segunda-feira, 30 de maio de 2022

Walter Taverna, referência do Bexiga, em SP, morre aos 88 anos, FSP

 


SÃO PAULO

O barulho das tampas dos panelões de molho vermelho e de macarrão ao longo de décadas se confundia com o badalar do sino da igreja ao lado, a de Nossa Senhora Achiropita. Mas eles silenciaram em luto neste domingo (29), com a morte de Walter Taverna, referência histórica do Bexiga, na Bela Vista, centro de São Paulo.

Dono de uma das cantinas mais tradicionais do bairro italiano, ele morreu aos 88 anos de pneumonia, por volta das 21h do domingo. Ele estava internado no Hospital Sancta Maggiore, no Paraíso, zona sul de São Paulo, e sofreu com o mal de Parkinson nos últimos anos.

Neto de sicilianos, Taverna se tornou um símbolo do bairro e para a cidade de São Paulo. Ele nasceu em 1933 numa cocheira nos fundos de uma casa da rua 13 de Maio, de acordo com a família.

Walter Taverna, um senhor de óculos, olha diretamente para a câmera, enquanto um bolo está na mesa atrás dele
Walter Taverna, que organizava o tradicional Bolo do Bixiga no aniversário da cidade de São Paulo; ele morreu neste domingo (29), aos 88 anos - Vitor Serrano - 24.jan.17/Folhapress

Entre seus feitos pela preservação, está sua luta incansável pelo tombamento do Bexiga, quando a especulação imobiliária queria construir prédios no lugar das charmosas casinhas nos anos 1980. Isso inclui a Vila Itororó, um conjunto com casas de imigrantes da década de 1920, que hoje é atração turística depois de ser aberta ao público em setembro passado, com atrações culturais.

Foi ele também que levou de volta para as ruas a Festa de Nossa Senhora Achiropita, quando foi presidente da Sodepro (Sociedade de Defesa das Tradições da Bela Vista).

A lista de feitos não para: foi um dos fundadores do bloco de Carnaval Esfarrapados, o mais antigo da cidade. Em 1983, ajudou no lançamento da Feira de Antiguidades e Trocas do Bixiga, que funciona até hoje aos domingos na praça Dom Orione.

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Outro legado deixado por ele foi o coreto dessa praça, construído em 1984, que leva o nome de seu pai, Carmelo Taverna, segundo o Portal do Bixiga. Também batalhou pela restauração dos Arcos do Bixiga, junto ao então prefeito Jânio Quadros, em 1987, e solicitou a zeladoria da praça dos Artesãos Calabreses.

"Meu avô era muito generoso não só com a cidade, mas especialmente com as pessoas. Dava comida a quem necessitava, ajudava muita gente. Ele fazia de tudo para os outros, e era quando você notava a alegria nos olhos dele", afirma a cineasta Thaís Taverna, sua neta.

Ele também tinha uma relação com o bairro da Vila Mariana, onde criou uma república para cuidar do patrimônio. Tanto que fez o "abraçasso" na Casa Modernista, que ganhou restauro após esse movimento iniciado por ele. Também ajudou a preservar naquele bairro o Instituto Biológico.

Mas um de seus legados mais conhecidos é o Bolo do Bixiga, festa que ele assumiu após a morte de seu criador, Armando Puglisi, o Armandinho. Foi com Taverna que o evento ganhou grandes proporções ao se tornar um bolo de metro para cada ano do aniversário da cidade de São Paulo e, assim, entrou para o Guiness Book como o maior bolo do mundo.

Em sua cantina Conchetta, na rua 13 de Maio, virava atração à parte quando um músico contratado entoava os primeiros acordes de músicas tradicionais de tarantela. Com o restaurante lotado, ele pegava as enormes tampas de panelas e começava a bater umas nas outras, provocando uma barulheira encantadora. Os clientes se animavam e começavam a balançar seus guardanapos de pano.

