domingo, 12 de setembro de 2021

Não sonho mais em ganhar o Oscar, diz cineasta Daniel Filho, FSP

 Bruno B. Soraggi

O cineasta Daniel Filho tinha três filmes prontos quando ocorreram o que ele considera “dois desastres”. “Primeiro, a eleição de Bolsonaro. Segundo, a pandemia de Covid-19”, diz o diretor de “A Partilha” (2001), “Se Eu Fosse Você” (2006) e “Chico Xavier” (2010).

“Nós [brasileiros] estamos sendo testados até onde vai a nossa capacidade de vivermos coisas terríveis”, segue Filho, para quem o presidente da República “termina com a cultura [do país] sem ter ideia do que essa palavra significa”.

“Viramos inimigos da pátria e exploradores do povo”, avalia o carioca sobre críticas de bolsonaristas ao uso de dinheiro captado por leis de incentivo à cultura. “[Na visão dessas pessoas] a gente deixa de ser cultura para ser comunista.”

O diretor de cinema e televisão Daniel Filho
O diretor de cinema e televisão Daniel Filho - Ique Esteves/Divulgação

Na gestão Bolsonaro, o Ministério da Cultura perdeu status e virou uma secretaria, a Lei Rouanet e a Agência Nacional de Cinema entraram em marcha lenta e artistas foram atacados por conservadores. A pandemia, por sua vez, trouxe o fechamento de salas de cinema e outros equipamentos culturais, o que bagunçou os planos de lançamento de dois dos longas que estavam na mão de Filho: “Boca de Ouro” (2020), do qual é diretor, e “Medida Provisória” (previsto para novembro de 2021), que tem Lázaro Ramos na direção e ele como produtor.

No próximo dia 23 ele lança o terceiro desses projetos, o thriller policial “O Silêncio da Chuva”, baseado no livro homônimo escrito em 1996 por Luiz Alfredo Garcia-Roza.

“Eu vejo a estreia desse filme como marcar uma posição de dizer que nós [produtores de cultura] continuamos vivos, respirando. De que não temos a menor ideia do que vai acontecer, mas estamos aí”, defende. “Teremos muitas coisas a serem recuperadas [no Brasil pós-pandemia], mas a gente vai conseguir superar.”

“Ao mesmo tempo [dos dois ‘desastres’]”, lembra ele, “existe a revolução do streaming”. “Quando os filmes ficaram prontos —o ‘Boca’ foi o primeiro— eu fiquei pensando: ‘Mas vai passar onde? Estamos diante de um novo mundo.”

Ele cita como exemplo dessa nova dinâmica de exibições a atriz americana Scarlett Johansson, que processa a Disney por ter lançado o filme “Viúva Negra” no serviço de streaming Disney+. Ela alega que seu contrato foi violado quando o longa-metragem do qual ela é protagonista estreou ao mesmo tempo nos cinemas e na plataforma, já que o seu pagamento se basearia no desempenho nas bilheterias.

“Estamos no meio de uma confusão que ninguém sabe exatamente para onde nós vamos”, avalia o diretor, que ao longo dos seus 83 anos foi também ator e diretor artístico da TV Globo em uma época em que a programação com hora marcada era a realidade televisiva. Na emissora, ele dirigiu novelas como “Dancin’ Days” (1978).

“A televisão da qual eu participei da elaboração cumpriu uma etapa.” Filho usa como metáfora as mortes recentes dos atores Tarcísio Meira e Paulo José, que ele põe como símbolos dessa era do entretenimento brasileiro. “Essa televisão acabou. Agora é só no ‘Viva’, que fica mostrando velhos programas”, diz ele, referindo-se ao canal a cabo que exibe atrações globais antigas.

Mas ele diz não estar achando essa transição ruim. “É muito boa”, afirma Filho. Ele conversou com a coluna do escritório em sua casa no Rio, no qual prateleiras guardam uma coleção de “5.000 filmes e programas antigos de TV”.

