Jair Bolsonaro decerto não é o primeiro presidente a flertar com aelevação sem limites do gasto públicopor acreditar que, mais adiante, a gastança possa pavimentar um caminho seguro à reeleição.
Essa, de fato, tem sido a praxe nacional desde o restabelecimento da democracia, estimulada pelas normas constitucionais que fixam despesas obrigatórias e explicitada desde que o controle da inflação deu clareza ao Orçamento.
Bolsonaro, no entanto, tem o azar e a sorte de suceder à petista Dilma Rousseff, que levou a fórmula aos limites da capacidade do Tesouro e da lei —o que resultou na maior crise econômica em gerações e lhe custou o segundo mandato.
Azar por ter herdado um governo deficitário e excessivamente endividado, com poucas opções de políticas públicas à disposição; sorte por contar com um debate mais amadurecido em torno do controle fiscal e um mecanismo de ajuste —o teto de gastos inscrito na Constituição— já em vigor.
O fracasso da última administração petista deveria bastar para que ensaios de programas redentores de obras públicas e de assistência social, sempre frequentes nas especulações brasilienses, fossem deixados de lado. Infelizmente, é fantasia um Tesouro que possa financiar um déficit sem limites e permanentemente crescente.
Na ilusão de que estimularia a economia, Dilma elevou a despesa federal não financeira de 16,8% do Produto Interno Bruto, em 2011, a 19,4% em 2015. Gerou alta da inflação, do câmbio e dos juros, uma profunda crise de confiança e um desemprego recorde.
Bolsonaro, tudo indica, sonha com o propósito de driblar o teto dos gastos —que desde 2016 os mantém entre 19,4% e 19,9% do PIB, num ajuste relativamente suave.
Abriria caminho, assim, para uma ampliação dos investimentos em infraestrutura e de programas sociais para agradar o eleitorado pobre do Nordeste e de outras regiões, além dos novos aliados do centrão e da ala militar do governo.
Não se discute a importância de reforçar a seguridade, ainda mais depois do impacto devastador da pandemia. Mas derrubar o teto, por motivo supostamente social ou desenvolvimentista, será manobra insensata mesmo sob a lógica eleitoral mais desavergonhada.
A mais de dois anos da disputa presidencial, o presidente estaria contratando uma crise futura e colocando em risco até mesmo a estabilidade econômica, duramente conquistada pela sociedade brasileira nas últimas décadas.
Gastar mais, a esta altura, significa elevar uma dívida pública que ruma a mais de 90% do PIB, criar desconfiança no mercado sobre a solvência nacional, pressionar inflação e juros e solapar o tão almejado crescimento sustentável, única forma efetiva de atenuar as históricas mazelas sociais do país.
Ao final, os mais prejudicados serão, como de hábito, os pobres e miseráveis, que por inconveniência política constituem também a parcela mais decisiva do eleitorado.
Um ano de incertezas, em que tudo parece pairar sem movimento, ao mesmo tempo em que uma crise se instaura no país — há saída? A jornalista Flávia Oliveira, colunista do jornal O Globo e comentarista da GloboNews, com décadas de experiência em jornalismo econômico, vê a bola no campo, com possibilidade de jogo para mudanças consideráveis.
Não que esse jogo seja fácil. Afinal, a bola é um tetraedro, uma pirâmide de quatro faces que representam “a hecatombe sanitária, a derrocada econômica, a galopante vulnerabilidade social e a instabilidade política que mantém a democracia em suspensão” no Brasil. Mas há uma questão de timing. Flávia afirma que a pandemia, embora seja o maior período de luto que o país já viveu, possibilitou a ruptura de uma era de certezas e pôs a situação do país em revisão.
Mãe de Isabela Reis, de 24 anos, também jornalista e com quem apresenta o podcast Angu de Grilo, ela vê na geração da filha a saída para uma transformação efetiva na busca por direitos humanos, pela manutenção da democracia, pela preservação do meio ambiente e por igualdade. “Vejo com muita esperança o posicionamento dos jovens, não apenas no Brasil, mas mundo afora. Eu acho que o processo foi muito pedagógico nessa direção de um novo protagonismo, de um questionamento da sociedade em que vivemos”, afirmou a Gama na entrevista que você lê a seguir.
