segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025

Tribunal de precedentes com números sem precedentes, FSP

 Antonio Herman Benjamin

Presidente do Superior Tribunal de Justiça

O Superior Tribunal de Justiça (STJ) encerrou 2024 com cifras que impressionam pelo gigantismo e preocupam pelos impactos negativos no desempenho satisfatório de suas funções. Marco inédito, os seus 33 ministros receberam mais de 500 mil processos e proferiram quase 700 mil decisões, aproximadamente uma em quatro minutos e meio.

Cálculo que computa oito horas de todos os dias úteis e não subtrai a duração de sessões presenciais de julgamento, atendimento a advogados, reuniões e outras atividades institucionais. Uma quantidade que supera a soma dos 11 anos iniciais da corte e mostra-se absolutamente incompatível com a capacidade humana de gestão de demanda recursal.

0
O presidente do Superior Tribunal de Justiça, ministro Herman Benjamin, em seu gabinete, em Brasília - Pedro Ladeira - 28.out.24/Folhapress

O abarrotamento do STJ não encontra similar em democracias respeitadas do mundo. Ao compará-lo com organismos análogos, a disparidade anual é gritante. Na França, com uma população de 68 milhões e dois tribunais nacionais que, juntos, correspondem ao STJ, as estatísticas são assaz distintas. A Corte de Cassação e o Conselho de Estado, cada qual com algo em torno de 200 ministros ("conseillers"), decidem, em média, de 10 a 20 mil processos. Na Índia, com 1,4 bilhão de habitantes, a Corte Suprema de 34 ministros prolata em torno de mil decisões.

De pronto, já se diga não ser correto atribuir a explosão de feitos no STJ ao recente reconhecimento de novos direitos, em particular a sujeitos antes preteridos. Muito menos advém de uma certa patologia social de litigiosidade compulsiva da grande massa. Saliente-se, ademais, que, ao oposto de outros países, não decorre de carência de pessoal ou meios financeiros, atraso tecnológico, deficiência administrativa, apatia ou baixa operosidade dos seus membros.

A fonte principal da avalanche de recursos acha-se em outro lugar: a transmutação da corte em terceira instância universal, aberta à revisão de toda e qualquer decisão dos 27 Tribunais de Justiça e seis Tribunais Regionais Federais do Brasil.

No presente debate, portanto, impõe-se começar pela reafirmação da "raison d’être" precípua do STJ, ou seja, a uniformização da interpretação da legislação federal nos quatro cantos do Brasil. Dele se espera que cumpra o seu ofício pela fixação de teses —precedentes pacificadores de entendimentos divergentes—, com o objetivo de garantir previsibilidade, isonomia e segurança jurídica à população e às empresas, simplificando a atuação do juiz, estimulando o empreendedorismo e reforçando a coerência do ordenamento jurídico nacional.

Um caos numérico de 500 mil novos recursos nunca foi, nem será, caminho para assegurar justiça, pois, não obstante a maior atenção possível dos julgadores, zelo extremado algum conseguirá evitar a morosidade, imprevisibilidade e discrepância de decisões. E, sabemos, o direito definha em clima de acaso e de jogo de azar. Logo, não fechemos os olhos à inexequibilidade total —pura ficção ou delírio— de ministros do STJ proferirem uma decisão em quatro minutos e meio.

ato de julgar, por natureza, abomina a precipitação e a superficialidade, exige estudo e ponderação. Numa palavra, oportunidade para pensar. O juiz não é um burocrata a mais, com um carimbo padronizado à mão, nem carrega varinha de condão para, do éter, colher uma decisão adequada.

Que soluções se apresentam para o Superior Tribunal de Justiça? Problemas estruturais reclamam soluções estruturais. Desdenham paliativos, expedientes engenhosos e fórmulas transitórias. Daí que só uma medida vai à raiz da emergência do (anti)sistema recursal do STJ: repor o tribunal às fronteiras de sua gênese, uma instituição destinada a julgar casos de relevância nacional, na linha da emenda constitucional 125/2022.

Confiar em milagres da revolução tecnológica e da automação? Ora, se o ato de julgar resiste ao mecanicismo, nenhuma ferramenta substituirá completamente o julgador. Aumentar o número de ministros? Duplicar? Sairíamos de uma decisão a cada quatro minutos e meio para uma em nove minutos. Decuplicar? Teríamos 333 ministros, com uma decisão a cada 45 minutos.

A crise recursal do STJ prejudica o Brasil. Enfraquece a legitimidade do direito, desampara os cidadãos, afeta a economia e o ambiente dos negócios, corrói as contas públicas. Chegou a hora de acordar e tomar providências imediatas para afastar o risco de implosão do Tribunal da Cidadania.

TENDÊNCIAS / DEBATES
Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.