O diretor avalia que não há tecnologia que se sobreponha à sensação de se apreciar arte em conjunto. “Não vai haver holograma que substitua o espetáculo ao vivo”, aponta. “Quando a gente sai [desses eventos], comenta, pode dizer coisas fantásticas.”

Ele elenca alguns exemplos de performances que assistiu “e são extraordinárias”. “Eu vi Elvis Presley fazendo um show. Vi Ella Fitzgerald. Vi o Nat King Cole cantando a essa distância de mim [ele estende o braço para mostrar proximidade]. Essa troca é um bem. Eu estive em um teatro e vi a Fernanda Montenegro representando. [A emoção de] ter presenciado isso não vai acabar nunca.”

“A comédia, por exemplo. Só pode ser vista com muita gente junta. O riso é contagiante. Assistindo a uma comédia em um cinema com outras pessoas você vai rir mais do que sozinho. Se você sozinho conseguir rir é porque está bem contigo mesmo —o que é difícil.”

Filho foi criador da série “Malu Mulher”, exibida em 1979 tendo a atriz Regina Duarte como protagonista —a atração abordou preconceitos e tabus da época. Em seu currículo também estão outras atrações sobre o universo feminino, como a série “Confissões de Adolescente” e “As Cariocas”.

Em “O Silêncio da Chuva”, diferente do livro, a dupla do policial principal é uma mulher, vivida pela atriz Thalita Carauta. O protagonista também sofreu mudança das páginas. Na tela, ele é negro —papel de Lázaro Ramos. “Eu estava fazendo o filme e falei: ‘Tenho que subir com as mulheres’”, explica o diretor.

“Sou favorável de a gente entregar o mundo para as mulheres”, diz Filho. “Elas são o centro do planeta. O mundo é maternal. E o homem ficou durante esses séculos no comando porque era supostamente o provedor, quem saía para dar porrada. O que é mentira, porque é a leoa que caça e o leão fica só cercando o peru [risos].”

“No mínimo, somos 50% homem e 50% mulher”, afirma ele, referindo-se à soma dos cromossomos X (gerado por mulheres) e Y (gerado por homens) que formam um ser do sexo masculino. “Está na hora de a mulher tomar o poder, apesar de já ter tido Cleópatra, deusas egípcias e etc. E de nós obedecermos, numa boa.”

Filho foi casado com Regina Duarte na década de 1970. Quando ela foi nomeada secretária especial da Cultura do governo Bolsonaro, ele disse à Folha que não entendia o comportamento da artista. O cineasta não teve contato com a ex-mulher desde então, mas segue incrédulo com a decisão dela de se aliar ao presidente.

“Só lamento. Ela foi usada, pela popularidade, e acabou se prejudicando”, diz. “Uma pena, porque ela vai ficar marcada. Agora que está havendo de as pessoas cancelarem, que não existia antes, é complicado. A Regina é uma das grandes estrelas brasileiras. Mas fez bobagem, o que é uma merda.”

Prestes a completar 84 anos em 30 de setembro, o cineasta se diz mais calmo ao dirigir um trabalho hoje em comparação à sua estreia como diretor, em 1969, com “Pobre Príncipe Encantado”. “Eu não perco mais a emoção de fazer [cinema], mas com a idade você sabe que a coisa será resolvida. Não fica mais muito aflito”, diz ele. “A procura pelo acerto é mais tranquila, afetiva.”

“A minha criação [hoje] está menos ligada ao que os outros querem ver. Confio no que fiz ao longo da vida. [No começo] você sempre está dirigindo para ganhar o Oscar ou concorrer em Cannes”, diz. “Não sonho mais que vou ganhar o Oscar. Já sei que não ganhei [risos]. Só isso já deixa mais tranquilo”, diz Filho. “Não preciso mais me afirmar. O meu objetivo agora é tentar contar uma história que eu quero contar. É uma brincadeira boa.”

