quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Antonio Delfim Netto Pobreza, FSP

Governo precisa do fast-track para acelerar infraestrutura, parcerias público-privadas e privatizações

As dúvidas com a recuperação da economia que assaltaram a sociedade brasileira até setembro começaram a dissipar-se. E há, também, uma tendência, visível a olho nu, da melhoria da situação fiscal em que nos enrolamos, por desrespeito à Constituição e ignorância da Lei de Responsabilidade Fiscal. Foram elas que levaram à recessão iniciada em 2014. Trata-se de um crescimento lento, até agora sem energia para autoacelerar-se.
Devido à situação fiscal ainda muito difícil (as despesas correntes com crescimento endógeno incontrolável, a despeito do teto), a falta de demanda efetiva, reconhecida por todos, não pode ser resolvida com mais gasto público, nem com a emissão de dívida, nem com a emissão direta de moeda.
Isso, provavelmente, causaria uma quebra de “expectativas” que destruiria tudo o que se fez até aqui e, em pouco tempo, traria o “populismo” de volta às mesmas políticas fiscal e monetária que nos colocaram onde estamos. A única forma de sairmos da situação é através de financiamento privado, nacional ou estrangeiro, de bons projetos de infraestrutura. Além de acelerar a demanda, deixará como herança um aumento da produtividade de todo o sistema produtivo. É através do aumento dessa “oferta” que sanaremos a enorme deficiência da “demanda” e voltaremos a uma redução do desemprego, por meio de um crescimento econômico mais robusto, mais estável e mais equânime. 
A situação econômica mundial, com a qual temos uma simpatia endógena (em condições normais de pressão e temperatura, 1% de aumento do PIB mundial estimula um crescimento de 0,3% do nosso PIB), está desfavorável e submetida a uma perigosa taxa de juro real negativa. Mas há um fator geopolítico importante. As ações insensatas de Trump abandonaram os aliados dos EUA à sua própria sorte, e o Brexit está na mesma linha. Com enormes confusões internas e perspectiva de conflito armado, o grande “capital” europeu tem aqui à sua disposição um país razoavelmente organizado, onde os princípios de um Estado democrático de Direito são respeitados, há relativa harmonia e os diferentes grupos identitários (religiosos, étnicos) estão acomodados. O Brasil não é apenas a oportunidade de remunerar positivamente o seu “capital”, mas também de garantir que poderá vir a beneficiar-se dele diretamente no caso de iminentes chuvas e trovoadas...
Tudo poderá fracassar se o Executivo não obtiver o “fast-track” para liberar os leilões de infraestrutura, as parcerias público-privadas e as privatizações, por conta do medo de que Bolsonaro, por isso, possa reeleger-se, como tenho ouvido à mesa de alguns caros amigos. Pobreza!
Antonio Delfim Netto
Economista, ex-ministro da Fazenda (1967-1974). É autor de “O Problema do Café no Brasil”.

terça-feira, 19 de novembro de 2019

Retirada de trilhos nos anos 80 foi um erro, diz dirigente de entidade do setor, FSP


