quarta-feira, 6 de março de 2024

Ruy Castro - Cagões em silêncio, FSP

O presidente Lula afirmou que não irá ficar remoendo o passado a respeito de 1964, porque os atuais generais eram crianças quando o golpe militar aconteceu e não tiveram nada a ver com ele. Tem razão. Como esses generais estão hoje entre os 60 e os 70 anos, tinham então menos de 10, idade em que, segundo Nelson Rodrigues, deviam estar raspando perna de passarinho a canivete. Ou passando mais tempo no banheiro do que estudando.

Por não serem responsáveis por 1964, os generais hoje na ativa não deveriam se sentir herdeiros do golpe e obrigados a defendê-lo das acusações de tortura, execução e desaparecimento de seus adversários. Ao contrário —sem envolvimento emocional com os algozes e vítimas, seu maior interesse deveria ser ilibar as Forças Armadas dessa nódoa, admitindo que foram tais e quais oficiais que cometeram os crimes, e não as Forças em conjunto. O "esprit de corps" de que não se livram só serve para explicar por que, culpado ou inocente, nenhum milico saía fardado às ruas das grandes cidades brasileiras durante a ditadura.

Os generais de hoje têm agora também a oportunidade de impedir que o espírito golpista e criminoso de alguns de seus colegas contamine a opinião de quem, daqui a 60 anos, se debruçar sobre outro golpe ou tentativa de —o de 2022.

Para isso, deveriam contar tudo o que sabem nos depoimentos a que forem intimados, em vez de ficarem mudos como fizeram há pouco nove cagões, entre os quais os generais Augusto Heleno, Braga Netto e Paulo Sérgio Nogueira e o comandante Almir Garnier. O silêncio só lhes serviu para, além de se autoincriminarem, exibirem sua covardia. Sim, Bolsonaro também ficou mudo, mas este sempre foi um valente de palanque —e, agora, nem isso.

Pelo retrospecto, Heleno, Braga, Paulo Sérgio e Garnier, crianças em 1964, deviam ser das que, diante do perigo, corriam para as saias da mãe. Continuam.

Paulo Sérgio Nogueira, Augusto Heleno, Almir Garnier e Braga Netto - Fábio Rodrigues/Agência Brasil; Pedro Ladeira/Folhapress; Divulgação; Divulgação/Agência Brasil

terça-feira, 5 de março de 2024

Deirdre Nansen McCloskey - Renda básica universal?, FSP

 Participei na semana passada de uma conversa na Universidade de Nova York sobre a popular proposta de uma "renda básica universal". Fiquei chocada ao ver que os filósofos que a defendiam tinham tão pouca preocupação. Um economista é pago para se preocupar.

A UBI, na sigla em inglês (Universal Basic Income), como essa ideia é chamada por seus amigos, é antiga.
Nos anos 1950, Milton Friedman, pelo lado liberal, e outro economista Prêmio Nobel, James Tobin, da Universidade Yale, este pelo lado progressista, propuseram um "imposto de renda negativo" para os pobres.

Seria um substituto para as dezenas de programas especiais, como os subsídios para habitação e para famílias com filhos, que distorcem os mercados, ou para as leis do salário mínimo (pense sem renda), que afastam os pobres totalmente do emprego.

Como economista e verdadeira liberal, eu aprovo o imposto de renda negativo. Como ajudar as pessoas sem dinheiro? Dando-lhes dinheiro, obviamente. Apenas não imagine que isso produzirá a igualdade de resultados ou mesmo a igualdade de oportunidades. Estas estão fora de alcance, eu já lhes disse.
Mas defensores recentes vão muito além de Milton Friedman e James Tobin.

O deputado estadual Eduardo Suplicy (PT) no parque Imjingak, localizado na zona desmilitarizada da Coreia do Norte e Coreia do Sul, com faixa que diz 'vamos instituir a Renda Básica Universal na Coreia do Norte e do Sul para promover o processo de unificação e paz entre as duas' - @eduardosuplicy no Instagram

A palavra "universal" é somente um dos problemas da renda básica universal. É totalmente impraticável dar muito para literalmente todo mundo. E também é impraticável dá-lo apenas aos pobres —a menos que todos os outros programas sejam interrompidos. E isso mesmo que os Estados Unidos e os estados brasileiros, que estão muito abaixo da França e da Suécia nesse sentido, peguem 30% ou 40% da renda para seus esquemas. Acrescentar uma grande renda básica universal eleva a porcentagem muito acima de 50%.

E então? Não somos uma grande família feliz que pode seguramente compartilhar sua renda com seus membros? Não. Tirar de Pedro para entregar a Paulo dá a Pedro pouco incentivo para trabalhar ou para inventar. O tamanho da torta diminui. E do outro lado da renda Paulo tem pouco incentivo para trabalhar.

Veja a Argentina, ou os filhos de pessoas muito ricas que passam as férias em Cannes. O tamanho da torta diminui de novo. O que é sensato para uma família de verdade, ou para um grupinho de amigos amáveis que dividem uma pizza, é loucura para uma economia de 332 milhões ou 213 milhões de pessoas.

