sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Pedro Erber- A extrema direita não ajuda o empreendedor -FSP (definitivo)

 Pedro Erber

Professor de literatura e filosofia na Universidade Waseda, em Tóquio, e pesquisador associado na Universidade Cornell (EUA), onde pesquisa a teoria do mercado, de Hayek às plataformas digitais

Virou lugar-comum dizer que a esquerda não leva a sério quem empreende. "CEO de MEI" já é piada antiga na internet de esquerda. É a ideia de que essas pessoas se enganam sobre a própria condição e, se entendessem melhor, se reconheceriam como trabalhadores precários.

A liberdade que o mercado promete não é só um véu ilusório a encobrir a realidade da exploração do trabalho. Ela organiza a vida de milhões de pessoas, muitas das quais optaram livremente por trocar a carteira assinada pela independência do empreendedorismo. Tratar essa aspiração como simples engano é perder esse eleitor antes de começar a conversa.

everything bagel/adobe stock

A extrema direita soube ocupar esse espaço, ao menos na comunicação, oferecendo reconhecimento. Olha no olho do empreendedor como quem diz: "Eu te entendo, deixa comigo".

E, no entanto, foi a esquerda, sem sombra de dúvida, que mais fez pelo microempreendedor. O próprio MEI, instituído pela lei complementar 128, de 2008, saiu de um governo Lula (PT). Já a extrema direita, quando governou, se limitou a afastar o Estado. Depois do "eu te entendo, deixa comigo", ela deixa o empreendedor sozinho, embalado pelo discurso fácil da romantização do risco.

Acontece que o mercado coordena decepcionando expectativas. É o cliente que não volta, o mês em que a conta não fecha. Segundo o IBGE, 6 em cada 10 empresas abertas no país fecham antes de completar cinco anos. E quem segura o empreendedor quando o negócio dá errado?

O Estado, diz o mantra, deve sair do caminho para que o mercado faça o resto. Mas a realidade mostra que é o Estado quem constrói o caminho. Uma manicure pode arriscar abrir o próprio salão porque, se adoecer, há o SUS, e porque a contribuição do MEI à Previdência, de 5% do salário mínimo, já lhe dá direito a aposentadoria e auxílio-doença. Se a família recebe Bolsa Família, abrir o MEI não corta o benefício de imediato. O risco que a manicure corre é o de perder o negócio. Passar fome ou morrer sem atendimento fica fora da aposta — graças ao Estado.

Do SUS, concebido pelo movimento sanitarista, à regra de proteção do Bolsa Família, foi a esquerda que construiu a maior parte dessa rede de segurança. Quando a direita mexeu nela, foi para retirar garantias. A capitalização da Previdência proposta pelo governo Jair Bolsonaro, catastrófica no Chile, transferiria todo o risco para cada um.

Onde o Estado sai, outro poder entra no lugar. No mercado digital, quem faz as regras é a plataforma, e a liberdade do motorista se reduz à liberdade de aceitar o preço que o algoritmo fixou. O programa de Lula propõe garantir remuneração, direitos e transparência no uso dos algoritmos a quem trabalha por aplicativo. O de Flávio Bolsonaro fala em liberdade para inovar e em evitar normas que afastem investimentos.

A campanha de Flávio promete ainda cortar o equivalente a 1,5% do PIB, inclusive em gastos tributários, sem dizer quais. O maior deles, segundo a Receita Federal, é o Simples Nacional, o regime do MEI e da pequena empresa.

A esquerda ainda não tem lugar consensual em seu discurso para a palavra empreendedor. Segue pensando a proteção sobretudo a partir da carteira assinada e da assistência aos mais pobres. Quem vive "por conta própria" não se reconhece em nenhuma das duas posições. A atualização conceitual do PT, cuja necessidade o próprio José Dirceu admitiu logo após o primeiro turno, precisa dar conta desse problema.

