terça-feira, 14 de setembro de 2021

Um Moreira Salles não pode aplaudir um Mamãe Falei - Moises Mendes, 247

 


É constrangedor para alguém com sobrenome Moreira Salles ficar à sombra de um trio elétrico, num domingo à tarde, ouvindo discursos do que existe de pior entre os dissidentes do bolsonarismo.

Aconteceu domingo na Avenida Paulista, quando o jovem Antonio Moreira Salles, filho do presidente do conselho de administração do Itaú, Pedro Moreira Salles, erguia a cabeça para ouvir quem falava na carroceria do caminhão.

Enxergava Janaína Paschoal, Kim Kataguiri, Joice Hasselmann, João Doria, Tabata Amaral, Mamãe Falei.

Os dissidentes do bolsonarismo, dessa frente retardatária pelo impeachment de Bolsonaro, não merecem falar para um Moreira Salles.

O avô de Antonio, o banqueiro Walter Moreira Salles, conviveu com figuras que em algum momento abandonaram a ditadura e aderiram ao discurso e às ações da oposição perseguida, presa, torturada e morta por ordens dos militares.

Os dissidentes se chamavam Teotônio Vilela, Paulo Brossard, Severo Gomes, Magalhães Pinto, Synval Guazzelli. É uma comparação devastadora com a turma da Paulista que insultava Lula.

Imaginem qualquer aglomeração, quando a ditadura já definhava, que reunisse Ulysses, Brizola, Dom Paulo, Covas e Lula e exibisse, de surpresa, no meio do público, uma faixa com insultos a Teotônio.

Até porque a situação era inversa. Na ditadura, a oposição abriu o caminho para a redemocratização, e ex-aliados dos militares aderiram bravamente à luta dos sobreviventes.

Desta vez, foram os grupos de direita e de extrema direita que tentaram atrair os que desde o começo enfrentam o fascismo da base de Bolsonaro.

Nenhum direitista tem autoridade e reputação para assumir a condução de um gesto desse tamanho.

Os articuladores da pretendida ‘convergência’ do domingo não eram apenas ex-apoiadores de Bolsonaro, eram formuladores e operadores da linha de atuação da direita extremada.

O fracasso de domingo é explicado por essa precariedade política. É baixo o nível dos que se dispõem a ressuscitar a direita brasileira e viabilizar a terceira via.

Mesmo assim, estão certos os que não esnobam os dissidentes, ou Bolsonaro continuaria com suas bases quase intactas.

Mas não é com Janaína Paschoal que Lula deve compartilhar os mesmos espaços e buscar consensos. Há outros, muitos outros, que devem aparecer nas manifestações de 2 de outubro.

Um Moreira Salles deve estar presente nessa manifestação dos democratas. Será a chance de reparar o erro de ter ido a um evento em que Joice Hasselmann era uma das estrelas. O neto do banqueiro merece melhores companhias.

O avô dele, o fundador do Unibanco, prestou grandes serviços à República sob as ordens de Getúlio e de Jango. Tinha compromissos com a democracia, a arte, a aceitação dos diferentes e a informação e com os que acendiam luzes pelas liberdades.

São compromissos que os tios de Antonio, o cineasta Walter Moreira Salles Júnior e o jornalista e documentarista João Moreira Salles, ainda levam adiante como raros exemplos no país em que os herdeiros das elites são ogros ostensivos do bolsonarismo.

Um Moreira Salles não poderia nunca aplaudir um Mamãe Falei. Antonio sabe que nenhum dos dissidentes do bolsonarismo que estavam na Paulista seria capaz de manter, por dois minutos, uma conversa com Santiago.

Santiago foi o mordomo dos Moreira Salles. É o personagem de um documentário com o seu nome, dirigido por João, uma das coisas mais belas e emocionantes já produzidas pelo cinema brasileiro.

Santiago Badariotti Merlo diria a Antonio para não andar com essas facções da extrema direita que estavam domingo na Paulista.

