É nos bons momentos que mais sinto saudade do meu pai. Curioso paradoxo. Não é nos momentos difíceis, nas provações e nos acidentes de percurso que mais sinto a sua morte precoce. É nas alegrias. Podem ser coisas irrisórias, como a vitória do seu time de futebol. Ou coisas solenes, como a entrada
recente do historiador Marc Bloch no Panthéon da França.
Meu pai foi professor de história —assim como minha mãe, aliás. A Idade Média era a sua praia, e Marc Bloch, um de seus heróis.
Herdei dele o gosto pela figura e, nestes dias de consagração institucional, reli o exemplar paterno de "A Estranha Derrota", o testemunho que o autor escreveu nos meses seguintes à capitulação da França na Segunda Guerra Mundial. Sorri muitas vezes. Os sublinhados e os comentários do meu pai são exatamente os mesmos que eu teria feito se encontrasse esse texto pela primeira vez. De certa forma, foi como falar e concordar com ele.
"A Estranha Derrota" é, como o título indica, uma análise das razões que levaram ao colapso da França em 1940 e à invasão dos nazistas. Para Bloch, a causa principal não foi só militar ou estratégica. Foi intelectual e moral.
A primeira acusação é aos oficiais e às chefias que, na Segunda Guerra, ainda viviam como se estivessem na Primeira Guerra. Tudo era lento, arcaico, burocrático, pusilânime. Marc Bloch, que participou dos dois conflitos como soldado, tinha ainda a vantagem da comparação histórica.
Os nazistas lutavam com velocidade. Como escreve Bloch, com ironia trágica, "os alemães mantiveram o péssimo hábito de aparecer onde não deveriam estar."
Os oficiais franceses viviam atônitos com a surpresa perpétua. Atônitos e paralisados, experimentando pela primeira vez o terror que os nativos das colônias francesas deviam ter sentido diante dos poderosos exércitos da potência colonial.
"Em suma, revivemos os combates tão familiares à nossa história colonial: a lança contra o fuzil", observa Bloch. E conclui com esta extraordinária lição de humildade e empatia: "Mas, desta vez, éramos nós que estávamos no papel dos primitivos". Meu pai anotou, a lápis: "civilização/barbárie, conceitos relativos".
Mas a fraqueza não se limitou aos homens com armas. Foi um fenômeno coletivo, um êxodo em massa que tomou conta de toda a sociedade francesa da época.
Bombeiros que fugiam com seus bens em vez de apagar incêndios. Patrões que abandonavam as fábricas sem pagar os trabalhadores. Intelectuais e jornalistas que mentiam sobre o desastre no front de batalha, da mesma forma que antes ignoraram o avanço da ideologia nazista. Burgueses que desprezavam as massas e jamais aceitaram plenamente a emancipação política trazida pela democracia.
E, claro, havia os "pacifistas" —essa fauna eterna— que clamavam pela paz sem distinguir "a guerra que decidimos fazer voluntariamente e aquela que nos é imposta". Meu pai, à margem, anotou uma data seguida de um ponto de interrogação: "1941?".
Sorri de novo. Marc Bloch escreveu "A Estranha Derrota" no verão de 1940, quando ainda vigorava o pacto germano-soviético, dito de "não agressão", mas que contemplava também a divisão da Polônia por Adolf Hitler e Josef Stálin. Para muitos daqueles pacifistas, a paz era, na prática, um eufemismo para a rendição.
Não surpreende que parte deles tenha mudado de posição depois que Hitler invadiu a União Soviética, em junho de 1941. O apelo às armas para derrotar o fascismo nunca pareceu tão urgente.
Por fim, é notável a maneira como Bloch, um progressista moderado, também se apresenta como um patriota. Amamos os nossos filhos. Amamos a nossa pátria. Amamos a humanidade. "Pobre é o coração que é impedido de acolher mais de uma ternura." No livro, a frase aparece sublinhada, sem comentário.
Marc Bloch voltaria à vida civil na França ocupada. Era judeu, mas nunca atribuiu importância especial ao fato. "Só reivindico a minha origem num caso: diante de um antissemita", escreveu.
Palavras sábias e proféticas. Membro ativo da Resistência na luta contra o ocupante, acabou capturado pela Gestapo em 1944, torturado e fuzilado. A chegada dos Aliados à Normandia, dias antes, aconteceu tarde para ele.
Teremos sempre Paris, dizia Humphrey Bogart. Dizia bem. Eu, que sempre desprezei a fanfarronice dos panteões, desta vez abrirei uma exceção. Quando passar pela cidade, levarei a Marc Bloch os respeitosos cumprimentos daquele leitor de lápis na mão.

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