quarta-feira, 13 de março de 2024

Número de brasileiros quintuplica em 7 anos e transforma faculdades de medicina na Argentina, FSP

 

BUENOS AIRES

Uma caminhada rápida pela Universidade de Buenos Aires (UBA) basta para encontrar o primeiro par de Havaianas. Os pés são do acreano Guilherme Henrique Leão, 28: "Quando cheguei, há seis anos, não tinha essa enxurrada de canais de YouTube falando sobre como estudar aqui", conta ele, sentado na longa escadaria.

O número de brasileiros que, assim como ele, cursam medicina na Argentina quintuplicou de 4.000 para mais de 20 mil em sete anos, de 2015 para 2022, último dado do governo local. Isso equivale a metade dos estrangeiros e a 12% do total de alunos do curso no país vizinho, chegando a 31% nas instituições privadas.

Com eles, vieram as coxinhas nas lanchonetes, o cafezinho na sala de aula, o português nos corredores e até jalecos "abrasileirados". Instalaram-se associações atléticas e cervejadas antes inexistentes na vida acadêmica argentina; Pabllo Vittar disparou nas playlists, e botecos e sambas se espalharam nos entornos, alguns aceitando pagamento via Pix.

Os brasileiros são atraídos pela ausência de vestibular, pelas vagas ilimitadas, pela qualidade da educação e também pelo baixo custo de vida —pelo menos até o início deste ano, quando os preços dispararam e o dólar "blue" usado por estrangeiros se desvalorizou, no governo de Javier Milei, o que já faz alguns desistirem do curso e voltarem para casa.

"Vai ficar mais quanto tempo se frustrando no Brasil, tentando vestibulares sem sucesso? Você sabia que o valor de um cursinho paga uma mensalidade particular na Argentina e ainda sobra dinheiro?", propagandeia uma das populares "assessorias" contratadas pelas famílias para resolver de passagem e matrícula até aluguel e seguro de saúde.

Foram esses alguns dos motivos que seduziram a carioca Letícia Belloti, 24, e a levaram à UBA, a federal mais cobiçada: "Uma amiga que fez seis anos de cursinho e não aguentava mais me chamou", diz ela, enquanto outra brasileira interrompe a conversa em português para perguntar onde será a aula introdutória de "semi" (semiologia médica). O ano letivo ali começou nesta segunda (11).

A Argentina é considerada um país bastante aberto a imigrantes, que, segundo a Constituição, gozam quase dos mesmos direitos que os locais. Um em cada quatro alunos de medicina é de outros países (24%), incluindo peruanos e paraguaios. "Se tem quatro argentinos na minha sala de 30, é muito", diz a paulistana Gabriela Calanca, 29.

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Por isso gerou tanta angústia o anúncio de Milei de que quer cobrar mensalidade de estrangeiros sem residência. "Eu comecei a chorar loucamente pela casa, porque nos grupos de WhatsApp da faculdade a projeção era quase o valor de uma particular", afirma Ísis Garcia, 25, aluna do segundo ano.

Ela só se acalmou depois que se esclareceu que a cobrança não atingiria os brasileiros, já que, por acordos do Mercosul e bilaterais, praticamente todos têm residência. Além disso, a medida ainda não passou no Congresso. Ela consta na "lei ônibus" do presidente, que voltou à estaca zero e agora está sendo negociada com governadores.

Também causaram preocupação relatos de que, neste ano, as autoridades de imigração estão mais rígidas com estudantes sem visto —apesar de o governo Milei dizer que só 38 de 1 milhão de brasileiros foram barrados até fevereiro. "É uma sensação de rejeição", diz Ísis, que é vice-presidente da atlética Fúria, da UBA.

