sexta-feira, 4 de julho de 2025

PAULO SOLMUCCI Tiro no pé do pobre, FSP

 

Paulo Solmucci

Presidente-executivo da Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes) e membro do Conselho de Administração da Unecs (União Nacional de Entidades do Comércio e Serviços)

O governo afirma que pretende taxar os mais ricos, mas, na prática, algumas de suas medidas acabam penalizando justamente as camadas mais vulneráveis da população. Um exemplo preocupante é o aumento de 70% na alíquota da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL), que salta de 9% para 15% e atinge diretamente as empresas de tecnologia que oferecem serviços de pagamento —as chamadas fintechs.

Esta mudança representa um retrocesso significativo, pois ameaça diretamente a inclusão financeira e dificulta a vida do pequeno empreendedor brasileiro. Além disso, esse aumento de custos tende a ser repassado ao consumidor final, encarecendo produtos e serviços básicos no boteco, na padaria e no supermercado.

Falo com a experiência de quem acompanha de perto a transformação que as empresas de pagamento trouxeram para o país. Nos últimos anos, as fintechs bancarizaram milhões de brasileiros que antes estavam à margem do sistema financeiro. O pipoqueiro, o taxista, o dono do pequeno restaurante —todos passaram a aceitar Pix, a ter acesso a maquininhas sem aluguel, a receber pagamentos por celular. Isso não é apenas conveniência: é cidadania econômica.

Esse processo de inclusão começou em 2013, quando o governo petista acertou ao aprovar a lei que criou as instituições de pagamento (IPs), que viabilizou o surgimento das fintechs no Brasil. Desde então, essas empresas passaram a operar com uma alíquota de 9% de CSLL, o que trouxe previsibilidade e estabilidade ao seu modelo de negócio.

O pipoqueiro Severino João de Lima, 64 anos, em frente ao teatro Sérgio Cardoso, na Bela Vista (região central de São Paulo)
O pipoqueiro Severino João de Lima, em frente ao teatro Sérgio Cardoso, na Bela Vista, região central de São Paulo - Nádia Garcia - 5.abr.21/Portal do Bixiga

A desverticalização do sistema financeiro permitiu a entrada de novos atores no mercado de pagamentos e serviços bancários, rompendo o monopólio dos grandes bancos e criando um ambiente mais competitivo, inovador e acessível. O surgimento de bancos digitais e empresas de arranjos de pagamento independentes democratizou o acesso ao crédito, reduziu tarifas e ampliou a formalização da economia —especialmente para os micros e pequenos empreendedores. O impacto foi profundo: quase 60 milhões de brasileiros passaram a ter acesso a serviços financeiros nos últimos doze anos.

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O que muitos não percebem é que o aumento do imposto não ficará restrito às empresas de pagamentos. Ele será repassado, inevitavelmente, ao consumidor final. As fintechs, pressionadas por margens menores, terão de rever seus modelos de negócio: tarifas que hoje são gratuitas podem passar a ser cobradas, limites de crédito podem ser reduzidos, e o custo de transações tende a subir. No fim das contas, quem sentirá no bolso será o pequeno comerciante e seu cliente da base da pirâmide, justamente aqueles que mais se beneficiaram da revolução digital no sistema financeiro.

Importante observar que, enquanto as fintechs enfrentam esse aumento expressivo de carga tributária, os grandes bancos permanecem com estruturas tributárias mais estáveis e consolidadas. O resultado prático é o enfraquecimento da concorrência e o favorecimento de um mercado mais concentrado —o que levanta dúvidas sobre quem realmente se beneficia dessa mudança. Não é difícil imaginar que interesses estabelecidos tenham influenciado a decisão, ainda que de forma indireta.

A Abrasel se posiciona firmemente contra essa mudança. Ela vai na contramão do que o Brasil precisa: mais competição, mais inclusão, mais eficiência. O governo deveria estar incentivando as fintechs, não punindo quem inovou e democratizou o acesso ao crédito e aos serviços financeiros.

Se o objetivo é arrecadar mais, que se busque ter opções que não prejudiquem os pequenos. Porque, neste caso, o governo acha que mira no bolso do rico —mas acerta, na verdade, o pé do mais pobre.


