segunda-feira, 19 de dezembro de 2022

Será que o capitalismo dará lugar ao tecnofeudalismo?, Álvaro Machado Dias, FSP (definitivo)

 O declínio do capitalismo já foi previsto diversas vezes, mas agora o tom é diferente.

Ao invés da transição para um modelo mais igualitário, a tese em evidência é a de que o status quo produtivo está sucumbindo sob práticas socioeconômicas cada vez menos atreladas à competição mercadológica e à exploração do trabalho remunerado.

A culpa seria das grandes empresas de tecnologia, como Facebook/Meta, Amazon, Apple, Microsoft e Google (FAAMG), que teriam se tornado imunes às forças de mercado. Suas vantagens competitivas não encontrariam precedentes na modernidade porque o modelo de plataforma em que operam converte seus usuários —a humanidade inteira— em trabalhadores não remunerados, em franco contraste com o que se dá no capitalismo produtivo.

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Montagem com logos de Amazon, Apple, Facebook e Google - REUTERS

A normalização das tarefas sem bonificação, como o refinamento de algoritmos de recomendação por meio de cliques, criaria as bases para o declínio global da capacidade de geração de renda, exaurindo os mercados pelo lado da demanda, enquanto torna parcelas cada vez maiores da humanidade dependentes de alguma solução assistencial para sobreviver.

Monopólios de funções vitais, ausência de retorno para a sociedade e trabalho não remunerado criariam as condições para uma ruptura econômica sem paralelos recentes, a qual daria origem à era do tecnofeudalismo, em face da qual "a história simultaneamente avançaria tecnologicamente e regrediria politicamente".

FEUDALISMO, CAPITALISMO, TECNOFEUDALISMO

O sistema feudal vigorou na Europa entre os séculos 9 e 14 e, com distinções, em outras partes do mundo. Jacques Le Goff escreveu que a sua característica distintiva era a presença de duas classes: alguns proprietários-guerreiros, que mantinham entre si relações de subordinação e interdependência; e um grande número de camponeses que, pelo uso da terra e proteção, eram obrigados a transferir parte substancial da sua produção e tempo de serviço àqueles.

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No feudalismo, os incentivos para o aumento da produtividade eram tímidos, e a subtração de recursos, coercitiva.

Conforme Evgeny Morozov ressalta, do ponto de vista econômico, a transição para o capitalismo aconteceu conforme a transferência forçada da riqueza passou a ser preterida pela deliberada, ao passo que, do ponto de vista sociopolítico, as regras privadas estabelecidas nos feudos foram comutadas pelas leis que caracterizam os estados modernos.

O tecnofeudalismo seria o retorno ao modo pré-capitalista de produção e aos seus fundamentos sociopolíticos: trabalho sem remuneração e apropriação privada das funções do Estado, em espaços de convivência digital, regidos por regras criadas pelos novos senhores feudais.

Na economia de plataformas, o valor gerado se propagaria de modo unidirecional, não havendo evolução material da sociedade, apenas estagnação e acúmulo centralizado.

Yanis Varoufakis é o mais famoso proponente da tese de que as plataformas digitais estão destruindo o capitalismo. Segundo ele, "Amazon, Facebook, etc. não são mercados. Ao adentrar seus territórios, você deixa o capitalismo para trás. Nestas plataformas, um algoritmo decide o que está à venda, quem vê quais produtos, bem como a taxa que o dono da plataforma vai tirar do lucro dos capitalistas-vassalos, com permissão para comercializar na plataforma. Em suma, a atividade econômica está migrando dos mercados para estes feudos digitais".

Cédric Durand, professor da Sorbonne, diz que a passagem ao tecnofeudalismo acontece conforme a geração de renda passa dos meios materiais de produção para os intangíveis, que ofecerem "lucros econômicos, independentemente do esforço produtivo que se tenha realizado". O autor opõe a lógica industrial à das propriedades intelectuais, em que as grandes empresas de software se escoram.

Essas empresas teriam crescido sob a égide da ideologia californiana, que antes incentivava a inovação radical e o empreendedorismo, mas que hoje apenas bloqueia o caminho dos que tentam enfrentar o monopólio das big techs.

