terça-feira, 7 de setembro de 2021

Defender a liberdade sem corroer a democracia, Rodrigo Pacheco, no OESP

 O Estado é um conjunto de instituições política e juridicamente organizadas, constituído por um grupo de indivíduos que exercem soberania em determinado território. O governo, por sua vez, é o elemento por meio do qual se manifesta o poder soberano do Estado. Na República democrática, os detentores do poder conduzem o governo em caráter temporário e legitimados por eleições livres.

Nesse contexto, a democracia é o regime que se assenta na soberania popular. Quando a Carta Magna fala que o poder emana do povo, refere-se à coletividade como sua verdadeira detentora, ao passo que o exercício desse poder ocorre por meio dos legítimos representantes eleitos de tempos em tempos. Finalmente, o Estado de Direito é uma concepção jurídica que remete à limitação do poder e à submissão de todos ao império do Direito.

O desenho institucional previsto no artigo 2º da Constituição Federal, bem como os mecanismos de freios e contrapesos elencados ao longo do texto constitucional, possuem uma razão de ser histórica e resultam do processo de evolução das sociedades. Os representantes eleitos extraem seu poder da Constituição e a ela se submetem. Não existe poder, pois, fora das atribuições constitucionais de cada função do Estado.

A ideia de Montesquieu, ao teorizar a separação dos poderes, foi garantir que este, tripartido, pudesse ser reciprocamente controlado por quem detivesse uma de suas partes. Com efeito, não se pode imaginar um Estado brasileiro com a preponderância de um Poder sobre outro, ou mesmo a primazia de uma vontade unilateral sobre todos os Poderes. À luz da Constituição Cidadã, não cabe falar em negação de eleições, de resistência a freios institucionais, ou de utilização das Forças Armadas para fins que não estejam delineados no texto constitucional.

Se os governantes estão submetidos ao Estado de Direito, igualmente estão todos os cidadãos, individual ou coletivamente considerados. As liberdades de expressão e de manifestação engrandecem uma sociedade, porquanto fundadas nos direitos de liberdade e de exercício democrático. Mas é preciso que não se perca de vista a exata compreensão desses termos ao invocá-los, especialmente quando a ambiguidade da sua utilização possa vir a capturar a boa intenção de alguém, a ponto de misturar valores cívicos com flertes de autoritarismo.

Liberdade e democracia são valores que não pertencem à direita ou à esquerda, nem são propriedade de um ou de outro grupo de cidadãos. Definitivamente, não se pode invocar o valor supremo da liberdade para corroer a democracia. E nem apregoar uma suposta intenção de salvar a democracia com desrespeito à divergência de ideias e ao papel de cada Poder. A democracia caminha ao lado do Estado de Direito. E a história já nos mostrou diversas vezes que somente os dois juntos nos garantem a liberdade.

Se nas relações humanas e sociais – como no seio da família, na vizinhança, no trabalho, nas igrejas e templos -, a boa convivência, a solidariedade, o equilíbrio e o respeito são bases fundamentais, nas relações de Estado isso também acontece, tendo na democracia – que separa os Poderes com independência, mas os une em harmonia -, o único meio possível para a evolução civilizada de um país.

Ao tempo em que se celebra o Dia da Independência, expressão forte da liberdade nacional, não deixemos de compreender a nossa mais evidente dependência de algo que deve unir o Brasil: a absoluta defesa do Estado Democrático de Direito.

*Rodrigo Pacheco, presidente do Senado

O desespero de um governo combalido, Por Hussein Kalout, OESP

 A quem interessa semear o caos, instalar a discórdia e ameaçar as instituições? Apenas a um governo fraco, combalido e que não tem mais nada a oferecer ao país. Três anos de balbúrdia e de anarquia governamental é o que tem sido legado como resultado ao povo brasileiro.

O governo já nasceu desprovido de projeto estratégico de país e de uma visão realista do mundo.

Alguns apostavam, contudo, em avanços concretos na economia, mas essa esperança foi logo frustrada por um festival de incompetência. O coquetel que o governo conseguiu oferecer à população é feito de inflação em alta, violência urbana em ascensão, desvalorização da educação,

negacionismo da ciência, corrupção na saúde, declínio do poder aquisitivo do cidadão, pobreza em franca expansão e a inclemente volta da fome. Eis o retrato do Brasil de Bolsonaro.

Afundada em crises de dimensões política, econômica e social, a sociedade brasileira acompanha anestesiada o sequestro dos símbolos nacionais pelo Presidente da República. O dia 7 de setembro, data de independência de todos os brasileiros, vai sendo tomado de assalto para converter-se numa espécie de: “Bolsonaro’s Day”.

Não é despropositado supor que o anseio do presidente consiste em fazer com que os brasileiros confundam o Dia da Independência nacional com um dia comemorativo do próprio bolsonarismo e de seu projeto de poder.

Por óbvio, não cabe questionar o direito de qualquer cidadão de se manifestar pacificamente. Não parece ser esse o objetivo da mobilização. Aparentemente, o presidente quer utilizar a manifestação de 7 de setembro como anteparo contra a sua ascendente rejeição – hoje estimada na expressiva cifra de 65% dos brasileiros. E alguns de seus entusiastas defensores não escondem seu ímpeto autoritário, pedindo intervenção militar, fechamento do Congresso e do STF. Tudo em nome da liberdade de expressão!

No campo político, o custo Bolsonaro ficou inflacionado. Com seu poder em declínio, o presidente encontra dificuldade para achar um partido de estimação. Quanto mais se enfraquece, menor será a sua impulsão para tomar um partido qualquer – minimamente estruturado – e chamá-lo de seu. A queda de popularidade do presidente vai dilacerando o seu poder de manobra junto aos partidos do centrão – grupo que, por sua vez, em apenas não deflagrar o processo de impeachment já entendem como retribuída a sua dívida com o inquilino do Planalto.

ctv-m09-jair-bolsonaro
Apoiadores de Bolsonaro se preparam para manifestação em 7 de setembro Foto: Eraldo Peres/AP

Hoje, o Poder Executivo e, em particular, o Palácio do Planalto, não estão em condição de ditar mais a aprovação de qualquer reforma no Congresso Nacional – tampouco de influenciar a ordem de prioridades das pautas e dos projetos do Poder Legislativo.

As vulnerabilidades do presidente se avolumam. Os cenários que se desenham para Bolsonaro no tabuleiro político-eleitoral são: 1) não disputar o pleito presidencial de 2022; 2) disputar o pleito e não ir para o segundo turno; 3) disputar a eleição, chegar ao segundo turno, porém, sofrer uma derrota fragorosa. O cenário de disputar e vencer o pleito eleitoral, vem se tornando cada vez mais complexo.

Os bolsonaristas apostam tudo na manifestação deste 7 de setembro. A esperança é a de que um ato massivo ajudaria a manter o centrão “comportado” e as instituições jurídicas e persecutória “acuadas”, além de estancar o declínio da popularidade do presidente estará ameaçado.

O objetivo é elevar o capital político de Bolsonaro para alimentar o autoritarismo presidencial e seguir com a sua estratégia verborrágica de ameaça de ruptura da ordem institucional.

A moldura mental do presidente está talhada para interpretar o exercício da função presidencial como permanente ato de guerra e não como serviço público a ser prestado aos cidadãos e ao seu país. A calculadora política de Bolsonaro divide quando precisa somar e multiplica (inimigos) quando precisa subtrair.

Quem está na defensiva não é o campo democrático. Quase sem tinta, a caneta presidencial já não funciona mais como instrumentos dissuasório para intimidar o Poder judiciário, o Ministério Público ou a imprensa – e tampouco para comprar aliados no parlamento. Por isso, o resultado da manifestação é vital para o próprio presidente mensurar a longevidade de sua própria sobrevivência política. Diante da mobilização e dos recursos despendidos, o ato deve reunir número importante de pessoas nas ruas, mas isso não é garantia alguma de desidratação da popularidade presidencial.

Na melhor das hipóteses, as manifestações darão ao presidente um pouco mais de gás para seguir por mais alguns lances com a sua sanha autoritária, até o momento que terá de enfrentar a realidade, o escrutínio do voto popular e a letra da lei.

Novos casos de maus-tratos a jumentos acendem alerta na Bahia em meio a alta na exportação, FSP

 O registro de novos casos de maus-tratos envolvendo jumentos na Bahia, estado recordista no abate dos animais no país, acendeu o alerta das autoridades —em diversas propriedades rurais, fiscais flagraram nos últimos meses uma série de irregularidades.

Entre os problemas encontrados estão o confinamento em espaços lotados, ausência de alimentação, falta de água, animais feridos e, até mesmo, o aborto forçado de femêas.

Os jumentos abatidos na Bahia e são exportados principalmente para a China e para Hong Kong (território semiautônomo que pertence ao governo chinês), onde a indústria extrai do couro e da pele do animal uma substância utilizada para produzir o ejiao —remédio que promete combater o envelhecimento, aumentar a libido nas mulheres e reduzir doenças do órgão reprodutor feminino.

Imagem mostra jumentos encontrados sob condições de maus-tratos em uma fazenda na Bahia, antes de serem enviado para o abate
Cerca de 200 jumentos foram encontrados em julho sob condições de maus-tratos em uma fazenda na Bahia, antes de serem enviado para o abate - Benjamin Silva/PM

Mais de 200 jumentos foram encontrados pela polícia sob condições degradantes de confinamento, antes de serem enviados para o abate em frigoríficos, em pelo menos três municípios baianos: Itatim, Paulo Afonso e Rodelas.

No ano passado, o estado, com apenas três frigoríficos licenciados pelo Serviço de Inspeção Federal do Ministério da Agricultura, liderou os abates legais de equídeos, com 45.624 animais mortos, à frente de Rio Grande do Sul (12.014) e Minas Gerais (7.076).

O caso mais recente de maus-tratos foi registrado em 10 de julho, em Itatim (a 230 km de Salvador), quando a Polícia Militar, acionada pela Associação de Protetores dos Animais, flagrou a situação na fazendo Boa Esperança, localizada às margens da BR-116.

Responsável pela ação, o tenente Benjamim Silva disse ter se deparado com um cenário de terror ao encontrar cerca de 200 animais no curral da propriedade, que seria “alugada por investidores chineses”.

“Foi uma cena lamentável. Os animais estavam num curral há mais de um mês, com pouco espaço, feridos, sem água nem alimentação”, disse. “Ainda encontramos algumas fêmeas em estágio de aborto ou que já tinham abortado, além de filhotes esquálidos por falta de aleitamento.”

Segundo o tenente, antes de enviarem os animais para o abate no frigorífico de Amargosa (BA), grupos chineses costumam contratar uma pessoa para intermediar a compra dos jumentos em outras regiões do país —os animais são inicialmente comprados por até R$ 30 e, depois, revendidos por até R$ 200.

“Ao contrário dos bovinos, como não há fazendas para criação de jumentos a pessoa sai procurando animais que foram abandonados nas cidades ou cujos donos querem se desfazer, porque não servem mais para o trabalho na roça, até juntar um lote de 30, 40 bichos”, disse.

Em 29 de abril, segundo a Polícia Civil baiana, 13 animais foram encontrados confinados em uma pequena propriedade de um casal na localidade Xangô, povoado de Açude, no município de Paulo Afonso, extremo norte da Bahia, a 464 km de Salvador.

De lá, os animais viajariam 117 km para se juntarem a um grupo de cerca de 100 jumentos no município de Rodelas, de onde seguiriam por mais 942 km para o abate em Itapetinga, onde fica um dos três frigoríficos credenciados no estado.

No caso de Itatim, após o flagrante policial, o Ministério Público da Bahia disse ter instaurado um processo administrativo, solicitado a instauração de um inquérito policial e acionado o município, que alegou não ter encontrado os animais em diligência feita no dia seguinte.

“Provavelmente todos esses animais foram encaminhados para o abate, porque todos sumiram quando as equipes de fiscalização estiveram novamente na fazenda”, disse a presidente da União Defensora dos Animais, Gislene Brandão.

Imagem mostra jumentos em local inadequado na Bahia
Fiscalização encontrou jumentos em estágio de aborto ou que já tinham abortado - Benjamin Silva/PM

Em relação a Paulo Afonso, os responsáveis foram ouvidos e liberados após a assinatura de um termo circunstanciado, que foi encaminhado ao Ministério Público da Bahia e, posteriormente, remetido ao TJ (Tribunal de Justiça).

“O problema é que precisamos que a punição relacionada a maus-tratos de animais, em geral, seja mais severa para não cair na banalização”, disse Brandão. “Mas, primeiro, precisamos que a sociedade civil pressione o Congresso por uma mudança na legislação.”

Levantamento recente da USP (Universidade de São Paulo) aponta um aumento de mais de 8.000% no abate de equídeos no país, de 2015 a 2019, ano em que 91.645 foram mortos.

Desde 2017, o abate de equídeos —que inclui jumentos, mulas e cavalos— foi regulamentado pelo decreto presidencial 9013.

Realizado pelos pesquisadores da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da USP Adroaldo Zanella e Mariana Garneiro o estudo conclui que o ritmo de abate de equídeos coloca em risco a espécie no país, que tem rebanho estimado em 400 mil animais, mas a taxa de reprodução é lenta.

De acordo com o ministério, os animais são abatidos para exportação da carne para países consumidores, como Hong Kong, China e Rússia, mas o estudo também aponta uma demanda por couro e para a produção do eijao —o estudo afirma que não há comprovação científica da eficácia da substância.

Ainda de acordo com informações do ministério, até julho o Brasil arrecadou US$ 9,2 milhões (R$ 47,74 milhões) com a exportação de 3.000 toneladas de carne de equídeos, volume que já se iguala a todo o ano passado, que rendeu US$ 7,9 milhões (R$ 41 milhões) em vendas.

Os principais destinos consumidores, em 2021, foram Hong Kong (54,1%), China (20,1%) e Rússia (14,5%), segundo o governo federal.