terça-feira, 12 de março de 2024

Presidente da Petrobras se acha pedra no caminho de ministro, FSP

 A reunião do presidente Lula com Jean Paul Prates, chefe da Petrobras, terminou como queria o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira (PSD-MG): um enorme desgaste público para o executivo, cujo cargo é objeto de desejo do centrão.

Para assessores, Prates diz que a espuma, como ele chama a profusão de factoides de Silveira, só serve para esconder falhas e segundas intenções do ministro.

Montagem com fotos do ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira (esq.), e do presidente da Petrobras, Jean Paul Prates - 20.nov.2023-Pedro Ladeira/Folhapress e Tânia Rêgo/Agência Brasil

Uma delas, segundo relatos, é impedir que a estatal domine no biocombustível.

Para o executivo, o Combustível do Futuro é uma reserva de mercado para os produtores de etanol. Prates avalia que está sendo fritado, porque atrapalha os planos do centrão.

Nessa lista, ele inclui as críticas ao plano de investimento da Petrobras em eólicas offshore, coprocessamento (uso de óleo vegetal direto na refinaria para a produção de um biodiesel de mais qualidade), fertilizantes, reinjeção de gás extraídos das jazidas de petróleo, entre outros.

Com Diego Felix


Voto de desempate no Carf eleva ganho da União, mas contribuinte continua maior vitorioso, FSP

 Lucas Marchesini

BRASÍLIA

Os julgamentos do Carf (Conselho Administrativo de Recursos Fiscais) decididos por meio do chamado voto de desempate, recriado em 2023, ajudaram a elevar as receitas da União no ano passado. Ainda assim, o instrumento não foi suficiente para mudar o favoritismo do contribuinte nas conclusões do órgão.

Foram R$ 278 bilhões julgados em 2023 pelo Carf. Desse total, 15% (ou R$ 40,9 bilhões) foram decididos por meio do voto de desempate e, de acordo com o Ministério da Fazenda, a Receita Federal foi vitoriosa na "esmagadora maioria" desses casos.

Recriado pelo governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no ano passado em meio à busca por mais receitas federais, o voto de desempate é do presidente da sessão, um representante da Fazenda. Antes da recriação, o empate era automaticamente favorável ao contribuinte.

O presidente do CARF (Conselho Administrativo de Recursos Fiscais) Carlos Higino, em seu gabinete, na sede do órgão em Brasília - Pedro Ladeira/Folhapress

O voto de desempate, encerrado durante o governo de Jair Bolsonaro (PL), foi recriado pelo atual governo por meio de MP (medida provisória). A iniciativa enfrentou uma série de resistências entre empresários e parlamentares, que ligaram a medida a uma "sanha arrecadatória" da atual gestão, e acabou aprovada por meio de projeto de lei após concessões feitas pelo ministro Fernando Haddad (Fazenda).

Mesmo com a volta do instrumento, no entanto, pessoas e empresas que disputam os casos com a União saíram vitoriosas em 61% (ou R$ 169 bilhões) dos recursos julgados pelo Carf em 2023. O valor é mais baixo que em 2022 (78%), quando o mecanismo havia sido extinto e os empates favoreciam automaticamente o contribuinte, mas fica pouco abaixo da média de 62% observada nos anos pré-pandemia (2018 e 2019).

O presidente do Carf, Carlos Higino, afirma que as mudanças foram benéficas e que têm ajudado a diminuir a quantidade de casos que continuam em discussão na esfera judicial. Isso porque o contribuinte que aceita o resultado do julgamento decidido por voto de desempate sem recorrer ao Poder Judiciário tem juros e multa abatidos.

"O voto de qualidade com benefícios [tem o mérito] de tentar diminuir o litígio, para que a discussão não vá para o Judiciário. Em caso de decisão com o voto [de desempate], fica sem multa, que pode chegar até 220% do valor. E se pagar em 90 dias tira também o juro", disse.