Estado de Direito nos protege dos devaneios de capitães e tecnocratas, Marcos Lisbôa, FSP

 Um paranoico comandante norte-americano, acreditando que os russos estariam envenenando a água nos EUA, decide despachar aviões com bombas nucleares para serem descarregadas na União Soviética.

“Dr. Fantástico”, de Stanley Kubrick, é uma comédia sobre os apocalípticos anos 1960. Em tempos de Guerra Fria, não faltavam militares ensandecidos para provocar o temor.

Muitos temiam que o clima beligerante, agravado por comandantes desvairados, pudesse resultar em um conflito que saísse do controle. A documentação do período, incluindo gravações de conversas de presidentes dos EUA, mostra quanto se mentiu para a sociedade naqueles anos.

O confronto bateu na trave na crise dos mísseis soviéticos em Cuba. Durante dias, autoridades americanas procuraram decifrar os movimentos do oponente, em meio a relatos de ataques inexistentes.

No auge do conflito, o líder soviético, Khruschov, enviou dois telegramas para o presidente dos EUA, Kennedy, com mensagens contraditórias. O governo americano jogou com a sorte para interpretá-las, decidiu na contramão da linha-dura e o descontrole foi evitado.

Em “Dr. Fantástico”, Kubrick nos alerta sobre os riscos do poder desmedido. No filme, o comandante ignora que os soviéticos haviam pouco antes concluído um dispositivo que responderia com armas nucleares contra os EUA se a União Soviética fosse atacada. Uma vez acionada, a reação não poderia ser interrompida.

Ilustração de Edson Ikê

O objetivo seria evitar a guerra nuclear uma vez que a existência do dispositivo fosse anunciada. Por que os americanos iniciariam um conflito se o resultado, independentemente da vontade de quem quer que fosse, seria a destruição de todos?

Não deu tempo. O comandante delirante iniciara o gatilho da guerra uma semana antes de os soviéticos anunciarem o dispositivo que dissuadiria os confrontos nucleares.

A maioria celebra os feitos dos grandes, mas por vezes se esquece do potencial destrutivo dos incompetentes que exercem o poder na ausência dos contrapesos do Estado de Direito.

O presidente do Brasil insiste no confronto com os demais Poderes. O problema já foi o ex-presidente da Câmara, agora é o Supremo. Desde o começo, a imprensa é inimiga.

Há quem afirme estar decepcionado com o governo. Não deveriam. O chefe do Executivo sempre disse, com seu linguajar usual, a que vinha. Alguns acreditaram na promessa de terceirização da gestão da política econômica. A inconsistência das propostas não parecia incomodar empresários experientes. Pois bem, as consequências vêm depois.

Trata-se de um presidente que vocifera, desde que esteja no comando. Sua preocupação principal parece ser distribuir privilégios às corporações que o apoiam, como aumentar a remuneração dos militares, ou defender medidas pouco relevantes, como alterar a legislação sobre pontos na carteira de motorista.

Por vezes, defende propostas descabidas, revelando o despreparo do seu governo. No começo do seu mandato, por exemplo, disse que iria apresentar uma medida que supostamente geraria mais recursos do que a reforma da Previdência.

O país enfrenta crises anunciadas, como a inflação e o preço da energia, que o presidente trata como um torcedor de futebol. Aparentemente, ele ignora o papel do seu governo nos aspectos sutis da gestão pública, que requer governança organizada, avaliação de impacto e cuidado com a implementação das políticas.

Ser o chefe do Executivo não se resume a fazer bravatas no cercadinho. Construir uma agenda para o país não implica ser conivente com as emendas parlamentares.

O presidente ataca o Supremo Tribunal Federal que o teria impedido de agir durante a pandemia. Caso pudesse decidir, ele afirmou ao STF em petição conjunta com o então advogado-geral da União, André Mendonça, que sua opção seria por não adotar qualquer medida de distanciamento social.

