terça-feira, 12 de março de 2024

Formar governo sem a ultradireita é novo desafio para aliança vencedora em Portugal, FSP

 

LISBOA

Vencedora das eleições de domingo (10), a Aliança Democrática (AD), coligação dos partidos da direita tradicional lusa, deve ser convidada pelo Presidente da República para formar um novo governo em Portugal. A sustentação partidária para o futuro Executivo, contudo, ainda é um desafio.

Somadas, as legendas de direita obtiveram maioria no próximo Parlamento, conquistando 59,7% das vagas já definidas. O crescimento, no entanto, foi puxado sobretudo pelo partido de ultradireita Chega, com quem as demais siglas –a Iniciativa Liberal (IL), além da AD– já descartaram se entender para a formação do governo.

exclusão da terceira força política mais votada complica significativamente o arranjo do Executivo à direita. A sigla populista obteve mais de 18% dos votos e garantiu 48 deputados, quadruplicando as dimensões da atual bancada, que tinha 12 representantes.

Luís Montenegro, líder da Aliança Democrática, coligação de direita, comemora vitória nas eleições de Portugal
Luís Montenegro, líder da Aliança Democrática, coligação de direita, comemora vitória nas eleições de Portugal - Miguel Riopa - 10.mar.2024/AFP

A AD conquistou 79 deputados, enquanto os liberais elegeram 8 representantes. Sem o Chega, a direita soma por enquanto 87 assentos: três a menos que os partidos de esquerda.

Ainda há quatro mandatos parlamentares em jogo –a apuração dos votos dos portugueses que vivem no exterior ainda não terminou–, mas os próprios partidos já contam com a continuação de um cenário político indefinido.

Em seu discurso de vitória, o líder da AD e presidente do Partido Social Democrata (PSD), Luís Montenegro, afirmou que iria "cumprir as promessas" da campanha, reafirmando a intenção de não incorporar a ultradireita.

Ao reconhecer a derrota, o líder socialista, Pedro Nuno Santos, afirmou que não iria inviabilizar um governo da AD aprovando uma moção de censura, mas deixou claro que a direita não deveria contar com os votos do Partido Socialista (PS) para governar.

Na avaliação da cientista política Paula Espírito Santo, professora da Universidade de Lisboa, o mais provável é que a viabilidade do governo de Luís Montenegro "passe muito por uma negociação caso a caso das medidas, das leis e do Orçamento, com cada partido no Parlamento, incluindo o PS".

Segundo ela, se o isolamento das demais siglas em relação ao Chega se confirmar, o poder de ação da ultradireita ficaria mais limitado. "Vai ter peso, porque é o terceiro maior partido, mas, sozinho, acaba por ter também limitações enquanto legenda de oposição."

Ainda na avaliação da pesquisadora, as posturas de todos os partidos, inclusive os da oposição, serão decisivas para a capacidade do Chega de pressionar pela inclusão de pautas mais conservadoras na agenda legislativa, como as propostas anti-imigração de seu programa eleitoral.

No dia seguinte às eleições, enquanto Montenegro se mantinha em silêncio, o presidente do Chega, André Ventura, voltou a pressionar publicamente a AD, cobrando a inclusão da ultradireita nas negociações para o governo. "Se não houver nenhuma negociação, isso é humilhar o Chega e então eu votarei contra o Orçamento." Segundo ele, uma aliança com o Chega garantiria à direita tradicional uma maioria estável para completar os quatro anos da legislatura. "Aparentemente, a AD prepara-se para levar o país para a total irresponsabilidade."

Em um cenário em que não há aprovação de uma moção de censura no começo do governo, Montenegro poderia iniciar sua administração com medidas que não demandem grande esforço para passar no Parlamento. O primeiro desafio surgiria por volta de outubro, com as inevitáveis negociações para aprovação do Orçamento de Estado para o próximo ano.

É aí que um eventual impasse político poderia levar mais facilmente à convocação de eleições antecipadas. Foi o que aconteceu em 2021, quando o presidente Marcelo Rebelo de Sousa determinou a dissolução do Parlamento após o governo minoritário de António Costa não conseguir aprovar as contas para o ano seguinte.

A possibilidade de convocação de um pleito antecipado já é amplamente discutida entre os analistas políticos em Portugal. Nesta segunda-feira (11), em um comunicado com o balanço do resultado das eleições, a agência de risco canadense DBRS falou abertamente sobre essa possibilidade.

