terça-feira, 20 de novembro de 2018

Carros elétricos põem fim ao longo reinado da rádio AM, FSP

Chester Dawson
DETROIT (EUA)
Os carros e a rádio AM estão juntos há muito tempo, mas a estrada que aguarda esses velhos companheiros de viagem se bifurcou. Os mesmos motores elétricos que propiciam velocidade superior a 240 km/h (quilômetros por hora) ao Tesla e permitem que o Chevy Bolt rode 380 quilômetros com apenas uma carga matam completamente a recepção de rádio AM. Em lugar de esportes, notícias, ou canções nostálgicas, os carros elétricos recebem apenas estática.
As montadoras de automóveis estão em uma corrida desabalada rumo a um futuro eletrificado, e rádios AM estão ficando pelo caminho, se unindo aos tape-decks, aos sistemas eight-track e aos ultrapassados cinzeiros.

Daniel Rich, 58, é fã tanto da rádio NBR AM 680, de San Francisco, Califórnia, quanto do Chevy Bolt. Isso significa que seu caminho de casa para o trabalho já não é mais tão aprazível.
 “Todos os meus outros carros, ao longo dos anos, eram capazes de captar a estação muito bem, apesar da distância”, disse o oftalmologista. “Mas não o Bolt.”
Uma porta-voz da General Motors disse que a GM estava ciente da questão quanto ao Bolt, e que havia “tomado providências”, mas se recusou a dizer exatamente quais.
O problema, dizem especialistas, é que os os motores dos veículos elétricos geram frequências eletromagnéticas do mesmo comprimento de onda que os sinais das rádios AM. Isso cria ruídos e perda de sinal, por conta da interferência eletromagnética.
“Você tem dois sinais que literalmente colidem um com o outro e se cancelam, antes mesmo que a antena receba o sinal”, disse Brian McKay, diretor de inovação de motores e tecnologia na unidade americana da fabricante de autopeças alemã Continental.
À medida que os motores dos veículos elétricos ganham potência, cresce a estática que geram para as rádios AM. “O problema está se agravando”, disse McKay.
Em lugar de resolver as queixas quanto à baixa qualidade de recepção, algumas montadoras, entre as quais a BMW, removeram os rádios AM de seus veículos elétricos. A Honda já não os oferece no seu híbrido elétrico Acura NSX.
A Tesla removeu os rádios AM de todos os modelos que está produzindo atualmente, entre os quais o Model S, que oferecia essa opção. 
Em lugar disso, ela oferece um serviço de rádio via internet e também rádio FM, e como opcional oferece rádio de alta definição e conexão Bluetooth para transmitir rádio diretamente aos fones de ouvido.
Travis Hollman, 49, dono de uma empresa na região de Dallas, no Texas, disse ter encomendado um Tesla com todos os opcionais quando o modelo ainda vinha equipado com o rádio AM. 
Seu Model S 2018 chegou em abril sem o rádio. “Fiquei tão furioso que quis devolver o carro”, conta.
Ele acabou ficando com o Model S, mas sente falta de ouvir os programas esportivos locais e as estações de rádio com programação política conservadora. “Eles não querem que eu ouça Rush Limbaugh”, brincou Hollman.
Os rádios AM eram tão comuns nos carros quanto os limpadores de para-brisas, desde a década de 1940. Nas viagens rodoviárias de verão, o rádio AM servia como estrela polar para os motoristas que atravessavam os Estados Unidos, oferecendo uma amostragem idiossincrática de culturas locais e uma distração para reduzir a fadiga causada por horas ao volante.
Na década de 1960, os rádios transistorizados recebiam esportes, notícias e música transmitidos por estações AM, em casa e nas ruas, e os rádios portáteis se tornaram tão onipresentes quanto os smartphones são hoje.
