terça-feira, 12 de março de 2024

RAUL CUTAIT E CARLOS DEL NERO - Médicos, mas com qualidade, FSP

 Raul Cutait

Professor do Departamento de Cirurgia da Faculdade de Medicina da USP; membro da Academia Nacional de Medicina e presidente do Conselho Deliberativo da Iniciativa Saúde

Carlos Del Nero

Docente da Universidade de São Caetano do Sul, é consultor independente em saúde e educação; diretor-executivo da Iniciativa Saúde

O mundo está mudando numa velocidade assustadora, graças aos incríveis avanços tecnológicos que interferem, cada vez mais, na nossa maneira de viver. A assistência à saúde é uma das atividades mais impactadas, tanto pela complexidade crescente dos conhecimentos quanto pela busca de diagnósticos e tratamentos mais precisos.

Qualquer que seja o futuro, o médico será sempre uma figura-chave nas atenções de saúde e, portanto, precisa ser preparado para tal desde o curso de graduação. À educação tradicional mesclam-se novas metodologias de aprendizagem, tais como autoaprendizado, simulações, aulas online, telemedicina, podcasts e um transformador caminho, o da inteligência artificial. Contudo, além da formação técnica, o médico requer a indispensável formação humanística e ética, que deve nortear sua prática, baseada em relações empáticas de confiança e competência com seus pacientes. Para isso, é imprescindível o contato próximo entre alunos e docentes preparados, que não raro funcionam como mentores, bem como a exposição a distintas experiências clínicas, das mais simples às mais complexas.

0
Médicos e enfermeiros atendem paciente com Covid-19 no Hospital das Clínicas de Porto Alegre, em março de 2021 - Daniel Marenco - 12.mar.2021/Folhapress - Folhapress

Lamentavelmente, tanto a formação técnica quanto a humanística estão sendo amplamente prejudicadas pela política que facilita a abertura das novas faculdades de medicina pelo Brasil afora. A premissa é a falta de médicos em muitas cidades do país, quase todas de menor porte. Assim, a abertura das novas faculdades seria a melhor maneira de fixar profissionais nas regiões onde estudaram para corrigir o grave problema da má distribuição regional dos médicos. Contudo, isso não está ocorrendo da forma imaginada, à semelhança do que acontece até mesmo em países do primeiro mundo, como França, Canadá e Estados Unidos, que têm seus chamados desertos médicos, ou seja, regiões sem profissionais estabelecidos.

Quanto à má distribuição dos médicos no Brasil, apenas para exemplificar: temos atualmente 2,7 deles por mil habitantes, índice igual ao dos Estados Unidos, mas variando de 1,7 no Maranhão a 6,1 em Brasília.

Sem dúvida, é legítima a proposta de facilitar o acesso da população às atenções médicas, mas é extremamente preocupante quando ao acesso não se acopla a indispensável formação com qualidade dos médicos. Isso é algo quase utópico se considerarmos as quase 400 faculdades de medicina já existentes, capazes de formar mais de 50 mil médicos por ano, às quais poderão se juntar cerca de 450 novas instituições, atualmente com solicitações sob liminares e aguardando pronunciamento do Supremo Tribunal Federal.

A atual estrutura do ensino médico no Brasil é deficiente, pois peca em dois quesitos básicos: a patente falta de professores qualificados para formar tantos novos profissionais e a real limitação de ambulatórios e hospitais para treinamento. Nesse sentido, é uma grande falácia acreditar que o SUS, estruturado essencialmente para o atendimento, possa ser transformado em amplo ambiente de ensino às custas de uma lei, sem nenhum investimento planejado, medido e avaliado para tal.

PUBLICIDADE

Infelizmente, o descontrole já está instalado. Portanto, só nos resta esperar que se coíba a abertura desenfreada de mais escolas médicas e, principalmente, que sejam criados critérios nacionais rigorosos para regular o funcionamento de todas elas, antigas e novas.

Esses critérios devem valorizar a capacitação do aluno e permitir a avaliação e a acreditação das escolas médicas e dos seus respectivos campos de treinamento. Somente assim será possível achar o ponto de equilíbrio entre o número e o perfil de médicos que o país precisa, mas sem renunciar à fundamental formação com qualidade. Pelo bem de nossa população.

TENDÊNCIAS / DEBATES

PT não desvendou o 'algoritmo evangélico', Juliano Spyer, FSP

 Não devemos medir a vitalidade do bolsonarismo pelo que aconteceu na avenida Paulista no mês passado, mas por sua capacidade de influenciar o que evangélicos debatem. E, nos últimos meses, uma mensagem é repetida à exaustão em grupos de WhatsApp e em redes sociais: a de que o governo do PT é alinhado com o identitarismo de esquerda e, portanto, é contra os valores da família cristã. Diz se importar com evangélicos, mas, na prática, apoia ideias progressistas.

