terça-feira, 24 de maio de 2022

Café mineiro vendido em leilão internacional por R$ 18 mil a saca é servido em cafeteria de SP, Paladar,OESP

 

Localizada em Patrocínio (MG), a Fazenda Daterra conta com 6.200 hectares e metade da propriedade é formada por área de preservação ambiental. A outra metade é ocupada pelos cafezais, de onde são colhidas cerca de 100 mil sacas por ano

Localizada em Patrocínio (MG), a Fazenda Daterra conta com 6.200 hectares e metade da propriedade é formada por área de preservação ambiental. A outra metade é ocupada pelos cafezais, de onde são colhidas cerca de 100 mil sacas por ano Foto: DaTerra

Embora o Brasil seja conhecido como um dos maiores produtores de café do mundo - foram 47,7 milhões de sacas colhidas nem 2021 de acordo com a Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB) - nem sempre os cafés de qualidade superior vão parar nas xícaras dos brasileiros. Afinal, 72% da produção brasileira do ano passado foi para exportação e somente 18% de toda a safra colhida no País corresponde a café especial, de acordo com a Associação Brasileira da Indústria de Café (ABIC). 

Porém, isso está prestes a mudar, ao menos de maneira simbólica. No fim do ano passado, a cafeteria Pato Rei, com duas unidades na capital paulista, participou de um leilão de microlotes promovido pela fazenda Daterra, do cerrado mineiro, e superou dezenas de empresas do mundo todo ao arrematar um cobiçado microlote da marca, que tem reconhecimento internacional. Para se ter uma ideia, a barista suíça Emi Fukahori conquistou o World Brewers Cup (a copa do mundo dos baristas) em 2018 utilizando o microlote Frevo, produzido pela Daterra.

Localizada em Patrocínio (MG), a Fazenda Daterra conta com 6.200 hectares e metade da propriedade é formada por área de preservação ambiental. A outra metade é ocupada pelos cafezais, de onde são colhidas cerca de 100 mil sacas por ano.

O kit contendo as 15 amostras de café verde da marca custam cerca de US$ 269 

O kit contendo as 15 amostras de café verde da marca custam cerca de US$ 269  Foto: DaTerra

Da produção total, somente 1% são de microlotes de variedades pouco comuns em solo brasileiro, uma parceria da marca com o Instituto Agronômico de Campinas (IAC). E, por serem produções muito limitadas, desde 2013 a marca comercializa-os por meio de leilões, que realiza todos os anos.

“É uma forma que encontramos de ofertar esses grãos de maneira mais justa”, explica Juliana Sorati, assessora de marketing da Daterra. Mas antes de dar o primeiro lance, é preciso adquirir com a marca um kit contendo as 15 amostras de café verde, divididos em pacotinhos de 250 gramas cada, que custam cerca de US$ 269 (cerca de R$ 1.320, na cotação atual). 

Além das instruções para realizar a torra, a cada ano os kits têm uma temática em torno da cultura brasileira. “Trata-se de uma maneira de levar um pouco do nosso País para o mundo”, comenta Juliana. A astronomia indígena brasileira, que consiste em um complexo sistema astronômico utilizado pelos povos indígenas, serviu de inspiração para a seleção de microlotes do ano passado. A base foram as pesquisas do astrônomo Germano Bruno Afonso, que chegou a participar do projeto, mas não pôde ver o resultado - ele faleceu por complicações da covid-19 em agosto do ano passado. Com isso, o seu filho, o educador Yuri Berri Afonso, finalizou o projeto como forma de tributo ao pai. 

Da produção total da DaTerra, somente 1% são de microlotes de variedades pouco comuns em solo brasileiro 

Da produção total da DaTerra, somente 1% são de microlotes de variedades pouco comuns em solo brasileiro  Foto: DaTerra

O café é nosso

Já havia um tempo que Tiago de Mello, sócio da cafeteria Pato Rei, estava de olho nesses microlotes. Até que, no ano passado, ele tomou coragem e decidiu tentar a sorte no leilão. “Isso tem a ver com fincar uma bandeira e mostrar que existe sim consumo para esse tipo de café no Brasil”, acredita ele. Realizado em outubro do ano passado, o leilão realizado de forma online reuniu 79 empresas do mundo inteiro, que disputaram os 15 microlotes disponibilizados pela marca. 

Embora não haja restrições para participar do leilão, geralmente são torrefações, participantes de campeonatos internacionais e cafeterias da Europa, Estados Unidos, Ásia e Oriente Médio que arrematam esses lotes mais raros. Por isso, o feito da cafeteria paulistana é relativamente inédito no Brasil.