A servidão digital na qual sucumbimos, enquanto nos iludimos com as pretensas vantagens de passarmos os dias conectados, seria a principal responsável pela redução nas taxas de crescimento do PIB dos Estados Unidos e de outros países, nos últimos anos.

TESTANDO A HIPÓTESE DO TECNOFEUDALISMO

Os males induzidos pelas big techs são uma das temáticas mais populares entre pais, educadores, intelectuais, psicólogos e economistas. Isso não acontece por acaso, mas porque diversas práticas sociotecnológicas têm aspectos nocivos, especialmente para subpopulações mais vulneráveis, como pré-adolescentes e pessoas solitárias.

Não há como negar que passamos a habitar espaços simbólicos sobre os quais as big techs têm poder quase irrestrito, nem que a imagem pública do capitalismo está em baixa globalmente. Estudo de amplitude inédita da Edelman (2019) mostrou que, para 57% da população global, "o capitalismo que existe hoje em dia faz mais mal do que bem". O que importa saber é se esta conjuntura está de acordo com os preceitos tecnofeudais ou se precisamos de um novo referencial para descrevê-la.

REDES SOCIAIS E BROWSERS PELO PRISMA TECNOFEUDAL

Redes sociais surgiram para conectar as pessoas horizontalmente, mas hoje servem mais para promover alocação eficiente entre produtores e consumidores de conteúdo. Os primeiros extraem valor de duas formas: elevando seu klout (impacto social) e com patrocínios; o YouTube distribui aproximadamente 50% da receita para os criadores, outras plataformas são bem menos generosas.

Os consumidores não pagam pelo serviço, quando este vem com anúncios. Algumas plataformas oferecem alternativas pagas. O modelo de negócios com anúncios é funcionalmente similar ao da TV aberta, ao passo que o pago, sem anúncios, inspira-se na TV a cabo.

A função originária e, de certo modo, ainda atual dos algoritmos baseados em aprendizado de máquina (IA) é otimizar automaticamente o processo de recomendação das produções dos próprios usuários, para que a diferenciação em relação às mídias tradicionais faça sentido, já que o conteúdo em si não costuma ser bem produzido, nem é confiável.

Em contraste, ao impulsionar vídeos ou posts, a marca ou influencer pode definir seu público-alvo usando região, idade e outros dados de perfil; ou seja, sai do domínio puramente algorítmico e passa a agregar filtros tradicionais de audiência, novamente emulando parte da lógica de compra de mídia da TV.

Não é que algoritmos sejam menos críticos na veiculação de anúncios em browsers e redes sociais; apenas é preciso ter em mente que as empresas de tecnologia contam com um recurso tradicional de direcionamento de mídia, que transfere parte da responsabilidade pelo sucesso da campanha para o anunciante, em contraposição ao que se dá com os conteúdos não patrocinados.

A ideia de que o consumidor gera valor sem remuneração enquanto refina os algoritmos de preferência está correta, mas precisa ser compreendida a partir de sua mecânica e escala. O TikTok tomou de assalto o mercado, entre outras coisas, porque tem os mais sensíveis algoritmos de recomendação existentes.

Uma reportagem do Wall Street Journal mostra que ele encontra preferências estáveis com 40 minutos de uso. Dali em diante, o processamento torna-se mais adaptativo, respondendo às mudanças no padrão preferencial.

As pessoas estão cedendo informações monetizáveis para as redes o tempo todo, mas isso acontece enquanto manifestam suas preferências pelos conteúdos gratuitos e fazem outras atividades do dia a dia, que são sorrateiramente monitoradas. É expropriação do valor implícito em atividades de lazer e outras mais, incluindo financeiras, e durante o acesso a dados de saúde.

A ideia de que há substituição do trabalho por essa forma de "servidão" choca-se com o fato de que a apropriação indébita de informações pessoais monetizáveis justamente acontece abaixo da linha da percepção, sem comprometer as atividades produtivas do consumidor; aliás, é no exercício destas que o valor dos dados se eleva.

Os adeptos do tecnofeudalismo sugerem que a relação entre plataformas e consumidores é de parasitismo, uma dinâmica de extração de recursos que debilita o hospedeiro. Porém, informações digitais não são efetivamente surrupiadas, tal como são as proteínas no interior de um animal ou a produção de um camponês medieval; elas são copiadas e utilizadas nos filtros de direcionamento de propagandas. Apenas no caso de criptomoedas acesso significa subtração.

