segunda-feira, 7 de julho de 2025

Vila solar na Índia se torna referência em energia limpa e abre caminhos para setor, FT FSP

 

Andres Schipani
Modhera (Índia) | Financial Times

Por um milênio, o Templo Hindu do Sol de Modhera tem inspirado devotos que prestam tributo à divindade solar Surya. Agora, o sol está retribuindo na forma de eletricidade, iluminando tanto o templo quanto a vila adjacente.

Idealizada pelo primeiro-ministro indiano Narendra Modi —e sua visão de "um sol, uma rede" para alimentar a nação mais populosa do mundo — a vila de Modhera, em seu estado natal de Gujarat, no oeste da Índia, tornou-se a primeira do país a funcionar inteiramente com energia solar 24 horas por dia, sete dias por semana.

Lar de mais de 6.000 pessoas, Modhera possui um sistema integrado de mais de 1.300 painéis em telhados de residências e edifícios governamentais, além de coberturas para carros, todos conectados a uma usina de energia e um sistema de armazenamento de bateria de 15 MWh (megawatts-hora) fornecendo eletricidade ininterrupta. Durante o dia, os inversores dos painéis solares fornecem energia para a vila, carregam as baterias e exportam o excesso de eletricidade para a rede nacional, enquanto à noite e em períodos de déficit de energia solar, a demanda é suprida pelo sistema de armazenamento.

A imagem mostra um grande grupo de pessoas praticando yoga ao redor de um lago em um local histórico. As pessoas estão sentadas em tapetes roxos, algumas com flores ao lado. Ao fundo, há uma estrutura arquitetônica antiga e árvores ao redor, com um céu levemente nublado. O ambiente parece tranquilo e sereno, ideal para a prática de meditação e yoga.
Pessoas participam de sessão de yoga no Templo do Sol de Modhera, na Índia - Amit Dave/Reuters

A conta de luz do morador Bhupendra Singh Solanki, cuja casa de cinco pessoas fica de frente para o templo, foi reduzida a quase zero desde o lançamento do projeto em 2022. "Isso deveria ser replicado em toda a Índia", diz ele.

De fato, o governo apresenta Modhera como um modelo a ser emulado em todo o subcontinente, diz Rohit Patel, engenheiro executivo da Gujarat Power Corporation Limited, proprietária do projeto de US$ 10 milhões (R$ 54,5 bilhões).

Mas há um obstáculo. Apesar dos bilhões de dólares investidos em fazendas solares por conglomerados como Adani e Tata, há um atraso na capacidade de armazenamento na economia de maior crescimento do mundo. "Atualmente, há mais geração de energia do que armazenamento na Índia", acrescenta Patel.

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A situação exemplifica as complexidades que o país enfrenta em sua revolução de energia verde. Na Índia, o terceiro maior emissor de dióxido de carbono do mundo depois da China e dos EUA, bilhões de dólares estão sendo investidos em projetos para atender à meta do governo de mais do que dobrar as fontes de energia não fósseis, incluindo a solar, para 500 GW até o final da década.

Dois trabalhadores estão em um campo de painéis solares. Um deles, usando um capacete amarelo e colete laranja, está puxando um cabo, enquanto o outro, vestido com uma camisa xadrez, observa. O céu está claro e há vegetação ao redor dos painéis.
Trabalhadores limpam painéis fotovoltaicos em Modhera, primeira vila abastecida por energia solar - Sunil Kataria/Reuters

No entanto, a escassez de instalações de armazenamento, devido em parte à falta de minerais críticos e capacidade de fabricação para produzir baterias, ameaça o compromisso de Modi com a neutralidade de carbono até 2070. O Ministério de Energia estimou em 2023 que a Índia terá capacidade de armazenamento de 82 GWh até 2026-27 —muito atrás dos 336 GWh que acredita que o país de 1,46 bilhão de pessoas precisará até 2029 ou 2030.

O assunto está atraindo crescente atenção de políticos e investidores, dada a necessidade de armazenar eletricidade em uma escala muito maior para suavizar o fornecimento intermitente de energia eólica e solar. "O desafio com fontes de energia renovável surge devido à sua natureza variável com o tempo, clima, estação ou localização geográfica", disse o ministério de energia renovável em um comunicado, observando que "sistemas de armazenamento de energia podem ser usados para armazenar energia disponível de fontes renováveis e posteriormente podem ser usados durante as horas de pico do dia".

