terça-feira, 12 de março de 2024

Ministério cancela ato sobre 60 anos do golpe militar após decisão de Lula, FSP

 

BRASÍLIA

A determinação do presidente Lula (PT) de evitar eventos oficiais em memória dos 60 anos do golpe militar levou o Ministério dos Direitos Humanos, comandado por Silvio Almeida, a cancelar uma solenidade marcada para 1º de abril.

De acordo com pessoas próximas a Almeida, o evento organizado pela pasta ocorreria no Museu da República, em Brasília, e estava previsto um discurso do ministro. A cerimônia exaltaria a luta de militantes e perseguidos pelo regime de exceção comandado pelos militares.

Auxiliares do ministros dizem que agendas paralelas à data do golpe, como reuniões ordinárias da Comissão de Anistia para julgamento de processos, devem ser mantidas.

decisão de Lula de proibir atos alusivos ao golpe, revelada pela coluna Painel, da Folha, é mais um aceno do petista aos militares, classe com quem o governo manteve uma relação de atritos desde antes da posse.

O ministro Silvio Almeida (Direitos Humanos) comunicou a auxiliares que cancelou evento sobre 60 do golpe militar por decisão do presidente Lula - Pedro Ladeira/Folhapress

Ainda de acordo com aliados do presidente, prevaleceu o argumento conciliador de que os militares estão melindrados com avanço das investigações sobre os ataques às sedes dos três Poderes em 8 de janeiro de 2023.

Nas palavras de um ministro, as feridas não foram cicatrizadas e não seria recomendável reabrir suas "casquinhas" para evitar sangramentos. Além disso, pesou a avaliação de que uma cerimônia oficial vistosa poderia provocar uma reação negativa da caserna, reacendendo uma crise só recentemente debelada.

Aliados do presidente afirmam que Lula também desencorajou manifestações das Forças Armadas celebrando o golpe —como ocorreu, por exemplo, durante o governo Jair Bolsonaro (PL), saudosista da ditadura.

Mesmo com o veto presidencial aos eventos em alusão ao aniversário do golpe, a Comissão de Anistia deve julgar, em 20, 21 e 22 de março e 2 de abril, uma série de processos sobre o período da ditadura militar.

As reuniões são ordinárias e fazem parte do cronograma do colegiado. Os membros da Comissão de Anistia, porém, querem aproveitar a semana do golpe militar para julgar processos considerados históricos em 2 de abril.

Dois deles envolvem reparações coletivas para os povos indígenas Krenak e Guyraroka, que foram alvo de militares durante a ditadura. Os processos foram abertos a pedido do MPF (Ministério Público Federal).

O regime militar (1964-1985) teve uma estrutura dedicada a tortura, mortes e desaparecimento.

Os números da repressão são pouco precisos, uma vez que a ditadura nunca reconheceu esses episódios. Auditorias da Justiça Militar receberam 6.000 denúncias de tortura. Estimativas feitas depois apontam para 20 mil casos.

Presos relataram terem sido pendurados em paus de arara, submetidos a choques elétricos, estrangulamento, tentativas de afogamento, golpes com palmatória, socos, pontapés e outras agressões. Em alguns casos, a sessão de tortura levava à morte.

Em 2014, a Comissão Nacional da Verdade listou 191 mortos e o desaparecimento de 210 pessoas. Outros 33 desaparecidos tiveram seus corpos localizados posteriormente, num total de 434 pessoas.

Silvio Almeida é o ministro do governo Lula que mais se empenhou em 2023 a falar sobre o golpe militar. Às vésperas do aniversário de 59 anos da ditadura, ele disse que a "história sombria" dos governos militares deve ser contada.

"A luta de um povo é fundamental para que os aspectos mais sombrios da história possam ser contados, superados e, mais do que isso, que seja passado um recado para as gerações futuras de que isso não será tolerado", afirmou Almeida durante visita ao Museu da Memória, na Argentina, que conta a história da ditadura no país.

Em sua posse no Ministério dos Direitos Humanos, Silvio Almeida disse em discurso que sua gestão iria honrar as pessoas que lutaram pela democracia, para que suas histórias não caíssem no esquecimento.

"Isso significa não esquecer da luta daqueles que foram presos, torturados e mortos pelo autoritarismo do Estado brasileiro, seja no Império, na dita Velha República, que criminalizar todos os aspectos da nossa existência ou na Ditadura Militar, que ceifou os melhores anos dos verdadeiros patriotas que ousaram se levantar contra a covardia dos poderoso", disse.

