segunda-feira, 20 de setembro de 2021

Sem água e sabão, Ruy Castro , FSP

 


Notícia recente provocou decepção e engulho em milhões. Alguns dos mais amados e desejados nomes do cinema admitiram não gostar de banho —podem passar dias ou semanas sem tomar um e só encaram um chuveiro em último caso. Entre os porquinhos confessos, Brad Pitt, Russell Crowe, Johnny Depp, Mel Gibson, Gwyneth Paltrow, Julia Roberts, Cameron Diaz, Uma Thurman e Leonardo DiCaprio. Os veículos citaram também Jake Gillenhall, Ashton Kutcher e Charlize Theron, de quem nunca ouvi falar, mas que imagino serem os novos brandos e monroes do pedaço.

Parece novidade, mas não é. Vários livros sobre a intimidade da velha Hollywood apontam justamente os queridos Marlon Marilyn como refratários a água e sabão. Brando, por atitude, com o que estabeleceu um padrão no Actors Studio e levou alunos como James Dean, Karl Malden, Shelley Winters, Rod Steiger, Paul Newman, Steve McQueen e Dustin Hoffman a fazer o mesmo. E Marilyn, como se sabe, usava Chanel nº 5 todas as noites.

Mas não era só Hollywood. Ao constatar que, entre “Acossado” (1959) e “Pierrot le Fou” (1965), o diretor Jean-Luc Godard rodou nada menos que oito longas e quatro curtas, os estudiosos da Nouvelle Vague concluíram que isso só foi possível pelos zero banhos de Jean-Luc no período. E o herói dos dois filmes, Jean-Paul Belmondo, que nos deixou há pouco, passou uma temporada no Rio em 1963, filmando “O Homem do Rio”. Uma amiga minha, com quem ele teve um feliz affaire, contou-me anos depois que os grandes momentos eram os banhos que ela lhe dava antes de botarem os times em campo.

A revelação sobre os astros veio à tona porque, também segundo o noticiário, muitos americanos estão usando a quarentena como pretexto para tomar menos banhos.

Não será o caso de Mel, Brad ou Johnny. Pode ser uma opção profissional. Talvez temam que o banho remova as camadas de vivência que seus personagens lhes emprestam.

A atriz Vivien Leigh observa o ator Marlon Brando, com a camiseta suada, tirar a camisa que vestia por cima dela  em cena do filme "Uma Rua Chamada Pecado" (1951)
Vivien Leigh e Marlon Brando em "Uma Rua Chamada Pecado" (1951) - IMDB

Silêncio e solidão, José Renato Nalini OESP

 José Renato Nalini*

20 de setembro de 2021 | 12h00

José Renato Nalini. FOTO: DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

Mortes prematuras sempre chocam. A inversão da ordem natural é um atestado de nossa fragilidade e lembra a todos que somos efêmeros. Deveria também fazer com que todos fossem um pouco mais humildes e valorizassem de forma adequada a dádiva da existência.

Não é a regra. Prevalece o compreensível lamento, a revolta contra quem teria permitido a ocorrência da desgraça. Quanta gente não renega o Criador, indignado com uma perda precoce.

Talvez conhecer episódios reais de superação possa fazer com que a sensibilidade aflore e se adote uma postura resiliente, rumo à resignação e à retomada de um curso natural nesta peregrinação.

Imagine-se uma garota cujo pai falece aos vinte e seis anos de idade, três meses antes de seu nascimento. A mãe, também morreu quando a garota atingia os seus três anos.

Foi entregue à avó materna, que se devotou a cria-la e a compensá-la pela perda dos pais. Boa aluna, chegou a receber de Olavo Bilac, Inspetor de ensino à época, medalha de ouro com seu nome gravado, por haver feito o curso primário – hoje ensino fundamental – com distinção e louvor.

Contudo, a morte dos pais a impactou. Suas palavras textuais: “Essas e outras mortes ocorridas na família acarretaram muitos contratempos materiais, mas ao mesmo tempo, me deram desde pequenina, uma tal intimidade com a morte que docemente aprendi essas relações entre o efêmero e o eterno que, para outros, constituem aprendizagem dolorosa e, por vezes, cheia de violência. Em toda a vida, nunca me esforcei por ganhar nem me espantei por perder. A noção ou sentimento de transitoriedade de tudo é fundamento mesmo da minha personalidade. Creio que isso explica tudo quanto tenho feito, em literatura, jornalismo, educação e mesmo folclore. Acordar a criatura humana dessa espécie de sonambulismo em que tantos se deixam arrastar. Mostrar-lhes a vida em profundidade. Sem pretensão filosófica ou de salvação – mas por uma contemplação poética afetuosa e participante”.