As rádios AM atuais, que já estão lutando com uma perda de receita publicitária que dura uma década, se preocupam com a perda de ainda mais audiência motorizada.
“É um verdadeiro desafio para o setor, e eles estão tentando convencer as montadoras a incluir rádios AM” em todos os seus veículos, disse Mark Fratrik, vice-presidente sênior e economista chefe da BIA Advisory Services, uma empresa de pesquisa de mercado com foco na mídia eletrônica de massa.
Para mostrar que os tempos mudaram, o time de hóquei no gelo L.A. Kings anunciou em setembro que as transmissões de rádio de seus jogos deixariam de ser feitas via rádio AM e passariam a estar disponíveis apenas nas rádios via internet.
As maiores estações de rádio AM têm sua programação distribuída pelos serviços de rádio via internet, o que oferece aos motoristas a oportunidade de ouvir suas estações favoritas mesmo longe de casa. Mas estações AM menores podem não ter a capacidade de bancar o equipamento necessário a participar da era digital.
A BMW anunciou ter reconhecido cedo o problema de interferência, em seus modelos Mini E e ActiveE. O carro i3, lançado em 2013, nunca foi equipado com rádios AM.
A Associação Nacional de Rádios e TVs dos Estados Unidos criticou a decisão da BMW em uma carta aberta divulgada em 2014. 
“O rádio AM continua a ter um importante papel no panorama cultural dos Estados Unidos, e os motoristas do i3 merecem acesso a essa programação”, escreveu Gordon Smith, o presidente da associação, ao presidente de operações da BMW no país.
O rádio de alta definição (HD), cujo sinal é digital, é o equipamento padrão nos carros da montadora vendidos nos Estados Unidos, disse um porta-voz da BMW, e “muitas estações AM tradicionais nos mercados importantes estão disponíveis via sinais de HD secundários e terciários”.
Não existe uma maneira fácil de eliminar a interferência eletromagnética que abafa o sinal do rádio AM sem acrescentar peso demais ao carro, dizem especialistas.
A Toyota Motor está trabalhando em uma solução, mas “é um problema bem difícil”, afirmou Rich Sullivan, especialista em compatibilidade eletromagnética e gerente sênior de engenharia no centro de pesquisa e desenvolvimento da montadora nos Estados Unidos.
Sullivan apontou que a indústria automobilística enfrentou desafio semelhante quando os carros movidos à gasolina começaram a oferecer rádios AM e precisavam lidar com o forte barulho dos equipamentos de degelo e ventoinhas do sistema de aquecimento.
Algumas empresas que fabricam sistemas de entretenimento para veículos disseram que o momento do rádio AM talvez tenha passado definitivamente.
“Mesmo que resolvamos o problema, há uma gravitação em direção ao rádio via internet”, e isso vai substituir os rádios tradicionais, disse Balaji Iyer, vice-presidente de carros conectados na Harman, uma subsidiária do grupo Samsung.
Um desenvolvedor de aplicativos oferece um app para smartphone que, usado em companhia de um adaptador para portas de diagnóstico, é capaz de ativar a recepção de rádio AM em um BMW i3.
A montadora alemã afirma que usar o app pode causar perda de garantia, mas seu uso é fácil, disse Art Isabell, 74, dono de um BMW i3 2014. Ele se aposentou da Apple, onde era engenheiro de apoio de software, e vive em Honolulum, no Havaí.
Mesmo que a recepção em seu veículo elétrico seja precária, disse Isabell, ele gosta de contar com essa opção: “Raramente ouço rádio AM, mas quero ter essa opção de uma fonte adicional de informação, para situações de emergência como clima severo, tsunamis ou ataques com mísseis pela Coreia do Norte”.
The Wall Street Journal, traduzido do inglês por Paulo Migliacci

