domingo, 10 de março de 2024

Por que mulheres comemoram a legalização do aborto?, Lygia Maria - FSP

 

França tornou-se o primeiro país do mundo a instituir na Constituição o direito ao aborto, que já havia sido legalizado lá nos anos 1970.

Com o anúncio, centenas de mulheres em manifestações públicas comemoraram. Como cada vez mais países seguem o caminho da liberação, cenas do tipo tornam-se comuns e irritam opositores: "Por que celebrar o assassinato de bebês?"

Entendo o questionamento. Se alguém acha que um embrião é uma pessoa, a consequência lógica é ver no aborto um homicídio. Logo, a indignação é legítima, mas a opinião que a sustenta não é unânime.

Para muitas das que celebram, o aborto não se refere a bebês. A legalização impõe limites que, no geral, variam entre 12 e 20 semanas de gravidez. Para elas, e para vários pesquisadores, o feto faz parte do corpo da mulher até que seja capaz de sobreviver fora dele. A mulher não é um mero jarro no qual uma planta se desenvolve sozinha, é o corpo da mulher que desenvolve a planta.

Pode-se criticar esse ponto de vista, claro, mas não faz o menor sentido concluir dele que defender a legalização é defender assassinatos.

Mulheres em defesa do direito ao aborto reunidas, em Paris - Dimitar Dilkoff - 4.mar.2024/AFP

Do mesmo modo, não se deve tachar de misoginia a oposição, dado que esta advém não do ódio ao sexo feminino, mas da consideração de que um embrião é um ser humano.

Mas esse é um erro de estratégia discursiva que muitas feministas cometem ao debater com alguém que é contra a legalização, assim como dizer que homens não podem opinar sobre o tema —o único homem proibido num debate livre de ideias é o ad hominem.

O que se comemora, portanto, é a autonomia sobre o próprio corpo e a garantia de que a interrupção da gravidez não será penalizada.

No caso da França, o Legislativo foi além, ao colocar a liberação na Carta Magna. Um feito inédito também digno de ser festejado. A partir de agora, o direito fica ainda mais protegido de oscilações ideológicas do Congresso e do Judiciário.

Este último, especialmente, está mais sujeito a variações (é mais difícil derrubar uma lei do que uma decisão judicial), como mostra a caso recente da Suprema Corte dos EUA, que em 2022 revogou seu entendimento de 1973 a favor da legalização.

E os motivos para comemorar não param aí. Proibir ou limitar excessivamente o aborto é comum em países de baixa renda ou autoritários. Exceto a europeia Polônia, todos estão na América Latina, na África, no Oriente Médio e no sudeste asiático.

Apenas 16 nações criminalizam em qualquer caso, entre elas, Egito, Iraque, Nicarágua, El Salvador, Laos e Haiti —esses epítomes da democracia e de economia pujante.

Cerca de 40 nações permitem sob rígidas restrições, como estupro e risco para a vida da gestante.

Nos EUA e no México, a lei se diferencia por estado. No restante do mundo, o aborto é legalizado, com variações no tempo de gravidez e outros limites leves. Isso faz com que 60% das mulheres em idade reprodutiva vivam em locais onde podem realizar o procedimento sem medo de serem punidas pelo Estado.

A criminalização mata. Não à toa, de acordo com a OMS, 97% dos falecimentos causados por abortos inseguros ocorrem em países de renda baixa e média. Na América Latina, 4 em 5 são assim.

Ou seja, a cada legalização, não se celebra o assassinato de bebês, mas uma medida de saúde pública capaz de reduzir de modo considerável a morte de mulheres, principalmente as mais pobres —o que não deveria causar espanto ou indignação.


Como parte da inic

Contrariedade de militares com investigações da PF não se justifica, Elio Gaspari, FSP

 Aqui e ali reverberam sinais de desconforto de alguns militares com as investigações da Polícia Federal para desvendar a trama golpista de Bolsonaro. Chefes militares depondo por horas na Polícia Federal bem como vazamentos irregulares podem explicar a contrariedade, mas não a justificam.

Os tribunais militares de todos os países vivem debaixo de uma desconfiança sintetizada pelo presidente francês Georges Clemenceau (1841-1929): "A Justiça Militar está para a Justiça assim como a música militar está para a música".

A Justiça Militar brasileira carrega uma pesada mochila. Ela acreditou que Vladimir Herzog e Manuel Fiel Filho suicidaram-se, que Rubens Paiva fugiu e que a dupla do DOI nada teve a ver com a explosão da bomba do Riocentro no colo do sargento.

Na outra ponta, o Superior Tribunal Militar aliviou para dois capitães: Jair Bolsonaro, que rabiscou um projeto para detonar a adutora do Guandu, e Ailton Guimarães Jorge, que arrepiava cargas de contrabandistas no Rio de Janeiro.

Ex-presidente Jair Bolsonaro ao lado do então vice-presidente Hamilton Mourão e do general Freire Gomes durante cerimônia da Academia Militar dos Agulhas Negras - Tércio Teixeira - 26.nov.22/AFP

Em tempo: o capitão Guimarães, posteriormente alistado na artilharia do jogo do bicho, nunca foi acusado de contrabando, mas de confiscar as muambas.

Na madrugada de 14 de maio de 1971, com uma tropa da 1ª Companhia do 2º Batalhão da Polícia do Exército, ele saqueou uma casa do subúrbio de Campo Grande onde se guardava uma carga de milhares de calças jeans, caixas de uísque e perfumes. Os contrabandistas eram policiais civis e militares. Depois do arrepio, ele teria tentado vender a carga de calças jeans e perfumes à própria vítima.