Marcelo Toledo
Embora seja comum até hoje encontrarmos trilhos sem utilização em cidades do interior de São Paulo, foram feitos movimentos fortes dos governos principalmente nas décadas de 1980 e 1990 para a retirada deles.
Foram períodos em que rodovias eram duplicadas e, em situação antagônica, os trens agonizavam e deixavam de transportar primeiro passageiros e, depois, cargas.
Analisemos um pequeno trecho ferroviário, entre Ribeirão Preto e Franca. A retirada dos trilhos entre as duas importantes cidades do interior paulista não prejudicou só o transporte, já que fez também com que parte das estações no caminho perdessem utilidade.
Dos 119,5 quilômetros de trilhos entre a principal estação de Ribeirão e a maior de Franca, ao menos 95,6 quilômetros não existem mais.
Na estação Alto, ainda em Ribeirão, os trilhos deixaram de existir na segunda metade dos anos 1980, mas a estação já não tinha operações ferroviárias desde a década anterior. Das 12 estações entre as cidades, 4 estão abandonadas e 1 foi demolida.
As outras 7 têm usos variados, normalmente ligados à cultura –como museu, centro cultural ou biblioteca. Entre elas estão BrodowskiVisconde de ParnaíbaBatatais e Boa Sorte.
Mas, se os trilhos ainda existissem, a retomada do transporte de passageiros no interior poderia ocorrer com mais facilidade, segundo Joubert Fortes Flores Filho, presidente da ANPTrilhos (Associação Nacional dos Transportadores de Passageiros sobre Trilhos).
“Foi uma decisão equivocada a retirada dos trilhos e de trens [nos anos 80]. Moro no Rio, mas nasci em Minas. Quando era menino e ia sempre para Minas com meus pais, pegava trem na estação Leopoldina, prédio histórico lindo e completamente abandonado aqui. Íamos de noite. Tinha cabine dormitório, adorava, e chegava de manhã em Minas. Hoje faz o trajeto em cinco horas. Isso foi fruto da implantação da indústria automobilística, criou o rodoviarismo”, afirmou.
TRECHOS INADEQUADOS
O trecho rodoviário entre Ribeirão e Franca tem 89 quilômetros, mais curto que os 119,5 quilômetros da época das ferrovias. O motivo é simples: como a Companhia Mogiana de Estradas de Ferro –que administrava a linha férrea que passava pelas cidades– tinha como interesse básico atender aos cafeicultores, seus principais clientes, o traçado da ferrovia era muito sinuoso, de forma a passar nas lavouras para o embarque da produção, rumo ao porto de Santos.
Muitos trechos foram retificados ao longo das décadas para corrigir essa sinuosidade. Mas há curvas inadequadas, rampas acentuadas, baixas velocidades e composições que cortam a zona urbana de importantes cidades paulistas até hoje.
“Achou-se que podia fazer tudo pela rodovia. EUA, França e Japão têm ótimas rodovias, mas também ótimos sistemas ferroviários. Usam ferrovia e rodovia capilarmente. Aqui, erradicaram os trens. Muitas cidades do Sudeste dependiam do trem. Hoje somos os maiores produtores de soja do mundo, mas quanto custa? Faz a viagem de caminhão, dá vontade rir, para não chorar. Por que fizemos isso?”, questionou o presidente da associação.
De acordo com ele, pode ser mais barato implantar BRTs (ônibus que rodam em vias segregadas e contam com características como ultrapassagem nas estações, embarque em nível e pré-pagamento da tarifa) que metrôs ou VLTs (Veículos Leves sobre Trilhos), mas esse sistema não permite o transporte em massa de passageiros.
“É mais barato colocar BRT num corredor em vez de metrô ou VLT? Às vezes até é, mas é igual à história da soja. Quantas pessoas precisa carregar por hora? Quarenta mil, 50 mil, como o corredor da linha 2 do Rio. Não adianta botar ônibus, metrô transporta num carro 300 pessoas. Um de seis carros dá quase 2.000 pessoas, enquanto num ônibus são 70 pessoas, 40 em pé e 30 sentadas. É incomparável”, disse.

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  1. Avatar de Hetti

    HETTI

    3 horas atrás
    Sempre faltou coragem para se contrapor ao fortíssimo lobby do transporte sobre pneus, liderado pelas montadoras. A recuperação só se dará pela iniciativa privada. O Estado empresário brasileiro é falido, incompetente e corrupto.
  2. Avatar de Neliaparecida

    NELIAPARECIDA

    4 horas atrás
    Penso que ou foi por burr ice ou por má fé. Como os oportunistas políticos foram tão inúteis em sucatear/acabar com as ferrovias? Lamentável o atraso que esses inúteis políticos deixaram o Brasil.
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'Meditação é simples, mas relógio, celular e nós mesmos somos os inimigos', diz monge Choepel Rinpoche, FSP

Mestre budista brasileiro está em São Paulo e participará de evento sobre o cérebro, meditação e neurociência