Governo de alma sem corpo encara o público, FSP

 Despertando na metade do mandato com a palavra comunicação na cabeça, Lula trocou de secretários, Pimenta por Sidônio. Nome com pedigree latino: Caius Sollis Modestus Apollinaris Sidonius foi genro de imperador, bispo, poeta e diplomata competente. Este último atributo é sugestivo para o recém-chegado, pois qualquer tarefa pública demanda hoje jogo de dentro com as cascavéis do entorno partidário e jogo de fora, estilo Garrincha, para driblar a mentira institucionalizada. Duas manhas familiares à capoeira.

Sidônio Palmeira fala em entrevista coletiva após assumir cargo de ministro da Secom (Secretaria de Comunicação da Presidência da República) - Gabriela Biló - 14.jan.25/Folhapress

Baiano, Sidônio pode até ser esperto em ambas. Mas a comunicação pós-analógica não tem nada a ver com lero-lero diplomático nem com informação verdadeira. Tem a ver com crença. E o que se transforma em convicção não é a qualidade das proposições, mas a solidez do sistema em que aparecem. A força da convicção pode ser maior que a da verdade.

O primeiro meio-ambiente do indivíduo é a própria mente, mas essa "morada" primeira é condicionada por um comum inerente ao meio vital. Aprende-se por confiança na autoridade das fontes (pais, professores). Só que a rede eletrônica cria hoje um meio (vital?) em que algoritmos autônomos abrem caminho para discursos subterrâneos incontroláveis.

Daí uma realidade separada, com lógica e linguagem próprias, sem referências objetivas e sem compromisso com verdade. Nada impede que o falseamento se converta em objeto de desejo, não tanto como mentira deliberada, mas como "psitacismo" ou fala de papagaio, mera repetição do que se ouve. Isso que neoliberais e adictos de redes sociais confundem com liberdade de expressão.

Não erra quem diz que essa é uma visão acadêmica. De fato, se trata de conhecimento familiar a pesquisadores da era pós-analógica. Comunicação sempre foi encontro simbólico de duas partes, portanto, diálogo radical, e não transmissão unilateral de conteúdos de um polo a outro. Voltada para estruturas político-econômicas e velhas utopias, a esquerda jurássica confundiu comunicação com propaganda, desconhecendo sua função, que hoje atende à lógica das sensações, e não dos argumentos. Perdeu o rumo sob o capitalismo financeiro, com a digitalização dos meios vitais. Não que a direita tenha entendido, mas aproveitou: a ignorância torna-se douta à sombra da arrogância dos pretensos donos da verdade.

Assim, dúvidas razoáveis sobre a nova empreitada. O governo tem alma, mas velha, já sem corpo. Sidônio aperfeiçoaria a informação, tirando ministérios da conveniente letargia, falando para além da bolha. Para isso, uma campanha de mobilização democrática nesse instante de realinhamento ou esfacelamento da direita. Com discurso sincero e boa diplomacia, a verdade se mostraria. Analógica, claro. Os epígonos de Caius Sidonius aplaudiriam.

Mas será que a questão é só de bem comunicar? De apenas evitar falhas como a do Pix? Se for, Sidônio, na Idade Média como na Mídia, o que se exige de uma comunicação sensível para as massas é pão, segurança, circo e uma cara (um foco visível), que o governo não tem. E dificilmente terá enquanto refém emparedado pela máquina parasitária de "unidades orçamentárias" (em vez de representantes do povo) chamada centrão, cuja estratégia é a não comunicação, o silêncio da caverna de Ali-Babá.


Superexploração das águas subterrâneas está comprometendo a vazão dos rios no Brasil, Agência Fapesp


07 de fevereiro de 2025

Estudo constatou que mais da metade dos rios brasileiros pode sofrer redução no fluxo devido à transferência de água para os aquíferos. O bombeamento para irrigação está entre os principais fatores. Mais de 88% dos poços operam em condições ilegais

José Tadeu Arantes | Agência FAPESP – Mais da metade dos rios brasileiros apresenta risco de redução de fluxo devido à percolação da água em direção aos aquíferos subterrâneos. Esta constatação resultou da análise de 17.972 poços em todo o território nacional. Destes, 55,4% apresentaram níveis de água abaixo da superfície dos rios mais próximos. Essa diferença no nível hidráulico cria um gradiente que favorece a percolação da água do rio para o subsolo, podendo transformar rios em perdedores de fluxo de água. O estudo, realizado por pesquisadores do país e do exterior, foi publicado no periódico Nature Communications “Widespread potential for streamflow leakage across Brazil”.

“Devido a condições climáticas e à intensa atividade agrícola, são áreas especialmente críticas a bacia do rio São Francisco e a região do Matopiba [que abrange os Estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia], ambas muito dependentes de águas subterrâneas para irrigação e abastecimento humano”, diz Paulo Tarso Sanches de Oliveira, segundo autor do estudo, professor de hidrologia e recursos hídricos na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) e no Programa de Pós-Graduação em Engenharia Hidráulica e Saneamento da Escola de Engenharia de São Carlos da Universidade de São Paulo (EESC-USP).