Essa órfã era uma leitora voraz. Encantou-se com as letras. Estas a fizeram uma criança feliz. Segundo ela, “se há uma pessoa que possa, a qualquer momento, arrancar da sua infância uma recordação maravilhosa, essa pessoa sou eu. Já principiei a narrativa dessa infância num pequeno livro de memórias, aparecido numa revista portuguesa, com o título “Olhinhos de gato”. Mas há muito para contar. Tudo quanto, naquele tempo, vi, ouvi, toquei, senti, perdura em mim com uma intimidade poética inextinguível. Não saberia dizer quais foram as minhas impressões maiores. Seria a que recebi dos adultos tão variados em suas ocupações e em seus aspectos? Das outras crianças? Dos objetos? Do ambiente? Da natureza?”

Na época ainda não se falava em ecologia ou tutela ambiental. Ainda assim, a garota evidenciava uma sensibilidade singular em relação àquilo que a Terra oferece de forma gratuita, para que os homens não só se sirvam de tais recursos, mas persistam em exterminá-los.

Perfeita amante da natureza, deixa esse amor bastante claro quando continua a rememorar sua infância: “Recordo céus estrelados, chuva nas flores, frutas maduras, casas fechadas, estátuas, negros, aleijados, bichos, suínos, realejos, cores de tapete, bacia de anil, nervuras de tábuas, vidros de remédio, o limo dos tanques, a noite em cima das árvores, o mundo visto através de um prisma de lustre, o encontro com o eco, essa música matinal dos sabiás, lagartixas pelos muros, enterros, borboletas, o Carnaval, retratos de álbum, o uivo dos cães, o cheiro do doce de goiaba, todos os tipos populares, a pajem que me contava com a maior convicção histórias do Saci e da mula-sem-cabeça (que ela conhecia pessoalmente); minha avó que me cantava rimances e me ensinava pariendas”.

A falta dos pais não impediu que ela vivenciasse tudo o que qualquer garota daqueles anos experimentava. Tornou-se uma personalidade ímpar, criativa e pioneira em tantas missões às quais se entregou com a alma repleta de intenção de tornar o mundo mais belo e poético.

Diz qual foi a receita para a sua obra: “Minha infância de menina sozinha deu-me duas coisas que parecem negativas, e foram sempre positivas para mim: silêncio e solidão. Essa foi sempre a área da minha vida. Área mágica, onde os caleidoscópios inventaram fabulosos mundos geométricos, onde os relógios revelaram o segredo do seu mecanismo, e as bonecas o jogo de seu olhar”.

Essa garota veio a se tornar uma respeitada escritora, educadora, jornalista, folclorista, ensaísta e poeta, chamada Cecilia Meireles. Nasceu no Rio de Janeiro, em 7.11.1901 e ali faleceu em 9.11.1964.

Os 120 anos de nascimento dessa grande brasileira precisa ser celebrado. Lygia Fagundes Telles sempre recorda a visita que Cecília fez aos acadêmicos do Largo de São Francisco. Ela foi recebida pela grande dama da literatura pátria, então jovem idealista que estudava Direito, após formar-se em Educação Física.

Ambas comprovam que há mulheres brasileiras que já deveriam ter recebido, há muito tempo, o Nobel de Literatura.

*José Renato Nalini é reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e presidente da Academia Paulista de Letras – 2021-2022

Como o exercício físico ajuda a manter sua memória aguçada, OESP NYT

 Gretchen Reynolds, The New York Times - Life/Style, O Estado de S.Paulo

20 de setembro de 2021 | 05h00

Um interessante estudo realizado recentemente mostra como o exercício físico reforça a saúde do cérebro. A pesquisa, feita com roedores, descobriu que um hormônio produzido pelos músculos durante a prática de exercícios entra no cérebro e fortalece a saúde e o funcionamento dos neurônios, tendo melhorado o processo mental e a memória no caso de animais saudáveis e aqueles sofrendo de uma versão do mal de Alzheimer em roedores. Estudo anterior mostrou que as pessoas produzem o mesmo hormônio durante os exercícios e, juntas, as conclusões dos dois estudos sugerem que se movimentar altera a trajetória da perda de memória na velhice e a demência.

NYT - Life/Style (não usar em outras publicações).
Um corredor em Arcata, Califórnia. Foto: Alexandra Hootnick/The New York Times

Temos muitas evidências de que o exercício é bom para o cérebro. Estudos feitos com pessoas e animais mostraram que o exercício leva à criação de novos neurônios no centro da memória no cérebro e auxilia aquelas novas células a sobreviverem, amadurecerem e se integrarem na rede neural cerebral, onde melhoram as funções do pensar e lembrar. Estudos epidemiológicos em larga escala também indicam que pessoas ativas têm menos propensão a desenvolver o mal de Alzheimer e outras formas de demência do que as que raramente se exercitam.