Alunos se inscrevem para aula na UBA (Universidade de Buenos Aires), onde ano letivo começou nesta segunda (11) - Constanza Niscovolos/Folhapress

O coletivo fundado em 2017 é um dos três existentes nas faculdades portenhas e, além das funções esportivas, virou uma espécie de comunidade para integrar quem chega ao país. Organizam "chopadas", recepções aos "bixos" —mas sem trote, que não faz parte da cultura argentina— e firmam parcerias com comércios e serviços brasileiros.

"Onde cortar o cabelo? Quem conhece um faz-tudo? Onde acho um PF (prato feito)?" são perguntas comuns no grupo de mensagens. Os alunos dizem que coxinha e brigadeiro viraram quase um símbolo de fim do curso, e que hoje em dia leite condensado ficou fácil de achar nos entornos da universidade.

A algumas quadras dali, na rua que leva o nome do cantor de tango Carlos Gardel, também formou-se uma pequena vila brasileira, com prédios inteiros alugados por estudantes e dois bares com Brahma, Fanta Uva e bandeiras verde-amarelas.

"No Brasil é impossível cursar medicina, não tem vaga", diz a formanda Vanessa Penha, 37, brindando com copo americano e o litrão envolto na "camisinha 10" de Lionel Messi, para comemorar a aprovação nas provas finais da Fundação Barceló, outra instituição inundada de brasileiros. "Além disso, a qualidade de vida aqui é melhor", opina.

Vanessa Penha, 37, comemora sua graduação no bar brasileiro La Parrilla de Jesús, em Buenos Aires, ao lado da amiga Nahara (esq.) e da esposa Erika (dir.), também estudantes de medicina - Constanza Niscovolos/Folhapress

Mas, se na Argentina é fácil de entrar, também é difícil de sair, diz o mantra repetido pelos alunos, que contam que ao longo dos anos de curso o número de brasileiros diminui significativamente. "Aqui na escada é onde choramos", brinca a paulistana Gabriela.

Ela explica que a UBA faz a grande maioria de suas provas oralmente e usa métodos parecidos com os das americanas Harvard ou Yale, centrados no estudante e não no professor. Uma nova exigência que passou a valer neste ano também cobra o nível C1 no espanhol, mais alto que o antigo B2, aos ingressantes.

As alunas avaliam que essas dificuldades podem ter contribuído para a queda das matrículas de brasileiros à metade na instituição desde 2022. Por outro lado, as inscrições e transferências para particulares, consideradas um pouco menos puxadas, cresceram em ritmo mais acelerado. Na Universidade de Morón, a cerca de 30 km de Buenos Aires, 101 dos 125 alunos vêm do Brasil.

Jéssica Gurgel, 29, é uma delas: "Gasto cerca de R$ 6.500 por mês com aluguel, transporte, tudo. No Brasil só a faculdade pode chegar a R$ 10 mil", diz a cearense, que decidiu abrir uma marca de jalecos e pijamas cirúrgicos de estilo brasileiro, que fogem do azul básico argentino. "Esse é mais princesa", diz, mostrando os "looks" coloridos na cozinha de casa.

Jéssica Gurgel, 29, usa macacão da sua marca ao lado dos amigos Lorena Coimbra, 25, e Bruno San Juliano, 20, todos estudantes de medicina da Universidade de Morón, a uma hora de Buenos Aires - Constanza Niscovolos/Folhapress

Mas nem tudo são flores. O idioma pode ser um grande obstáculo, e histórias de preconceito não são difíceis de encontrar. "No início a gente não fala muito bem espanhol. Lembro que tinha acabado de chegar e um professor falou numa prova oral, só eu e ele: 'você vem para o meu país, estuda e vai embora'. Fiquei em choque", conta Letícia.

Depois de em média seis a oito anos de estudo, os alunos têm que decidir se ficam e exercem a profissão na Argentina, onde os salários em geral são muito mais baixos, ou se voltam ao Brasil e prestam a temida prova do Revalida (exame nacional de revalidação de diplomas médicos estrangeiros).

terça-feira, 12 de março de 2024

Wilson Gomes - Não dê munição ao inimigo, FSP

 Em hipótese alguma deve-se dar munição ao inimigo. Embora a metáfora remeta a um contexto de guerra, ninguém envolvido em um conflito armado precisa desse conselho, que em geral se dá para pessoas em outras situações competitivas, alertando-as de que o menor descuido pode ser usado pelo oponente.

