segunda-feira, 29 de junho de 2026

Não há como sobreviver à descrença na ciência, Marcelo Leite- FSP

 Mesmo quem se formou intelectualmente na crítica ao cientificismo tacanho anda estarrecido com a velocidade da erosão da confiança na metodologia científica. Não são só fake news e bolhas ideológicas a corroer seus alicerces por fora; também há fissuras endógenas que se alargam a olhos vistos.

Sempre existiram incentivos perversos para manipular dados e imagens, na competição por posições e verbas de pesquisa, mas com a inteligência artificial a desonestidade deixou de ser artesanal. A obra da ciência entrou na era de sua reprodutibilidade generativa.

Duas pessoas caminham sobre passarela submersa em piscina com água clara. Estrutura metálica suporta passarela, e reflexos de luz criam padrões no fundo da piscina.
Mulher se refresca em piscina na Espanha, que enfrenta grave onda de calor na mudança climática - OSCAR DEL POZO/AFP

Verdade que há também mais meios técnicos para detectar fraudes. Como resultado, cancelamentos (retractions) de artigos científicos têm explodido, mas desconfia-se que o número total de publicações cresça em ritmo muito mais acelerado, que vigilantes robóticos ou humanos não conseguem acompanhar.

Grande quantidade de trabalhos escapa do cancelamento. Mesmo os sepultados podem continuar por aí como zumbis, citados em outros textos ou, mais preocupante no caso da biomedicina, com seus dados assombrando trabalhos de revisão sistemática (aqueles que reúnem estatísticas de vários ensaios para firmar eficácia e segurança de terapias e, assim, orientar a prática clínica).

A chamada medicina baseada em evidências encara a base de dados Cochrane como oráculo sagrado da objetividade científica. Artigos de revisão sistemática que passam por seu crivo acabam fundamentando consensos clínicos e orientando diretrizes de sociedades médicas e políticas públicas.

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Uma blitz da própria organização revelou que quase 1% das 9.500 revisões Cochrane abrigam esses artigos mortos-vivos. Começa agora o esforço de identificar os zumbis e verificar se as assombrações a exorcizar invalidariam conclusões do artigo.

É uma gota de racionalidade em face do tsunami de outras fabulações a erodir o valor das evidências. Políticas públicas e diretrizes clínicas hoje se definem também, se não mais, por convicções ideológicas, como se viu na pandemia.

Mal comparando, na ciência do clima o equivalente da Cochrane é o IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), saco de pancadas do negacionismo climático. Já passou por críticas merecidas, outras fabricadas, mas sobrevive aos trancos contínuos dados pela indústria dos combustíveis fósseis.

No encontro preparatório para a COP31 da Turquia, concluído com mais impasses em Bonn há poucos dias, o IPCC esteve de novo sob ataque. Países membros da convenção da ONU sobre clima como Arábia Saudita e Índia semeiam dúvidas sobre seus pressupostos e previsões, questionando inclusive a meta adotada em Paris (2015) de limitar o aquecimento global a 1,5ºC.

Pouco importam vidas perdidas. A Organização Mundial da Saúde estima que só na Europa 200 mil mortes evitáveis ocorreram em quatro anos sob ondas de calor como a que ora assola o continente.

Nada que constranja Magda Chambriard, presidente da Petrobras, cuja má fé fóssil desferiu o seguinte ataque contra a ciência da atmosfera e o princípio da precaução: "Não tem Plano Clima se não tiver sociedade, né? Então é muito fácil, olha, fecha tudo, vamos todo mundo para selva e vamos ter um ar maravilhoso".

Quanto custavam as coisas em 2002? Relembre os preços e como era a economia no ano do penta, g1

 Em 2002, o Brasil comemorou um dos momentos mais marcantes de sua história esportiva: a conquista do pentacampeonato mundial de futebol, com a vitória sobre a Alemanha e dois gols de Ronaldo na final da Copa do Mundo.

Mas, enquanto a seleção fazia a festa no Japão, os brasileiros conviviam com um cenário econômico desafiador.

Era um período de inflação elevada, dólar em disparada, juros altos e muitas incertezas por conta das eleições presidenciais que levariam Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao Palácio do Planalto pela primeira vez.

Ainda assim, quem viveu aquela época provavelmente se lembra da sensação de entrar em uma padaria, abastecer o carro ou comprar um ingresso de cinema pagando valores que hoje parecem irreais.

Por isso, o g1 reuniu algumas curiosidades sobre 2002 para relembrar como era o Brasil no ano do penta e entender por que comparar preços do passado com os de hoje exige olhar também para a inflação e o contexto econômico.

Com Neymar convocado, comércio popular comemora alta nas vendas para a Copa

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Preços menores não significam poder de compra

À primeira vista, os valores cobrados há mais de duas décadas chamam a atenção.

O litro da gasolina, por exemplo, custava em média R$ 1,77. O etanol saía por cerca de R$ 0,94 e o diesel por R$ 1,07, segundo dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).