Mas como o exercício afeta a atividade interna do nosso cérebro a nível molecular? Cientistas supunham que o exercício pode mudar diretamente o ambiente bioquímico dentro do cérebro sem o envolvimento de músculos. Alternativamente, os músculos e outros tecidos liberariam substâncias durante a atividade física que vão para o cérebro e desencadeiam processos ali, levando a uma melhora subsequente da saúde mental. Mas nesse caso as substâncias teriam de conseguir passar pela barreira hematoencefálica protetora e especialmente impermeável que separa nosso cérebro do resto do nosso corpo.

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Esses tecidos entrelaçados foram de interesse particular há uma década por parte de um grande grupo de cientistas da Harvard Medical School e outras instituições. Em 2012, o centro Stanley J. Korsmeyer Professor of Cell Biology and Medicine, no Dana-Farber Cancer Institute, e a Harvard Medical School identificaram um hormônio antes desconhecido produzido nos músculos de roedores de laboratório e pessoas durante exercícios, que eram liberados na corrente sanguínea. E chamaram o novo hormônio de irisina, com base no nome da deusa mensageira Iris da mitologia grega.

Monitorando a trajetória da irisina para o sangue, eles descobriram que, com frequência, ela se abrigava no tecido gorduroso, onde era sugada por células de gordura, desencadeando uma série de reações bioquímicas que contribuem para tornar marrom a gordura normalmente branca. Essa gordura marrom é muito mais ativa metabolicamente do que a do tipo branco, mais comum. Ela queima um número bem maior de calorias. Assim, a irisina, auxiliando a gerar a gordura marrom, também ajuda a aumentar nosso metabolismo.

Mas Spiegelman e seus colegas suspeitavam que a irisina também tinha um papel na saúde do cérebro. Um estudo feito em 2019 por outros pesquisadores haviam mostrado que ela era produzida no cérebro de ratos depois de exercícios. A pesquisa anterior também detectou o hormônio na maioria dos cérebros humanos de um banco de cérebros – salvo se os doadores haviam morrido por causa do mal de Alzheimer e nesse caso seu cérebro não contém esse hormônio.

O estudo sugeriu que a irisina reduzia os riscos de demência. E no novo trabalho, publicado esta semana na revista Nature Metabolism, Spiegelman e seus colaboradores incluíram Christiane D. Wrann, professora no Massachusetts General Hospital e na Harvard Medical School e autora do novo estudo.

Eles começaram criando ratos congenitamente incapazes de produzir a irisina e então submeteram eles e outros ratos adultos normais à prática de exercício em rodas durante alguns dias, algo que os animais pareciam ter prazer em praticar. Esta forma de exercício normalmente aumenta o desempenho nos testes feitos com os roedores de memória aprendizado. Mas os animais incapazes de produzir a irisina mostraram pouca melhora cognitiva, levando os pesquisadores a concluírem que o hormônio é crítico no caso de exercícios para fortalecer a atividade mental.

Em seguida, eles analisaram mais de perto os cérebros dos ratos que praticaram exercícios com ou sem capacidade de produzir irisina. Todos continham mais neurônios recém-nascidos do que os cérebros dos ratos sedentários. Mas nos animais sem o hormônio, as novas células pareciam estranhas. Havia poucas sinapses, junções onde as células cerebrais enviam e recebem sinais, e dendritas, que permitem que os neurônios se conectem ao sistema neural de comunicações. Esses neurônios recentemente formados facilmente se integraram na rede existente do cérebro, concluíram os pesquisadores.

Mas quando os cientistas usaram substâncias químicas para aumentar os níveis de irisina no sangue de animais incapazes de produzi-la, a situação mudou notavelmente. Os ratos mais jovens, os mais velhos e mesmo aqueles com casos avançados de mal de Alzheimer começaram a ter um melhor desempenho em testes de memória e capacidade para aprender. Os pesquisadores também descobriram sinais de inflamação reduzida nos cérebros dos animais com demência, o que é importante uma vez que se acredita que a inflamação dos neurônios acelera a perda de memória.

Analisados como um todo, esses novos experimentos sugerem fortemente que a irisina é um elemento chave na “ligação do exercício à cognição”, disse Spiegelman.

E pode um dia ser desenvolvida como uma droga. Spiegelman e seus colaboradores esperam um dia testar se versões farmacêuticas de irisina retardam o declínio cognitivo ou até aumentam a capacidade de pensamento em pessoas com o mal de Alzheimer.

Este foi um estudo em ratos e muita pesquisa será necessária para estabelecer se nosso cérebro reage como o dos roedores à irisina. Não se sabe também quando ou que tipos de exercício amplificam mais nossos níveis do hormônio. Mas mesmo agora, disse Christina Wran, o estudo reforça a ideia de que o exercício pode ser “um dos mais importantes reguladores” da saúde cerebral. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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