domingo, 5 de setembro de 2021

Mortes: Atravessou os 100 anos com ginástica e amor pela vida, Patrícia Pasquini, FSP

 


SÃO PAULO

A dona Maria Amorim era um exemplo de vitalidade e disposição. Pelo menos três vezes na semana ia à academia, onde praticava musculação e exercitava-se na esteira e na bicicleta. A idade do corpo físico, 102 anos, acompanhava a juventude da mente.

Aluna exemplar e querida na academia, quando completou 100 anos Maria ganhou uma festa e um plano vitalício para continuar os treinos.

A receita para manter a lucidez nessa idade e com saúde a própria Maria deu quando foi entrevistada por um programa de televisão: “nunca fumei, nunca bebi e cuidei da minha alimentação a vida inteira”, disse na época. Na lista para garantir a vitalidade também estavam amar a vida e não carregar mágoas.

Apesar de morar sozinha, a solidão nunca fez parte da sua rotina. Independente, era caprichosa com a casa, fera no crochê e na pintura de quadros e porcelanas, além de costurar como ninguém.

Maria Amorim (1917-2021)
Maria Amorim (1917-2021) - Arquivo pessoal

​Natural de Guará (a 400 km de SP), Maria passou a infância numa fazenda. Era a segunda mais velha entre oito mulheres. Também morou em Franca e Ribeirão Preto, onde se formou em Contabilidade.

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Com o diploma do curso superior em mãos, mudou-se para São Paulo e trabalhou na Secretaria Estadual da Fazenda como coletora e julgadora de processos. Foi seu único emprego. Aposentou-se na década de 1970.

Pouco depois que perdeu o pai, nos anos 1950, pediu licença do trabalho e deu uma volta ao mundo de navio. Durante o passeio, fez amizade com pessoas de vários países.

Maria praticou ioga durante 30 anos, a partir da aposentadoria. Desde meados de 1998 frequentava a academia.

“Ela tinha uma agilidade e energia de causar inveja. Só parou os exercícios quando caiu e quebrou o fêmur. Passou por cirurgia para a colocação de pinos, e fisioterapia. Apesar de não ter ficado dependente de cadeira de rodas, foi obrigada a levar uma vida mais pacata”, conta a tradutora de filmes e documentários para dublagem, Denise Amorim Soares, sua sobrinha. “Se eu a convidasse para saltar de paraquedas ela toparia”, completa.

Maria era geniosa e impunha respeito, mas divertida e leve. No anonimato, ajudava famílias carentes.

Maria Amorim morreu dia 20 de agosto, aos 103 anos, de insuficiência respiratória. Solteira, deixa uma irmã e sobrinhos.

Samuel Pessôa - Dificuldades do jornalismo, FSP

 

Hoje vou atacar de ombudsman do jornal. Entrarei na seara de meu colega José Henrique Mariante.

Na quarta-feira (1º), o IBGE divulgou o resultado da atividade econômica relativa ao segundo trimestre. O número, crescimento de -0,1% ante o primeiro trimestre, veio abaixo da expectativa de mercado.

Na capa da Folha de quinta-feira (2) passada havia um gráfico comparando o Brasil com outros 29 países. Tivemos o pior desempenho. Será que o gráfico nos ajuda a entender como tem se comportado a economia brasileira em comparação com as demais? Penso que não.

A segunda onda ainda estava muito forte no início do segundo trimestre e, portanto, um resultado pior do que o esperado era normal. A epidemia, um fenômeno global, apresenta dinâmicas específicas em cada país em um dado momento.

A diferença entre os gráficos, daqui e o da capa da edição de quinta-feira, além de haver um país a mais aqui, é a base de comparação. Eu considerei o último trimestre antes da epidemia, o 4º trimestre de 2019, como base, e a reportagem de quinta-feira, o trimestre anterior, isto é, o 1º trimestre de 2021.

A base escolhida por mim é mais adequada para comparar o desempenho econômico na pandemia de diversos países.

A mensagem é muito diferente da informação da capa do jornal. Como em geral acontece, o Brasil se casou com a mediocridade. Mas não somos o pior caso. Longe disso. Há 16 países piores e 14 melhores.

A economia ainda não superou as dificuldades com a epidemia. Outros serviços, um subsetor dos serviços que representa 15% da economia e 34% do emprego, ainda roda 7,2% abaixo do nível pré-epidemia, e os serviços da administração pública, que também representam 15% da economia, operam 4,5% abaixo. A normalização de ambos nos próximos trimestres adicionará 1,8 ponto percentual na economia. Sobrará um resto da recuperação para melhorar um pouco os números de 2022.

Mudando de tema, no domingo passado (29) uma longa reportagem de Fernanda Mena à página A20 da Folha discutiu o importante tema da contagem dos anos das mulheres para efeito da aposentadoria. Mães muitas vezes largam o trabalho para cuidar dos filhos. Na Argentina, há a possibilidade de as mães acrescentarem de um a três anos por filho, segundo a reportagem, na contagem do tempo de contribuição para a previdência. Medida análoga ocorre no Uruguai.

Faltou a reportagem lembrar que esse benefício, de certa forma, já existe. As mulheres podem requerer o benefício cinco anos antes do que os homens. Como a expectativa de vida das mulheres aos 60 anos é 2,5 anos superior à dos homens, as mulheres usufruirão do benefício previdenciário por 7,5 anos a mais.