Lá, recebeu artistas como Rita Lee, Raul Seixas, Adoniran Barbosa, Claudia Raia, Edson Celulari, entre outros tantos, além de políticos, como os ex-governadores João Doria e Geraldo Alckmin.

Taverna deixa uma filha, três netos, três bisnetos e todo o bairro do Bexiga. O velório será realizado até as 13h, no teatro Sérgio Cardoso, também no Bexiga. Uma bandeira da escola de samba Vai-Vai foi colocada sobre o caixão. O enterro será às 14h no cemitério Araçá, no centro.

Mathias Alencastro - Hernández é o pior pesadelo dos progressistas na Colômbia, FSP

 A história da última semana da eleição colombiana soa como a repetição de um enredo cada vez mais comum nas democracias liberais. Diante da vitória iminente da esquerda, liderada pelo moderado Gustavo Petro, a direita se rebela e troca um opositor moderado por um populista.

Quem desempenha esse papel é o oligarca-bufão Rodolfo Hernández. Ele ultrapassou Federico "Fico" Gutiérrez, o jovem liberal apoiado por todos os partidos da direita tradicional, e chegou ao segundo turno contra Petro com uma campanha relâmpago que retoma a receita original dos populistas: demagogia anticorrupção, anticomunismo enfurecido e uso exclusivo das redes sociais.

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O candidato à Presidência da Colômbia Rodolfo Hernández durante entrevista coletiva em Bogotá
O candidato à Presidência da Colômbia Rodolfo Hernández durante entrevista coletiva em Bogotá - Luisa Gonzalez - 24.mai.22/Reuters

A passagem para a segunda volta eleva a tensão das presidenciais. Todos os candidatos circulam pelo país acompanhados de escoltas militares, e ameaças de assassinatos são denunciadas cotidianamente.

Petro sabe que toda a tensão gira em torno da sua candidatura. Sua biografia reflete o longo caminho da Colômbia em direção à paz. O ex-membro da guerrilha M-19 teve uma passagem bem-sucedida pela política institucional, servindo como senador e prefeito, antes de construir a primeira plataforma de partidos progressistas com condições de vencer as presidenciais.

O veterano soube explorar as mudanças trazidas pelo acordo de paz de 2016. Desde então, as guerrilhas marxistas deixaram de ser um fardo para a esquerda, e Petro finalmente conseguiu organizar essa eleição em torno dos temas que mobilizam as classes populares, como a desigualdade e o Estado social. Sinal de força da sua coalizão, entregou recentemente as chaves da sua campanha a Alfonso Prada, antigo secretário da Presidência de Juan Manuel Santos, o conservador arquiteto do processo histórico.

A candidatura de Petro também cresce em cima do fracasso da direita tradicional. O atual presidente, Iván Duque, eleito em 2018 por aqueles que se opunham ao pacto de paz, perdeu o controle do país durante a pandemia, marcada por protestos violentos e enormes perdas humanas entre os mais vulneráveis.

Em posição de força para unir a direita e recuperar uma parte dos votos antissistema, Hernández tem tudo para ser um rival muito mais forte do que Gutiérrez no segundo turno contra Petro.

Lamentavelmente, a instabilidade política ofusca a qualidade do debate programático. Enquanto Hernández é mais conhecido por confundir Albert Einstein e Adolf Hitler, as propostas de Petro o colocam na vanguarda das esquerdas latino-americanas. Sua política de segurança passa por romper a colusão entre o crime organizado e a elite política, que assombra o país desde a década de 1980, promovendo uma inversão de paradigma no controle de substâncias ilícitas.

Ele também propõe interromper as explorações de petróleo e gás, um anátema para desenvolvimentistas, e não hesita em fazer um paralelo entre o governo direitista de Duque e o do venezuelano Nicolás Maduro.

Basta ele cumprir metade do seu programa para inaugurar uma nova era na América Latina. Mas quem realmente inspira o futuro da Colômbia é a sua vice, Francia Márquez, negra, feminista, ecologista e de uma coragem avassaladora. Numa disputa entre profissionais da política, a verdadeira mudança é ela.