Deepak Thakur, CEO da Mahindra Susten, o braço de tecnologia limpa do Grupo Mahindra, que gerencia o projeto, diz: "O que diferencia Modhera não é apenas sua escala, mas como o sistema integra perfeitamente painéis de telhado, coberturas solares para carros, armazenamento em baterias, carregamento de veículos elétricos, medidores inteligentes e gerenciamento centralizado de aquisição e controle de supervisão. Não é uma peça de museu —é um modelo totalmente operacional e replicável".

O ministro de energia renovável, Pralhad Joshi, disse em janeiro que "a Índia está a caminho de se tornar líder global" na área depois que o governo lançou no ano passado a iniciativa nacional Surya Ghar, ou Casa Solar, de painéis fotovoltaicos, que já ultrapassou 850 mil instalações em telhados, com o objetivo de alimentar 10 milhões de casas nos próximos anos.

Mas Thakur adverte que o modelo de Modhera agora enfrenta um "momento de verdade", pois a Índia está "cada vez mais inundada com energia solar das 12h às 18h" —mas sem armazenamento suficiente, esse excedente pode ser desperdiçado ou desestabilizar a rede.

"Modhera mostra como construir fazendas solares distribuídas, sistemas de telhado e instalações de cobertura para carros, acoplados com integração inteligente e armazenamento de energia suficiente, para permitir independência da rede durante horas sem sol. Sem armazenamento de energia, a meta de 500 GW de renováveis até 2030 pode ser comprometida", acrescenta Thakur.

O governo da Índia reconheceu a necessidade de expandir rapidamente o armazenamento de energia simplificando regulamentos, e licitações estão em andamento. O ministro de energia, Manohar Lal Khattar, anunciou este mês um esquema de US$ 627 milhões (R$ 3,4 bilhões) para ajudar a fechar a lacuna de financiamento para sistemas de armazenamento de baterias.

Debmalya Sen, presidente da Aliança Indiana de Armazenamento de Energia, um grupo da indústria, diz: "... nas horas da noite, quando você precisa de energia, a demanda aumenta, a energia solar despenca —é quando você precisa que o armazenamento entre em ação. Você precisa das baterias para atender à sua demanda de pico, caso contrário, ainda dependerá de usinas de carvão." A Índia continua dependente da energia a carvão para mais de 70% de sua geração.


Nós contra eles? Para além disso: nós por nós, Veny Santos ,FSP

 Quando levanto e saio para o mundo, mantenho o costume de olhar atenciosamente para o meu bairro. Por dentro e por fora. Sinto como se o espaço e o tempo nunca tivessem se entendido aqui. Oscilam entre as casas que levaram décadas para instalar portões a trancafiar espiadas curiosas —também de dentro e de fora— e as pessoas cujo apertado cômodo nunca ganhou outro aposento para ventilar o cansaço dos dias de quem trabalha e, de fato, constrói a materialidade da vida e das histórias não contadas. Um pessoal que não pode reclamar do pouco que tem, senão já é visto como perigoso. Ingrato e perigoso esse pessoal.

A imagem mostra várias mãos segurando barras amarelas em um ônibus. As mãos são de diferentes pessoas, algumas com unhas pintadas e outras com luvas. O fundo é desfocado, mas é possível ver parte do interior do ônibus, com assentos e outros passageiros.
Passageiros em ônibus do Terminal Rodoviário Nicolau Delic, em São Caetano do Sul - Rafaela Araújo/Folhapress

Ao caminhar por onde cresci, reparo no silêncio que impera atualmente. Antes, nos contrastantes anos 1990, praticamente toda residência disputava os matinais ouvidos alheios com íntimas trilhas sonoras. A sinfonia dos insistentes que, mesmo exaustos, precisavam de mais um gole de etílico ânimo, fosse para cuidar do lar, fosse para anestesiar a mente surrada que só conseguia se equilibrar com o corpo quando ambos seguravam um ao outro para não cair na completa desgraça em que tudo e todos pareciam sempre laborar contra eles. Os insistentes orquestravam como sobreviver ao dia de cada vez —terapêutico para uns, neurotizante para outros.