Ficamos assim: o presidente nada pôde fazer porque o Supremo restringiu suas ações. Mas, se ele pudesse agir, sua decisão seria por nada fazer.

Durante a pandemia, o chefe do Executivo limitou-se a propor que fossem utilizados medicamentos sem eficácia comprovada, enquanto defendia que motociclistas não pagassem pedágio nas estradas e denunciava supostos culpados pelo alto preço dos combustíveis.

O presidente parece desconhecer a sua responsabilidade pela gestão da política econômica e pela crise institucional que resultaram no câmbio desvalorizado, contribuindo para o aumento da inflação e do custo do diesel.

A cada derrota, o presidente bradou sua vitimização, denunciou inimigos e convocou ao confronto. Houve quem se arvorasse o direito de ameaçar prédios públicos e de planejar golpes.

Felizmente, ele compensou o despautério com uma coragem de calças-curtas diante da reação em defesa da democracia. “Minhas palavras, por vezes contundentes, decorreram do calor do momento”, escreveu o presidente da República em um dia em que caminhoneiros bloquearam estradas e ficaram a ver navios.

Kubrick conhecia a arte de fazer filmes. Peter Sellers surpreende nos três papéis que exerce em “Dr. Fantástico”, incluindo o de um cientista emigrado para os EUA que, por vezes, não consegue evitar que seu braço se erga em saudação nazista.

Capitães e tecnocratas prometem fantasias, mas revelam, descontroladamente, os seus instintos. O Estado de Direito nos protege dos seus devaneios.

Alta do combustível deixa classe média sem carros de aplicativo, FSP

 


BRASÍLIA

O dia a dia de Thiago Alves, 20 anos, estudante de biologia na UnB (Universidade de Brasília), não tem sido fácil. A capital federal costuma ser um local difícil para quem anda a pé: o plano piloto, onde fica o centro político do país, é distante dezenas de quilômetros das cidades-satélite, onde mora a maioria da população do Distrito Federal.

Não há metrô ou trem ligando todas as cidades entre si e ao plano. A malha de ônibus urbano é capenga, ciclovias são exceção. Só quem tem carro consegue se deslocar com facilidade.

Thiago não tem carro: estuda no plano, mora em uma cidade-satélite, Samambaia, e trabalha em outra, Águas Claras. Os carros por aplicativo sempre foram uma alternativa acessível de deslocamento. “Quando estava atrasado ou a distância era muito grande, chamava um carro, que chegava entre dois e cinco minutos”, diz o estudante.

“Mas agora fico mais de 20 minutos pedindo um carro e não consigo. Já cheguei a desistir de compromissos, depois de ficar pronto e não conseguir embarcar. Agora, se estou atrasado, chamo o carro e vou direto para a parada [de ônibus], para ver o que chega primeiro”.

O drama de Thiago tem sido cada vez mais comum nas grandes cidades depois do aumento dos combustíveisMotoristas de app começam a escolher corridas, deixando de lado trechos mais rápidos e baratos. Se for em horário de pico, abandonam a demanda por rotas com maior chance de engarrafamento –daí o cancelamento sucessivo.

Mulher usa celular para chamar carro de aplicativo
A bancária Juliana Morato Treviso, que mora na Vila Romana, zona oeste de São Paulo, acha que as corridas com carros de aplicativo estão cada vez mais caras, demoradas e, o que é pior, são muitas vezes canceladas. "Só pego meu carro quando saio com a família", diz ela, que tenta fugir do aumento dos custos dos combustíveis. - Zanone Fraissat/Folhapress

Só este ano, a Petrobras aumentou o preço da gasolina em 51%, enquanto o do diesel subiu 38%. Entre 29 de agosto e 4 de setembro, o valor máximo da gasolina encontrado pela ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) no país foi de R$ 7,199 por litro, enquanto o do etanol chegou a R$ 6,999. O pico do diesel no período foi de R$ 6,490 por litro.