G |Desde o começo da pandemia, especialistas de muitas áreas falam sobre a vida pós covid-19, como se fosse um novo mundo. Uns acreditam que seremos melhores, mais solidários; outros, que tudo será como antes, ou até pior. Enquanto isso, somos confrontados com números e notícias que aprofundam a crise. Como você avalia as previsões desse futuro que nunca foi tão incerto?
Flávia Oliveira |
As duas correntes têm suas razões. O futuro está em disputa como nunca esteve. Já tivemos mais certezas sobre ele, ainda que fossem desoladoras. A diferença desse momento é que, embora seja uma travessia muito enlutada, nos abre perspectivas, devolve esperança a um grupo que parecia derrotado. O que estamos passando não é, sob nenhuma hipótese, uma coisa boa, mas a maior experiência de luto coletivo da história do Brasil e de desordem institucional. Já faz um tempinho que eu comecei a pensar essa crise como um tetraedro, com a face social, a sanitária, a econômica e a política, que poderia ser evitada se houvesse uma coordenação. E não somente por conta do governo federal, há também um certo desarranjo na gestão dos estados, dos grandes municípios, das grandes prefeituras.
Nós vínhamos de uma era de consolidação de forças políticas de valores que se chocam com a agenda de quem acredita em direitos humanos, em sustentabilidade, responsabilidade socioambiental, sustentabilidade, combate a desigualdades, a todos os níveis de desigualdade (racismo, machismo, LGBTfobia). Víamos a ascensão de grupos que desprezam essas dimensões, algo que deixava os defensores de direitos humanos e dos valores democráticos muito enfraquecidos, derrotados. Esse momento de grande revisão, em razão da pandemia e das respostas a ela, colocou a bola no campo. Eu não consigo dizer quem vai ser vencedor, mas posso dizer de que lado estou, sendo eu uma jornalista comprometida com os direitos humanos.
G |O quão conscientizada está a população brasileira sobre essa disputa?
FO |
Gostaria de dizer 70%-30%, mas no Brasil é 30% nos movimentos pró-democracia, 30% na aprovação do governo e 30% que vai com o vento. Muitos não sabiam que estavam na beira do abismo da vulnerabilidade, 30 milhões, que eram trabalhadores informais, sem carteira assinada, ou trabalhadores do setor de serviço, como depiladora, manicure, pedreiro, eletricista, bombeiro, empregada doméstica, diarista, gente que estava remediada, mas sem alcance dos benefícios da lei. Essa descoberta levou à necessidade do socorro do estado, que foi muito bem-vindo por esses grupos. Nesse sentido, essas pessoas têm a possibilidade de se convencerem de que o Brasil tem uma gama de direitos constitucionais garantidos, mas nunca oferecidos, e têm a oportunidade de cobrar o oferecimento desses direitos. Se essa percepção for robusta o suficiente, pode emergir uma sociedade melhor e um futuro mais promissor. Agora, se não durar, se for só um band-aid, o nosso futuro não prospera. Eu conto muito com a juventude. Acho que o protagonismo dessa transformação pode vir a médio prazo, à medida que essa juventude não esmoreça e comece a ocupar suas posições como adultos, fazer valer os valores que eles têm. Agora, tem também a perspectiva da gente dizimar essa juventude, algo que já vemos acontecer. Sem estudo, muitos jovens se decepcionam, perdem a esperança. E aí, se a juventude esmorecer, danou-se.
G |E se, por outro lado, a economia andar um pouco e a sociedade esquecer do que vivemos?
FO |
Há uma fadiga enorme, e essa fadiga também tem a ver com o fim autorizado ou espontâneo do isolamento, no sentido de que está muito difícil conseguir insistir no cumprimento das recomendações. Só que me parece que o ambiente ainda está bem árido, não apenas do ponto de vista sanitário, em vários lugares do Brasil, mas mesmo nas grandes cidades onde aparentemente a pandemia se estabilizou – se estabilizou, não decresceu, e num patamar que não é aceitável. Há muito luto: como é que vão ser esses encontros? Como é que vai ser ir para a rua e descobrir que não tem mais aquele trabalho? Que aquela vaga não existe? Que os lugares estão fechados? Que as pessoas estão sem dinheiro para comprar? Se por um lado, a pandemia nos abate, do ponto de vista da incerteza, por outro lado, voltar a um ambiente de quase depressão econômica é a realização, a confirmação de um futuro muito ruim.