O Pato Rei arrematou o microlote Yar Ragapaw,  por US$ 28,10 a libra (1 libra pesa 453g)

O Pato Rei arrematou o microlote Yar Ragapaw,  por US$ 28,10 a libra (1 libra pesa 453g) Foto: Felipe Rau/Estadão

“Nós sabemos o quanto é difícil para empresas brasileiras adquirirem esses cafés, já que são precificados em dólar, mas ficamos muito felizes em saber que o público brasileiro terá a chance de prová-los”, comenta a assessora de marketing da Daterra.

O sócio do Pato Rei arrematou o microlote Yar Ragapaw, que se refere a constelação da canoa, por US$ 28,10 a libra (1 libra pesa 453g). Ao todo, foram adquiridos 24,2 kg do café e custaram cerca de US$ 1.500 (aproximadamente R$ 7.300, de acordo com a cotação atual).

Mas o microlote arrematado pela Pato Rei não foi o mais caro do leilão. O microlote Guaxu, inspirado na constelação do cervo, da variedade etíope gesha, com notas florais e sabor de clericot, morango e cana-de-açúcar, custou cerca de US$ 58,20 a libra e cerca de R$ 40 mil a saca (para se ter uma ideia, a média de preço de uma saca de café especial, que pesa 60 kg, é de aproximadamente R$ 1.100, de acordo com dados da Associação Brasileira da Indústria de Café, a ABIC) - esse foi arrematado pela torrefação Taste Map, da Lituânia. 

Tiago Mello, proprietário da cafeteria Pato Rei

Tiago Mello, proprietário da cafeteria Pato Rei Foto: Felipe Rau/Estadão

O microlote adquirido pela cafeteria paulistana no leilão consiste em uma liga entre duas variedades: laurina e aramosa. Também conhecida como Bourbon Pointu, a laurina é uma variedade rara das Ilhas da Reunião, no Oceano Índico, e tem notas de frutas amarelas. Já a aramosa consiste em um cruzamento entre arábica e racemosa e tem aromas florais e sabor de uvas. “São grãos muito pequenos e frágeis, que têm menor teor de cafeína, o que os torna mais suscetíveis a insetos e doenças. Tentamos cultivar essas variedades há mais de 20 anos e faz pouco tempo que conseguimos iniciar a comercialização”, explica Juliana.

 

O café chegou ao Pato Rei no fim do ano passado, mas Mello manteve os grãos verdes congelados. “Demorei para lançar porque estava tentando encontrar a melhor torra para  café tão especial quanto esse”, conta Mello. O resultado é um café que foge completamente de notas como nozes e chocolate - um clássico dos cafés especiais. Com sabor frutado, que lembra maçã e uva verde, o café tem uma acidez fosfórica, “que lembra aquele primeiro gole de Coca-Cola”, define o sócio do Pato Rei. Na boca, ainda é possível sentir notas de uva verde, maçã e sidra.

A partir desta terça (24), Dia Nacional do Café, o microlote faz a sua estreia nas duas unidades da cafeteria no formato de experiência

A partir desta terça (24), Dia Nacional do Café, o microlote faz a sua estreia nas duas unidades da cafeteria no formato de experiência Foto: Felipe Rau/Estadão

A partir desta terça (24), Dia Nacional do Café, o microlote faz a sua estreia nas duas unidades da cafeteria no formato de experiência. Na primeira, o coado é extraído com a Gina (método composto de uma válvula com a qual é possível controlar o fluxo da água que passa pelo café) é servido tanto quente quanto gelado (R$ 32) - as duas temperaturas proporcionam diferentes percepções de sabor.

No caso do espresso experiência (R$ 48), as bebidas são servidas na versão pura e com leite. À primeira vista, combinar um café tão especial com leite pode parecer uma heresia, mas não se trata de um leite convencional: na cafeteria, a bebida láctea passa por um processo de destilação a frio, com o qual é possível retirar os líquidos e ficar apenas a parte mais untuosa do leite, o que deixa a bebida super cremosa. Também será possível levar os grãos para casa (R$ 160, 100g). Trata-se de uma oportunidade única para os coffee geeks de plantão, que raramente teriam acesso a esses cafés. 