Iria escrever sobre a reforma do Imposto de Renda aprovada na Câmara na semana passada. Sempre me pronunciei favorável a medidas que elevem a progressividade dos impostos de renda no Brasil. Sabe-se que, nas altíssimas rendas —a partir do 0,5% mais rico—, o Imposto de Renda, considerando a renda do capital, é regressivo. A reforma aprovada não corrige essa distorção. Teria sido melhor nada aprovar.

Mais um caso, como ocorreu com a privatização da Eletrobras, em que a reforma piorou o ambiente de negócios. Remeto o leitor à corretíssima análise de Vanessa Canado nesta Folha.


Título é título, golpe é golpe, José Henrique Mariante, FSP

 


Só lemos títulos, dizem as pesquisas. Segundo uma delas, da Universidade Columbia, quase 60% das pessoas encaminham notícias no Twitter sem ter lido nada além do título.

Isso obriga a uma maior sofisticação na arte de fazer enunciados, algo que muitos redatores levaram anos para desenvolver e que as redes sociais transformaram em atividade banal ao permitirem o mesmo peso para piadas, mentiras e reportagens. Sim, é uma arte conseguir em poucas palavras dar a dimensão de um fato, ser sério quando preciso ou conseguir uma graça sem esconder qual é a informação.

A busca por audiência complica a tarefa. Como já comentado em coluna anterior, jornais precisam seguir estratégias para posicionar bem seus títulos em sites de busca. Determinadas palavras e formulações são mais procuradas do que outras, precisam constar nos títulos para serem encontradas. Ou seja, a antiga arte do redator virou ciência. Melhor dizendo, algoritmo, como quase tudo atualmente.

Fenômeno paralelo, pululam também os títulos "entenda como...", "veja isso...", "saiba onde...". Paulo, leitor do Recife, reclama da prática, pela qual, segundo ele, o jornal trata a todos como ingênuos. "Entenda como Sérgio Reis se radicalizou sob Bolsonaro e entrou para a tropa de choque" foi o título que ensejou sua reclamação.

Nele, a promessa de contar uma história ainda cria certa curiosidade. Outros são anódinos, como este, da semana passada: "Veja o desempenho do PIB de vários países no 2º trimestre de 2021". A notícia só vinha com a leitura do texto. A vacinação atrasada jogou o Brasil para o fim da fila. O título do impresso, em nova edição do texto, foi direto: "Vacinação atrasada limitou a atividade, avaliam economistas".

Ilustração em preto e branco quatro círculos. Homem estra entre o terceiro e o quarto, observando o último deles. Acima da cabeça dele, um ponto de interrogação e um de exclamação
Carvall

Não bastasse a forma, há a sutileza, aquele tipo de coisa que aponta supostas inclinações, mesmo que não tenha sido a intenção. Carlos, professor em São Paulo, dividiu questionamentos feitos por seus alunos durante uma aula sobre o gênero jornalístico. "Doria pagará R$ 1.000 ao ano a alunos do ensino médio para mantê-los na escola" era o texto analisado. O governador vai pagar do próprio bolso? Essa seria a melhor formulação para uma notícia que trata de um pré-candidato? Em noticiário negativo, sobre casos e mortes por Covid-19 em escolas, dez dias depois, o sujeito da oração virou "gestão Doria".

O sutil incomoda mais que o literal. Recentemente este ombudsman discutiu em crítica interna com a Redação o seguinte enunciado: "Bolsonaristas invertem narrativa e tentam dar verniz democrático a ato com raiz golpista no dia 7". Uma análise do jornal mostrava mudança de tom nas convocações para o feriado, em comparação com manifestações anteriores, o que sugeria uma ação coordenada.

Meu ponto era que não parecia haver inversão alguma, apenas uma modulação de discurso por parte do presidente Jair Bolsonaro e de aliados para evitar a responsabilização direta por seus arreganhos, como os editorialistas desta Folha gostam de escrever.

Entre os exemplos sobre a mudança de comportamento listados na reportagem, havia as orientações de um movimento aos seus integrantes para evitar que "a conduta pessoal" fizesse o grupo ser acusado de antidemocrático. O antigo apelo pelo fechamento do Supremo Tribunal Federal passava a ser expresso então por "destituição dos ministros".

A diferença entre fechar a corte e destituir seus integrantes é que, no segundo caso, há previsão legal. Ponderei que, com ou sem possibilidade jurídica, qualquer uma das manobras seria um golpe. Golpe é golpe, não importa se a tiros ou com leite condensado.

Alguns dias e outros tantos arreganhos mais tarde, uma análise sobre o mesmo assunto ofertou o título que imaginava mais preciso: "Bolsonaro finge moderação e insufla atos golpistas no 7 de Setembro".

No primeiro parágrafo do texto, uma espécie de resumo do que ocorre, um ato em favor da liberdade de expressão e da democracia que prega contra as instituições e sonha com um golpe de Estado.

O jornal, a imprensa, tem um teste duro pela frente, com profissionais sob risco potencial, em cobertura que se desenha como o desafio de uma geração. Que continuemos apenas lidando com sutilezas.

OUTROS TEMPOS?

"Helicóptero com bandeira do Brasil sobrevoa escola de Cuiabá após professora ser afastada por criticar Bolsonaro." Só li o título e me lembrei de um recreio nos anos 1970, quando o jogo de futebol no pátio foi interrompido pelo sobrevoo em baixa altitude de um helicóptero com portas abertas e soldados armados. Minha escola ficava a dois quarteirões da Igreja Matriz de São Bernardo, refúgio dos líderes grevistas do ABC que impunham um desafio inédito à ditadura militar.

Os dias atuais trazem lembranças —ruins​, para quem precisa de títulos literais.