva.

Filmar "Casablanca" foi um martírio para Ingrid. Os roteiristas não chegavam a um acordo sobre a história e a alteravam todo dia, atrasando a filmagem. E Ingrid já tinha outro compromisso, para ela mais importante e com data marcada para começar: o papel de Maria em "Por Quem os Sinos Dobram", uma superprodução da Paramount com Gary Cooper, baseada no romance de Ernest Hemingway.

Quase um século depois, é por "Casablanca" que Ingrid é lembrada. Mesmo com o final que ninguém queria.

Hélio Schwartsman - Um livro para quem gosta de livros, FSP

 "O Primeiro Leitor", de Luiz Schwarcz, é um livro para quem gosta de livros. A obra combina ensaios sobre o ofício de editor com memórias de alguém que percorreu com grande sucesso essa trajetória profissional. Luiz é fundador e principal executivo da Companhia das Letras.

O autor resolve essa duplicidade temática de modo salomônico. Os capítulos ímpares trazem a parte ensaística, e os pares, a memorial. O subtítulo que Luiz deu ao livro tem algo de síntese dialética: ensaio de memória.

A imagem mostra um homem de óculos, com cabelo grisalho, lendo um livro em uma mesa. Ele está vestido com um paletó escuro e uma camisa clara. Ao fundo, há uma estante de livros coloridos, com volumes em várias cores dispostos de forma organizada. O ambiente é acolhedor e bem iluminado, sugerindo um espaço de leitura.
Ilustração de Annette Schwartsman sobre o editor Luiz Schwarcz para a coluna de Hélio Schwartsman, esta publicada também na versão impressa da Folha deste domingo (13 de julho) - Annette Schwartsman/Annette Schwartsman

Gostei particularmente dos ensaios, mas confesso que foram as memórias que li com maior avidez. É que os capítulos ímpares trazem as reflexões mais sérias, não só sobre edição de livros mas também sobre leitura. O editor, afinal, é, como diz o título, o primeiro leitor.

Nos pares, temos relatos da convivência de Luiz com personalidades do mundo das letras, brasileiras, como Rubem Fonseca e Jô Soares, e estrangeiras, como Susan SontagAmos Oz e José Saramago.

Sim, é nos pares que estão as fofocas literárias, mas elas integram memórias que, embora não sejam (esperemos) peças de ficção, funcionam um pouco como um Bildungsroman, que nos faz entender a formação de Luiz como editor, autor e indivíduo.

Nos ensaios, Luiz explora um pouco de tudo. Há reflexões sobre abertura de romances, tema que parece fascinar todos os leitores, mas também sobre finais e miolos, que tendem a ficar mais esquecidos. Ele também discute o poder quase censório exercido por editores quando recusam, às vezes sem ler, um original. Nem o cheiro, a coloração e a porosidade do papel do livro são esquecidos.

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Num âmbito já mais filosófico, descobri que partilho com Luiz uma espécie de fascínio pelo acaso. Ambos reconhecemos e aceitamos que o acaso desempenha sobre nossas vidas um papel muito mais relevante do que aquele que a evolução darwiniana nos preparou para admitir.

"O Primeiro Leitor" é um daqueles livros que nos faz examinar e reexaminar várias ideias ao mesmo tempo, o que é sempre uma ótima experiência de leitura.