Indústria se reúne para questionar renovação da Comgás, FSP

 

SÃO PAULO

Mais de 20 associações industriais se reuniram para tentar combater a prorrogação antecipada da concessão da Comgás por mais 20 anos. Entidades como Abrace, que reúne grandes consumidores de energia, Abiquim (industria química) e Abrinq (fabricante de brinquedos) reclamam que o processo está sendo acelerado.

“É importante que a decisão seja tomada após um amplo debate, com tempo adequado para analisar tecnicamente as opções e suas consequências”, diz o grupo em uma carta.

O número de signatários do documento, que será enviado ao governo de SP, subiu de 4 para 23 na última semana. Entidades como Abit (indústria têxtil), Abividro e IBP (Instituto Brasileiro de Petróleo) também aderiram ao pedido.

“Queremos maior concorrência na oferta de gás em São Paulo e não um monopólio”, afirma José Ricardo Roriz, presidente da Abiplast (indústria do plástico) que apoia o movimento.

A concessão da Comgás vence em 2029. Para aprovar a prorrogação, o governo de São Paulo incluiu no contrato investimentos de R$ 4,1 bilhões entre 2024 e 2029, período em que a concessionária teria que gastar apenas R$ 360 milhões pelo contrato atual.

antecipação da concessão da Comgás será tema de uma audiência pública marcada para esta sexta (17) na Alesp pelos deputados estaduais Luiz Fernando (PT) e Dr. Jorge do Carmo (PT). Eles pretendem debater os benefícios da medida e opções à prorrogação.

A ideia é chamar algumas das entidades que pedem mais tempo para discutir, além do Ministério Público de SP, da Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente do estado e outros órgãos.

Alvaro Costa e Silva Sem alma, Maracanã sente a falta das grandes massas de Mario Filho, FSP

 O ideal do Maracanã, de acordo com Mario Filho, era abrigar o que ele chamava de "grandes massas" —pobres, ricos, brancos, pretos, mestiços, homens, mulheres e crianças—, que ao lado dos deuses do futebol comandariam o espetáculo nas tarde de domingo. E assim foi durante quase toda a segunda metade do século 20.

Sonho e façanha da Copa de 1950, o Maraca teve sua alma surrupiada no Mundial de 2014, em que pela primeira vez um país-sede não disputou nenhum jogo no seu principal estádio. Antes se dizia que o Brasil tinha construído o Maracanã para perder a Copa para os uruguaios; 64 anos depois organizamos o Mundial para destruir o maior estádio do mundo.

No livro "Maracanã: Quando a Cidade era Terreiro", recém-editado pela Mórula, o historiador Luiz Antonio Simas relembra os rituais que envolviam um dia de clássico. Havia o impacto de subir a rampa, entrar no túnel de acesso e vislumbrar o gramado verde e a torcida embandeirada como uma coisa só. O sabor proustiano do mate gelado, do cachorro-quente e da cerveja, que também era servida quente. Se o balãozinho com a bandeira do clube não lambesse e ultrapassasse a marquise de concreto, a boa sorte estava garantida.

O axé do velho Maraca começou a se dispersar a partir de dois momentos, segundo Simas. O primeiro, em 1992, na decisão do Brasileiro entre Botafogo e Flamengo: a grade de proteção da arquibancada cedeu no lado rubro-negro e dezenas de torcedores ficaram pendurados; três morreram ao cair em cima das cadeiras de ferro. O segundo aviso foi o fim da geral, em 2005. Tudo bem, ali era um lugar humilhante para se assistir aos jogos. Mas era barato. Expulso o geraldino, entrou o cliente, disposto a pagar caro para tirar uma selfie e perder o lance do gol.

Com o advento das gélidas arenas, restou às grandes massas subverter a ordem. Antes da pandemia, isso começava a ocorrer nos setores superiores Norte e Sul do novo Maracanã.

Obras do lado externo do estádio Mário Filho, o Maracanã, - Ingrid Cristina - 12.jun2013/Brazil Photo Press/Folhapress