domingo, 11 de dezembro de 2022

O que o Brasil precisa para não repetir 2022 na Copa de 2026, Luís Curro - FSP

 Luís Curro

Copa do Mundo se aproxima de seu final (faltam quatro jogos) e quatro países continuam na luta pela Taça Fifa. O Brasil não é um deles. Caiu nos pênaltis, diante da Croácia, na sexta-feira (9).

Sempre que a seleção brasileira é eliminada de uma Copa, comentaristas/analistas/jornalistas buscam uma explicação, ou mais de uma, para que isso tenha acontecido.

Na cabeça do brasileiro, não estar pelo menos na final é um desastre, uma tragédia, um 7 a 1. Algo inconcebível, difícil de mastigar, engolir e digerir.

Neymar, de costas, usando a camisa 10, está sentado no gramado do estádio Cidade da Educação, em Al Rayyan. Ao seu lado, deitado e com as mãos no rosto, está Rodrygo. Os dois estão desolados depois da eliminação do Brasil diante da Croácia nas quartas de final da Copa do Qatar
Neymar e Rodrygo desolados no gramado do estádio Cidade da Educação, em Al Rayyan, depois da eliminação do Brasil diante da Croácia nas quartas de final da Copa do Qatar - Gabriel Bouys - 9.dez.2022/AFP

Afinal, o Brasil é o mais vitorioso em Copas (cinco), o único a ter disputado todas as Copas (22), o que mais disputou partidas em Copas (114), o que mais jogos ganhou em Copas (76), o que mais gols marcou em Copas (237).

Somos os melhores. Somos o país do futebol. Como não ganhamos?

Não ganhamos porque o futebol não é ciência exata e porque a Copa do Mundo, com seus mata-matas a partir das oitavas de final, equilibra as forças. Invariavelmente, há uma surpresa, ou mais de uma.

Nesta Copa, a do Qatar, a queda do Brasil em uma partida eliminatória não foi a única de um favorito. Teve a Espanha, que parou em Marrocos, também nos pênaltis, depois de empolgar com um 7 a 0 na estreia diante da Costa Rica. Portugal idem, parou em Marrocos.

A seleção de Tite (que agora não é mais de Tite) chegou a animar ao golear a Coreia do Sul nas oitavas, depois de uma primeira fase não muito auspiciosa (vitórias difíceis sobre Sérvia e Suíça e derrota para Camarões, esta com titulares poupados).

Animação efêmera, de três dias de duração. Diante dos croatas, a equipe voltou a pecar no quesito que, a meu ver, foi determinante para sair da Copa: a falta de gols.

Óbvio, dirá o leitor. Futebol é bola na rede, né?

A questão é que, fazendo uma adaptação com a famosa frase de Chacrinha, o Velho Guerreiro, "quem não finaliza (bem) se trumbica".

Neste Mundial o Brasil, apesar de criador e finalizador (não se pode acusar a seleção de não buscar o gol incessantemente), teve uma dificuldade tremenda –exceção ao primeiro tempo do duelo com os sul-coreanos– de "sair para o abraço". Ou, no caso desta seleção, "sair para a dancinha".

Contra a Croácia, as tentativas de gol pulularam. De acordo com a Opta (empresa britânica de dados estatísticos esportivos), o Brasil finalizou 21 vezes. Onze, ou mais da metade, tiveram a direção certa, mas só uma bola entrou.

O goleiro Livakovic destacou-se, como tinham se destacado os goleiros Milinkovic-Savic (Sérvia), Sommer (Suíça) e Epassy (Camarões).

Porém quem faz do goleiro o nome do jogo é quem ataca. Por mais que o goleiro seja bom, a maioria das bolas que ele defende são as que vão na sua direção (alguns aceitam até essas, tornando-se frangueiros). O goleiro joga quase sempre centralizado. Se a bola vai forte, no canto, dificilmente ele salva.

Livakovic fez uma dezena de defesas, mas nenhuma espetacular, de bola que foi no ângulo. Neymar (é fácil colocar a culpa nele, mas não é só dele), Vinicius Junior, Lucas Paquetá, Casemiro (já no fim da prorrogação), todos eles finalizaram mal, em cima do camisa 1 croata. O demérito é de quem chutou.

A era Tite termina meio "déjà vu". Na Copa de 2018, na derrota para a Bélgica nessa mesma fase, a de quartas de final, a seleção finalizou 27 vezes, nove delas na direção do gol, e uma única vez a bola entrou. Courtois fez duas ótimas defesas, o resto foi incompetência dos brasileiros.

Virá um novo técnico, talvez Neymar não esteja mais presente (para mim, estará, pois vai querer superar o número de gols de Pelé pela seleção), alguns jogadores não devem mais ser convocados, e outros, mais jovens, permanecerão ou chegarão.

Será prioridade na caminhada até a Copa de 2026, quando o Brasil completará 24 anos sem erguer a taça (igualando o jejum de 1970 a 1994), além de manter o alto número de chutes (ou cabeçadas) a gol, acertar o pé (ou a cabeça).