    O futuro da comunicação, Nizan Guanaes, FSP


    Há espaço para todos, só não dá para continuar fazendo mais do mesmo


    Eu sou otimista. Sempre fui. A comunicação, minha área de atuação há quatro décadas, mudou completamente nos últimos anos.
    Grandes players sumiram, grandes players surgiram, alguns grandes até demais. E grandes players permaneceram grandes players porque souberam compreender que a demanda por comunicação não diminuiu nos últimos anos. Ela aumentou vertiginosamente.
    A comunicação sempre foi o software mais básico da humanidade. A espécie humana se tornou humanidade por meio da capacidade individual e coletiva de expressar pensamentos e emoções das mais diversas formas.
    Por isso, maior capacidade de comunicação determina maior capacidade humana de se organizar e produzir Está claro também que muitas vezes toda essa capacidade de se comunicar, organizar e produzir é usada de forma devastadora.
    Mas mesmo com esse histórico terrível de devastações, mesmo em meio a tantas "fake news" e polarizações também "fakes", eu fico com visões otimistas, e baseadas em fatos, de pensadores como Peter Diamandis e Steven Pinker, que mostram, com dados verificáveis e incontestáveis, como a humanidade vive muito melhor hoje do que ontem de acordo com praticamente todas as medidas objetivas relevantes.
    E, eles argumentam, ainda estamos prestes a realizar descobertas espetaculares potencializadas pelas novas tecnologias, que podem trazer mais prosperidade e bem estar às pessoas.
    Na comunicação, também vemos essa evolução.
    Um profissional que começa hoje sua carreira tem diante de si ferramental prático extraordinário, inimaginável poucos anos (ou meses!) atrás. Ele tem acesso a públicos, informações e referências de fontes infinitas e pode criar peças de comunicação em plataformas exponenciais que rumam ao infinito, com uma variedade de conteúdos, formatos e custos tão grandes quanto as variedades de público-alvo.
    Há espaço para todos nesse universo encantado da comunicação, a verdadeira linha de transmissão da humanidade.
    Só não dá para continuar fazendo mais do mesmo. A zona de desconforto é a nova zona de conforto. Mas sem desespero. Novos titãs do capitalismo global, como Google e Facebook, consolidaram seu poder na base da boa e nova propaganda.
    O Facebook, mesmo com todas as crises dos últimos tempos, deve faturar US$ 21 bilhões neste ano com publicidade só no mercado digital americano, uma alta de 17% em relação ao ano passado.
    O Google deve faturar cerca de US $ 40 bilhões com publicidade no maior mercado do mundo, alta de 15% em relação a 2017.
    Mesmo na Amazon, a terceira empresa mais valiosa do mundo, a boa e nova publicidade também vem chamando a atenção dos analistas nos seus balanços.
    Embora represente ainda parcela pequena do faturamento anual da Amazon, as receitas com publicidade cresceram mais de 100% no primeiro trimestre do ano em relação ao mesmo período do ano passado, atingindo US$ 2,2 bilhões.
    Ainda é pouco perto das estimativas de faturamento de quase US$ 240 bilhões da Amazon previstos para este ano, mas seu crescimento é revelador.
    Vejo muita gente preocupada com as ameaças da era digital. Essa preocupação é muito pertinente. Mas deve ser também estimulante. Esse coelho não volta mais para a cartola. É melhor celebrar a nova era da comunicação do que lamentá-la. Devemos lutar para mudar o que precisa ser mudado e seguir em frente. Afinal, o futuro sairá de nossas cabeças.
    Nizan Guanaes
    Publicitário, fundador do Grupo ABC.

      Carlos Ghosn, presidente do conselho da Nissan, é preso no Japão e deverá ser destituído, FSP

      Executivo nascido no Brasil é investigado por supostas violações financeiras

      Lucas Neves
      TÓQUIO e PARIS
      O  presidente do conselho de administração da Nissan, Carlos Ghosn, foi preso nesta segunda-feira (19), por supostas violações financeiras no Japão.
      Admirado por salvar a montadora japonesa da falência, Ghosn também é executivo-chefe da aliança Renault-Nissan-Mitsubishi.
      Ele é suspeito de sonegação, ao declarar às autoridades uma renda inferior à real. 
      O presidente-executivo da Nissan, Hiroto Saikawa, irá propôr ao conselho de administração da empresa a remoção de Ghosn, em reunião que está marcada para esta quinta-feira (22).
      A companhia confirmou que Ghosn ocultou sua renda do fisco "durante anos". "Além disso, várias outras práticas ilícitas foram descobertas, como o uso de bens da empresa com fins pessoais", afirmou a empresa.
      O brasileiro Carlos Ghosn, presidente do conselho administrativo da Nissan
      O brasileiro Carlos Ghosn, presidente do conselho administrativo da Nissan - AP
      Ele e outro diretor da empresa, Greg Kelly, são alvo de uma investigação interna há meses, segundo nota divulgada pela Nissan, que informa que já está em colaboração com os procuradores. 
      Representantes de Ghosn não foram localizados para comentar.
      O presidente francês,  Emmanuel Macron, afirmou que vai trabalhar para preservar a estabilidade da aliança entre  Renault e Nissan e que ainda era cedo para comentar as acusações.
      "Como um acionista, o governo francês vai continuar extremamente vigilante quanto à estabilidaqde da aliança", afirmou. O governo detém 15% do capital da Renault. 
      Segundo a mídia local japonesa, Ghosn teria declarado uma renda 38 milhões de euros menor do que a real. A prática teria começado em 2011 e teria durado mais de cinco anos.
      O salário do executivo é objeto de controvérsia há alguns anos. Ele chegou a ganhar mais de 15 milhões de euros pelo acúmulo de funções na Nissan e na Renault, mas o valor diminuiu em 2017, quando Ghosn deixou de ser o executivo-chefe da montadora japonesa.
      Em junho passado, ao ser reconduzido ao posto de número 1 da empresa francesa, ele aceitou um corte de 30% em seu salário –uma demanda de acionistas– e a nomeação de um número 2, Thierry Bolloré.
      As ações da Renault em Paris despencaram nas Bolsas da Europa na tarde desta segunda, após a notícia da prisão. Os papeis da Renault chegaram a cair 13% em Paris, enquanto os da Nissan registraram baixa de 12% na Alemanha. 
      A Bolsa japonesa já estava fechada quando a notícia foi divulgada. 