O Carf é paritário, com metade dos conselheiros indicados pelos contribuintes e a outra metade pelo governo federal. Já os presidentes de cada turma são escolhidos entre os nomeados pela Receita Federal.

Para Higino, o tempo tomado para resolver as disputas é uma questão central a ser enfrentada pelo órgão. "O principal problema que vemos é que contencioso demora demais", apontou Higino.

A lei que rege o funcionamento do órgão define que todo recurso deve ser julgado em até um ano. Isso acontece na última instância, cujo tempo médio de decisão é de 345 dias.

O problema maior está na instância logo abaixo, a primeira no Carf, cujo tempo médio de julgamento é de 1.269 dias (3,4 anos).

A meta de Higino é conseguir reduzir, até 2026, esse tempo médio para o que diz a lei: 365 dias. Esse será o foco do esforço a partir de 2025. Neste ano, o objetivo principal é reduzir o valor total em julgamento ao decidir sobre grandes casos.

Para isso, o Carf está desenvolvendo duas novas ferramentas em parceria com a estatal Serpro (Serviço Federal de Processamento de Dados). A primeira é a criação de um plenário virtual nos moldes do que já acontece no STF (Supremo Tribunal Federal). A ideia é utilizá-lo a partir do segundo semestre para casos menores. Já os processos que envolvem cifras maiores continuarão a ser discutidos no plenário tradicional.

A segunda é uma ferramenta de inteligência artificial para ajudar os conselheiros na redação dos seus votos. A ideia é criar um programa que usa aprendizagem de modelo de linguagem, software semelhante ao Chat GPT. O programa será alimentado com decisões do Carf e de outras instâncias.

O Carf tem hoje um estoque de 83,9 mil processos, totalizando R$ 1,2 trilhão em discussão. "Isso é quase 10% do PIB [Produto Interno Bruto], totalmente fora do padrão", constatou Higino.

O número de processos tem caído desde 2018, quando o ano terminou com 123 mil casos, mas o mesmo não aconteceu com o valor em discussão —que passou de R$ 638 bilhões em 2018 para o valor atual.

Do total em debate no conselho, R$ 497,8 bilhões (cerca de 40%) estão concentrados em apenas 177 casos. Na outra ponta, há 22,2 mil processos cujos valores em discussão estão abaixo de R$ 84,7 mil (juntos, eles somam R$ 563,5 milhões).

O advogado Leandro Bettini, sócio do MJ Alves Burle e Viana Advogados, diz que o foco do Carf em 2024 em casos de maior valor deve fazer o volume financeiro das decisões pró-União aumentar. "O Ministério da Fazenda viu no Carf uma oportunidade de arrecadação e ele não deveria ser órgão que visa a arrecadação", opinou.

Para ele, o valor das decisões pró-contribuinte maior do que os demais esconde uma dinâmica nociva. "História, estudos acadêmicos e dados mostram que processos de maior valor são mais complexos e têm tendência de ter decisão acirrada e empate. Com o voto de qualidade, são decisões quase sempre pró-Fazenda", disse.

A professora e ex-conselheira do Carf, Karem Jureidini, aponta que a nova legislação, com o perdão de multas e juros em caso de empate, ficou "extremamente equilibrada", mas ela lamenta ainda ter um alto valor decidido com o voto de desempate —já que as decisões têm sido predominantemente pró-Fazenda.

"Nossa fotografia hoje é que permanecemos com muitos votos de bancada [empate], mas a nova norma ameniza esses efeitos. [Com o empate] fica evidenciada a dúvida razoável. Tira a multa e o contribuinte [também] pode se defender ", diz.

As três variáveis em jogo na crise dos dividendos da Petrobras, Adriana Fernandes, FSP

 A decisão da Petrobras de reter o pagamento dos dividendos extraordinários numa reserva tem por trás pelo três variáveis em jogo.

Duas dessas variáveis impactam diretamente o Orçamento do governo neste ano e em 2025 e vão muito além da receita extra que a União teria com os dividendos extraordinários, como acionista majoritária da companhia.