SÃO PAULO
Se a aceleração e a hiperconectividade do mundo contemporâneo são capazes de dispersar a atenção e fragmentar pensamentos, embaralhando o que seria linear ou previsível, cada vez mais a meditação tem sido evocada como antídoto para perturbações e doenças da mente.
Basta ver a profusão de ofertas de aplicativos de meditação conduzida e do que vem sendo chamado de mindfulness, termo comumente traduzido como "atenção plena". 
"Se você me perguntar o que é mindfulness, eu sinceramente não sei explicar porque existem tantas versões, que eu não sei qual está valendo", brinca o monge budista Segyu Choepel Rinpoche, 69. 
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Nascido no Rio de Janeiro, Antônio Carlos Silva se formou engenheiro elétrico e ajudou nos cálculos da ponte Rio-Niterói antes de desviar para um novo caminho, que o levou a estudar psicologia transpessoal na Universidade da Califórnia, em Berkeley (EUA), onde conheceu um mestre budista que mudaria ainda mais sua vida.
O monge budista brasileiro Choepel Rinpoche, que vive nos EUA, participa de evento sobre o cérebro, em que fala de meditação e neurociência
O monge budista brasileiro Choepel Rinpoche, que vive nos EUA, participa de evento sobre o cérebro, em que fala de meditação e neurociência - Lucas Seixas/Folhapress
Reconhecido como a reencarnação de um lama da linhagem Segyu (o mesmo que hoje precede seu nome), Choepel Rinpoche passou por anos de treinamento na escola Gelupga, a mesma em que estudou o Dalai Lama. Depois se mudou para o Vale do Silício, na Califórnia, onde suas práticas ganharam fama entre astros de Hollywood, como Kurt Russell, e pesos pesados da indústria de tecnologia, como o próprio cofundador da Apple Steve Jobs (1955-2011).
"Na escola Gelupga não se fala de mindfulness porque é uma técnica que tem sido vista como apropriada para este mundo contemporâneo, mas não para um caminho profundo de concentração que desenvolve a compreensão de padrões internos e, portanto, clareza da versão pessoal de realidade que se vive.", explica ele.
"Se tem uma meditação que empodera a sua mente, despertando um sentido de paz, de compaixão, de harmonia e de tranquilidade, por que não existe um grande interesse e atração por ela?", questiona o monge, antes de ele mesmo responder. "Porque, no mundo caótico em que vivemos, que é instantâneo e no qual as pessoas estão sempre sob o estímulo do 'eu quero, eu quero, eu quero', vivemos uma onda de superficialidade."
Choepel Rinpoche está em São Paulo para participar do BrainSpace, evento sobre ciência e criatividade, com foco no cérebro e curadoria do neurocientista Stevens Rehen, da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Entre os 13 painéis que ocorrem nesta quarta (20) e quinta-feira (21), no Unibes Cultural, Rinpoche debate meditação e inspiração com a cientista Eliza H. Kozasa, do hospital Israelita Albert Einstein.
O que é meditação e como ela se relaciona ao cérebro?
A meditar é o ato de usar a mente. Posso meditar sobre o tipo de hambúrguer que eu quero comer hoje. Mas o sentido da meditação idealizada por iogues do passado foi entender a natureza da mente. Neste sentido, meditar é o ato se concentrar e empoderar a mente. Mas este empoderamento não é trazer uma mente vazia, como se pensa muitas vezes, mas uma mente livre de conceitos errôneos em relação à natureza da realidade.
Daí sai o ato de ilumina-se: você se torna uma pessoa que enxerga a própria mente com clareza. 
Ao popularizar-se, a meditação foi distorcida de alguma maneira?
Fala-se muito em mindfulness. Se você me perguntar o que é mindfulness, eu sinceramente não sei explicar, sinceramente. Existem tantas definições que eu não sei qual delas está valendo. Ninguém trata de mindfulness em escolas tradicionais tibetanas. A escola Gelupga não fala de mindfulness porque é uma técnica que tem sido vista como apropriada para este mundo contemporâneo, mas não para um caminho profundo de concentração que desenvolve a compreensão de padrões internos e, portanto, clareza da versão pessoal de realidade que se vive.
Por que as pessoas têm perseguido tanto o tal mindfulness?
Se tem uma meditação empodera a sua mente, despertando um sentido de paz, de compaixão, de harmonia e de tranquilidade, por que não existe um grande interesse e atração por ela? Porque, no mundo caótico em que vivemos, que é instantâneo e no qual as pessoas estão sempre sob o estímulo do 'eu quero, eu quero, eu quero', vivemos uma onda de superficialidade.
Construir a mudança desses padrões toma tempo. E vejo esse processo não como religião, mas como ciência de uma evolução mental, para que as pessoas possam ter uma qualidade de mente mais aberta, compassiva, alegre, harmoniosa, amorosa.
Parecemos estar distantes desta mente
