domingo, 24 de novembro de 2019

O atraso do moderno no Rio, Elio Gaspari, FSP


Bilhete Único não chegou ao Rio porque cartel privatizou a administração da cidade



O jornalista Ivan Lessa dizia que “a cada 15 anos, o Brasil esquece os últimos 15”. Em 2004, há exatos 15 anos, a prefeita de São Paulo, Marta Suplicy, instituiu o Bilhete Único no transporte público do ônibus na cidade. Seria uma pena se o Rio de Janeiro esquecesse o que lhe aconteceu.
Em 2004, a cidade era governada por Cesar Maia e o Estado, por Rosinha Garotinho. O Bilhete Único foi recebido com ceticismo, sobretudo porque implicava num subsídio. Nova York, Paris e Londres subsidiavam seus transportes públicos, mas subsídio era coisa de pobre. Em São Paulo, um transporteca que estivera nas administrações tucanas explicou: “Quanto mais o programa der certo, maior será a arapuca financeira que a prefeitura terá de enfrentar.”

Usuário do Bilhete Único no transporte público em São Paulo
Usuário do Bilhete Único no transporte público em São Paulo - Rivaldo Gomes - 11.jun.19/Folhapress
Saiu Dona Rosinha e entrou Sérgio Cabral, que se intitulava “um gestor”. No lugar de Cesar Maia, ficou Eduardo Paes, outro campeão da modernidade, inimigo dos subsídios.
O Bilhete Único só entrou em vigor no Rio em 2010, seis anos depois de sua implantação em São Paulo. Quem seguisse a discussão com o olhar dos prefeitos e governadores poderia acreditar que a questão girava em torno dos subsídios.
Felizmente o Ministério Público varejou as contas do cartel das empresas de ônibus do Rio e da sua central de propinas, Fetranspor. A discussão da modernidade era fingimento. O negócio dos doutores era o dinheiro das companhias de ônibus, que não queriam o bilhete. Lélis Teixeira, poderoso presidente da Fetranspor, contou como o cartel azeitava çábios do Executivo, Legislativo e Judiciário do Rio para garantir tarifas e incentivos fiscais que beneficiavam as empresas. O ex-governador Anthony Garotinho, patrono e marido de Rosinha, bem como seus sucessores Sérgio Cabral e Luiz Fernando Pezão, estavam no esquema. Dois estão na cadeia e o casal passou por ela.
No governo de Cabral, quem negociava a instituição do Bilhete Único era o “capo” José Carlos Lavouras, que está foragido em Portugal. Num de seus pacotes, as propinas ficaram em R$ 19 milhões. Segundo Teixeira, a Fetranspor financiou duas campanhas de Eduardo Paes, mas não soube dizer quanto custou o mimo.
O Bilhete Único não demorou seis anos para chegar ao Rio porque a discussão dos subsídios para o transporte público exigia estudos sérios. Ele demorou para chegar porque o cartel dos ônibus havia privatizado a administração da cidade. O atraso da corrupção sabe se fantasiar de modernidade liberal e privatista.

Eremildo, o idiota, dá atenção ao que diz o presidente

O capitão contou que o governador manipula a investigação da morte de Marielle

EREMILDO, O IDIOTA

Eremildo é um idiota e dá muita atenção ao que diz Bolsonaro. O capitão contou que o governador Wilson Witzel (Harvard fake ‘15) “vinha manipulando” a investigação policial para desvendar o assassinato da vereadora Marielle Franco e seu motorista, Anderson Gomes. Depois disse: “Parece que não interessa à esquerda chegar aos mandantes do crime.”
O cretino sempre suspeitou que o doutor Witzel fosse de esquerda.

FRIGIDEIRA

O repórter Ancelmo Gois disse tudo: “Pedro Guimarães, presidente da Caixa, virou um queridinho da família Bolsonaro. Isso quer dizer: tanto nada... ou muita coisa.” 

PODEROSOS E MALCRIADOS

O presidente da Huawei latino-americana e seu executivo no Brasil foram ao palácio do Planalto conversar com Bolsonaro. Na saída, não quiseram falar com a imprensa. Jogo jogado, contudo, houve uma hora em que não quiseram dizer seus nomes.
Os doutores Zou Zhikei e Wei Yao deveriam ter melhores modos, até porque para a maioria dos brasileiros, suas sopas de letras não querem dizer coisa alguma.

PIRRAÇA

O juiz Marcelo Bretas voltou a reter o passaporte de Michel Temer. Terá a decisão revogada.