G |A população tem alguma ideia disso, do que vai ser o país ao fim desse período?
FO |
Tem porque o mercado de trabalho está muito ruim. Do ponto de vista dos dados macro, não tem nenhum indício de que a situação está minimamente próxima do que foi fevereiro, que já não era bom. É bom refletir sobre o ponto de partida, a gente não despencou da crise do topo. Nós viemos de uma recessão forte, com agravamento de crise social, com esvaziamento dos programas sociais. Nós tivemos de 2017 para cá uma recuperação medíocre da economia, 1%, 1%, 1%, quer dizer, não tinha nem compensado o que perdemos (e foi muito forte a perda, nos anos de recessão, de 2014 a 2016). Isso do ponto de vista econômico, mas ainda tem um agravamento do quadro social: fizemos reforma trabalhista em 2017 e não teve aumento do emprego. O fenômeno dos anos recentes é a precarização, que agora, durante essa crise, escancarou a vulnerabilidade a que a classe trabalhadora estava exposta.
G |Como é que você vê o futuro dessa imensa fatia de trabalhadores no Brasil, dos precarizados? Há quem defenda que se as pessoas não estivessem nos aplicativos de delivery, por exemplo, estariam desempregados. Como avalia esse discurso?
FO |
Esse argumento, de que a economia informal é um colchão, que acomoda as grandes tragédias ou relações do mercado de trabalho, é verdadeiro mas é descarado. Porque, no limite, é a escravidão, trabalhar por um prato de comida é melhor do que passar fome. No direito, usa-se o termo “efeito cliquet”, que vem do alpinismo, para se falar de um determinado momento da conquista de direitos em que não se pode retroceder, só avançar. O movimento dos entregadores sinaliza para a sociedade brasileira que tem um patamar ali que não dá mais para retroceder. Os caras já aguentaram demais. E, veja, eles não estão nem pedindo, como quer ou interpreta o Ministério Público do Trabalho, que tenha vínculo empregatício, carteira assinada. O que eles estão dizendo é o seguinte: eu preciso ter um lugar para ir ao banheiro, a reivindicação é um negócio louco, você não pode se opor a isso. Um ponto fixo para conseguir comer a marmita, para carregar o celular, porque eles trabalham com o celular. Eles querem um mínimo de remuneração, um aumento da quilometragem, são elementos muito básicos. Eles foram submetido, nesse momento, em que todo mundo demanda deles, a um arroxo das regras dessas empresas intermediárias. Eu acho isso super justo, digno. E espontâneo, o que é mais interessante: não é com representação sindical formal, o movimento foi muito combustão espontânea, por rede, usando o mesmo celular.
G |Isso é meio sinal dos tempos também, não é?
FO |
Total sinal dos tempos. E é muito engraçado, porque a mesma tecnologia que viabiliza o trabalho deles foi usada contra as empresas, contra a ordem instituída. Esse é um caso bem vindo, não vou dizer bem sucedido, de sinais de tensão por direitos. Mas outros são terra arrasada, o que está acontecendo com as empregadas domésticas é um negócio desolador. A dispensa das mensalistas, das diaristas… Dois terços delas já não tinham nenhuma formalização, foram dispensadas sem remuneração, sem direitos trabalhistas, algumas estão se expondo, expondo as próprias famílias. O caso da Mirtes, lá de Pernambuco, Recife, é emblemático – não pode cumprir o isolamento, foi obrigada a trabalhar, não tinha escola, levou o Miguel, deixou o Miguel com a patroa para passear com o cachorro. Deixando para trás o próprio filho, que não fui cuidado e que acabou despencando para a morte. Isso é tão Brasil que faz mal. Aí nesse sentido você olha e fala: não tem futuro. É o racismo estrutural, é a desigualdade operando de um jeito descarado.
G |Essa sensação de não ter futuro dá um desânimo, um cansaço. Se as pessoas estão cansadas também de pensar sobre o que estamos vivendo e sobre os quatro lados da crise fica mais difícil também de pensar na saída?