Serviço

Pato Rei 

- Rua Ferreira de Araújo, 353, Pinheiros

- Av. Engenheiro Luís Carlos Berrini, 1127, Cidade Monções

Cassação de vereador que disse 'coisa de preto' vira meta de chefe da Câmara de SP, FSP

 Carlos Petrocilo

SÃO PAULO

Presidente da Câmara Municipal de São Paulo, o vereador Milton Leite (União Brasil) se juntou às centenas de pessoas que, na manhã de quinta-feira (19), pediam a punição do seu colega Camilo Cristófaro (Avante), acusado de racismo.

A poucas horas do início da sessão da Corregedoria que aprovou a abertura do processo que pode cassar ou afastar temporariamente Cristófaro, Leite subiu em um caminhão de som estacionado em frente à Casa e agitou os manifestantes. "Não vamos admitir em nenhum lugar atitudes racistas."

Desde o dia em que Cristófaro afirmou "não lavaram a calçada, é coisa de preto" em uma sessão da CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) dos Aplicativos, o presidente da Câmara, que se declara negro, tem como uma das prioridades cassá-lo.

Close de Leite, que apoia a cabeça sobre as mãos cruzadas, em sinal de preocupação
O presidente da Câmara Municipal de São Paulo, Milton Leite (União Brasil) - Danilo Verpa - 7.mar.2018/Folhapress

Ele tem se articulado para isso, se reunindo com os demais parlamentares e depositando confiança na pressão da opinião pública em ano de eleições.

​A ficha com as confusões de Cristófaro é extensa. Ele acumula mais de dez pedidos de investigação na Corregedoria, sendo dois por denúncias de racismo cometidas, respectivamente, em 2018 e 2019.

Isolado na Casa, Cristófaro partiu para um ataque virtual contra o presidente, além de gravar vídeos com aliados e assessores negros para negar que seja racista.

O vereador investigado abastece uma lista de transmissão pelo WhatsApp com reproduções de notícias que veiculam expressões racistas ditas pela apresentadora Ana Maria Braga e o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Luís Roberto Barroso. Ambos usaram o termo "inveja branca".

O presidente da Casa já teria exposto o seu desejo, inclusive, ao prefeito Ricardo Nunes (MDB). Segundo a legenda de um vídeo compartilhado por Cristófaro, Leite disse a Nunes que iria "mandar o Camilo embora". O prefeito balança a cabeça em sinal de aprovação.

O parlamentar do Avante disparou o vídeo em sua lista de transmissão e ao grupo da Câmara, que reúne os 55 parlamentares.

"O presidente da Câmara Municipal se diz o dono da egrégia Casa e da Corregedoria", escreveu Cristófaro. "Pura campanha política para ele e seus filhos, será que ninguém enxerga isso?"

Leite contra-atacou com áudios aos vereadores paulistanos. "Perco qualquer coisa nesta vida, mas não a dignidade e o respeito diante da minha raça", falou o presidente.

"Não é Vossa Excelência exibindo vídeo ou áudio para quem quer que seja que vai me frustrar ou [me fazer] deixar de trabalhar para cassar o seu mandato, porque Vossa Excelência desrespeitou uma lei vigente neste país."

Filho do presidente da Câmara paulistana, o deputado federal Alexandre Leite (União Brasil) foi quem protocolou uma das quatro denúncias contra Cristofáro à Corregedoria em razão da expressão "coisa de preto".

O deputado classificou a atitude do parlamentar como indecente, desrespeitosa e criminosa. "Temos de ser enérgicos, contundentes e intolerantes no combate ao racismo e, por isso, recomendamos a cassação do vereador."

As outras três denúncias à Corregedoria foram apresentadas pelas vereadoras Luana Alves (PSOL) e Sonaira Fernandes (Republicanos), que são negras, e por uma moradora de São Paulo.

Na queda de braço, Leite levou o primeiro round ao emplacar a vereadora Elaine Mineiro (PSOL), da bancada coletiva Quilombo Periférico, como a relatora do caso na Corregedoria.

A Corregedoria é um órgão independente, e a escolha do relator é uma prerrogativa do corregedor-geral, o vereador Gilberto Nascimento Júnior (PSC). Segundo a assessoria de Nascimento Júnior, Leite o consultou somente para saber quem estaria à frente no rodízio para assumir a relatoria do caso de Cristófaro. O corregedor, então, respondeu que seria a vez de Elaine e confirmou que a indicaria.

Outra solicitação do presidente ao corregedor foi a de agilizar o processo, que costuma se estender por meses. Empossada como a relatora na terça (17), Elaine apresentou dois dias depois o seu relatório pedindo a cassação ou a suspensão do mandato. O caso de Cristófaro, inclusive, entrou de última hora na pauta da reunião da Corregedoria na quinta.