DIPLOMACIA DE DOADOR

Gordon Sondland, o embaixador americano na Comunidade Europeia metido na encrenca ucraniana nunca foi da carreira. Chegou lá porque deu US$ 1 milhão para a festa da posse de Trump. 
Um dia depois do fatídico telefonema de Trump para seu colega ucraniano, ele ligou para o presidente dos Estados Unidos de um restaurante de Kiev. Os dois falavam tão alto que a outra pessoa sentada à mesa ouviu:
— Ele vai fazer a investigação? (Trump falava da ação contra o filho de Joe Biden, candidato pelo partido Democrata à presidência.)
— Ele vai fazer o que você pedir. 
Botar dono de hotel em embaixada dá nisso.

Tributar dividendo é peça fundamental na reforma do Imposto de Renda, FSP


SÃO PAULO
A cobrança de imposto sobre dividendos, hoje isentos, é peça fundamental no projeto do governo federal de aliviar a carga tributária sobre empresas e tornar o Imposto de Renda das pessoas físicas mais progressivo (alíquotas proporcionalmente maiores para rendas mais altas), afirma Vanessa Rahal Canado, assessora especial do ministro da Economia, Paulo Guedes.
Secretária-executiva do Grupo de Trabalho para o Aperfeiçoamento do Sistema Tributário, a advogada coordena o desenho da reforma tributária e detalhou algumas propostas em entrevista à Folha na sexta-feira (22) no Insper, onde dá aulas.
“A tributação de dividendos é uma peça fundamental da reforma, não só do ponto de vista da arrecadação mas como uma questão redistributiva”, afirma Vanessa.
Vanessa Rahal Canado, assessora especial do ministro da Economia, Paulo Guedes
Vanessa Rahal Canado, assessora especial do ministro da Economia, Paulo Guedes - Reinaldo Canato - 24.jun.2019/Folhapress
Entre os itens que podem ser alterados no IR estão as deduções de despesas com saúde e educação.
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Como isso elevaria a carga tributária dos contribuintes, o governo estuda alíquotas menores para algumas faixas salariais.
“O objetivo final é eliminar complexidades e diferenças injustificáveis entre quem ganha a mesma renda”, diz a secretária-executiva.
Mudanças no Imposto de Renda da Pessoa Física devem permitir também uma folga para a implantação de outra reforma prioritária para o ministro Paulo Guedes: reduzir a tributação sobre a folha de salários para todos os setores produtivos.
O plano inicial de Guedes era fazer essa desoneração ampla compensando a perda de arrecadação com um tributo sobre movimentação financeira (como a extinta CPMF). A ideia, no entanto, foi vetada pelo presidente Jair Bolsonaro.
O plano agora é começar pelo salário mínimo. Numa segunda fase, haveria o que Vanessa chama de uma “desoneração mais racional”, que elimine exceções e reduza disputas judiciais.
A proposta não deve diferenciar setores: “A experiência não foi bem-sucedida em outros governos. Não gerou mais emprego e houve um crescimento muito grande das consultas à Receita e contestações”.
Segundo a secretária-executiva, a desoneração ampla deve demorar, porque não pode comprometer o financiamento da Previdência e da seguridade social. Não há prazo estimado.
Outra medida que poderia aliviar a carga sobre a folha das empresas é reduzir o teto ou a base de cobrança da alíquota patronal, mas ainda não há cálculos.
A atividade produtiva também teria seu custo reduzido com mudanças no Imposto de Renda da Pessoa Jurídica.
Nesse ponto, o projeto é reduzir a alíquota e ampliar a base de cobrança, eliminando benefícios fiscais que, segundo ela, são pouco eficazes e geram muito contencioso e custo de conformidade.
Também para esse item a tributação do dividendo é crucial, afirma Vanessa: “É impossível ter um sistema mais progressivo e que olhe para a capacidade contributiva com Imposto de Renda concentrado na pessoa jurídica, porque não se sabe quem são os sócios: uma empresa com 50 sócios pode faturar R$ 10 milhões e uma que fatura R$ 4 milhões pode ter 2 sócios. O ganho das pessoas é completamente desproporcional, mas você só está olhando para a empresa”.
Para evitar a distribuição disfarçada de lucros, seriam criadas regras específicas como limitar o valor de entrega de bens para o acionista, o resgate de capital. Além disso, segundo ela, as grandes empresas, que respondem pela maior parte da arrecadação, têm menos liberdade para tentar esses atalhos.
Mudanças nas regras do Imposto de Renda e da tributação da folha estão sendo desenhadas em paralelo, mas devem ser enviadas ao Congresso apenas no ano que vem, diz Vanessa. 
Neste ano, a prioridade é apresentar aos parlamentares a proposta de simplificação do PIS/Cofins, que seriam substituídos por um IVA (imposto sobre valor agregado) federal, com alíquota única entre 11% e 12%.
Hoje, há alíquotas diferentes em dois regimes distintos, um cumulativo e outro não cumulativo, e alguns produtos têm cobranças diferenciadas. Além disso, as regras sobre como descontar o imposto pago na cadeia de produção são variadas e subjetivas, o que provoca um número alto de disputas judiciais.
A alíquota única do IVA foi calculada para ser neutra (ou seja, não reduz nem aumenta a arrecadação obtida hoje com o PIS/Cofins), segundo Vanessa.
O governo espera, porém, que a racionalização do tributo, sem cobrança em cascata e com menos especificidades, traga mais eficiência à economia como um todo.
A equipe ainda estuda como tratar setores socialmente mais sensíveis, como saúde, educação e transportes, que têm regras diferenciadas em alguns países.
As instituições financeiras terão um regime próprio, porque, afirma a secretária, “é tecnicamente muito difícil medir o valor agregado” das operações.
Vanessa diz que a parte mais complexa do projeto é o desenho da transição, que tem como objetivo suavizar o impacto da mudança sobre alguns setores —a principal pressão vem dos serviços.
 