Essa atualização é possível a partir de uma posição genuinamente de esquerda. Em Nova York, o prefeito Zohran Mamdani criou canais de apoio a ambulantes e negócios de bairro, enquanto evita que as plataformas tratem como empreendedor quem trabalha para elas. A realidade brasileira pede respostas próprias. Cabe a quem empreende cobrar e à esquerda ter a coragem de rever suas categorias.

No momento, o eleitorado se confronta com uma decisão urgente. No próximo domingo (25), quem empreende pode escolher uma estrutura que, embora ainda em construção, já lhe permite arriscar sem afundar —ou a moeda falsa de um reconhecimento sem contrapartida. E moeda falsa não paga boleto.

Militares de escola no Paraná são afastados após alunos encontrarem câmera no banheiro- FSP

 

Curitiba

Dois policiais militares da reserva que atuavam no Colégio Cívico-Militar Érico Veríssimo, em Cambé, no norte do Paraná, foram afastados de forma cautelar nesta quinta-feira (22) pela Seed (Secretaria de Estado da Educação), durante apuração sobre a responsabilidade da instalação de câmeras nos banheiros dos estudantes.

Dois gestores responsáveis pela escola já tinham sido afastados pela Seed nesta quarta-feira (21). Os nomes dos quatro não foram divulgados pela pasta. Eles se tornaram alvos de uma comissão interna instaurada para "apurar os fatos, esclarecer as circunstâncias e indicar os encaminhamentos cabíveis".

Os alunos dizem que encontraram na segunda-feira (19) uma câmera escondida no banheiro feminino. Eles arrancaram o equipamento e levaram à Polícia Civil, que abriu um inquérito. Também fizeram um protesto em frente à escola cobrando explicações da direção.

Mão segurando um pequeno módulo de câmera quadrado com lente central e componentes eletrônicos visíveis. Fundo desfocado com pessoas e céu azul.
Câmera encontrada em banheiro de colégio militar em Cambé (PR) - Reprodução/Redes sociais

Após o episódio, em um comunicado aos pais dos alunos, a direção da escola reconheceu a existência de duas câmeras nas entradas dos banheiros feminino e masculino, mas alegou que elas não mostravam a área interna das cabines com os sanitários e acrescentou que a finalidade dos equipamentos era "acompanhar os acessos e contribuir para a segurança escolar".

Pelo relato dos alunos, as imagens de todas as câmeras da escola eram exibidas em monitores que ficam dentro da sala dos policiais militares da reserva. No modelo cívico-militar, eles são os profissionais responsáveis pela disciplina dos estudantes e organização do ambiente.

Implantado sob a gestão Ratinho Junior (PSD), o modelo é alvo de críticas da oposição, que aponta para a ausência de formação pedagógica adequada dos militares. Das mais de 2.000 escolas da rede estadual, 345 adotaram o modelo cívico-militar. Mas câmeras de segurança existem em escolas regulares também, instaladas em entradas, corredores e salas.

De acordo com a Seed, diretores sempre foram orientados sobre onde câmeras podem ser instaladas. O equipamento no banheiro violaria diretamente a Constituição Federal (artigo 5º, inciso X, sobre intimidade e privacidade), a LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados) e o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente).

Após o episódio, a Seed elaborou uma resolução para proibir expressamente o uso de câmeras em banheiros, mesmo quando "instalados em áreas externas aos ambientes mencionados", mas que "possibilitem a captação de imagens de seu interior, ainda que parcialmente".

"O descumprimento do disposto nesta resolução, por ação ou omissão, poderá ensejar a apuração de responsabilidade administrativa dos agentes envolvidos, inclusive da equipe diretiva da instituição de ensino, sem prejuízo das responsabilidades civil e penal eventualmente cabíveis", segue a resolução.

Além do inquérito aberto pela Polícia Civil, a 4ª Promotoria de Justiça de Cambé também instaurou procedimento para apurar a descoberta da câmera. De acordo com a promotoria, a apuração será feita tanto na esfera cível como na criminal.

O colégio em Cambé tem mais de 1.000 alunos matriculados. São 599 estudantes do ensino fundamental e 423 do ensino médio.