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A classe média, que vem voltando ao trabalho presencial, fica emparedada: quem tem carro, quer usar o aplicativo para economizar com o combustível e diminuir custos com estacionamento. Quem não tem, volta a ficar refém do transporte público, que oferece maior risco de contaminação.

“Os carros por aplicativo podem ser um ótimo complemento ao transporte público, mas precisam ser regulados”, diz Cristina Albuquerque, gerente de mobilidade urbana do instituto de pesquisas WRI Brasil. Em rotas com ampla oferta de transporte público, diz ela, a tarifa do carro por app poderia ser um pouco mais cara do que em trechos onde há escassez de ônibus, trens e metrô.

Da mesma maneira, os impostos pagos por essas empresas, assim como os recursos obtidos com o estacionamento rotativo (antiga “Zona Azul” em São Paulo), poderiam ser direcionados a um fundo de mobilidade urbana, a fim de melhorar a qualidade do transporte público.

“Quanto menos gente usa o transporte coletivo, mais ele se deprecia, uma vez que os custos de manutenção são divididos pela quantidade de passageiros”, afirma. “A situação já estava ruim antes da pandemia, e piorou com a diminuição do fluxo de passageiros”.

Na cidade de São Paulo, praticamente um em cada quatro dos 12,3 milhões de habitantes eram transportados diariamente, em média, nos ônibus em 2019. Agora são 2,2 milhões, segundo a SPTrans.

No metrô, a demanda caiu pela metade –eram 3,7 milhões de passageiros dários.

A bancária Juliana Morato Treviso, 47 anos, costumava pegar carro por app para ir da Vila Romana (zona oeste de São Paulo), onde mora, até o metrô da Vila Madalena, de onde seguia para a av. Paulista (região central), onde trabalha. “Era muito mais fácil e barato do que pegar o carro”, diz ela que, desde a pandemia está trabalhando de casa.

No mês passado, quando voltou a usar o carro por aplicativo, estranhou a demora e os cancelamentos. “Precisava voltar de uma consulta nos Jardins (zona oeste), eram quase 21h, quando três motoristas cancelaram a corrida”, diz Juliana. Em outra ocasião, o preço das corridas dobrou em relação ao habitual: de R$ 30 para R$ 60, contando ida e volta.

“Os próprios motoristas reclamam do preço alto do combustível e dizem que, dependendo da distância que estão do passageiro e do trecho da corrida, não compensa o deslocamento e eles cancelam”, diz ela, que só pega o carro próprio quando sai com a família.

Já o cabeleireiro Rodrigo Moraes Souza, 31 anos, não tem essa opção. “Não tenho carro, sempre resolvi bem a locomoção com transporte público ou por aplicativo. Manter um carro é quase tão caro quanto um filho”, diz. Mas o deslocamento tem sido cada vez mais complicado.

“Está difícil conseguir um carro e o preço subiu muito: um trecho que eu costumava pagar entre R$ 20 e R$ 25, agora pago R$ 70”, afirma, referindo-se a uma corrida da zona norte à zona oeste de São Paulo. “Agora tento completar parte da viagem com carona ou ônibus”.

Ao mesmo tempo, segundo Souza, o serviço piorou: os carros estão mais sujos e a demora para ver sua corrida aceita subiu de 30 segundos para 15 minutos. “Até entendo que não tenha mais mimos, como bala e água, mas pela limpeza eles deveriam zelar”, diz ele.

EMPRESAS REAJUSTAM VALORES POR ALTA DOS COMBUSTÍVEIS

Uber e 99 afirmam que a alta demanda por viagens vem se acentuando nas últimas semanas, conforme o avanço da vacinação e a reabertura do comércio em todo o país. Nesta sexta-feira (10), elas anunciaram reajustes devido ao preço dos combustíveis. Enquanto a 99 elevou tarifas, a Uber informou que aumentou apenas o repasse aos motoristas.