Certifique-se de não facilitar o trabalho do inimigo ao fornecer argumentos, falas e exemplos que possam ser usados contra você.

O aviso "não dê munição ao inimigo" está hoje em toda parte, refletindo a ideia geral de que vivemos uma guerra permanente e que o nosso lado não pode expor as próprias fragilidades se não quiser que o inimigo as use para nos atacar. Se você pensa que isso acontece na política, está muito enganado. Fãs de Beyoncé vivem conflitos internos neste momento porque há "beyfãs" falando mal do filme "Renaissance".

Dado um cenário de conflito aberto com os outros "fandoms", "uma coisa é não gostar, até pq ngm sempre gosta de tudo, outra é fazer um tweet dando munição pra hater falar mal da Bey". As "fanbases" dos participantes do BBB vivenciam constantemente essa mesma tensão. A patrulha de críticas e repreensões publicadas tem o mesmo propósito: constranger os fãs que não percebem que expor os defeitos de seus ídolos os deixa vulneráveis aos seus inimigos.

Se, por outro lado, você pensa que em política só a esquerda passa por isso, engana-se de novo. Está circulando um engraçado argumento-meme de reação às pressões para a autocensura das posições extremistas, que diz mais ou menos isso: "Sê feminista para não dar munição para a esquerda te chamar de machista; sê desarmamentista para a esquerda não te acusar de violento; sê a favor da ideologia de gênero para a esquerda não te acusar de alguma fobia; em suma, sê de esquerda para a esquerda não te acusar de ser de direita".

Na Ilustração uma figura no centro da imagem, gritando de boca bem aberta. Da boca, à direita, sai um balão de historia em quadrinhos. Parte do balão fica à direita da figura e a parte restante fica no extremo esquerdo da ilustração dando continuidade ao que está dentro do balão: um escorpião ameaçador. Do lado esquerdo, a cauda do escorpião atravessa o balão e finca o ferrão no lóbulo da orelha furando e puxando com força. Completa a ilustração uma textura cinza onde está submerso até os cotovelos a figura, e num fundo de céu azul claro também com textura.
Ilustração de Ariel Severino para coluna de Wilson Gomes de 13 de março de 2024 - Ariel Severino/Folhapress

Na esquerda, isso virou um cala-boca de uso disseminado. Gregorio Duvivier e Felipe Neto presumiram que a sua folha corrida de engajamento e compromisso com a causa lhes conferia o direito de criticar uma decisão de Lula na escolha de ministros do STF. Qual o quê!

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Uma das respostas a uma crítica do último é para emoldurar: "Escreve no seu diário então, aqui você só vai dar munição para a direita. Ou então se filia no partido e fala nos espaços de discussão. Para tudo tem lugar certo". Em resumo, guarde suas críticas para você, o espaço público está reservado para a concordância.

Esta é claramente uma forma de evitar a autocrítica pública, o reconhecimento de estratégias equivocadas e a admissão de erros. Por essa estrada se chega facilmente ao veto interno tanto à admissão de culpa quanto à mortificação por erros cometidos e à adoção de ações corretivas.

Externamente, os críticos são acusados de conluio com o inimigo, responsabilizados pela eventual derrota do bem e ameaçados com a sombria perspectiva da vitória do mal.

A atividade de crítica política, em suma, não é reconhecida por quem está envolvido numa causa. Não se tem a menor disposição a reconhecer a existência de posições independentes, pois, para o militante, todo mundo é um ativista, assumindo-o ou não.