Assim, a relação ecológica estabelecida nos nichos digitais é menos de parasitismo do que de comensalismo. Neste caso, uma espécie é claramente beneficiada, ao passo que o custo/benefício para a outra é próximo de zero, não porque ele seja neutro em todos os aspectos, mas porque os positivos tendam a contrabalancear os negativos.

Vale notar que uma pesquisa recente do Instituto Locomotiva mostrou que 75% das pessoas acham que as redes sociais fazem mais bem do que mal. A relação pode ser injusta do ponto de vista moral, mas não é análoga à servidão.

As plataformas da Meta atingem 3,7 bilhões de pessoas, o que é impressionante. No entanto, sua receita com anúncios vem caindo. Isso ocorre pela ascensão do TikTok, aliada a questões macroeconômicas que estão afetando os anunciantes e, acima de tudo, porque o IOS 14 da Apple implementou uma regra que limita a coleta de dados pessoais sem consentimento do cliente.

Nesta semana, foi a comissão de proteção de dados da União Europeia quem decidiu que a Meta não pode oferecer anúncios baseados em informações pessoais sem consentimento. A decisão, ainda não publicada, é dada como certa. EUA e outros estudam fazer o mesmo.

A súbita descoberta de que o metaverso é o futuro das relações sociais e do trabalho pelo antigo Facebook foi primariamente motivada pela percepção de que o modelo de plataforma digital é frágil no atual contexto regulatório e, sobretudo ecossistêmico, de hardware-software, em franca oposição à ideia de que seria o paradigma para os feudos contemporâneos.

O modelo vitorioso é o da integração entre dispositivos e mídias, hoje conhecido como phygital, que faz da Apple a empresa mais valiosa do mundo. Warren Buffet compreendeu isso e, entre 2016 e 2018, comprou US$ 36 bilhões em ações da companhia, que neste ano chegaram a valer mais de US$ 160 bilhões.

Correlativamente, os maiores riscos mercadológicos estão nestas conurbações phygital e na verticalização de serviços essenciais, típica dos superapps chineses.

Os espaços simbólicos em plataformas como TikTok e Instagram lembram praias privadas em que anunciantes pagam para disponibilizar guarda-sóis customizados, que os clientes utilizam de graça, enquanto se divertem num jogo que gamefica os itens do bar. Nestas praias, até as câmeras de segurança são patrocinadas. A grande questão é que ByteDance e Meta não são donas das faixas de areia em que rola a diversão.

As margens na área de tecnologia são enormes, porém isto não significa que os lucros independam do esforço, como afirma Durand. Os maiores investidores em P&D do mundo são: Amazon, Alphabet/Google, Huawei, Microsoft, Apple, Samsung e Meta.

Do mesmo modo, é incorreto assumir que as empresas de tecnologia apresentam as maiores taxas de lucro do mercado, o que seria esperado no modelo tecnofeudal, exclusivamente baseado em rent-seeking. Entre as maiores empresas dos EUA (S&P 500, 2022), a lista é a seguinte: ICE (49.4% de lucro líquido), Moderna (42.6%), Signature Bank (42.1%), CME (42.0%) e Visa (41%). Tirando a Moderna (biotecnologia), todas são financeiras.

Finalmente, o modelo de negócios puramente baseado no desenvolvimento de algoritmos definitivamente não obedece à lógica tecnofeudal. O objetivo de labs como o Open AI, criador do GPT-3 e Dall-E-2, sob os auspícios da Microsoft, é muito mais ambicioso do que o do time de produtos do seu principal patrocinador.

A ideia não é meramente equipar a Azure ou o pacote Office com o melhor dos chatbots, mas criar tecnologia e cultura que possam estar na base de praticamente todas as atividades humanas.

Ferramentas de conversação e outros tipos de IA, que funcionam por API e assim podem equipar qualquer website ou app do mercado, são os verdadeiros pivôs dos debates sobre o futuro dos relacionamentos e do trabalho, os quais não estão sendo conduzidos com referências às plataformas sociais e marketplaces, mas ao poder "rizomático" da inteligência artificial.

