quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

No crepúsculo do covarde, Bolsonaro ficará nos EUA se a pressão aumentar?, Lucia Guimarães, FSP

 Bolsonaro, o chorão perdedor, escolheu o destino ideal para fugir. Fugir da responsabilidade cívica de passar a faixa a Lula; fugir da humilhação de testemunhar a explosão de alegria popular no dia 1º; fugir do olhar de tantos que enganou e ficaram acampados na chuva. E talvez, acima de tudo, fugir por algum tempo da decisão de fugir ou não da Justiça que há de bater à porta.

A Flórida é um estado, mas é frequentemente uma metáfora de declínio, alienação a incultura.

Se Bolsonaro tivesse decidido ir direto para Mar-a-Lago, teria que desembolsar US$ 600 (R$ 3.150) por cabeça pela ceia de Ano-Novo, porque seu ídolo Donald Trump não dá desconto nem para puxa-sacos.

O então presidente dos EUA, Donald Trump, cumprimenta o líder brasileiro Jair Bolsonaro no resort de Mar-a-Lago, na Flórida, em 2020
O então presidente dos EUA, Donald Trump, cumprimenta o líder brasileiro Jair Bolsonaro no resort de Mar-a-Lago, na Flórida, em 2020 - Tom Brenner - 7.mar.20/Reuters

Se, como sugeriu, for passar "meses de descanso" na Flórida para se recuperar de quatro anos de ócio e vadiagem, o execrável capitão há de pedir ao filho Bannoninho para arranjar um rolê pelo clube decorado como um bordel luxuoso. Ele já conhece Mar-a-Lago, que visitou como presidente, em março de 2020, quando sua comitiva jantou sem máscara com membros já contaminados pelo coronavírus.

O problema é que o anfitrião potencial está numa fase péssima. Como seu plagiador brasileiro, está na mira das Justiças civil e criminal. Apesar de ter lançado uma terceira campanha presidencial há um mês, puramente para se blindar, Trump não põe o pé fora da Flórida. Quando sai do clube onde fica sua residência é para jogar golfe no outro clube que possui perto do aeroporto de Miami.

Além de não jogar golfe, o capitão monoglota não vai curtir outro passatempo do letárgico ogro alaranjado. Ficar assistindo ao filme "O Crepúsculo dos Deuses", favorito do republicano. Ambos os fracassados candidatos a dar golpe de Estado não têm senso de ironia, e Trump, anos antes de chegar à Presidência, já submetia visitantes a sessões de "Crepúsculo", a história da decadente e vaidosa ex-atriz de cinema mudo que vai enlouquecendo com ilusões de um retorno triunfal.

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Assim como tantos que se locupletaram no poder em Brasília e hoje querem ver as costas do fascista de chinelos, até os mais rastejadores membros da corte de Mar-a-Lago não querem que Trump concorra em 2024. Nem os filhos gananciosos, que competem em cretinice com a prole do patriarca da Barra da Tijuca.

É possível que a pandemia tenha contribuído para aumentar o instinto paranoico e o ressentimento nesses dois facilitadores da morte em massa. Ambos vivem numa bolha refratária à introspecção e à realidade, protegidos por sicofantas raspando o que sobrou no tacho.

Trump não pode voltar permanentemente à luxuosa cobertura no centro de Manhattan e do poder financeiro e midiático, onde tantos iam lhe beijar a mão. Nova York é uma cidade democrata, e toda a família, que também se debandou para a Flórida, seria regularmente vaiada, além de desprezada pela elite local. Mas é impossível imaginar o criminoso ex-presidente, aos 76, deixando o país para evitar a Justiça.

E o pior presidente da história brasileira? Se a pressão aumentar enquanto estiver na Flórida, ele vai dizer "se é para o meu próprio bem e felicidade geral da minha família, digo ao povo que vou ficando por aqui"?

Erramos: o texto foi alterado

O presidente Jair Bolsonaro foi identificado incorretamente como carioca. Ele nasceu na cidade de Glicério, no interior de São Paulo.


Bolsonarismo aciona o modo terror, Conrado Hübner Mendes, FSP

 Enquanto teu tio desocupado passa a tarde na frente do quartel pedindo golpe e comendo churrasco na cadeira de praia com amigos de clube, seu parceiro de cerveja planeja atentado a bomba para aterrorizar o país. Atiçados pelo presidente da República e tolerados por agentes públicos, os executores do terror podem te matar sob o grito da pátria e da liberdade. Não é delírio, é plano pensado, financiado e autorizado.