Se os partidos não chegarem a um entendimento, a convocação de um novo pleito só seria permitida a partir de novembro, uma vez que a lei portuguesa exige um intervalo de pelo menos seis meses em relação às últimas eleições.

Paula Espírito Santo destaca que a queda de um governo pode trazer consequências negativas também para os partidos que a provocam. "Os eleitores podem penalizar os partidos que são vistos como responsáveis pelas crises. Isso já aconteceu antes".

Ainda assim, líderes partidários mantiveram o tom combativo em seus pronunciamentos. O socialista Pedro Nuno Santos reconheceu a derrota já falando em recomeçar. "Seremos oposição, renovaremos o partido e procuraremos recuperar os portugueses descontentes com o PS. Essa é a nossa tarefa."

O presidente da República começa a se reunir com os líderes políticos com assento partidário nesta terça-feira (12), dando início formal ao processo de consultas para a formação do novo governo. O chefe de Estado receberá uma sigla por dia, sendo a última a Aliança Democrática, vencedora das eleições.

Em nota, o Palácio de Belém informou que só haverá convite para a formação de governo após a definição dos assentos parlamentares que correspondem aos portugueses no exterior. Esses resultados só serão conhecidos em 20 de março.

Ex-governador Rodrigo Garcia anuncia desfiliação do PSDB, FSP

 

SÃO PAULO

O ex-governador Rodrigo Garcia anunciou, nesta segunda-feira (11), sua desfiliação do PSDB, partido em que ingressou em maio de 2021 pelas mãos de João Doria e Bruno Covas para concorrer à reeleição do Governo de São Paulo no ano seguinte.

A saída de Rodrigo era especulada nos bastidores desde sua derrota nas urnas, dado que o ex-governador militou durante quase toda a sua vida pública no DEM (hoje União Brasil e antigo PFL), partido que abriga seu grupo político próximo. Aliados acreditam que ele quer disputar o governo paulista em 2026.

O então governador Rodrigo Garcia durante entrevista à Folha no Palácio dos Bandeirantes - Karime Xavier - 16.dez.22/Folhapress

Em uma nota endereçada ao PSDB, Rodrigo elogia as gestões públicas tucanas e diz ser grato, mas pontua que deixa a legenda "convencido de que é tempo de mudança para todos nós".

A saída do ex-governador ocorre logo após a cúpula nacional do PSDB, comandada por Marconi Perillo, intervir no diretório estadual do partido em São Paulo para destituir da presidência o ex-deputado Marco Vinholi, que é um dos principais aliados de Rodrigo na sigla.

Políticos próximos de Rodrigo afirmam que, por enquanto, ele não deve ingressar em outro partido e que, de fato, há insatisfação com a intervenção nacional em São Paulo, estado que o PSDB governou por cerca de 30 anos.

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Embora os tucanos paulistas tenham tentado pacificar as divisões internas, a novela para a escolha de uma nova executiva estadual dá a dimensão da confusão no partido e do desafio de reconstrução. Diminuído e fragmentado após a derrota de Rodrigo, o PSDB, que elegeu 172 prefeitos no estado em 2020, chegou a 238 em 2022 e hoje tem cerca de 30.

"Apresento hoje (11/03) minha desfiliação ao PSDB. Faço com a tranquilidade e a certeza de que deixamos, numa parceria de quase 30 anos nas gestões públicas de São Paulo e do Brasil, um modelo de governar, baseado em princípios que sempre conjugamos, aquele da proteção aos mais necessitados, da responsabilidade fiscal e da inovação na gestão", diz a nota de Rodrigo.

"Foram eles que me levaram a trabalhar em parceria com Mário Covas, quando ainda começava na vida pública, e que me nortearam e me guiaram durante todas as administrações até as eleições de 2022. Sou grato a essa jornada que me deu grandes oportunidades. Contudo, deixo o partido convencido de que é tempo de mudança para todos nós", conclui.

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Rodrigo Garcia, Michel Temer, Ricardo Nunes e Gilberto Kassab em evento da prefeitura, em fevereiro - Danilo Verpa - 19.fev.24/Folhapress

Desde que deixou o Palácio dos Bandeirantes, Rodrigo tem atuado discretamente na política. A saída do PSDB não deve interferir nas articulações que ele mantém, como o apoio ao prefeito Ricardo Nunes (MDB), que busca a reeleição neste ano.

O ex-governador passou a maior parte de 2023 nos Estados Unidos, onde estudou inglês e negócios. De volta ao Brasil, abriu um escritório de advocacia tributária.