A questão é que, longe do chão de fábrica, a massificação da IA tem funcionado menos do que parece. O Google vai encerrar as atividades do Duplex Web, lançado com estardalhaço em 2019, para automatizar reservas em restaurantes, salões de beleza e afins, pois a adoção foi baixa.

Na Amazon, a unidade responsável pela Alexa está em processo de reestruturação, após um prejuízo multibilionário. "A Amazon descobriu que a Alexa é usada para bilhões de interações por semana, não obstante, como estas são típicas de um assistente digital, ao invés de ligadas a produtos, há poucas chances de monetização", comenta o pesquisador Malcolm Owen.

O FUNDO DE VERDADE DO TECNOFEUDALISMO

A aquisição do Twitter por Elon Musk é um dos principais acontecimentos do ano. De uma hora para outra, o principal ringue verbal do planeta passou a ser propriedade de um sujeito instável e moralmente duvidoso.

Não há sinais de que plataformas estejam privatizando o poder estatal diretamente, mas é fato que Trump, Bolsonaro e outros políticos foram restritos por fake news, assim como é que o Facebook teve papel decisivo na eleição de ambos.

Ironicamente, a crítica tecnofeudal por vezes se alinha ao pleito destas pessoas; em outras, é o contrário. Em ambas, alimenta uma mitologia em que Zuckerberg é Thanos e Bezos, Darth Vader, o que não ajuda.

Ao fixar preferências com base em cliques, os algoritmos reduzem dramaticamente o mundo percebido, o que talvez seja mais danoso que a servidão tecnofeudal.

Os problemas sociopolíticos criados assim precisam ser enfrentados, bem como as práticas mercadológicas abusivas. Isso não significa que o desenho socioeconômico emergente possa ser estampado sobre uma matriz de séculos atrás. Simplesmente, não funciona.


Chef brasileira nascida no Vidigal leva a coxinha a Paris, FSP

 Teté Ribeiro

Se a história de Alessandra Montagne fosse contada num longa-metragem, era capaz de o roteirista ser demitido por ter carregado demais no drama. Mas a vida real não precisa ser verossímil, e, muitas vezes, não é.

Quem a conhece —mesmo em uma conversa por Zoom, como foi o caso desta entrevista— também não imagina que por trás daquela presença leve, calorosa e do sorriso largo que ela abre com frequência exista uma trajetória tão cheia de dor.

Aos 45 anos de idade, Alessandra é dona de três restaurantes em Paris. Mas ela não é apenas uma empresária do ramo. É uma chef de cozinha e mestre confeiteira graduada, que leva para os pratos que prepara tanto o que aprendeu na escola quanto o que colheu de melhor da vida.

"Minha cozinha tem zero desperdício. Faço questão de trabalhar com produtores que eu conheço, só uso produtos da estação e não compro nada que vem de muito longe", afirma. "Sempre vou privilegiar a agricultura local. Cresci em cidade pequena e sei o valor das coisas, dos legumes que estão sendo plantados para alimentar as galinhas, que vão botar os ovos que também vão servir de alimento."

A chef Alessandra Montagne no restaurante Nosso, em Paris, na França - Anne Claire Heraud/Divulgação

Alessandra nasceu com outro sobrenome, filha de uma empregada doméstica no Vidigal, no Rio de Janeiro. Aos oito dias de vida, foi entregue pela mãe para os avós paternos, que a criaram na cidadezinha de Poté, no interior de Minas Gerais.

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"Quando me perguntam onde fica Poté eu digo que é perto de Teófilo Otoni [município de MG]. Se nem isso ajuda a localizar, eu digo que Teófilo Otoni é perto de Governador Valadares", diz. Não tinha nem água encanada nem luz elétrica em Poté. Telefone, então, muito menos.

Os avós paternos de Alessandra tiveram nove filhos, a casa vivia cheia de gente, os mais velhos passando as roupas que ficavam pequenas para os mais novos. E Alessandra passou toda a infância lá, brincando na rua, de pé no chão. No Dia de Finados, ela e sua avó acendiam uma vela para a mãe, que acreditavam que já tinha morrido.