Diferentemente da PEC 45, reforma tributária que já está em tramitação na Câmara, a proposta do governo não incluiu o ISS (tributo municipal) nem o ICMS —imposto estadual responsável pela maior parcela da carga tributária do país e apontado como uma das principais causas de desequilíbrio do sistema como um todo.
O modelo adotado por Guedes é o chamado IVA dual, em que o imposto é implantado de forma independente pela esfera federal e pelos outros entes federativos.
A secretária-executiva, no entanto, diz que o IVA federal pode deixar estados e municípios mais confortáveis para adotar um tributo sobre consumo —que, no entanto, teria que ser implantado por todos, em consenso.
A reforma de execução mais longa, segunda a secretária, deve ser a do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados), porque grande parte dos incentivos fiscais com contrapartida de longo prazo é feita com esse tributo. É o caso da Zona Franca de Manaus e da indústria automobilística.
“A transição precisa ser muito mais longa e mais bem projetada, para permitir alternativas de atividade, recolocação dos trabalhadores”, afirma Vanessa.
O projeto é transformar o IPI em imposto seletivo, cobrado apenas sobre produtos que têm impacto negativo para a sociedade como um todo, como cigarros e bebidas alcoólicas.
Já a cobrança sobre energia poluente ou atividades com alta pegada de carbono não é consenso, porque eleva os custos de produção.

ENTENDA AS PROPOSTAS

PIS/Cofins
Seriam substituídos por um IVA (imposto sobre valor agregado) cobrado sobre bens e serviços, com alíquota entre 11% e 12%. O governo ainda estuda como tratar setores “socialmente sensíveis”, como educação, saúde e transporte, e procura um desenho de transição (ainda sem prazo definido) que reduza o impacto tributário do novo sistema
Folha de salários
Contribuição previdenciária deixaria de ser cobrada do salário mínimo. Seriam eliminadas outras exceções, para homogeneizar a base de cobrança. Existe a possibilidade de reduzir o teto da cobrança, mas não há cálculos ainda sobre isso
Imposto de Renda da Pessoa Física
Governo estuda várias combinações de mudanças em 5 itens: 1) teto para isenção, 2) correção da tabela, 3) criação de mais uma faixa de renda, com alíquota maior, 4) redução das deduções de despesas com saúde e educação e 5) tributação dos dividendos, considerada fundamental. Objetivo é que rendas mais altas paguem alíquotas maiores
Imposto de Renda da Pessoa Jurídica
A ideia é ampliar a base —eliminando benefícios fiscais— e reduzir a alíquota
IPI
Objetivo é transformar em imposto seletivo, cobrado sobre produtos que podem ter impacto negativo para a sociedade, como cigarros e bebidas alcoólicas. Cobrança sobre energia não renovável ou poluentes não está descartada, mas é improvável. Mudança deve ser de longo prazo
ICMS e ISS
Governo não fará proposta, mas acredita que o IVA federal possa pavimentar o caminho para mudanças nos tributos estaduais e municipais
Gastos tributários
A principal mudança deve ser a volta da tributação de produtos da cesta básica, compensada pela devolução desse aumento para famílias de baixa renda