domingo, 24 de setembro de 2023

Filme de Karim Aïnouz mostra a beleza de conhecer o desconhecido, FSP

 

MARINHEIRO DAS MONTANHAS

Em "Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo", de 2009, um homem em viagem pelo interior do Nordeste lê uma carta dirigida à sua amada.

"Marinheiro das Montanhas" é quase a mesma coisa, mas ao contrário. O homem aqui tem nome —Karim—, viaja voluntariamente à Argélia para conhecer a terra de seu pai. Também nos lê uma carta, mas dirigida a Iracema, mistura de sua mãe, que já morreu, com uma interlocutora imaginária.

A primeira parte da viagem é por navio, aquele que o leva através da enjoativa instabilidade do mar. O que mais se agita? O mar ou a câmera? Talvez seja o viajante mesmo o mais agitado. É por conhecer a sua origem, ou metade dela.

Duas pessoas aparecem sentadas em pedras e, ao fundo, vê-se o mar
Cena do filme 'O Marinheiro das Montanhas', do diretor Karim Aïnouz - Divulgação

É a terra de Majid, o pai que raramente viu ao longo de sua vida. A mãe, brasileira, o conheceu quando tinha uma bolsa de estudos nos Estados Unidos. Se apaixonaram. Dessa união nasceu Karim. Então veio a política. No Brasil, o golpe de 1964 e a ditadura. Na Argélia, a luta pela independência e a conquista da independência. Por ela, Majid volta.

Majid, esse estranho. É como o sente. A separação é o que tanto inquieta o menino. Porque é a imaginação de garoto que elucubra a separação. Ele está diante da mãe —e destinatária da carta— e pergunta o que ela sentiu. O que ela, afinal, sentiu durante toda a vida? Ela, cientista —bióloga, presumo—, que o criou, de quem foi íntima, mas nem tanto. Nunca ousou perguntar a ela o que sentiu depois do abandono, como sobreviveu.

Algo se nota. Nas imagens de juventude, nos Estados Unidos, ela sorri com facilidade. Depois, não. O filho parece que partilha sua solidão e a duplica pelo desterro. Chega ao país do pai, mas não o reconhece como seu. Está longe da mãe e também do pai, que mora em Paris, que casou outra vez, que teve cinco filhos. Karim o encontra em Paris. Sente o pai ainda mais estranho depois que o conhece. Majid é um estranho como qualquer outro.

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Argel é só uma escala, mas ali é ele, Karim, que é o estranho. Argel é uma escala de estrangeiro, de desconhecido, de turista. Seu destino são as montanhas da Cabília. Ali ele finalmente é reconhecido. Ali não precisa mesmo soletrar o nome Aïnouz. Todos conhecem. Ali está a família do pai, os parentes do pai. Um encontro familiar em que vigora, de início, o estranhamento. Essa gente da montanha é diferente da urbana.

Desde então, o filme se faz de aproximações, as montanhas da Cabília, sua gente —os parentes, mas não só—, a correspondente imaginária —a mãe, Iracema—, o pai. Como se o estranho e o familiar, o presente e o ausente, encontrassem uma espécie de reconciliação na figura dessa voz que foge do fundo de uma carta.

Uma "espécie de", não uma reconciliação, porque, no final das contas, o triângulo pai-mãe-filho não se fecha nunca nem consola a melancolia do filho. Ela é que o constitui. Também não restituirá o pai. Não consolará o sofrimento da mãe pela separação —que é, no mais, presumida pelo filho.

O que resta? O percurso. E nele a beleza de transformar o desconhecido em conhecido, de pisar o lugar da origem (o outro lugar), o descobrir que a dor da existência não se cura.

O de saber da inutilidade da viagem. Ele viaja porque precisa, esse é um imperativo íntimo, mas volta porque a viagem tem de terminar.

O desterro prossegue. Karim voltará e não encontrará a mãe nem ninguém que o console. De tudo restarão as imagens. Para isso existimos, talvez. Para que tudo se converta em imagem, ou escrita. Belo filme.

Daquelas coincidências, Ruy CAstro FSP

 Algumas dessas histórias são, talvez, politicamente incorretas. No dia 16 de julho de 1945, os EUA cometeram o primeiro teste nuclear, no deserto de Nevada. Um membro da tribo local, os paiutes, comunicando-se por sinais de fumaça com um colega da montanha vizinha, viu subir ao longe o cogumelo atômico e exclamou: "Era isso o que eu queria dizer!!!".

Três semanas depois, no exato momento em que os americanos despejaram a bomba sobre Hiroshima, um japonês numa cidade próxima deu a descarga em seu banheiro, escutou a explosão e achou que tinha sido o causador da tragédia.

Essas coincidências acontecem. Aqui no Rio, um marinheiro irlandês bebum, o que lhe dava terrível sentimento de culpa, desceu do navio na praça Mauá e saiu para conhecer a noite carioca. Assim que pôs o pé em terra, um Cristo gigante iluminado surgiu de repente no céu aos seus olhos. Atônito, ele viu ali uma mensagem. Voltou para o navio e nunca mais bebeu. Era a noite de 12 de outubro de 1931, e o Cristo do Corcovado estava sendo aceso pela primeira vez, por um sinal elétrico disparado à distância.

Caso parecido foi o de Little Richard, o pioneiro do rock and roll. Ao se apresentar no Alasca, no dia 4 de outubro de 1957, viu uma bola de fogo no céu e também enxergou naquilo um aviso. Paralisou sua carreira no ato e se tornou um devoto da seita Renascer em Cristo. Só voltou aos palcos cinco anos depois, quando lhe provaram que a bola de fogo tinha sido o satélite soviético Sputnik 1, lançado ali perto, às 22h28, hora Moscou.

Eu próprio já fui bafejado por uma dessas coincidências. Há anos, num antiquário em Copacabana, pensando começar mais uma coleção inútil, comprei uma antiga bengala com cabo de marfim. Ao sair da loja, pisei de mau jeito na calçada e torci feio o pé. A dor era horrível e ficou muito difícil caminhar. Por sorte, eu acabara de comprar uma bengala.