No dia da diplomação de Lula, a violência coordenada pelas ruas de Brasília demonstrou, para quem duvidava, que os revoltosos que bloqueavam estradas e depois acamparam em circunscrições militares estão envolvidos em atividade criminosa. E que se beneficiam da complacência da cúpula governamental e militar.

Carros e ônibus queimados nas ruas evidenciaram a natureza do movimento. Autoridades de inteligência não só não os monitoraram como os acalentam na prática e no discurso. Nunca funcionou assim com movimentos que pedem justiça social.

Carros da Polícia Militar estacionados em via que dá acesso ao Aeroporto de Brasília para desativar explosivo
Polícia Militar desativa explosivo em via que dá acesso ao Aeroporto de Brasília - Divulgação-24.dez.22/PMDF

O combo de crimes cometidos por cidadãos e autoridades de diversos níveis envolve abolição violenta do Estado democrático de Direito (art. 359-L, do Código Penal); incitação (art. 286, parágrafo único); associação criminosa (art. 288); crime de omissão imprópria de autoridades que têm dever de proteger indivíduos e patrimônio. Além de um variado conjunto de crimes conexos: de dano, de incêndio, de tentativa de homicídio etc.

Dias depois, por força do acaso (e por aviso de cidadão desconfiado), descobriu-se plano de atentado a bomba de grande proporção. Um empresário e atirador esportivo planejava provocar "decretação do estado de sítio" e "intervenção das Forças Armadas". A explosão ocorreria nos arredores do aeroporto e de subestação de energia. Em sua casa se encontrou arsenal de armas e explosivos ilegais.

Silêncio nos gabinetes do Planalto.

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Não sabemos o que pode ocorrer na posse presidencial. Não é perigo genérico, ordinário e imprevisível, presente em qualquer grande evento. É perigo específico, extraordinário e previsível, facilitado pela leniência de autoridades irresignadas com a derrota eleitoral; e por grupos civis ilegalmente armados e embrenhados no extremismo bolsonarista.

Juristas têm desencorajado analistas políticos a usar o termo "terrorismo" para nomear o que assistimos. Explicam que, na lei brasileira, o crime de terrorismo só ocorre quando atos que intentam provocar pânico generalizado sejam motivados por "xenofobia, discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia e religião", não por "manifestações políticas". Há uma variedade de crimes, mas não o de "terrorismo".

A ressalva jurídica ("pela lei, o crime não é de terrorismo") está certa. A recomendação terminológica ("não falem em terrorismo") está errada. Porque a lei e o direito não têm monopólio da linguagem crítica da política e da moral.

Se aviões da Al Qaeda derrubassem as torres gêmeas do Congresso Nacional, a lei brasileira não qualificaria como crime de terrorismo. Mas seria terrorismo conforme seu conceito quase universal (presente não só em leis estrangeiras e convenções internacionais, mas na teoria social): ato violento, com potencial de causar dano massivo à vida e à infraestrutura, que afeta civis inocentes e gera pânico para intimidar população e governo.

O bolsonarismo, enfim, escancara sua face terrorista. Face presente já na origem da biografia pública de Bolsonaro, que ameaçou explodir bomba contra instalações militares por melhores salários nos anos 80 (leia o livro "O Cadete e o Capitão", de Luiz Maklouf).

Existem autorizadores primários do terror: Bolsonaro, que mescla reclusão com incitações cifradas à "defesa da pátria"; as Forças Armadas, que não rechaçam publicamente pedidos de golpe e ataques ao resultado eleitoral, deixam ventilar interpretações alucinadas do art. 142 da Constituição, e tratam a pão de ló os patriotas no seu quintal; e Augusto Aras, cuja omissão está sacramentada nos anais.

Aras é o primeiro PGR da história a ser publicamente instado a agir por procuradores da República. É praticante da arte dos gestos ilusionistas e declarações anódinas. Referiu-se a movimentos golpistas como "rescaldo indesejável, porém compreensível", assegurou que "monitora" protestos e lembrou que criou "grupo de combate ao terrorismo". O grupo nada fez de concreto, exceto despertar risos involuntários em Flávio Dino.

Dino, ministro da Justiça de fato, ainda não de direito, já pratica atos de governo. Alexandre de Moraes suspendeu porte de armas na capital. Bolsonaro deve se ausentar do país antes da posse numa viagem com vasto uso de recursos públicos. A legalidade da fuga disfarçada, se ocorrer, é burlesca. Seu fim é patético. E deixa órfãos nos quartéis.