A maioria das pessoas boas não entende isso. O país como família é romanticamente poderoso. Mas você deveria se preocupar.
Tradução de Luiz Roberto M. Gonçalves

A fúria que o conflito israelense-palestino desperta, João Pereira Coutinho, FSP

 A frase aparece nas marchas pró-Palestina, embora só rime em inglês: "Do rio ao mar, a Palestina será livre!". Mas que rio será esse de que tanto se fala?

E, já agora, que mar?

Será que o leitor consegue identificar, sem esforço, o nome dessas duas entidades?

Eu sei que consegue. Nem todos podem dizer o mesmo. Meses atrás, o Wall Street Journal perguntou a 250 universitários interessados no assunto a mesma pergunta que eu formulei aqui.

Pode anotar: 47% não conseguiram identificar o rio e o mar em questão, apesar de gritaram o slogan nas marchas respectivas. Falaram do Nilo, do Eufrates, do mar das Caraíbas, do mar Morto, até do Oceano Atlântico.

PUBLICIDADE

Mas interessantes foram aqueles que, confrontados com um mapa do Oriente Médio, entenderam pela primeira vez que "do rio (Jordão) ao mar (Mediterrâneo)" significaria o fim de Israel, não a existência de dois Estados.

Manifestante com o cartaz 'From the river to the sea, Palestine will be free", em ato em Berlim - Odd Andersen/AFP

Não estou espantado. A fúria que o conflito israelense-palestino desperta é inversamente proporcional ao conhecimento sobre o tema. Direi mais: quanto menos se sabe, mais fanático se é —e isso vale para os dois lados. Haverá solução?

Sempre há: lendo. E, na vasta bibliografia sobre a tragédia, há um livro de Ian Black que tem se destacado nos últimos anos: "Enemies and Neighbors: Arabs and Jews in Palestine and Israel, 1917 – 2017" (inimigos e vizinhos: árabes e judeus na Palestina e Israel, 1917-2017).

Li a obra a conselho de amigos e pasmei com a erudição de Black: o historiador leu tudo —textos canônicos, obras de referência, jornais, diários, cartas privadas— e apresenta o conflito em toda sua complexidade histórica.

Onde outros veem apenas imperialistas ou terroristas, consoante o gosto, Black vai revelando seres humanos de carne e osso que a história contemporânea foi empurrando para a Palestina otomana: judeus que fogem dos pogroms russos; trabalhadores palestinos que se sentem ameaçados, e depois economicamente excluídos, pela imigração judaica.

Mas também nacionalistas judeus contra nacionalistas árabes, ambos brutais e irreconciliáveis, disputando a totalidade do território entre o famoso rio e o famoso mar.

Três fuzis cujo canos em curva atiram na direção daquele que puxar o gatilho
Ilustração de Angelo Abu para coluna de João Pereira Coutinho de 4 de março de 2024 - Angelo Abu/Folhapress

A juntar a isso, Black é primoroso na reconstituição da duplicidade das grandes potências, sobretudo a Inglaterra, que nos anos da Primeira Guerra Mundial foram fazendo promessas contraditórias aos dois lados.

Aos judeus, a promessa de que teriam o seu Estado na Palestina; aos árabes, de que teriam o seu Estado também. Era preciso não alienar apoios na luta crucial contra os otomanos.

Quando as armas se calaram, em 1918, havia um rastro de ilusões que tinham sido semeadas e que agora exigiam a sua colheita. O Plano de Participação das Nações Unidas (1947) tentou, no fundo, resolver o que já era irresolúvel.

Ian Black critica, com razão, as lideranças árabes que atraiçoaram as aspirações dos palestinos ao não aceitarem a solução dos dois Estados —a única possível mediante as circunstâncias.

Mas também não perdoa a obsessão judaica, depois da Guerra dos Seis Dias, em 1967, de povoar a Cisjordânia (e, em menor grau, Gaza) com assentamentos israelenses, que inviabilizam qualquer Estado palestino.

Hoje, olhando para o conflito, há quem diga que a destruição do Hamas em Gaza é condição "sine qua non" para que um dia seja possível retomar o caminho dos dois Estados.

Parcialmente, isso é verdade: o Hamas rejeita a existência de Israel e, desde os Acordos de Oslo, esteve sempre na vanguarda da destruição do "processo de paz".

Mas, lendo Ian Black, não é preciso citar os radicais para explicar o fracasso de Oslo.

Os líderes "moderados" de Israel e da Autoridade Palestina fizeram um bom trabalho nesse capítulo: a incapacidade para fazerem sacrifícios dolorosos na busca da paz —Israel com os assentamentos, por exemplo, e a Autoridade Palestina com a exigência irreal do retorno dos refugiados palestinos a Israel— cavou um fosso provavelmente intransponível.

Ian Black não oferece nenhuma solução para o conflito, talvez por suspeitar que não exista solução. Muito menos agora, com as matanças infernais em Gaza.

Mas já é um feito conseguir escrever 600 páginas de história sem desculpar nenhuma das partes em confronto. O realismo sempre foi incômodo para os fanáticos.