segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025

STF, o guardião das despesas do INSS, Rômulo Saraiva - FSP

 

Nos últimos 15 anos, a maioria dos ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) tem mostrado um comportamento inquietante. Em matéria previdenciária, de grande repercussão geral, os julgamentos que teriam potencial de beneficiar milhares de aposentados tem, coincidentemente, sucumbindo diante do argumento de que tais demandas causariam impacto negativo nos cofres do INSS (Instituto Nacional do Seguro Social).

Quando o Judiciário é acionado por algum litígio entre partes, a expectativa é de que se faça justiça. Que todos os aspectos da lide, envolvendo o econômico, social, político e sobretudo jurídico, sejam adequadamente sopesados. Pode parecer uma visão romântica ou piegas, mas isso é o que os brasileiros esperam do nosso sistema judiciário.

Não é o que vem acontecendo.

fotografia mostra ministros do STF, cada um vestindo toga e sentados em suas bancadas durante sessão
Sessão plenária do STF, sob a presidência do ministro Luís Roberto Barroso - Pedro Ladeira - 27.nov.2024/Folhapress

A considerar os julgamentos mais relevantes nesse perfil, os ministros do STF têm se preocupado mais com o valor da conta a ser paga pelo INSS do que propriamente com a qualidade do direito levado ao debate. O aspecto jurídico tem se apequenado em relação ao econômico.

Sintomaticamente, os ministros do STF –em causas que podem afetar um universo enorme de pessoas– têm frequentemente se valido dos argumentos de preservação do "equilíbrio econômico atuarial" ou da "sustentabilidade financeira do INSS".

São argumentos-coringa para negar direitos dos trabalhadores. Estiveram presentes em 2013 na revisão do melhor benefício (Tema 334), em 2014 na limitação de revisar aposentadoria em até dez anos (Tema 313), em 2017 na desaposentação (Tema 503) e na constitucionalidade do fator previdenciário do professor (Tema 960), em 2021 no acréscimo de 25% a outras aposentadorias (Tema 1.095) e em 2024 na revisão da vida toda (Tema 1.102).

Em 2013, no Tema 334, que versa sobre o "direito a cálculo de benefício de aposentadoria de acordo com legislação vigente à época do preenchimento dos requisitos", já se fazia presente o argumento do equilíbrio financeiro e atuarial. Naquela altura, uma minoria de ministros o encampava. Cita o voto de Dias Toffoli que rechaçou a revisão, pois "isso abre todo o sistema para um quadro de enorme insegurança jurídica, com reflexos sérios em todo o sistema que busca um equilíbrio atuarial".

Com exceção do tema citado e da revisão do teto, os principais julgamentos previdenciários esbarram nessa tendência do STF de sobrepor a preocupação do impacto que o INSS terá em pagar aos aposentados, independente do quão substancioso é o argumento jurídico.

Nunca foi tão fácil para a AGU (Advocacia Geral da União) defender o INSS nos tribunais superiores. Se tornou provável que grandes teses previdenciárias estarão fadadas ao fracasso.

Uma rápida digressão nas principais teses previdenciárias enfrentadas pelo STF e, infelizmente, esse raciocínio se completa.

No caso da desaposentação e da revisão da vida toda, uma curiosidade. Ambas se caracterizam pelo fato de o aposentado reivindicar que contribuições pretéritas, já quitadas, componham o cálculo do benefício. Mesmo existindo prévia fonte de custeio, os ministros não hesitaram em dizer que as duas provocariam vultoso impacto econômico.

Além da missão de guardião da Constituição, o STF tem sido cada vez mais o guardião irrestrito das contas do INSS.


O que o DeepSeek pode ensinar para o Brasil, Ronaldo Lemos, FSP

 O choque causado pelo Deepseek traz lições para o Brasil. O ponto mais falado foi o custo: o modelo de inteligência artificial da empresa é potente e foi obtido com custo bem menor. Mas o que impressiona mais é outra questão: o Deepseek adota um modelo "open source".

A melhor forma de entender isso é na prática. A inteligência artificial nos EUA estava seguindo o caminho da busca por monopólio. A premissa era simples: o poder da inteligência artificial seria diretamente relacionado ao tamanho da infraestrutura em que ela opera. Quanto mais chips, servidores, datacenters, dados e energia, mais poderosa a IA.

App da Deepseek
O DeepSeek desafiou a liderança do desenvolvimento da IA - Dado Ruvic/REUTERS

Em suma, a liderança em IA era vista como uma questão de capital. Tanto é que os EUA anunciaram um investimento de US$ 500 bilhões. E foi justamente essa premissa que o DeepSeek desmontou. A empresa mostrou que é possível construir modelos de IA com base em criatividade: novas estratégias de treinamento, otimização de recursos e assim por diante.

Ao fazer isso, o DeepSeek desafiou a liderança do desenvolvimento da IA. Uma liderança diferente, antimonopolista. A empresa tem tanta certeza de que dará saltos sucessivos de inovação que não se importa em abrir seu modelo para quem quiser copiar, distribuir, usar comercialmente e retreinar. Tanto é que o DeepSeek é licenciado através da licença open source chamada MIT License, uma das mais permissivas do mundo.