FO |
Fica muito difícil. Mas a gente também tem que entender que é realmente muito cansativo e que tem várias forças operando, né? A gente viu o início da crise, que tinha panelaço nas cidades e tal. Você acha melhorou para não ter panelaço? Acho que as pessoas estão cansadas. Perderam gente, estão com medo, estão tendo que cuidar da casa, dos filhos, da família, dos idosos, do jeito que jamais tiveram e imaginaram que teriam. É um exercício, é uma cobrança por um estado de alerta, que é muito cansativo, e a gente precisa respeitar isso. Aí eventualmente, há a necessidade de um escape, e acho que muito da quebra do isolamento tem a ver com isso também, tipo “cara, eu não aguento mais, eu preciso sair”. Não culpo ninguém que não queira se confrontar com a realidade, embora eu precise por dever profissional me confrontar com ela. E é muito mais fácil quando você tem o dever profissional, porque há a possibilidade de separar as coisas. Às vezes eu sou surpreendida, pessoalmente estou desarmada e vou consumir uma notícia como indivíduo, e sofro profundamente, sou completamente atravessada por uma sensação de tristeza profunda.
G |E no que diz respeito à violência? A liminar que proíbe as operações policiais no Rio, durante a pandemia, derrubou os homicídios em 73% em junho. O que pode acontecer no pós-pandemia? Vê alguma perspectiva de melhora?
G |Em entrevista à revista Marie Claire, você diz que se encontrou com a negritude na faculdade. Qual é a sua relação com os movimentos negros hoje? Acredita que as conquistas e o alcance do discurso de ações como Black Lives Matters vão ter feito para um futuro mais justo?
FO |
Espero que tenham, eu vivo da esperança. Essa agenda da construção da equidade, da igualdade racial, também está em disputa. E acho que ela ganhou uma visibilidade que é muito bem-vinda. Se não tem resultado concreto, massivo, ela expôs um debate, e mudou muito da percepção do Brasil sobre si mesmo. A minha ligação com o movimento negro não é de associativismo, isso porque eu acho que é incompatível com a atividade jornalística e a produção de conteúdo que eu ainda faço e da qual não abro mão. Mas é de intenso diálogo, e de intensa busca por visibilidade. Entrevisto mulheres negras, homens negros, pesquisadores, acadêmicos, personalidades, é algo que está muito presente no meu trabalho, por exemplo, como colunista do Globo. Levo indicadores e a agenda do movimento negro organizado para o meu trabalho, não por militância cega, mas porque acho relevante que o meu leitor e o Brasil sejam apresentados a essa parcela, a essa intelectualidade, a essas instituições que são e foram historicamente invisibilizadas.
G |Falamos de futuro e, para uma mãe, é impossível descolar essa ideia dos filhos. Como você vê o futuro a partir da sua filha?
FO |
Lembra que eu te falei que eu tenho muita esperança na veia aguerrida da juventude? Ela me ajuda a consolidar essa percepção de futuro. Do desejo de prosperar, mas um prosperar generoso. Desejo de bem estar, de bem viver, como diz o movimento das mulheres negras. Com consciência. É uma juventude muito destemida, que não tem medo de dizer que vai boicotar a marca tal, de expor o fulano ou a fulana de tal, que vai lá e briga e se associa em rede, muito mais letrada e com um letramento mais diverso. Porque eu também sou letrada, mas eu não tinha, aos 24 anos, lido Angela Davis, nem Patricia Hill Collins, nem bell hooks, como a Isabela já leu. Ela tem 24 anos, leu tudo isso, e algumas autoras ou conceitos foi ela mesma quem me apresentou, do ponto de vista formal. Meu feminismo era muito mais intuitivo, muito mais orgânico. Eu aprendo muito com ela e com essa juventude muito fundamentada no letramento formal, teórico e crítico.
Os robôs e a automação, as ondas de recessão e aperda de direitos trabalhistas: durante a última década, quando eventos políticos e socioeconômicos e aspossíveis ameaças da inteligência artificialsurgiram como as maiores fontes de incerteza sobre o futuro do trabalho, não imaginávamos que um minúsculo organismo, bem mais rudimentar, estava à espreita. Eis, então, 2020: às transformações tecnológicas e sociais que já há algum tempo assombravam o mercado, somaram-se os impactos deuma crise planetáriaprovocada pelo novo coronavírus. E os mais afetados, em qualquer um desses casos, são os jovens — aqueles que estão entrando, ou ainda não entraram, na vida profissional.
Mais de um em cada seis jovens do mundo perdeu o emprego por causa da pandemia
A Organização Internacional do Trabalho (OIT) estima que mais de um em cada seis jovens do mundo perdeu o emprego por causa da pandemia e que esse período, no qual também ficou mais difícil estudar, deixará sequelas permanentes nessa parcela da população. Não que antes da covid-19 tudo fosse fácil: em 2019, a taxa de desemprego juvenil batia mais de 13%, maior que a de qualquer outro grupo. No Brasil, a juventude é a grande impactada pela falta de trabalho desde a crise fiscal de 2014, atingindo uma cifra de 36,1% de desocupação no primeiro trimestre de 2020, de acordo com o IBGE — número que pode saltar para 40% nos próximos meses.
Não bastasse a conjuntura externa desanimadora, as ambições pessoais das novas gerações parecem desprepará-las ainda mais para o amanhã, segundo o relatório Dream Jobs, divulgado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) em janeiro. Com dados de 41 países, inclusive do Brasil, a pesquisa observou que a maioria dos adolescentes de hoje aspira a apenas dez profissões, “todas dos séculos 19 e 20”, muitas com risco de automação e sem potencial de desenvolvimento no século 21.
Ocupações tradicionais, como engenheiro, médico, advogado e professor, estão entre as mais desejadas. Ao mesmo tempo, a Comissão Econômica para a América Latina e Caribe (Cepal) prevê que 65% das crianças de hoje terão empregos que ainda não existem. Todos esses dados apontam para um cenário bastante imprevisível em relação ao futuro do trabalho para os mais jovens. Afinal, o que eles esperam da vida profissional e o que espera por eles no mercado?
65% das crianças de hoje terão empregos que ainda não existem
O paradoxo entre o relatório da OCDE e as previsões da Cepal revela a falta de referências mais amplas e a dificuldade em lidar com mudanças cada vez mais velozes, diz Cezar Almeida, diretor de inovação da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH). “É um exercício difícil para qualquer pessoa compreender que a realidade em que ela vive vai se desintegrar e uma nova vai surgir. Os jovens estão olhando para os parâmetros que já estão aí, no mercado de trabalho atual”, afirma em conversa com a Gama.
O contexto de subdesenvolvimento, altas taxas de desemprego e desigualdade do país podem explicar essa atitude. “É claro que essas demandas das novas gerações se manifestam quando os jovens têm chances razoáveis de encontrar bons empregos; quando as condições econômicas são difíceis e os empregos recompensadores são escassos, não é surpreendente que as preferências se concentrem mais na estabilidade e na perspectiva de carreira”, diz a Gama Stefano Scarpetta, chefe da área de emprego, trabalho e assuntos sociais da OCDE.
O relatório da organização confirma que as perspectivas de carreira dos adolescentes, consideradas irreais e pouco conectadas às hipóteses sobre o futuro do trabalho, são “distorcidas por questões sociais”.
É um exercício difícil para qualquer pessoa compreender que a realidade em que ela vive vai se desintegrar e uma nova vai surgir
A ideia corrente de que ter um diploma universitário vai garantir um bom emprego perde força em momentos de grave crise econômica, como durante e depois da pandemia. A pesquisa GET Youth 2020, da OIT, mostra que a disponibilidade de mão de obra com formação superior no mercado de trabalho supera a demanda por esse tipo de qualificação. “Não estão sendo criados empregos suficientes para esses jovens, o que significa que o potencial de milhões de pessoas não está sendo aproveitado adequadamente”, segundo Sukti Dasgupta, diretora da divisão de políticas de emprego e mercado de trabalho da organização.
No Brasil, que sofreu sucessivas ondas de recessão desde o começo da década, os recém-formados encontram mais dificuldades. Um levantamento recente da empresa de consultoria IDados revelou que 40% da juventude com ensino superior são “sobre-educados” para os cargos que ocupam, ou seja, não têm um emprego que condiz com a sua qualificação, muitas vezes exercendo funções que não precisam de faculdade. O cenário pode piorar com a crise do coronavírus e a diminuição das oportunidades.