Mas, um dia, quando tinha 12 anos, um carro preto, novo e chamativo estacionou na porta da casa de seus avós. Carro em Poté era coisa rara, e a cidade inteira parou para ver quem estava chegando. O motorista desceu e abriu a porta de trás. "Eu só vi uma perna que saiu assim do carro, ela tava de bota, me lembro como se fosse hoje. Meu coração disparou", contou Alessandra.

"Eu não lembrava do rosto, mas sabia que era ela. E fiquei com muita vergonha, eu era uma menina magrela, descabelada, toda suja de poeira. E ela aquela mulher arrumada, cheirosa, bem-vestida."

Alessandra se emociona quando me conta que nunca teve coragem de perguntar para a mãe por onde ela andou e o que ela fez durante aqueles 12 anos. A mãe já morava em Paris quando fez essa visita. Era casada com um francês e não tinha ido a Poté para pegar a filha, mas sim para reencontrá-la e avaliar se ela estaria educada o suficiente para se mudar para a França.

Passados 15 dias, chegou à conclusão de que não. Matriculou Alessandra em um internato em Campinas, chamado Instituto Adventista de São Paulo. "Lá eu vivi as piores situações de racismo no Brasil", diz Alessandra. "As outras meninas me perguntavam por que o meu nariz era tão largo, por que o meu cabelo era desse jeito, diziam que eu era muito feia."

E, ao contrário dos colegas, todos de famílias ricas, Alessandra não tinha ninguém que a buscasse no internato nos feriados prolongados ou nas férias. Ficava na escola nessas datas. Muitas vezes sozinha. "Eu ligava para a minha mãe pedindo pelo amor de Deus, deixa eu voltar para você, pelo amor de Deus. Mas ela não queria que eu voltasse, e eu não sabia o que fazer."

A chef Alessandra Montagne no restaurante Nosso, em Paris, na França - Anne Claire Heraud/Divulgação

Num final de ano, Alessandra pegou um ônibus e foi para Poté. Tinha 16 anos, era virgem. Na cidade de dois mil habitantes onde passou a infância, nesse verão, teve sua primeira relação sexual. E engravidou. Os avós, envergonhados com a situação, forçaram Alessandra a se casar com o pai do bebê, um homem que se revelou cruel e violento.

Alessandra teve o filho, André, que hoje tem 29 anos e mora com ela em Paris. "O André foi o motor que eu precisava, sabe? Ele salvou a minha vida, o meu filho. É meu melhor amigo", afirma.

Depois do nascimento do bebê, Alessandra percebeu que precisava dar um jeito de trabalhar, produzir dinheiro e, mais que tudo na vida, traçar um plano de fuga. "Você não tem vontade de abraçar, de beijar, uma pessoa que te machuca."

Então, foi para a cozinha, coisa que fazia desde pequena junto da avó. Começou a fazer coxinhas para vender na porta da escola. "Os alunos sentiam o cheiro da minha coxinha e pulavam o muro pra comprar, era uma loucura", lembra. O diretor da escola acabou dando autorização para que ela vendesse os salgadinhos do lado de dentro do muro, para evitar acidentes.

O dinheiro que ganhava, guardava. Demorou quatro anos, mas Alessandra conseguiu juntar o que precisava para fugir daquela situação. "Peguei um ônibus de Poté para São Paulo, onde uma tia minha morava, em Itaquera. Foram 22 horas de viagem, eu, meu filho, uma garrafinha de água para ele, o dinheirinho da coxinha e uma mochila nas costas", conta.

De São Paulo, fez contato com a mãe, em Paris, e juntas resolveram que Alessandra iria para a França arrumar um emprego e aprender a língua para depois levar o filho. "Deixei o André com minha tia e entrei em um avião pela primeira vez na vida."

Quando desembarcou em Paris, o padrasto francês foi buscá-la no aeroporto e, antes de levá-la para casa, parou o carro pertinho da Torre Eiffel e disse: "Alessandra, olha para cima". Sem saber muito bem o que esperar, mas sem querer correr o risco de parecer antipática, Alessandra fez como o padrasto pediu.