Onde está o barulho senão para dentro dos portões do peito? O silêncio dos insistentes nunca foi, nem será, ode à domesticação. Assim como a ópera das insaciáveis sanguessugas falhou e falhará na execução do clímax que deveria elitizar a experiência entre parasitas e hospedeiros: o momento no qual o crepúsculo da paz entre quem explora e quem é explorado, afinal, anoitece os ânimos. Festejam os fartos ricos, servem os mirrados pobres. Não por acaso, Hegel segue difícil, quase indecifrável, tão relido quanto lido. Se fosse simples a tal questão falsamente tratada como "do momento" —a de quem serve e quem é servido, rendida à maldição da eterna introdução, contentar-se-ia o povo com manchetes rasas e afins. O povo não está contente, sabe-se. Uma hora o sangue seca.

"Nós contra eles". E o que tem o pobre contra o rico? O que tem o pobre, objetivamente? Vão falar —ou escrever— sobre essa gente toda ou pior: por essa gente toda. Vão classificar, categorizar, vivissectar, resumir e concluir que qualquer desagrado que expressem revelará sua genética traidora, ingrata, codificada e gravada à base de nigrosina nesta massa tingida. O que tem o pobre contra o rico senão a insistência?

Todo dia saem de casa um pobre e um intelectual da pobreza —que pobre não é. Um tem milhares de questões, contradições, perspectivas, ideias para trocar e outras para trancafiar na sagaz habilidade de não dar pano para conversa mole ou ficar se explanando em redes sociais. O outro, apenas a singular obsessão por experimentar o que experimentaram antropólogos em tempos nos quais o olhar etnográfico não se distinguia tanto do savânico.

Avista-se um pessoal que não pode reclamar do muito que lhe tiram, senão já é visto como perigoso. Ingrato e perigoso esse pessoal.

Quando levanto e saio para o mundo, entre o "nós contra eles" e o "eles contra nós", mantenho o costume de repetir: na real, sempre foi e sempre será nós por nós.


Alvaro Costa e Silva - Copa de Clubes é um êxito e, o melhor de tudo, não tem Neymar, FSP

 O fracasso do ato pró-Bolsonaro mostrou que o futebol é a maior diversão. O deputado Sóstenes Cavalcante, líder do PL no Congresso, citou a falta de dinheiro no fim do mês, o início das férias escolares e o jogo do Flamengo contra o Bayern de Munique, pela Copa do Mundo de Clubes, para explicar o vazio na Paulista.

Foi a desculpa sem noção do ano, mas, pensando bem, quem trocaria um jogo de futebol, ou mesmo uma pelada de solteiros contra casados, por mais um show com rezas, vitimismo e negação da realidade? Só 12 mil "malucos" —sem ofensa, a definição é do próprio ex-presidente— e o bloco dos governadores de direita em busca de votos.

A Copa é um êxito. A última chance de ver na mesma competição "La Pulga" Messi, Luis Suárez (fez fila na defesa do Palmeiras e marcou um golaço), o kafkiano Di María, Luka Modric, Thomas Müller, Thiago Silva. Conferir quem é o goleiro mais espetacular —Yassine Bounou, Manuel Neuer ou Thibaut Courtois?— e apreciar o talento de Jhon Arias, Federico Valverde, Ousmane Dembélé. O melhor de tudo: estamos livres dos esperneios do menino Neymar.

O formato igual ao Mundial de seleções —32 equipes em oito grupos, com duas passando às fases de mata-mata— garante, com as exceções de praxe, partidas intensas, com possibilidade de zebras e emoção até o apito final. Nos acréscimos ou na prorrogação, tudo pode mudar. Um torneio curto e de entusiasmo crescente: o campeão entra em campo sete vezes. É de se perguntar por que a Fifa, uma máquina de arrecadar dinheiro, demorou a realizá-lo, tendo em vista a crise de identidade das seleções nacionais.

Apelidado de "patinho feio", o Fluminense surpreendeu quem não levava fé nos comandados de Renato Gaúcho. Está na semifinal, tendo faturado R$ 330 milhões em premiação (sem considerar os pesados impostos americanos). Mais do que superar o complexo de vira-lata brasileiro, o tricolor das Laranjeiras está incorporando outra das ideias de seu torcedor Nelson Rodrigues. É o verdadeiro Sobrenatural de Almeida.