Cristófaro chegou a pedir a suspeição de Elaine, mas o órgão recusou.

Minutos após os vereadores decidirem, por 6 votos a 0, pela abertura do processo que pode levar à cassação, Leite confirmou que a votação no plenário será nesta terça (24).

Conforme o regulamento da Câmara, o relatório de admissibilidade, elaborado por Elaine, precisa ser aprovado por maioria simples (28 dos 55 vereadores).

Caso isso ocorra, Cristófaro será convocado a apresentar a sua defesa.

A Corregedoria, então, deverá decidir se mantém Elaine para conduzir o relatório que pode sugerir a cassação, a suspensão ou a absolvição do vereador. Dessa vez serão necessários dois terços dos votos da casa, o equivalente a 37 vereadores.

Os únicos parlamentares cassados pelo legislativo paulista foram Vicente Viscome e Maeli Vergniano, ambos em 1999. Viscome foi acusado de ser um dos comandantes da Máfia dos Fiscais, na gestão Celso Pitta (1993-1996), e morreu em novembro de 2021. Já Maeli perdeu o mandato pelo uso indevido de um carro cedido por uma empreiteira que realizava coleta de lixo na cidade.

Erramos: o texto foi alterado

Com Doria fora, Aécio trabalha para implodir 3ª via, Meio

O anúncio pelo ex-governador paulista João Doria de que abriu mão da candidatura ao Planalto pode ter facilitado o acordo entre PSDB, MDB e Cidadania para uma chapa única. Mas não o garante. Como narra a Coluna do Estadão, os tucanos trabalham agora para conter mais um movimento liderado pelo deputado Aécio Neves (MG). Ele tenta forçar o lançamento de candidato próprio da sigla, possivelmente o ex-governador gaúcho Eduardo Leite. A cúpula prefere cumprir o acordo já feito de apoiar a senadora Simone Tebet (MDB-MS). Para evitar que o movimento ganhe força, a Executiva tucana cancelou a reunião marcada para hoje, onde seria discutido o apoio a Tebet. MDB e Cidadania mantiveram seus encontros nesta terça, mas o PSDB só vai discutir a candidatura única no dia 2 de junho. (Estadão)

Muito emocionado, Doria comunicou a desistência após se reunir com o presidente do PSDB, Bruno Araújo, um dos principais entusiastas do apoio a Tebet. Em seu discurso (íntegra), o ex-governador não escondeu a mágoa, dizendo que se retirava da disputa “com o coração ferido, mas com a alma leve”. Ele repassou a própria trajetória como empresário e lembrou que venceu as prévias tucanas e as eleições para prefeito de São Paulo em 2016 e governador em 2018. Doria enfatizou sua vitória nas prévias do partido no ano passado, mas reconheceu a falta de apoio da direção. “Entendo que não sou a escolha da cúpula do PSDB. Aceito esta realidade de cabeça erguida.” Ele teria comunicado sua decisão a pessoas próximas no domingo, dizendo que deve se dedicar no momento à atividade empresarial. (g1)

A gota d’água para que Doria desistisse foi, conta Lauro Jardim, o aviso de que o partido não repassaria mais recursos para sua pré-campanha. Segundo Bela Megale, o recado foi dado por uma pessoa de confiança dele, o ex-presidente da Câmara e secretário do governo paulista, Rodrigo Maia, acompanhado do governador de São Paulo, Rodrigo Garcia. (Globo)

Em nota, Tebet afirmou que o ex-governador “jamais foi um adversário”. (g1)

Jair Bolsonaro e seus apoiadores reagiram com deboche ao gesto de Doria. No Twitter, o presidente disse que abria mão da disputa pelo “cinturão dos pesos médios no UFC”. O deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) afirmou torcer para que ele continuasse candidato, pois “politicamente afundaria o PSDB”. (Poder360)

Vera Magalhães: “O PSDB saiu menor que seu agora ex-pré-candidato desse episódio dos mais lamentáveis da política nacional recente — e olha que a concorrência é extensa. O PSDB foi mais ativo que Jair Bolsonaro na campanha de destruição da imagem do próprio candidato, levando a antiga tendência ao tucanocídio ao estado da arte.” (Globo)

Meio em vídeo. A saída de João Doria da corrida presidencial deveria ser lamentada, é uma derrota para a democracia. Não por ele, que não tinha qualquer chance. Mas porque um dos poucos partidos que tinha uma visão de país a oferecer está morrendo. Até petistas deveriam lamentar. Confira no Ponto de Partida. (YouTube)