Antes, noções como verdade, objetividade, imparcialidade são descartadas como um engodo ou um autoengano. Não existem fatos, só interpretações; não há verdade, apenas opinião; não há independência intelectual, todo mundo se move apenas por alguns dos interesses que dividem a sociedade. Quem reivindica ciência está apenas camuflando a sua parcialidade, quem diz que não adere a partidos já aderiu ao outro lado.

Em um mundo fraturado entre nós e o mal —seja definido como fascistas pelos progressistas, comunistas pela extrema direita ou portadores de alguma fobia pelos identitários—, criticar-nos é aderir ao mal.

Nessa perspectiva, intelectuais e críticos são apenas militantes com mais leitura e melhor vocabulário, se muito. Quanto à crítica política, ela só é considerada uma análise válida e baseada em argumentos e evidências quando se alinha com os nossos interesses; do contrário é apenas artilharia inimiga dedicada à nossa destruição ou colaboracionismo mal disfarçado fornecendo armas aos nossos inimigos.

A análise política, ao que parece, é um privilégio reservado a sociedades que aspiram construir um projeto comum, que depositam confiança em argumentos e entendimento entre as partes e que mantêm a crença de que falhas podem ser corrigidas e perspectivas podem ser aprimoradas. A inviabilidade da crítica política é sempre um péssimo sintoma.


Deirdre Nansen McCloskey - O que é liberdade?, FSP

As pessoas que falam inglês são confusas sobre a ideia de "liberdade". Espero que vocês, no Brasil, não o sejam.

Ela vem da conquista normanda de 1066. Os francófonos tornaram-se os senhores, por isso. O inglês muitas vezes tem duas palavras para a mesma coisa —uma germânica, neste caso "freedom", e outra latina, no caso "liberty". O inglês tem centenas desses pares de palavras.

As duas palavras um dia significaram a mesma coisa, qual seja, "não ser um escravo". Depois, há cerca de um século e meio, a palavra germânica saiu da gaiola e começou a vagar por aí. A palavra latina na língua inglesa ainda conota não ter um senhor coercitivo. Mas, a partir dos anos 1880, a palavra germânica começou a também significar "ter renda para fazer coisas".

Você pode ver que os dois significados diferem entre si. Uma é uma palavra de status. Uma mulher liberta, ou livre, é uma que não é coagida por seu marido. A outra é uma palavra para renda. Mas nós já temos uma palavra para renda: "income".

O presidente norte-americano Abraham Lincoln falou, em 1863, sobre "um renascimento da liberdade", usando a palavra de origem latina "liberty" para significar a primeira vitória do liberalismo, a abolição da escravidão. Mas ele usou no discurso a palavra germânica para significar exatamente a mesma coisa: sem escravidão.

Detalhe de 'Liberdade de Expressão', de Norman Rockwell
Detalhe de 'Liberdade de Expressão', de Norman Rockwell - Reprodução

Quando o presidente Franklin Roosevelt, em 1941, falou em "quatro liberdades", ele misturou os dois sentidos. A liberdade número 1 era a "liberdade de expressão", retratada na famosa pintura do artista popular Norman Rockwell que mostra um homem discursando numa reunião pública. Um escravo não tem permissão para manifestar suas ideias.

Mas o sentido número 3 trazia o outro significado, "liberdade de carência" ["want"], sendo essa uma palavra um tanto incomum para significar "falta de renda, pobreza".

Norman Rockwell pintou a liberdade número 3 como uma família reunida em torno de uma ceia de Natal. Não ter um senhor coercitivo não é a mesma coisa que fazer uma refeição.

Acabo de resenhar um livro do economista Prêmio Nobel Joseph Stiglitz. Você poderia pensar, como escreve Joe, que "a pessoa que enfrenta carências extremas não é livre" (para comprar comida, por exemplo). Mas, se não mantivermos os dois significados separados, pensamos que a coerção do Estado para alimentar as pessoas é a mesma coisa que não ser um escravo.

Respondemos à pergunta sobre se a liberdade política ou a coerção estatal conduzem a riquezas, por definição. A coerção vence.

Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves