terça-feira, 7 de setembro de 2021

HELOISA MURGEL STARLING O sequestro da Independência, FSP (definitivo)

 Heloisa Murgel Starling

Historiadora e cientista política, é professora da UFMG

Na manhã de 31 de agosto, em Uberlândia (MG), o presidente Jair Bolsonaro se sentiu à vontade para liderar nova investida de volta ao passado. Montou a cavalo, ajeitou na sela a bandeira do Brasil, reuniu-se ao grupo de apoiadores à beira da rodovia. Na sequência, ergueu um troféu à guisa de espada desembainhada.

Arremedava a cenografia idealizada pelo pintor Pedro Américo para o quadro “Independência ou Morte”, encomendado em 1886 pelo Monumento do Ipiranga, em São Paulo. Os brasileiros conhecem a tela e a interpretam como o registro preciso do instante em que a Independência foi proclamada. Mas a tarefa de Pedro Américo era ingrata —foi preciso exagerar na fantasia para representar em Dom Pedro 1º a figura do príncipe arrebatadoramente libertária e seu gesto heroico diante da batalha ali anunciada. Um pouco mais tarde, naquele mesmo dia, Bolsonaro insistiu no assunto: é preciso trazer “nova Independência” ao país. “Creio que chegou a hora de nós, no dia 7, nos tornarmos independentes para valer”, afirmou.

O presidente Jair Bolsonaro participa da cerimônia de inauguração do Complexo de Captação e Tratamento de Água Deputado Luiz Humberto Carneiro - Alan Santos/PR

Não é a primeira vez que a Independência do Brasil acaba sequestrada por governantes com vocação autoritária. Em 1972, nos festejos de celebração dos 150 anos da data que associamos à fundação do país, a ditadura militar executou uma gigantesca e bem-sucedida apropriação do acontecimento histórico.

Durante cinco meses, uma grande urna contendo os restos mortais de Pedro 1º percorreu todas as capitais brasileiras até o sepultamento solene no Museu do Ipiranga, em São Paulo. “Dom Pedro fez a independência política; o governo dos militares estava realizando a independência econômica”, alardeava, incessantemente, a propaganda oficial.

Milhares de pessoas foram às ruas para confirmar a linha imaginária que conectava Pedro 1º ao general Emílio Garrastazu Médici, então na Presidência da República. E muita gente saiu de casa disposta a cantar a marchinha do “Sesquicentenário da Independência”, em especial o refrão, matador: “É Dom Pedro 1º! / É Dom Pedro do Grito! / Esse grito de glória / Que a cor da história à vitória nos traz...”. O livro “A Ditadura em Tempos de Milagre”, de Janaína Cordeiro, conta essa história.

São práticas de mimetismo autoritário, decerto. A retórica de Jair Bolsonaro, contudo, contrabandeou para o perímetro do Executivo um discurso ideológico que não tem nada de conservador —é reacionário. Na sua acepção moderna, o reacionarismo costuma ser mais complexo e elaborado do que se imagina. Abre guerra em torno de valores, dispõe de potência para mobilizar uma franja larga da sociedade em reação às conquistas civilizatórias e democráticas, apresenta uma explicação da realidade e dos problemas do país com aparência lógica, mas fictícia. Um dia o país realmente foi o que deveria ser; este é o Brasil a que estamos destinados, o Brasil no qual merecemos viver. Portanto, precisamos partir rumo ao passado.

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Compartilhar essa lógica pressupõe substituir o pensamento crítico por um laço emocional regado em afetos tristes: ressentimento, perversidade, intransigência, medo. O reacionarismo é anti-histórico; o passado permanece sempre igual a si mesmo. Mas a volta está sob cerco do inimigo, o tom de ameaça é constante, a mobilização precisa ser contínua. Tornou o Brasil ilegível. Pela primeira vez na história falta-nos um projeto de futuro.

Comemorar significa lembrar juntos. Vista do Ipiranga, a Independência concebeu a ideia de Império e manteve a unidade da América portuguesa, um meio eficaz de concentrar poder, garantir a ordem social e preservar a escravidão —criou a matriz de configuração do Estado brasileiro.

Os anos da Independência, contudo, foram de crise e de forte movimentação política, fartos em complexidade e contradições. Narram o difícil percurso de uma ideia de país buscando tornar-se realidade, no longínquo século 19. E contam algo sobre o brasileiro que um dia já fomos —ou poderíamos ser. A história não está escrita nas estrelas, e as lembranças desses anos talvez ajudem a clarear as escolhas para os dias que correm. Afinal, nenhum de nós sabe por quanto tempo uma sociedade sobrevive sem futuro.


Hélio Schwartsman O que quer Bolsonaro?, FSP

 Ele já deu pistas sobre suas intenções quando declarou ter três alternativas para o futuro: "estar preso, ser morto ou a vitória". Dessas, a prisão me parece hoje a mais provável, mas o presidente há de preferir a terceira. Resta indagar o que seria, a essa altura, uma vitória para Bolsonaro.

Seu cenário de sonhos seria ver, depois de um discurso eletrizante neste 7 de Setembro, a população e os militares marchando ombro a ombro sobre o STF. Em seguida, ele mandaria prender juízes e assumiria poderes especiais, que lhe permitiriam governar sem as inconveniências impostas pelo sistema de repartição de Poderes. Só que isso não vai acontecer. Não estamos mais no tempo da Guerra Fria, em que bastava ser anticomunista para ter o apoio dos EUA em golpes, e a taxa de rejeição popular a Bolsonaro é mais que o dobro da sua taxa de aprovação.

O presidente também poderia considerar-se vitorioso numa situação em que as manifestações dessem lugar a um quadro de convulsão social, que seria usado para baixar algum dos estados de exceção previstos na Constituição. Esse é um cenário menos irrealista, mas ainda assim improvável. Tanto o estado de defesa como o de sítio dependem de aprovação do Congresso, e os parlamentares do centrão são espertos o suficiente para perceber que seria contra seus interesses existenciais chancelar esse tipo de intervenção.

Acredito que, sem acontecimentos mais dramáticos no Dia da Pátria, a única vitória que Bolsonaro poderá extrair serão imagens de uma avenida Paulista razoavelmente cheia. Não parece muito, mas, num mundo em que versões prevalecem sobre fatos, é o que basta para ajudar a narrativa de líder popular que teve sua administração inviabilizada por forças ocultas. É uma justificativa para a derrota que deixa espaço para eventual retorno. Lembra Donald Trump.

Mesmo que nos livremos de Bolsonaro no ano que vem, ele poderá nos assombrar por um bom tempo.

Brasil, 199 - Editorial da Folha

 O Brasil completa nesta terça (7) uma trajetória de 199 anos como país independente. Nesses quase dois séculos, uma colônia agrícola escravocrata transformou-se em país de sociedade complexa e economia diversificada, sem que isso fosse suficiente para sanar suas imensas desigualdades e injustiças.

É pouco iluminado, porém, o horizonte próximo ao bicentenário.

Perdido em um devaneio autoritário, o Brasil tem hoje um governo que fracassa em prover a melhoria das condições de vida para 213 milhões de habitantes. Revive fantasmas que só fazem promover insegurança econômica e medo em toda uma geração que aprendeu a grandeza da democracia, reconquistada com esforço.

Seria despejar demasiada expectativa na suposta liderança em Brasília pedir que se notasse o encolhimento da importância relativa do país, num mundo em que o centro do poder mais e mais se desloca para a Ásia. Nem mesmo o papel de locomotiva regional cabe com nitidez no Brasil atual.

Para uma nota mais positiva, convém evitar o fatalismo. O país não está fadado ao sucesso, tampouco a perpetuar essa má quadra.

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Possui capital humano qualificado para superar a tormenta. Congrega dimensões que lhe dão lugar de destaque no planeta, seja pelo porte econômico (o oitavo maior Produto Interno Bruto pelo critério de paridade de poder de compra), pelo físico (a quinta maior área) ou pelo populacional (o sexto maior contingente, ainda que esse fator seja declinante, dado que o país caminha para ficar fora do grupo dos dez mais habitados).

As aspirações de qualquer conjunto de pessoas razoáveis passam muito longe do choque contracivilizacional ora vivido no Brasil. Este em algum momento cessará. Infelizmente, os traumas dele decorrentes devem se fazer notar por mais tempo, e sua cura não ocorrerá apenas pelo passar dos anos.

Nessa reconstrução, existe um papel do qual a elite não poderá fugir. O topo da íngreme pirâmide social brasileira apenas recentemente começa a dar sinais, ainda desconexos, de que não está disposto a aceitar os descalabros em curso. Será necessário fazê-lo com muito mais vigor.

Desse estamento espera-se ainda compromisso bem mais firme com o avanço educacional e com a preservação ambiental.

Também da elite política agrupada nas principais instituições deseja-se mais. Seu trabalho não é apenas manter sólidos os pilares da democracia. Deveria ser mais ativa no avanço do arcabouço legal e na diminuição de incertezas jurídicas que atrasam o país.

Decerto não é por descrença dos brasileiros que o país chegou a esse ponto. Como detectou pesquisa do Datafolha, 90% deles acreditam que o país é viável, e 70% dizem sentir orgulho de sua pátria. É preciso dar materialidade a esse sentimento, e efemérides são momentos propícios à reflexão. Que o aniversário desta construção chamada Brasil seja útil nesse sentido.

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