Procurado, o Ministério dos Direitos Humanos não se manifestou.

Como vão saber que é uma menina?, Joanna Moura, FSP

 "Você não furou a orelha dela?"

Me perguntou um amigo, ao ver a minha filha, então com um ano de idade, pela primeira vez.

Eu já havia ouvido a tal pergunta antes. Aliás, já haviam nos feito o mesmo questionamento tantas vezes que elaboramos uma resposta padrão diplomática o suficiente para não deixar ninguém ofendido, mas taxativa o suficiente para —geralmente— encerrar o assunto. Desandei então a enunciá-la com um sorriso igualmente diplomático estampado no rosto:

"A gente conversou sobre essa possibilidade e, por mais que eu ache lindo em mim, decidimos esperar para que ela própria tome essa decisão quando estiver maior."

Eu estava prestes a puxar outro assunto, quando meu interlocutor prosseguiu:

"E você não costuma colocar nenhum lacinho nem nada na cabeça dela?"

"Não… Ela não gosta de nada prendendo o cabelo."

Ele não se intimidou e prosseguiu, finalmente concluindo seu raciocínio:

"Mas como vão saber que é uma menina?"

Confesso que a pergunta me pegou de surpresa. Nunca tinha parado para pensar nisso.

Imagem de um bebê branco brincando com bolas de plástico coloridas
Por que sentimos tanta necessidade de distinguir meninas e meninos ainda bebês? - Adobe Stock

Olhei para Stella, brincando em cima da mesa entre nós dois, seus cabelinhos de bebê ainda curtos, seu corpo trajando apenas uma fralda de pano nem rosa, nem azul. Podia ser apenas um retrato do momento, um registro de um daqueles dias de verão em que roupas não são bem-vindas. Mas era o reflexo fiel da maior parte de seus dias. Como bem apontado por meu amigo, Stella não usa brincos nas orelhas nem laços no cabelo. Em seu pequeno armário, poucas são as pistas sobre seu gênero. O rosa está longe de ser a cor dominante, vestidos são raros.

Naquela fração de segundo em que a pergunta ficou sem resposta, refleti sobre tudo o que havia nos levado até ali. Afinal, nenhuma escolha se dá ao acaso. Lembrei do dia em que recebemos a notícia de que Stella seria uma menina e eu chorei de alegria e preocupação em igual medida. Lembrei de como, à medida que ela se desenvolvia, percebemos que os vestidos atrapalhavam seus movimentos, prendendo sua perna ao engatinhar, impedindo-a de subir com destreza os degraus do brinquedo no parquinho enquanto os meninos trajando calças subiam sem dificuldade. Lembrei de como sempre que ela vestia uma roupa mais feminina, os elogios se acentuavam, mas também se adequavam ao gênero: "Que linda!", "Que princesa!", "Que mocinha!", reforçando essa ideia preconcebida do que é feminilidade.

Concluído o flashback, respondi com uma nova pergunta: "Por que sentimos tanta necessidade de distinguir meninas e meninos ainda bebês?"

Ele sorriu nervosamente e, incapaz de me oferecer qualquer resposta, finalmente mudou de assunto. Eu, por outro lado, segui tentando responder ao meu próprio questionamento e cheguei à conclusão de que, numa sociedade machista, saber logo de cara quem é quem é essencial. Só assim, essa mesma sociedade conseguirá moldar esses mini seres humanos para que se encaixem naquilo que se espera deles. E para a mulher essa construção se dá também na sutileza do dia a dia, naquelas barreiras que a gente se acostumou a achar inofensivas. No laço que não pode sair do lugar, no vestido cheio de camadas que atrapalha o caminhar. E também no tipo de elogios que a feminilidade atrai, que reforçam uma importância desmedida da beleza, da delicadeza, da graça, da fragilidade.

Mas eu quero que minha filha seja forte e corajosa, que tenha sensibilidade e empatia sim, mas também voz própria e pensamento crítico. E que entenda que seu valor vai muito, muito, muito além de sua beleza física.

Por essas e tantas outras, não me incomoda que um estranho na rua pense que minha filha é um menino. Minha prioridade não é sinalizar seu gênero, até porque, assim como o furo na orelha, quem irá um dia decidir sobre isso será ela. O meu papel se resume a ajudar a construir dentro dela uma autoconfiança apenas possível por meio da plena e verdadeira liberdade de fazer tudo o que um menino é capaz de fazer. E se por isso a confundirem com um deles, não faz mal. Deixa que confundam.

Como parte da iniciativa Todas, a Folha pre