      O CORTADOR DE GASTOS

      Nascido no Brasil, descendente de libaneses e cidadão francês, Ghosn, 64, iniciou sua carreira na Michelin na França, onde trabalhou por 16 anos, e se transferiu para a Renault.
      Ele chegou a Tóquio em 1999 para recolocar a Nissan nos trilhos, no momento em que a empresa acabava de se unir à francesa Renault. Ele foi nomeado presidente-executivo dois anos depois.
      Com cerca de US$ 20 bilhões em dívidas, a Nissan precisou de um tratamento de choque na época. Houve demissões, encerramento de parcerias e fechamento de linhas de produção pouco produtivas. 
      Apelidado de "cost killer" ("cortador de gastos"), ele transformou um grupo à beira da falência em uma empresa lucrativa com volume anual de negócios da ordem de quase 100 bilhões de euros. Isso lhe valeu grande admiração no Japão.
      Após o plano de recuperação, a companhia registrou lucros recordes.
      Em 2005, o executivo passou a presidir também a Renault, sendo a primeira pessoa a liderar duas montadoras simultaneamente.
      Em 2008, Ghosn passou a acumular também a liderança do conselho de administração da Nissan.  
      Em abril de 2017, passou o bastão para seu herdeiro, Hiroto Saikawa, ainda permanecendo à frente do conselho de administração. Passou a se concentrar mais na aliança da Renault com a Mitsubishi Motors, que ele levou para o topo da indústria automobilística mundial.
      No mesmo ano, a empresa havia investido na Mitsubishi, após a companhia ser afetada por escândalo sobre falsificação de dados sobre emissão de poluentes.
      A parceria Renault-Nissan-Mitsubishi é, hoje, uma construção de equilíbrios complexos, constituída de distintas empresas ligadas por participações cruzadas não majoritárias.
      A Renault detém 43% da Nissan, que possui 15% do grupo do diamante, enquanto a Nissan possui 34% de seu compatriota Mitsubishi Motors. Rumores de fusão vazaram recentemente.
      As acusações contra Carlos Ghosn, que construiu essa aliança sozinho, acumulando funções como nenhum outro executivo desse nível até então, são um duro golpe no trio franco-japonês que reivindica o título de primeiro conglomerado automobilístico mundial.
      No ano passado, foram 10,6 milhões de carros vendidos, superando os concorrentes Toyota, ou Volkswagen.

      VEJA A NOTA DIVULGADA PELA NISSAN NA ÍNTEGRA

      Quanto a graves delitos de conduta pelo presidente do conselho da Nissan e um diretor representante
      Yokohama, Japão
      Com base nas acusações de um denunciante, a Nissan Motor vem conduzindo uma investigação interna há alguns meses sobre delitos de conduta por parte de Carlos Ghosn, seu diretor representante e presidente de seu conselho, e Greg Kelly, diretor representante.
      A investigação demonstrou que, há muitos anos, tanto Ghosn quanto Kelly vêm reportando remunerações recebidas em forma de títulos negociados na Bolsa de Valores de Tóquio por um valor inferior ao efetivo, a fim de reduzir o valor da remuneração declarada publicamente por Carlos Ghosn.
      Além disso, com relação a Ghosn também existem diversos outros delitos de conduta, como uso pessoal de ativos da empresa; o envolvimento profundo de Kelly com os delitos também foi confirmado.
      A Nissan vem fornecendo informações à procuradoria pública japonesa e coopera plenamente com sua investigação. Continuaremos a fazê-lo.
      Já que os delitos de conduta revelados pela investigação interna constituem clara violação de seus deveres como membros do conselho, Hiroto Saikawa, o presidente-executivo da Nissan, proporá ao conselho da empresa que Ghosn seja removido imediatamente de seus postos como presidente do conselho e diretor representante. Saikawa proporá também que Kelly seja removido de seu posto como diretor representante.
      A Nissan pede profundas desculpas por causar grande preocupação aos nossos acionistas e aos interessados na empresa. Continuaremos nosso trabalho para identificar nossas questões de governança e fiscalização, e tomaremos as medidas apropriadas. 
      Tradução de PAULO MIGLIACCI
      REUTERS e AFP