Estamos e não estamos. A meditação é muito simples, mas qual é o nosso próprio inimigo? Nós mesmos, o aplicativo, o relógio, o celular por onde chegam mensagens a todo o tempo e que queremos atender. As pessoas não param, não conseguem se concentrar, e se sentem ansiosos. 
Muita gente me julga porque abandonei uma carreira promissora para me tornar um contemplativo. E não há preço que pague, a não ser o meu esforço de estar no caminho.
Como se medita, então?
O desafio é a vontade, o querer. Porque a técnica é muito simples. Quando sua mente divagar, traga ela de volta, a mente divaga, você traz de volta. O melhor é se concentrar na respiração, é não perder a sensação do ar entrando e do ar saindo. Se perder a sensação, a concentração foi interrompida, e é preciso trazer a mente de volta. Até que tenha uma mente serena e a atenção estará plena. 
Com esta mente, você terá força o suficiente para eliminar um padrão de comportamento, uma atitude sua, e refazer o pensamento, criando um novo padrão. 
Quais os tipos de meditação capazes de nos transformar?
O primeiro é de concentração. Você tem de ter uma mente focada, e isso lhe dá força mental de separar a dor do sofrimento, por exemplo. Reconhecer que a dor está ali, é inevitável, mas o sofrimento é opcional.
Quando eu tiver essa força mental, entro na meditação analítica e começo a ver meu padrão de comportamento. Por que eu me aborreço com determinadas situações? O que me levou a ter esse tipo de comportamento? Aí começo a mudar a minha aplicabilidade de vida e meus insights. As fichas vão caindo. O processo é simples, mas é difícil porque não temos motivação clara de fazê-lo corretamente e ser uma pessoa mais altruística, justa, de paz, de harmonia e viver num ambiente de mais amor, compaixão e carinho comigo, meus entes queridos e o mundo.
Vivemos um tempo pautado por competição, ostentação e vaidade. Essa natureza narcísica prejudica o autoconhecimento?
Tudo o que a gente faz nessa lógica da competição é apontar para o outro, focar no outro, culpar o outro. A gente aponta o indicador para o outro, mas ainda sobram esses três dedos aqui (mostra a própria mão) que apontam para nós mesmos e representam nossos padrões internos, nossas histórias internas e nossa ignorância em relação a nossas potencialidades. Ego, vaidade, orgulho dificultam o olhar para dentro. 
O Senhor tem seguidores no Vale do Silício, pólo produtor de tecnologias, muitas consideradas dispersivas. A meditação é antídoto ao apelo frenético da comunicação em tempo real?
Não é a tecnologia que nos aprisiona. Somos nós e a maneira como nós usamos a tecnologia. Eu sempre fui ligado a tecnologia e, no Vale do Silício, eu consigo desafiar esses desenvolvedores brilhantes no pensar correto. Essas inteligências formadoras de pensamentos são capazes de mudar o mundo. Mas elas ainda estão muito incipientes nesse processo. Precisam repensar a forma de competir e liderar o mundo, usando a tecnologia para o bem da humanidade, e não do mundo corporativo. 
Acho que minha atuação no Vale pode ser importante neste sentido de desenvolver o potencial mais puro de cada ser humano. Um de meus alunos foi dar uma aula na Apple nesta semana para falar exatamente sobre isso. Como abandonar certas ideias em nome de uma visão mais profunda e aberta da tecnologia exterior, mas também da tecnologia interior, de como transformar o ser humano internamente.
Como o Sr. vê o interesse da medicina e da ciência pela meditação?
Técnicas de meditação foram pronunciadas pela primeira vez há dois mil e quinhentos anos. E a ciência está começando a se despertar para esse conhecimento milenar. Ciência funciona assim: se existe uma teoria que pode reformular o meu pensamento, eu não vou aceitar e dizer que a pesquisa não tem validade. Numa segunda fase, as evidências se tornam tamanhas que não é mais possível ignorar a teoria, mas sigo a questionando. Na terceira fase, as evidências são tão potentes e incontestes que não posso mais questioná-las. E, para não dar o braço a torcer, eu digo que comprovei a eficácia daquilo. Estamos nessa fase, e a ciência está tentando se apropriar da meditação. Mas a meditação está aí há milhares de anos.
Qual o benefício da meditação para a saúde?
Quantas causas de enfermidades são produzidas pelo estresse? Quando a patologia está formada é porque existia um desequilíbrio há muito tempo. Antigamente, não se falava em doença psicossomática, da mente para o corpo, como se fala hoje. Portanto, se você tem mais harmonia, você tem mais saúde. Hoje a meditação está sendo usada para diminuir o colesterol, melhorar a pressão alta ou o sistema imunológico. Nós não somos um corpo. O corpo é o veículo da mente. Melhore a qualidade da sua mente e você terá mente e corpo plenos.