"E assim que vi aquela torre de baixo, o céu azul lá em cima, ficou claro para mim que essa era a cidade onde eu iria morar, esse era o meu destino." Precisava trabalhar, estudar e trazer o filho. "Só tinha isso na cabeça, tudo que eu fiz dali pra frente foi com o objetivo de trazer o André para morar comigo."

A chef Alessandra Montagne no restaurante Nosso, em Paris, na França - Anne Claire Heraud/Divulgação

Mas Paris tem lá suas distrações. Alessandra começou a sentir cheiros que nunca tinha sentido antes, perceber sabores que não conhecia. "Comecei a descobrir o gosto, o aroma das frutas vermelhas na época da colheita, é tão diferente colher uma framboesa ou um morango na hora certa. Há muitas variedades de morango, quatro ou cinco, cada uma com um cheiro e um gosto diferente. Os tomates, então, têm umas 20 variedades diferentes."

E foi experimentando misturas, testando receitas, comprando panelas e livros de culinária, trazendo o que tinha aprendido na cozinha da casa da avó para a comida francesa. Trabalhava o dia inteiro em uma empresa de insumos médicos como assistente, abrindo pacotes, conferindo correspondência, atendendo telefones.

Na França, existe uma política de aperfeiçoamento profissional bem diferente do que há no Brasil. Lá, se um funcionário for aceito em uma escola concorrida, e o chefe concordar, ele tira uma licença para estudar o que quiser e continua recebendo o salário integral durante o tempo que o curso durar.

E Alessandra foi aceita em um curso de culinária de um ano na escola Médéric, em que se dedicou completamente, de corpo e alma. No final do ano letivo, a escola ofereceu a ela um curso de confeitaria com a mesma duração, que ela também fez. Saiu dos dois anos de estudo com emprego em um restaurante, como chef confeiteira.

Demorou um bom tempo até conseguir trazer o filho para Paris, mas conseguiu. Quando André chegou, Alessandra já morava com um francês que conheceu e por quem se apaixonou, e com quem, em 2006, teve sua segunda filha, Thaís.

Em 2012, com algum dinheiro guardado e a vida pessoal num momento mais tranquilo, decidiu abrir seu próprio restaurante. "Queria um lugar onde todo mundo pudesse comer bem. Um lugar simples, mas com comida boa, de qualidade. E uma cozinha aberta, para o cliente ver o que eu estivesse fazendo."

O restaurante se chamava Tempero, e ficava em um bairro longe da rota turística da cidade. A ideia de Alessandra era ficar fora mesmo do radar dos críticos gastronômicos da cidade enquanto pegava traquejo e experiência no negócio. Mas não deu tempo.

"Tinha fila na porta no primeiro dia. Não tinha comida suficiente para todo mundo. Eu não fiz uma publicidade, até hoje não sei de onde saiu toda aquela gente. E nunca esvaziou, foi sempre assim", lembra. "E acho que não teve um jornalista francês que não entrou ali no primeiro mês."

E não foram só jornalistas. Alain Ducasse, um dos chefs franceses mais renomados do mundo, não só foi conhecer o Tempero logo no começo como aprovou a comida e incentivou Alessandra a se estabelecer em uma área de mais prestígio.

A chef Alessandra Montagne no restaurante Nosso, em Paris, na França - Anne Claire Heraud/Divulgação

Hoje, a brasileira tem três restaurantes em Paris e está escrevendo um livro sobre sua vida. O Tempero continua lá, desde que nasceu, dez anos atrás, mas virou uma épicerie, um mercado de produtos de alta qualidade e uma adega de vinhos naturais. Aí tem o Dana, um bistrô dentro de um prédio comercial luxuoso que mais parece um hotel cinco estrelas, onde os executivos alugam suítes para trabalhar e onde ela serve almoços super caprichados.

E, em 2020, inaugurou o Nosso, sua casa mais autoral, em que, no jantar, faz um menu degustação que conta parte da sua história. "A primeira coisa que você come é uma coxinha, claro, porque foi a primeira coisa que eu vendi e o que me fez perceber que eu podia ter orgulho de mim."