No caso da bacia do São Francisco, 61% dos rios analisados mostraram potencial de perda de fluxo de água para o aquífero, resultado atribuído ao uso intensivo de águas subterrâneas principalmente para irrigação. A situação é ainda pior na bacia do rio Verde Grande, um afluente do São Francisco, que se estende pelo norte de Minas Gerais e sudoeste da Bahia. Neste caso, o potencial de perda de fluxo chega a afetar 74% dos rios. “Essas duas bacias são cruciais para a agricultura e geração de energia hidrelétrica no Brasil. O que está acontecendo põe em risco não apenas a sustentabilidade local, mas também a segurança hídrica, alimentar e energética em grande escala”, comenta Oliveira.

Um forte fator de impacto é a perfuração indiscriminada de poços, para irrigação agrícola ou consumo privado. Estudo publicado em 2021 por Ricardo Hirata e colaboradores mostrou que existiam naquela data cerca de 2,5 milhões de poços tubulares no Brasil e que mais de 88% deles eram ilegais, sem licença ou registro para bombeamento. O volume de água bombeada, da ordem de 17,6 bilhões de metros cúbicos por ano, seria suficiente para atender toda a população brasileira, mas era usufruído por menos de 20% da população.

Além de o bombeamento comprometer seriamente a vazão dos rios, afetando a disponibilidade de água para o consumo humano, os ecossistemas aquáticos e a própria paisagem, o uso excessivo de água subterrânea pode causar a subsidência do solo – isto é, o afundamento e até mesmo o colapso da superfície. “Esse cenário já foi observado na Índia e na Califórnia, e o Brasil pode vir a enfrentar problemas semelhantes se não houver planejamento e controle adequados. O alerta é ainda mais relevante diante das projeções que indicam um aumento superior a 50% nas áreas irrigadas no país nos próximos 20 anos, o que pressionará ainda mais os recursos hídricos superficiais e subterrâneos”, sublinha o pesquisador.

Planejamento e controle são indispensáveis, pois, apesar de deter 15% da água doce renovável do mundo, o país já está enfrentando grandes problemas hídricos, que o acirramento da crise climática deverá agravar. “A região do bioma Cerrado, que abriga importantes aquíferos e rios estratégicos, além de ser a principal área de expansão agrícola e responsável por 70% da produção de milho do país, está entre as regiões mais vulneráveis. O equilíbrio entre rios e aquíferos na região pode ser comprometido pelas recentes mudanças no uso e cobertura do solo, impulsionadas pelo avanço da fronteira agrícola e, sobretudo, pela crescente demanda por irrigação”, pontua Oliveira.

Para enfrentar esse cenário, os pesquisadores envolvidos no estudo enfatizam a necessidade de integrar a gestão de águas superficiais e subterrâneas. Ferramentas baseadas em sensoriamento remoto e dados de campo podem ajudar a mapear regiões críticas e a orientar políticas públicas. Além disso, investimentos em monitoramento hidrogeológico são cruciais. “O Brasil tem potencial para ampliar a irrigação de forma sustentável, mas é necessário planejar melhor o uso integrado das águas subterrâneas e superficiais para evitar impactos negativos”, afirma José Gescilam Uchôa, primeiro autor do artigo.

Foi ele o responsável pelo levantamento exaustivo de informações sobre os 17.972 poços investigados. Para esse levantamento, feito durante sua pesquisa de mestrado, Uchôa utilizou a base de dados do Serviço Geológico do Brasil (SGB). Agora doutorando na EESC-USP, sob a orientação de Edson Cezar Wendland, que também assina o artigo, Uchôa está pesquisando o impacto do uso e da ocupação do solo, bem como das mudanças climáticas, nos fluxos hidrológicos entre as águas subterrâneas e superficiais em área de afloramento do aquífero Guarani. A investigação é apoiada por bolsa da FAPESP.

Oliveira e Uchôa argumentam que ainda é possível minimizar o problema, mas que medidas efetivas não podem ser postergadas, porque, do jeito que as coisas estão, a depleção do sistema hídrico já está impactando, inclusive, a saúde da população. “Em 2017, foi registrado um aumento significativo nos casos de pressão alta entre os moradores de um pequeno vilarejo no litoral de Alagoas, que consomem água proveniente do rio São Francisco. Posteriormente, constatou-se que o problema estava relacionado à ingestão de uma maior concentração de sal na água, causada pela intrusão de água do mar no rio, em decorrência da redução de sua vazão”, informa Oliveira. O assunto foi objeto de reportagens na mídia.

O estudo em pauta é muito significativo para o Brasil, que pode enfrentar um agravamento do estresse hídrico, com consequências severas para o abastecimento de água, a segurança alimentar e os ecossistemas. Mas seu alcance é ainda maior, pois serve como um chamado global para a revisão de estratégias de manejo hídrico em países tropicais, onde o uso crescente de águas subterrâneas coloca em risco os recursos hídricos superficiais.

O artigo Widespread potential for streamflow leakage across Brazil pode ser acessado em: www.nature.com/articles/s41467-024-54370-3.