Em maio de 2021, a filiação de Rodrigo, então vice-governador, ao PSDB foi uma jogada de Doria para barrar as pretensões de Geraldo Alckmin, que pretendia concorrer ao Palácio dos Bandeirantes pelo PSDB. Alckmin acabou, então, migrando para o PSB para ser vice na chapa de Lula (PT).

Doria, que renunciou ao governo para ser candidato a presidente, mas viu seu plano naufragar, também acabou deixando o PSDB em outubro de 2022.

Como mostrou a Folha, a eleição de Vinholi para o comando da executiva do PSDB-SP, no último dia 6, foi contestada por uma ala do partido, que inclui o ex-senador José Aníbal e o prefeito de Santo André, Paulo Serra —ambos entusiastas de Eduardo Leite (PSDB-RS) e não de Doria.

Há pouca diversidade ideológica nas universidades e nas redações, Joel Pinheiro da Fonseca -FSP

 A revista The Economist publicou uma série de reportagens sobre as universidades de elite americanas. Dentre as muitas mazelas e desafios que enfrentam, uma delas é a homogeneidade ideológica, que produz uma cultura interna autocensora. Em Harvard, por exemplo, apenas 3% dos professores se denominam conservadores, enquanto 75% se classificam como "liberals" (no sentido americano, o termo "liberal" é mais ou menos o equivalente do nosso "progressista"). Harvard é um caso extremo, mas o ensino superior como um todo vem ficando cada vez mais homogeneamente de esquerda —com moderados e conservadores em queda.

Vou fazer a suposição pouco arriscada de que o mesmo vale para os cursos de humanas das universidades brasileiras, em especial as públicas. O pensamento de esquerda historicamente impera e vem aumentando sua hegemonia. Tanto lá como cá temos visto as universidades se tornarem palco de intolerância, fazendo com que eventos tenham que ser cancelados devido a protestos ideológicos; no ano passado, por exemplo, a Unicamp teve que cancelar uma feira de universidades israelenses.

Sala de aula de prédio da Politécnica da USP - Danilo Verpa - 26.set.23/Folhapress

Não é preciso grandes conspirações para explicar esse domínio crescente. Na falta de um esforço consciente em sentido contrário, a tendência é que o campo dominante procure indivíduos parecidos consigo para compor os novos quadros da instituição. Além disso, a ascensão de uma direita populista, que faz do ataque à universidade parte central de sua bandeira, tende a gerar nela a reação contrária, cerrando fileiras com a esquerda.

Outra instituição central na produção de conhecimento para o debate público —e igualmente na mira de populistas— é o jornalismo. Nele também vigora um claro predomínio ideológico. Segundo o relatório do "Perfil do Jornalista Brasileiro" mais recente (2021), feito pela UFSC, 80,7% dos jornalistas brasileiros se consideram de esquerda, centro-esquerda ou extrema esquerda. Direita, centro-direita e extrema direita somam 4%.

Isso é um grande problema. Primeiro, para a relação das instituições com a sociedade. Direitistas são parte relevante da sociedade. Ao não se verem representados nas instituições de geração de conhecimento, facilmente aderem ao discurso populista de que elas são parte do problema e passam a militar por sua destruição.

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O segundo motivo é intrínseco à operação delas: a geração do conhecimento se beneficia de diferentes perspectivas. O argumento pela diversidade dentro das instituições —em geral usado para raça e gênero— vale também para a ideologia. Por mais que se esforcem, há limites para o quanto homens brancos são capazes de contemplar pontos de vista de mulheres e negros. Um olhar diferente pode levar a novas perguntas, a questionar antigas premissas, a defender diferentes posições.

Por mais que cada um de nós tente ser —e treine para ser— objetivo e imparcial, ninguém o é perfeitamente. Temos vieses dados por nossa classe, raça, gênero e, também, posição ideológica ou religiosa. Como todo mundo pode errar, o conhecimento se dá por construção; e essa construção depende do embate de perspectivas opostas para ser sempre testada. É buscando provar que está certo perante seus pares que o indivíduo é levado a buscar novas informações. Poucos mudam de lado, mas todos saem com mais conhecimento do que entraram.

Sendo assim, não importa se quem tem a razão é a direita ou a esquerda; no confronto regrado dentro de instituições, elas cooperam para gerar conhecimento. Universidades e redações mais plurais são lugares não só mais tolerantes como também mais capazes de cumprir seu papel social.