A trava no pagamento dos dividendos dificulta qualquer equação para a companhia aceitar acordo de encerramento de litígios com a Receita Federal com base nas regras da lei do Carf (Conselho Administrativo de Recursos Fiscais).

Ao contrário da receita de dividendos extraordinários, que não está prevista no Orçamento de 2024 (isso mesmo), o ministro Fernando Haddad (Fazenda) conta com o dinheiro do acordo de transação tributária para o cumprimento da meta fiscal de zerar o déficit.

Não se sabe ao certo quanto a Fazenda está contando de receitas da Petrobras com a lei do Carf. Mas Haddad já disse que um terço do ajuste fiscal prometido para este ano viria do Carf. E a expectativa do ministro era de que boa parte dessa arrecadação viesse da Petrobras.

Como a empresa vai agora justificar se desfazer de caixa para fazer uma transação tributária diante da retenção dos dividendos por razões de cautela para enfrentar dificuldades no futuro que ameacem a credibilidade do plano de investimentos?

Se a própria empresa resolveu formar uma reserva grande para o futuro, não faria sentido algum fazer um acordo que tiraria dinheiro do seu caixa.

É certo que, sem pagar pelo menos uma parte dos dividendos, será muito mais complexo avançar numa negociação com o Carf.

Fernando Haddad, Lula e Kristalina Georgieva, diretora do FMI, em reunião no Palácio do Planalto - Ueslei Marcelino/Reuters

Acordo que, aliás, já seria um processo difícil em condições normais, exigindo um processo de aprovação que inclui acionistas minoritários. Antes do impasse com os dividendos, já sabia que os valores seriam bem menores do que os R$ 30 bilhões que Haddad contava no ano passado.

A segunda variável em jogo tem reflexo no tamanho do espaço fiscal que o governo Lula tem para aumentar despesas em 2025 e fazer mais investimentos públicos.

Pelas regras do novo arcabouço fiscal, se os recursos de um eventual acordo para encerrar litígios ingressarem ainda no primeiro semestre deste ano no caixa do Tesouro, essa arrecadação entrará no cálculo para a definição do tamanho do crescimento das despesas no ano seguinte. Até o limite de alta de 2,5% real permitido na nova regra fiscal.

Quanto maior for a arrecadação da transação da lei do Carf, mais próximo o governo consegue chegar no teto de 2,5%, ampliando o espaço que Lula terá à disposição para gastar mais no penúltimo ano do seu governo.

É bom ressaltar: receitas oriundas de dividendos das estatais não podem entrar nessa conta pelo arcabouço fiscal.

Sede da Petrobras no Rio de Janeiro - Ricardo Moraes/Reuters

A terceira variável diz respeito à calibragem do tamanho da reserva técnica que a Petrobras precisa fazer para não diminuir o nível de confiança da execução do plano de investimentos dentro do seu limite de endividamento.

Em outras palavras, qual o percentual de pagamento de dividendos que mitigaria a queda do nível de confiança da execução do plano caso haja um choque não previsto, no futuro, que deixe a empresa menos resiliente.

Importante destacar que a Petrobras tem um caixa robusto e a reserva técnica dos dividendos não pode ser usada para ampliar investimentos.

Se essa cautela técnica é muito grande, como os conselheiros decidiram, não há outra coisa a dizer: a estatal está vendo um risco elevado no futuro. Se esse risco existe, o governo não tem como sustentar as duas variáveis anteriores.

Calibrar o tamanho da distribuição dos dividendos extraordinários passa a ser essencial para resolver o impasse a partir de agora.

Fora o embate político entre o presidente da Petrobras, Jean Paul Prates, e o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, que pode terminar na queda de um ou de outro, a crise mostrou que faltou não só uma comunicação profissional da companhia, mas também mais informações para a tomada de decisão do Conselho de Administração.


É preciso resolver logo o estrago, que macula não só a imagem da Petrobras, mas também a política econômica de Haddad que tenta garantir segurança para os investidores aplicarem seus recursos no país.