"Coxinha é uma parte muito importante da minha história. Foi a primeira pedrinha que eu botei para fazer o edifício que construí depois".

domingo, 18 de dezembro de 2022

‘Golpe da mão fantasma’ no celular faz vítima ver seu dinheiro sendo roubado; veja como evitar, OESP

 Golpes a celulares têm crescido exponencialmente no País - e estão cada vez mais sofisticados. Nesta semana, a Polícia Federal e a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) alertaram para um novo tipo de ataque chamado de “mão fantasma”, onde a vítima é induzida a instalar um malware, software que dá acesso ao celular para que os fraudadores consigam vasculhar o aparelho para encontrar senhas e utilizar os aplicativos de bancos para cometer fraudes.

Os criminosos se passam por funcionários dos bancos e contam com gravações que simulam uma central telefônica, por exemplo, em que vários integrantes da quadrilha atuam para convencer as vítimas numa mesma ligação. As quadrilhas informam que a conta foi invadida ou que foi identificado movimentações suspeitas, e que vão encaminhar um link para a instalação de um aplicativo que irá solucionar o problema. Se o cliente instalar o aplicativo, o criminoso terá acesso a todos os dados que estão no celular.

Eles ganham a confiança das pessoas através de uma ligação convincente e confirmação de diversos dados. Com fala equilibrada, bom português e mostrando que conhecem a pessoa, eles ganham a confiança e passam a ter um certo nível de relacionamento que gera intimidade. A vulnerabilidade é a inocência e desconhecimento”

Edson Sivieri, CTO do Grupo IAUDIT

Os criminosos também utilizam de phishing, técnica que envia e-mails ou mensagens de texto falsas com mensagens de atualização de segurança do aplicativo do banco ou do celular com links que induzem a pessoa a clicar e baixar os programas maliciosos.

Com acesso ao aparelho, os fraudadores pesquisam por senhas armazenadas pelos próprios usuários em aplicativos e sites e, dessa forma, conseguem ter acesso aos aplicativos de bancos para realizar as transações fraudulentas, como transferências, pagamento de contas e boletos e solicitação de empréstimos. A estimativa da Polícia Federal é que cerca de 40 mil pessoas podem ter caído no golpe no País.

Em nota, a Febraban esclarece que os aplicativos dos bancos contam com o máximo de segurança em todas as suas etapas e que não há registro de violação da segurança desses aplicativos.

“O banco nunca liga para o cliente pedindo para que ele instale nenhum tipo de aplicativo em seu celular. Também nunca liga pedindo senha nem o número do cartão ou ainda para que o cliente faça uma transferência ou qualquer tipo de pagamento para supostamente regularizar um problema na conta”, alerta Adriano Volpini, diretor do Comitê de Prevenção a Fraudes da entidade.

Como se proteger?

1) A primeira dica é não acreditar que quem está do outro lado é bom. Os bancos não entram em contato para pedir a instalação de aplicativos. Na dúvida, entre em contato com o banco ou vá até a sua agência;

2) Nunca forneça acesso ao seu celular, nem instale aplicativos que você não conhece em seu aparelho (aqueles que vêm por WhatsApp, mensagens, e-mail) ou que venham de fora da loja oficial do seu celular;

3) Tenha cuidado com suas senhas e informações importantes, nunca as deixe expostas em mensagens ou em aplicativos como bloco de notas, WhatsApp e outros aplicativos;

4) Monitore a sua conta corrente e troque a senha de sites, aplicativos, bancos com frequência. Nunca utilize a mesma senha em sites de compra, bancos ou qualquer outro aplicativo que possa facilitar a atuação dos criminosos;

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5) Sempre utilize recursos disponíveis nos bancos para confirmação de transações (autenticação de dupla checagem) e também tenha o cuidado de ativar, em seu WhatsApp, a confirmação de senha para acesso às mensagens;

6) Mantenha o celular sempre atualizado e tenha um software antivírus no seu aparelho. Sivieri, da IAUDIT, reforça que existem softwares que funcionam como cofres digitais que podem auxiliar o usuário a deixar seus dados mais protegidos. Alguns sistemas operacionais de celulares, também, já possuem recursos de pastas seguras, utilize este recurso, instalando softwares de banco por ali. Procure no site do fabricante as instruções de instalação e de uso;

7) Denuncie para as autoridades se já tiver sido vítima do “golpe da mão fantasma” ou qualquer outra fraude.