É impreciso, então, afirmar que a queda da popularidade de Lula entre evangélicos resulta dos ataques que ele fez a Israel. A sua desaprovação aumenta porque a oposição influencia eficientemente algoritmos em redes sociais. Dessa forma, evangélicos recebem informações críticas ao governo, mas não ficam sabendo das realizações positivas.

Uma bolha informacional se forma na medida em que pessoas com interesses parecidos compartilham entre si os mesmos conteúdos. O algoritmo detecta essa recorrência e "aprende" aquilo que aquele grupo aprova e quer receber. A bolha evangélica se consolida como um espaço anti-PT porque dezenas de publicações circulam todos os dias "ensinando" o algoritmo a destacar publicações que associam PT e Lula a aborto, legalização da maconha e outros temas morais.

Por exemplo, na semana passada, uma interlocutora assembleiana, ex-eleitora de Lula, me mostrou um vídeo em que o deputado Gustavo Gayer, do PL, comenta trechos da programação da Conferência Nacional de Educação, realizada em janeiro. Um representante LGBT diz num debate: "Temos que levar os nossos próprios conteúdos para a sala de aula e dizer: ‘A gente está formando militante, mesmo!’". Gayer pausa a fala e diz: "Ele acaba de admitir que vão formar militantes LGBT".

A interlocutora assembleiana comenta as referências que o vídeo apresenta a publicações escolares que debatem homossexualidade. "Por que Lula permite que essas cartilhas sejam feitas?", questiona. "Se ele não toma providência com o ministro da Educação, é porque concorda."

Lula e o ministro da Educação, Camilo Santana, durante a Conferência Nacional da Educação, na UnB - Gabriela Biló /Folhapress

A presidente do PT, deputada Gleisi Hoffmann, mostrou em entrevista recente à TV Brasil o que não fazer em relação a esse tema. Ela reduziu o problema da comunicação entre governo e evangélicos à atuação de pastores "mentirosos" que "vão para o inferno" porque se aproveitam da "boa-fé" (falta de instrução) dos fieis. É quase uma peça antipetista pronta.

PUBLICIDADE

O desafio dos governistas é superar o preconceito que os impede de enxergar a complexidade do campo evangélico e, paralelamente, treinar sua liderança para gerar conteúdo que subverta o algoritmo e chegue a evangélicos conservadores. Não é trivial.

Superstição marca o livro inédito de García Márquez, Ruy Castro, FSP

  

Escritor que fez a transição entre a ficção moderna e a pós-modernista e que ao mesmo tempo produziu para as massas; tão célebre como atletas, músicos e estrelas de cinema; romancista mais influente que emergiu da América Latina profunda; autor de "Cem Anos de Solidão", o primeiro livro globalizado, que rapidamente penetrou em todos os países e em todas as culturas do mundo, Gabriel García Márquez era mais supersticioso do que torcedor do Botafogo.

Cultor do 13, como Zagallo, não usava nenhuma peça de ouro, tinha sempre rosas amarelas espalhadas pela casa, especialmente em sua mesa de trabalho, fugia dos caracóis atrás das portas, dos aquários de peixe, das flores de plástico e das mantilhas de seda bordadas. Em 1982, ao receber o Prêmio Nobel, vestiu um liquiliqui branco, traje do Caribe, porque o fraque protocolar representa a "mala suerte".

Gabriel Garcia Márquez ao receber o Nobel de Literatura, em 1982 - Harry Ransom Center

As superstições e manias que fogem ao pensamento racionalista estão, como em tudo o que envolve García Márquez, presentes no inédito "Em Agosto nos Vemos", recém-publicado no Brasil e em outros 70 países. Nenhum mês teve tanta importância na vida do escritor como o oitavo do calendário gregoriano.

Em agosto de 1947, sua cabeça estalou com a leitura de "A Metamorfose", de Kafka. Quando foi com sua mãe vender a casa de Aracataca —viagem que confirmou sua vocação de romancista—, levou um talismã: "Luz em Agosto", de Faulkner. Em agosto de 1966, enviou pelo correio o datiloscrito de "Cem Anos de Solidão" ao editor argentino Francisco Porrúa. Em agosto de 1967, conheceu Mario Vargas Llosa, que depois lhe acertou um soco no olho esquerdo, um dos poucos desgostos de seus agostos.

Para milhões de leitores, não importa que García Márquez tenha pensado em destruir a novela editada postumamente. Afinal, em perfeitas condições de saúde ou não, ele a escreveu e deu um jeito de pôr agosto no título.