O plástico nosso de cada dia, nos dai hoje, FSP

 Como anda a sua dieta de plásticos? Em especial, de microplásticos? Está bem diversificada nos formatos e tipos de polímeros, ou você tem preferências, como uma dieta "low-polietileno"?

Essas perguntas parecem absurdas, mas há muitos anos refletem nossa realidade. Mesmo que, no cotidiano, não pensemos sobre o plástico presente em nossas rotinas, o fato é que ingerimos e inalamos milhares de partículas plásticas diariamente. A quantidade exata é difícil de medir, pois depende dos ambientes que frequentamos, dos hábitos, da idade e das condições econômicas. Recentemente, cientistas estimaram que ingerimos de 0,1 a 5 gramas de microplásticos toda semana. Sabe o saquinho de sal dos restaurantes? Ali há 1 grama. Então, na ingestão mais generosa de MPs, é como se um adulto consumisse um saquinho todo dia, descontado o final de semana porque não se pode abusar. Mas o que são os microplásticos, ou simplesmente, MPs?

Duas fatias de pão em um prato estão cobertas por pequenas partículas coloridas
Meyrele Nascimento/SoU_Ciência

MPs são partículas plásticas, entre 0,001 e 5 milímetros. Para se ter ideia desse tamanho mínimo, um fio de cabelo tem em média 0,070 milímetro. Há MPs produzidos já nessa dimensão para compor cosméticos e produtos de higiene pessoal, entre outros, mas há aqueles que resultam da degradação e da fragmentação de peças maiores. E aqui existe um verdadeiro universo de materiais que resultam em MPs. Por exemplo, ao lavar sua camiseta de tecido sintético, são liberadas milhões de microfibras que se desprendem do tecido. Elas vão para o esgoto, mas ali não é o seu destino final. Há microfibras em todos os lugares imagináveis, incluindo órgãos do corpo humano. Estamos expostos a elas até mesmo antes de nascer, como na placenta.

Uma das grandes fontes de MPs são os plásticos de uso único, ou seja, os descartáveis que geram tanta conveniência. Uma infinidade de itens está nessa categoria, desde os realmente necessários até os mais dispensáveis, como pinças plásticas para "pegar pipoca sem sujar as mãos". Se pensar bem, você conseguirá enumerar uma enorme lista de dispensáveis. É claro que a redução da produção e utilização, além da destinação correta dos plásticos de uso único, não resolve todo o problema, mas é um dos caminhos mais importantes. O ideal é deixar nessa categoria o que é realmente indispensável, como nas aplicações em saúde.

Por falar em saúde, os efeitos dos MPs é um campo aberto de estudos. Os primeiros resultados indicam que plásticos e componentes associados estão relacionados a quadros de aumento de estresse oxidativo, ou seja, uma espécie de condição de constante processo inflamatório. Em 2024, cientistas observaram a presença de MPs em ateromas (placas formadas no interior de artérias) e concluíram que os pacientes com essa condição tinham até 4,53 mais chance de um evento cardiovascular do que aqueles que não tinham MPs nos ateromas. Em outros organismos, os efeitos são também bastante variados, desde sistêmicos até o nível celular.

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Por enquanto, não é possível se livrar completamente dos plásticos. No entanto, a conscientização e a mudança de hábitos de uso é condição fundamental para reduzirmos os impactos desses materiais que nos abriram tantas oportunidades, mas que também criaram desafios que ainda estão longe de ser superados.

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A conversão paulistana de Johnny Alf, FSP

SÃO PAULO

Ele foi um dos artistas mais injustiçados da Bossa Nova. Nunca teve o reconhecimento merecido do grande público, embora fosse adorado pelos músicos. Foi também um dos que lançaram as sementes do movimento. Fazia um som moderníssimo para a época, antes mesmo da Bossa Nova nascer. Algumas de suas composições como "Rapaz de Bem" e "Céu e Mar" são consideradas precursoras do gênero.

Alfredo José da Silva, cujo nome artístico era Johnny Alf cresceu na Tijuca, no Rio de Janeiro, mas escolheu São Paulo para tocar magistralmente seu piano e desenvolver seus talentos. Diferentemente de vários artistas do movimento, talvez por sua timidez, não fez carreira no exterior. Não participou, por exemplo, do histórico show no Carnegie Hall, em Nova York. Manteve-se na cidade tocando em muitos bares, como o Cave, a Baiuca e o Michel, nos anos 1950 e 1960.