Na 99, o aumento vai de 10% a 25% e vale para mais de 20 regiões metropolitanas, incluindo São Paulo, Belo Horizonte, Brasília e Salvador.

"Os constantes reajustes dos combustíveis impactaram muito negativamente os serviços de transporte por aplicativo", afirmou a 99. "O aumento revisa os ganhos dos motoristas parceiros e foi definido levando em consideração a manutenção do equilíbrio da plataforma".

No caso da Uber, a empresa afirma que não haverá mudança na tarifa para o usuário, apenas no repasse para o motorista. Os reajustes valem para todas as cidades brasileiras, mas o índice depende do horário e do local em que o motorista atua. No caso da região metropolitana de São Paulo, por exemplo, o aumento no repasse será de até 35% para viagens UberX, a categoria mais popular do aplicativo.

Por meio da sua assessoria de imprensa, a Uber afirmou que “entende a insatisfação causada pelos impactos [do aumento do preço dos combustíveis] em todo o setor produtivo e, por isso, tem intensificado esforços para ajudar os motoristas parceiros a reduzirem seus gastos”.

As empresas dizem ainda que os motoristas têm autonomia para escolher quais corridas desejam fazer e, assim como os passageiros, têm a liberdade de cancelar viagens —as companhias, porém, têm um limite de corridas que podem ser canceladas sem ônus tanto para os passageiros quanto para os motoristas.

Mas o que interessa mesmo para elas é encontrar mais trabalhadores, porque falta motorista na praça. O Uber lançou um programa em que quem indica um novo colega para a função é recompensado em dinheiro, quando o indicado atinge certo número de viagens. Em São Paulo, por exemplo, uma indicação concluída pode gerar recompensa de até R$ 750.

A rival 99 admite o impasse: tem mais pedidos de corrida do que motoristas. O número de motoristas continua o mesmo há um ano, cerca de 750 mil, mas o de viagens cresce.

Pesquisa Datafolha para a 99, realizada entre abril e maio em seis regiões metropolitanas, aponta que o ônibus, meio de transporte usado por 71% da classe C, já tem como principal rival os apps de transporte, meio usado por 65% dessa classe social. Segundo o levantamento, 75% da classe C pretendem aumentar ou manter a frequência do uso de carros por aplicativo.

Em agosto, a 99 lançou um plano para tentar incentivar mais motoristas a assumir o volante e não desistir do trabalho, que envolve desde taxa zero alguns dias do mês (quando o valor ganho fica todo para o motorista), até agilizar o pagamento em casos de calote do passageiro.

“Cerca de 20 milhões de passageiros escolhem usar a 99 todos os meses para se locomover, a maior parte delas da classe C”, diz Lívia Pozzi, diretora de operações da 99.

Segundo ela, a empresa já fez parceria com a Shell para oferecer desconto de 10% na postos da rede. “Mas a escala de aumento que temos visto é muito alta”, diz.

O motorista Alexander Victor dos Santos Lopes decidiu jogar a toalha. Trabalhou menos de seis meses, este ano, como motorista da 99 e da Uber. De dia, trabalhava como separador na área de logística, e nas horas de folga e fins de semana, como motorista de aplicativo, com um carro alugado.

“É um pouco ilusório o ganho”, diz. “De R$ 5.000 que você ganha ao mês com as corridas, R$ 2.000 são de combustível, quase R$ 2.000 de aluguel. O que sobra é menos que um salário mínimo”.

“Estava trocando figurinha: trabalhava demais, seis, sete horas para ter um lucro de R$ 30 ao fim do dia. Só me trazia cansaço e muito estresse”, diz Lopes, que hoje voltou a ser motorista, mas de uma empresa de eventos.

As festas, segundo ele, estão bombando. “O pessoal está tirando o atraso”.