terça-feira, 20 de novembro de 2018

Carta branca, Luiz Weber. FSP

Trunfo divide o bônus dos acertos com o presidente, mas o ônus do fracasso é de seu detentor

O mercado não cooptou Jair Bolsonaro. Nem os militares. Nem mesmo os deputados facebookeiros eleitos na esteira do capitão. O novo presidente não é uma raposa da política, que conhece todos os truques do centrão. Ele é um ouriço: sabe bem apenas uma coisa. Bolsonaro fica eriçado cada vez que suas redes sociais irradiam indignação.
Bolsonaro confunde as antenas tradicionais. Presidente eleito, comporta-se como um antipresidente. Criado na hierarquia da caserna, tornou-se um delegador de tarefas. Distribui cartas brancas como medalhas do Pacificador (a lista de beneficiários da comenda do Exército ocupou 22 páginas neste ano).
Paulo Guedes, futuro ministro da Economia, recebeu duas delas: uma para nomear Joaquim Levy para o comando do BNDES; outra, na nomeação do presidente da Petrobras, Roberto Castello Branco
Guedes tem usado a carta branca com prudência. Liberal de raiz, daqueles que leriam Milton Friedman na laje (na “penthouse”, mais apropriado), o economista montou um time experiente. Manterá no futuro governo quadros competentes da gestão Michel Temer e trará outros.
Mas Bolsonaro não gosta de economistas. “Quem ferrou o Brasil foram os economistas”, disse nesta segunda-feira (19). Sempre que livre, navega de acordo com a maré de suas redes. Embora tenha uma espinha dorsal comum, antipetista, a militância do capitão não é reformista. São tribos com déficit de likes atrás de reconhecimento. Bolsonaro falou  com elas —e as ouve.  
O mercado estabeleceu um sarrafo para o presidente eleito: a reforma da Previdência. Se sua opinião pública aprovar, vai adiante. Caso contrário, a carta branca será a antessala do velho bordão “estar prestigiado”, expressão da crônica política brasiliense pespegada pelos presidentes de plantão a todos os ministros que estão pela bola sete.
A carta branca não é um coringa. Ela divide o bônus dos acertos com o presidente, mas o ônus do fracasso é de seu detentor.
Luiz Weber
Secretário de Redação da Sucursal de Brasília, especialista em direito constitucional e mestre em ciência política.

Bolsonaro sem médicos, FSP

Barreira mais difícil de quebrar é provavelmente o corporativismo

A dificuldade para levar médicos às áreas mais remotas do país fez com que o governo Dilma Rousseff apelasse aos profissionais cubanos. O discurso de campanha de Jair Bolsonaro, que prometeu rever o Mais Médicos e falou até em romper relações diplomáticas com Havana, fez com que o governo cubano cancelasse sua participação no programa, criando desde já um embaraço para a futura administração. A saída dos cubanos deixará em aberto 8.332 vagas em 2.885 municípios, dos quais 1.575 contam exclusivamente com estes profissionais.
Os médicos brasileiros sempre alegaram duas razões principais para não ir para os rincões. Prefeitos das localidades mais desassistidas prometiam salários nababescos para atrair os profissionais, mas rapidamente atrasavam os pagamentos, quando não deixavam de realizá-los inteiramente, e as condições de trabalho eram deploráveis, com postos de saúde que ofereciam pouco mais do que gaze, esparadrapo e meia dúzia de drogas.
Mais Médicos, ao federalizar o pagamento do salário, resolveu a primeira dificuldade, mas não fez nem cócegas na segunda. E, diante das restrições fiscais e da própria lógica da gestão da saúde, não se vislumbra solução para este problema nem em curto nem em médio prazos.
É possível que um sistema de bonificações, como pontos extras nas provas de residência e descontos em dívidas do Fies, ajude a atrair recém-formados para o programa, mas dificilmente será suficiente para resolver todo o déficit. Mesmo com os cubanos havia cerca de 2.000 vagas não preenchidas no Mais Médicos.
Uma solução seria mandar para os locais mais remotos agentes de saúde, enfermeiros, ou mesmo médicos sem o Revalida, permitindo que façam os diagnósticos e prescrevam medicamentos. O obstáculo aí é o corporativismo médico, que conseguiu inscrever em leis uma formidável reserva de mercado. Essa é provavelmente a barreira mais difícil de quebrar.
 
Hélio Schwartsman
Jornalista, foi editor de Opinião. É autor de "Pensando Bem…".