A imagem em preto e branco mostra um músico tocando piano em um ambiente de bar ou casa de shows. Ele está vestido com um terno escuro e uma camisa clara, concentrado em sua performance. Ao fundo, há um reflexo em um espelho e outros músicos visíveis, incluindo um que toca contrabaixo. O ambiente é iluminado com prateleiras de bebidas ao fundo.
Johnny Alf, compositor, cantor e pianista, durante apresentação em um bar em São Paulo - Silvestre P. da Silva/Folhapress

Foi no Cave, numa apresentação sua, que Vinícius de Moraes disse que São Paulo era o "túmulo do samba". Vinícius se irritou com algumas pessoas que falavam alto durante o show de Alf, "uns grã-finos já no meio do óleo" e disse para o pianista "pegar sua malinha e se mandar para o Rio".

Mas ele não se mandou. Via em São Paulo um mercado mais promissor para seu tipo de música e preferia ficar longe dos holofotes, apesar dos chatos. Em outro episódio marcante, dessa vez na Baiuca, também nos anos 1960, estava no meio do público a cantora americana Sarah Vaughan, que se encantou com o jeito de Alf tocar piano. Gostou tanto que o convidou para ir com ela para os Estados Unidos. Como diz Ruy Castro no livro "Chega de Saudade", "Alf gelou e fez que não entendeu".

A imagem em preto e branco mostra um grupo de cinco pessoas em um ambiente social. À esquerda, uma mulher com um vestido claro e um chapéu branco sorri. Ao seu lado, um homem de terno escuro a observa com um sorriso. Outro homem, também de terno, está inclinado para frente, interagindo com os outros. Um quarto homem, com um sorriso largo, está em pé atrás deles. À direita, uma mulher com cabelo escuro e um colar de pérolas parece séria, olhando para a câmera. O fundo é uma parede de pedras e há garrafas sobre a mesa.
A cantora Inezita Barroso, Vinicius de Moraes, Mauricio Barroso e Jardel Filho na Cave, em 1956 - Folhapress

O pianista e cantor chegou em São Paulo em 1955, quando os bares da cidade começavam a ferver. Buscava novas oportunidades e um público e um cenário diferentes para se dedicar à música profissionalmente. No Rio, ele encontrava resistências da sua família para trabalhar na noite, o que fazia desde 1952, e era obrigado a conciliar sua nascente carreira com o trabalho de cabo do Exército.

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Em 1962 voltou para Rio para se apresentar no Bottle's Bar com o conjunto Tamba Trio, de Luiz Eça, Bebeto Castilho e Hélcio Milito. Passou uma temporada por lá, mas retornou para a capital paulista dessa vez para não sair mais. Seu estilo inovador criava melodias complexas e misturava elementos do jazz, da música clássica e da música popular brasileira. Tom Jobim o considerava "genial".

Tom Jobim (piano), João Gilberto (violão) e Milton Banana (bateria)
Tom Jobim (piano), João Gilberto (violão) e Milton Banana (bateria) em show no Carnegie Hall - David Drew Zingg/Divulgação

Em 1967 participou do 3º Festival da Música Popular Brasileira da TV Record, onde apresentou seu, talvez, maior clássico: "Eu e a Brisa". Quem a interpretou foi a cantora Márcia, mulher do locutor esportivo Sílvio Luiz. A música foi desclassificada, mas se imortalizou.

Para a cantora Alaíde Costa, um das razões para Alf não ter alcançado o merecido sucesso foi o preconceito racial, que ela também diz ter sofrido. A Bossa Nova foi uma música feita basicamente por pessoas brancas. Pesa também o temperamento retraído de Alf, que se acomodou tocando em bares para públicos relativamente pequenos.

Nos anos 1980 fez a abertura de vários shows no 150 Night Club para artistas como Carmen McRae e Michel Legrand. No final da vida morava num asilo na cidade de Santo André. Sua última apresentação foi em agosto de 2009, no teatro do Sesi, em São Paulo, justamente ao lado de Alaíde Costa. Morreu em 2010, aos 80 anos.