No entanto, para as pessoas com menos escolaridade a realidade é ainda mais dura, porque elas terão que enfrentar, além do desemprego, o risco de automação de alguns postos de trabalho +. Tanto a OIT quanto a OCDE alertam que a probabilidade de ser substituído por um robô é maior entre os trabalhadores com menor renda e educação, situação que deve se agravar com o aumento do abandono escolar em virtude da pandemia.
O relatório Dream Jobs, da OCDE, mostra que há baixa ambição em relação aos estudos e um alto nível de descrença na conclusão do ensino superior entre os alunos mais pobres, mesmo aqueles que apresentam bom desempenho na escola. “Os jovens de origens socioeconômicas desfavorecidas, incluindo o baixo nível de educação de seus pais, tendem a ter acesso mais fraco à educação de qualidade”, explica Scarpetta. “Em outras palavras, a baixa mobilidade social e as desvantagens tendem a se perpetuar de pai para filho. E, claro, os jovens desfavorecidos estão cientes disso e têm poucas expectativas sobre o futuro.”
Esse é um contexto que leva a juventude mais vulnerável a postos mais precarizados, segundo a pesquisadora Ludmila Abílio, do Centro de Estudos Sindicais e Economia do Trabalho (Cesit – Unicamp). “Em um processo de degradação das funções, quanto mais se precariza, mais se ‘juveniliza’ a profissão”, afirma ela em entrevista a Gama. Abílio menciona os motoqueiros e bikeboys de aplicativos como um exemplo de trabalho “do futuro” possível: quanto mais degradada a ocupação, mais acessível ela se torna para os jovens pobres.
Eles são justamente os grandes afetados pelas crises econômicas, porque muitas vezes estão em empregos informais e instáveis, de baixa remuneração. “A juventude periférica busca estratégias de sobrevivência em formas de ocupação rotativas e que exigem pouca qualificação”, observa a pesquisadora. Um estudo da consultoria IDados aponta que 71% dos jovens que ingressam informalmente no mercado continuam na informalidade depois de cinco anos e que ter formação técnica ou profissionalizante é relevante para diminuir a rotatividade entre empregos.
Não existe forma mais rápida, eficaz e garantida de diminuir a pobreza do que o acesso ao ensino e à educação. A relação entre os anos que a pessoa estuda e a renda é totalmente direta
Ainda que um cenário econômico precário influencie na garantia de vagas, investir na educação continua sendo a principal alternativa para tornar o panorama do futuro do trabalho menos pessimista para as novas gerações. “Não existe forma mais rápida, eficaz e garantida de diminuir a pobreza do que o acesso ao ensino e à educação. A relação entre os anos que a pessoa estuda e a renda é totalmente direta”, diz Cezar Almeida. Ele explica que isso, no fim, também é bom para mercado, já que jovens educados pelo menos a nível médio compõem uma mão de obra mais preparada e produtiva.
Nesse processo de formação, conhecer novas possibilidades também ajuda a juventude a ampliar as ambições profissionais. A OCDE sugere a figura de um orientador de carreira nas escolas, tanto para estimular a continuidade dos estudos quanto para apresentar a realidade do mercado de trabalho “Investir em adolescentes significa dar a todos eles acesso a habilidades que serão essenciais, seja qual for o trabalho que desempenharão no futuro”, defende Scarpetta. “Podemos não saber os nomes de muitos desses empregos, mas conseguimos prever muitas das tarefas que serão exigidas.” Ele enumera a habilidade de resolução de problemas usando ferramentas digitais, a comunicação e o trabalho de equipe como algumas das capacidades fundamentais.
Mesmo com essas medidas, pode ser necessário encontrar mecanismos para garantir a sobrevivência e as necessidades básicas, sobretudo em momentos de crise. Não à toa, propostas de renda básica universal começam a se popularizar pelo mundo, em meio às incertezas que as graves recessões econômicas e a automação trazem para o futuro. “Já vimos em crises anteriores que os jovens tendem a ser atingidos de forma desproporcional pela perda de empregos e pela baixa contratação. É essencial destinar recursos públicos para apoiar os que já entraram ou estão prestes a entrar no mercado de trabalho”, conclui Scarpetta.