Enquanto circulam as notícias de desconfortos, no Superior Tribunal Militar trata-se do caso da patrulha do Exército que matou dois cidadãos em 2019, numa cena em que foram disparados 257 tiros e circula a tese da legítima defesa.

Toda corporação tem um espírito de corpo. A questão está em saber para onde ele aponta. Há bons e maus espíritos. Muitos militares esquecem-se de que a própria corporação deu exemplos de grandeza e justiça. Tome-se o caso do general Peri Bevilacqua.

Em 1961, durante a crise da renúncia de Jânio Quadros, ele comandava a 3ª Divisão de Infantaria e foi decisivo para permitir a posse de João Goulart. Quando Jango dobrou à esquerda, apoiado pelos "Generais do Povo", Peri desafiou o governo e perdeu o comando da tropa de São Paulo.

Deposto Goulart, Peri foi para a chefia do Estado-Maior das Forças Armadas. Ele dizia o que pensava, passou a incomodar o governo e foi mandado para o Superior Tribunal Militar. Como votava a favor da libertação de presos, continuou incomodando. Um de seus votos derrubou uma denúncia contra o professor Fernando Henrique Cardoso. Pior: em 1966 ele defendeu uma anistia.

Em 1967, Peri aparteou um voto de outro ministro, o tempo fechou e os dois chegaram a levantar-se. O outro chamava-se Ernesto Geisel.

Nesses dias, Peri comentou em casa: "Estão preparando a sementeira do ódio".

Em dezembro de 1968 veio o Ato Institucional nº 5 e Peri Bevilacqua foi demitido do STM. Pura malvadeza, pois faltavam poucos meses para que caísse na compulsória. Foram além, confiscando-lhe as condecorações militares que havia recebido. Era um sinal para outros generais prestigiosos que ousassem sair da linha.

Peri filiou-se ao MDB e passou a defender a anistia. Morreu em 1990, aos 91 anos. Em 2002 a família do general foi informada de que, caso requeresse, as condecorações seriam devolvidas. Seu filho, um coronel da reserva, recusou-se a pedir.

Meses depois, o presidente Fernando Henrique Cardoso assinou o decreto que restabelecia as condecorações de Peri.

O lulopetismo tem um problema: Lula 3.0, ELio Gaspari, FSP

 

As pesquisas do Ipec e da Quaest revelaram que entre agosto e março a aprovação do desempenho de Lula caiu enquanto a reprovação cresceu.

As duas linhas se aproximaram, e o resultado confirmou a pesquisa do Ipec de dezembro, que mostrava a boca do jacaré aberta: 50% dos entrevistados não confiavam nele, contra 48% que confiavam. A diferença cabia na margem de erro. Em março, não cabe mais: 51% não confiam, contra 45% que confiam.

Alguma coisa está funcionando mal no governo de Lula 3.0. Não se pode dizer que seja a economia. Anda-se de lado, mas anda-se. Também não é a política, pois, em mais de um ano de governo, aprovou-se a reforma tributária e levou-se o andor sem escândalos.

Lula restabeleceu a relação civilizada com governadores filiados a partidos da oposição e enfrentou uma crise militar com um desempenho capaz de causar inveja ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e a Nelson Jobim, seu ministro da Defesa.

O presidente Luiz inacio Lula da Silva durante cerimônia de divulgação dos resultados do novo PAC - Gabriela Biló - 07.mar.24/Folhapress

Para quem já teve um presidente que falava em "meu Exército" e anunciava que não compraria a vacina adquirida pelo governador paulista João Doria, isso não é pouca coisa.

Num país ainda dividido, seria razoável que algum mau juízo persistisse, mas não precisava crescer. Uma possível explicação para esse crescimento está no próprio Lula. Ele foi o motor da vitória eleitoral, mas há um ano despreza o arco democrático que o elegeu, supondo que foi uma frente de políticos.

A diferença entre o arco e a frente pode ser fulanizada: o ex-ministro Pedro Malan esteve no arco, mas não está na frente.

Afora esse enguiço, Lula tem verdadeira paixão por duas cascas de banana. Uma é a falecida Operação Lava Jato, coisa de dez anos atrás. Outra são as encrencas internacionais, uma logo ali, na Venezuela, outra, a milhares de quilômetros, na Faixa de Gaza.

Sua insistência, em ambos os casos, aliena parte do eleitorado que teve ou poderá vir a ter. As bandeiras de Israel na campanha presidencial de Bolsonaro eram presepada. Já as que foram levadas para a avenida Paulista há duas semanas tinham real significado.

A República de Curitiba foi primitiva, onipotente e parcial, isso está entendido. Contudo a Lava Jato detonou roubalheiras documentadas e confessadas. Quando Lula fala dos seus defeitos e esquece o que houve de virtuoso, prega para os convertidos, sejam eles petistas ou empreiteiros, mas agride parte do eleitorado, que não aprova o que soa como uma indulgência com os corruptos.

As duas cascas de banana pouco têm a ver com o desempenho do governo. São inutilidades a serviço de uma espécie de autoglorificação presente no Lula 3.0.

Nos dois governos anteriores, Lula foi um presidente que mostrava interesse em dar certo. Afinal, como ele mesmo dizia, quando um ex-operário chegou à Presidência, não tinha o direito de errar.

O terceiro Lula comporta-se de outra forma. Não mostra a humildade de quem quer acertar porque está convencido de estar certo, a respeito de seja lá o que for, da oposição venezuelana à importância do governo americano na exposição das roubalheiras ocorridas na Petrobras.

Num juízo sereno, a reprovação do governo de Lula não deveria ter crescido, pois nada ocorreu de reprovável, salvo o congelamento de expectativas que eram apenas expectativas. Talvez Lula não tenha percebido, mas como profeta está maltratando o eleitorado.