Nas palavras do fundador da DeepSeek: "Nossa vantagem competitiva está no conhecimento acumulado. Tornar o modelo open source não nos traz nenhum prejuízo. Ao contrário, como estamos liderando, isso é recompensador. Abrir o modelo é uma honra e atrai talentos".

De 2003 a 2010 o Brasil foi uma potência mundial em modelos open source. Todos os anos a cidade de Porto Alegre sediava o Fórum Internacional do Software Livre. O resultado era impressionante: as principais empresas que trabalhavam nesse modelo se dirigiam a Porto Alegre. Muitos dos mais importantes programadores do planeta vinham anualmente ao Brasil.

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O Brasil adotou o modelo open source também como política pública. Criou programas de compartilhamento de software dentro da administração pública (cheguei até a lançar um livro sobre o tema, chamado Direito do Software Livre e a Administração Pública).

Só que depois o país perdeu a mão. Abrimos mão da liderança em open source para virar um país "europeizado". Em vez de ambicionar desenvolver tecnologia, passamos só a lutar contra ela. A tapar o sol com a peneira, copiando as leis europeias e abandonando nossas visões próprias que davam certo.

É nesse contexto que o DeepSeek é um choque também para nós. O país pode se especializar de novo em open source aplicado à inteligência artificial. Podemos criar uma lei de inteligência artificial com a ambição de proteger e fomentar os modelos abertos, transformando o país em um polo de desenvolvimento de IAs dessa natureza. É algo que honra nosso passado. E abre caminho para nos protegermos da maior de todas as ameaças: a de que fiquemos completamente de fora da competição em inteligência artificial.

Já era – Falar dos Millennials

Já é – Falar da Geração Z

Já vem – Falar da Geração Alpha


Ronaldo Lemos - Proibição do celular na escola marca uma virada geracional, FSP

 Fui jantar com um casal de amigos e sua filha de 18 meses. Reparei que a menina era diferente. Ela olhava os adultos nos olhos. Prestava atenção no que estava sendo falado na mesa. Tinha uma presença rara para a idade e para os tempos em que vivemos.

Perguntei o que tinham feito na educação dela. A resposta era o que esperava: zero telas. Nada de celular, tablets. Nada também de vídeos para acalmar. Em vez disso, convivência com adultos e com o cotidiano da casa, interação real e atenção dos pais.

A imagem mostra uma criança segurando um smartphone em suas mãos, com o foco na tela do dispositivo. O fundo é desfocado, apresentando uma cor vermelha e verde, sugerindo um ambiente ao ar livre. A criança tem cabelo castanho claro e está vestindo uma camiseta branca.
Aluno de escola municipal de São Paulo mexe em seu celular - Zanone Fraissat/Folhapress

A menina era um contraste gritante do que é comum ver em espaços públicos e nas casas: crianças hipnotizadas, isoladas da realidade em mundos digitais, enquanto os adultos aproveitam o tempo "ganho" para fazer o mesmo.

Notei na hora que presenciava ali uma mudança. É claro que uma criança sozinha não representa o fim de uma era. Mas o ponto de inflexão existe e pode ser visto em outro lugar. O Brasil acabou de proibir por meio de lei o uso de celular e dispositivos digitais em todas as escolas. A mudança foi impulsionada pela abrangente pesquisa divulgada no livro "Geração Ansiosa", de Jonathan Haidt.

O que vamos ver a partir de agora é a primeira geração de crianças que vão crescer em um mundo em que o uso de telas na infância passou a ser ativamente questionado. Esse para mim é o principal marco da passagem da geração Alpha (nascidos de 2010 a 2024) para a geração Beta (nascidos a partir de 2025).

A geração Alpha é aquela que cresceu 100% imersa no celular. Os pais dessa geração não tinham o conhecimento nem o consenso (ainda que parcial) que se formou hoje sobre a influência negativa das telas. Por exemplo, no desenvolvimento cognitivo, emocional e social das crianças.

Antes havia indícios. A Associação de Pediatria dos EUA alertava que telas prejudicavam o desenvolvimento dos bebês e das crianças pequenas em ler o rosto dos adultos. Isso levava a dificuldades na compreensão de emoções, desenvolvimento da linguagem e construção de vínculos sociais. Mas essas informações eram isoladas e não tinham força de mudar comportamentos.

Já os integrantes da geração Beta, chegam ao mundo em meio a uma reação coletiva contra tudo isso, materializada inclusive em lei. Os pais dessa nova geração têm hoje a pulga atrás da orelha, não foram pegos desprevenidos como na geração anterior.

Paradoxalmente a geração Beta será também a primeira a crescer com a inteligência artificial. O impacto disso é imprevisível. Mas uma coisa é certa. A inteligência artificial requer justamente o reforço das habilidades linguísticas humanas: clareza na comunicação, pensamento crítico, leitura de contexto e capacidade de formular perguntas relevantes.

O desafio que a IA traz é que as crianças precisarão desenvolver mais do que a capacidade de consumir conteúdo. Elas precisarão saber se expressar, argumentar, compreender nuances e questionar. Se a geração Alpha foi moldada pelos algoritmos, a geração Beta será definida pela capacidade de resistir a eles.

READER

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