Tem como fazer isso? Há de ter, ou na Copa na América do Norte a avaliação será similar a de agora: "Fomos melhores, mas faltaram gols. Perdemos".


sábado, 10 de dezembro de 2022

Mortes: Fã de Jon Bon Jovi, fez das músicas dele a trilha sonora de sua vida, DANIELA RIBEIRO DE SOUSA PAULINO (1974 - 2022) Por Patricia Pasquini,FSP

 


SÃO PAULO

Por duas vezes, a jornalista Daniela Paulino encontrou com o ídolo que cantou a trilha sonora de sua vida. Foi em Las Vegas, nos Estados Unidos. As imagens em que aparece abraçada com Jon Bon Jovi estampam suas redes sociais. Fã do artista e da banda, sempre que possível ela assistia aos shows.

Os gatos eram outra paixão de Daniela —Elvis Presley, em homenagem a outro ídolo, e Jesse James, em alusão a um dos filhos de Jon Bon Jovi, Jesse James Louis.

Daniela nasceu em Santos (a 72 km de São Paulo), mas logo mudou-se com a família para São Vicente, também no litoral paulista. Em 2013, retornou à cidade natal.

Daniela Paulino (1974-2022) com o músico Jon Bon Jovi
Daniela Paulino (1974-2022) com o músico Jon Bon Jovi - Daniela Paulino no Facebook

Era a segunda entre três filhos da dona de casa Leda com o petroleiro José, natural do arquipélago dos Açores.

"Sincerona" por natureza, Daniela tinha um coração grande capaz de abrigar Maria da Encarnação —a avó paterna que tanto amou, a família, o companheiro, os animais de estimação e os amigos.

Daniela iniciou o curso de jornalismo na Universidade de Mogi das Cruzes, na região metropolitana de São Paulo. Do segundo ano em diante, estudou na Universidade Católica de Santos. Atualmente, trabalhava como assessora de imprensa no Instituto Social Hospital Oswaldo Cruz.

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Amiga desde a infância, a jornalista Egle Cisterna disse que Daniela transmitia muita força. "Não só a guerreira por ter tratado um câncer de mama há anos. Ela falava francamente com as pessoas, tinha uma empatia grande e se colocava de verdade no lugar do outro. Era a pessoa que fazia o pessoal se sentir acolhido, tanto que muitas das fontes dela viraram amigos", relata ela.

"Na profissão, Daniela tinha um olhar excepcional. Era a colega que ensinava quem estava chegando e que sempre pensava no leitor, humanizando as pautas. Ela estava presente desde sempre na minha vida, na escola, faculdade e colega de profissão", diz a amiga.

O jornalista Alexandre Fernandes, 47, companheiro de Daniela, se lembrará de sua determinação, do carisma, do sorriso largo e do jeito expansivo, irreverente e divertido.

Os dois se conheceram em 2004. Trabalhavam juntos no Expresso Popular, do grupo Tribuna. O namoro teve início em 2009 e cerca de quatro anos depois, em 2013, eles se uniram.

Daniela teve câncer de mama em 2010 e perdeu a mãe para a mesma doença, no ano seguinte.

Ela morreu no dia 2 de dezembro, aos 48 anos, de câncer no pâncreas e no fígado. Além do companheiro, deixou o filho, Danilo, fruto do primeiro casamento.

Sem compromisso, FSP

 

Becky Korich

A gente já sabe. Quando somos convidados para as 20h chegamos às 21h30 já pensando na hora de voltar. Quando falamos "certeza" significa "pode ser". "Sim" quer dizer "não sei". E "talvez" é um eufemismo de "provavelmente não". Às vezes assumimos o "não", mas sempre encontramos um culpado: a chuva, o chefe, a esposa, o sistema, o trânsito.

Não é que estamos mentindo, é que na hora baixa um impulso genuíno e até acreditamos que sim, que decididamente vamos, porque sempre vale a pena. Mas logo somos vencidos por uma indolência e a vontade de não se comprometer fala mais alto.

Nunca fugimos tanto de vínculos. São tantas as escolhas, tantos os direitos, tantas as opções, que a ideia de assumir compromissos, e até mesmo de experimentar conexões reais, é apavorante. Se antes vivíamos em torno de um núcleo menor, hoje lidamos com um grupo gigantesco de pessoas. No entanto, estamos mais sozinhos.

Torcedores se reúnem em bar em São Paulo para a partida Brasil x Coreia do Sul pela Copa do Mundo do Catar - Mathilde Missioneiro - 5.12.22/Folhapress

A pandemia nos fez descobrir novas preguiças, que perpetuamos para mascarar nossos medos existenciais. O corpo fica pesado, a mente apática, o que nos faz preferir o sofrimento de estar sozinhos, continuar a ser o que somos, ao sofrimento de estar na companhia de pessoas.

Mergulhamos, então, em relações controladas, escudadas pelo vidro blindado e inorgânico das telas à prova de encontros reais — com cheiro, cor e pele — fingindo acreditar na sensação de estar acompanhados. Não dá trabalho, não requer entrega e ficamos livres para decidir o que e quando. Essa é a pior das solidões; a pior das liberdades.

O dilema do porco-espinho de Schopenhauer está mais atual do que nunca. Não conseguimos nos aquecer estando perto dos outros, temos medo de nos ferir com os seus espinhos. A proximidade demasiada nos incomoda, porque os espinhos, os nossos e os dos outros, estão cada vez maiores. E seguimos falando "não" para nós mesmos, através do "talvez" que falamos aos outros.