O carro zero-quilômetro mais barato do país era o Fiat Uno Mille de três portas, vendido por R$ 13.577. (veja como era o mercado de carros em 2002)

Várias versões do Fiat Mille ficaram marcadas pelos preços baixos nos anos 1990 e começo dos anos 2000 — Foto: Divulgação / Stellantis

Várias versões do Fiat Mille ficaram marcadas pelos preços baixos nos anos 1990 e começo dos anos 2000 — Foto: Divulgação / Stellantis

Propaganda mostra o preço de um Peugeot 206 em 2002 — Foto: Divulgação

Propaganda mostra o preço de um Peugeot 206 em 2002 — Foto: Divulgação

Reportagem de janeiro de 2002 mostra o aumento nos preços da gaslina no país — Foto: Acervo/TV Globo

Reportagem de janeiro de 2002 mostra o aumento nos preços da gaslina no país — Foto: Acervo/TV Globo

Outros itens do dia a dia também tinham preços bastante diferentes dos atuais:

Preço médio da cesta básica em 2002 — Foto: Acervo/TV Globo

Preço médio da cesta básica em 2002 — Foto: Acervo/TV Globo

Aumento da tarifa na Grande São Paulo e ABC Paulista, em dezembro de 2002 — Foto: Acervo/TV Globo

Aumento da tarifa na Grande São Paulo e ABC Paulista, em dezembro de 2002 — Foto: Acervo/TV Globo

Exemplo do preço de um telefone sem fio em 2002 — Foto: Divulgação

Exemplo do preço de um telefone sem fio em 2002 — Foto: Divulgação

Valor do ingresso de cinema no Cine Bijou, primeira sala de cinema da cidade de São Paulo — Foto: Acerto/TV Globo

Valor do ingresso de cinema no Cine Bijou, primeira sala de cinema da cidade de São Paulo — Foto: Acerto/TV Globo

Propaganda mosra os preços dos celulares em 2002 — Foto: Reprodução

Propaganda mosra os preços dos celulares em 2002 — Foto: Reprodução

Propaganda GM em 2002 — Foto: Divulgação

Propaganda GM em 2002 — Foto: Divulgação

Apesar dos números parecerem baixos hoje, o dinheiro também rendia menos para muitas famílias. Os salários tinham menor poder de compra em um ambiente de inflação acelerada e juros elevados.

A inflação mudou o valor do dinheiro

Panfleto de supermercado no início dos anos 2000 — Foto: Reprodução/internet

Panfleto de supermercado no início dos anos 2000 — Foto: Reprodução/internet

É comum ouvir relatos nostálgicos sobre o custo de vida no início dos anos 2000. A comparação, no entanto, pode ser enganosa quando considera apenas o preço nominal dos produtos e ignora a renda e a inflação do período.

  • 🔎 Valor nominal é o preço registrado no momento, sem ajustes, enquanto o valor real leva em conta a inflação e mostra o poder de compra desse dinheiro ao longo do tempo.

Para o economista e professor de finanças da Fundação Vanzolini Marcos Crivelaro a leitura correta depende do poder de compra, e não apenas dos valores exibidos na etiqueta.

O principal erro das comparações nostálgicas, segundo o especialista, é separar o preço do contexto de renda da época. Em 2002, o salário mínimo era de cerca de R$ 200. Hoje, é R$ 1.621,00 por mês.

"A inflação impacta o valor real do dinheiro fazendo com que ele perca valor ao longo do tempo, o que significa que uma mesma unidade monetária (como R$ 1,00) não consegue comprar em 2026 as mesmas coisas que comprava em 2002", explica Crivelaro.

"No entanto, focar apenas no aumento dos preços é uma 'ilusão', pois o preço é apenas um número, enquanto o poder de compra conta a história completa."

Na avaliação dele, a análise econômica deve responder não quanto um produto custava, mas quantos bens cabiam no salário. Quando a relação entre preços e renda é considerada, o cenário muda em relação à percepção comum do passado.

O economista destaca que até hábitos de consumo mudaram.

"Em 2002, reunindo os amigos para ver Brasil e Alemanha, você poderia consumir quase metade de um salário mínimo num churrasco. Hoje o churrasco custa mais caro, mas proporcionalmente pesa menos no orçamento doméstico. Você consegue até comer mais do que comia antes", afirma.

Além da inflação, o início dos anos 2000 era marcado por um ambiente econômico mais difícil. O país tinha juros bastante elevados, crédito escasso, renda média menor e maior instabilidade cambial. (veja mais abaixo)

“Muitos produtos pareciam mais baratos, mas eram mais difíceis de comprar. O acesso ao consumo era mais restrito”, afirma.

Para Crivelaro, a comparação direta entre preços de épocas diferentes tende a distorcer a realidade ao ignorar fatores como renda e crédito. "A nostalgia não é um indicador econômico confiável", afirma.

Panfleto de ofertas do supermercado Guanabara, no Rio de Janeiro, em dezembro de 2002 — Foto: Reprodução

Panfleto de ofertas do supermercado Guanabara, no Rio de Janeiro, em dezembro de 2002 — Foto: Reprodução

Um ano de dólar alto e juros elevados

O ano do penta ficou marcado por um cenário econômico turbulento no Brasil. O Produto Interno Bruto (PIB) cresceu apenas 1,5% em relação ao ano anterior, enquanto a taxa de desemprego alcançava 11,7%, segundo a antiga Pesquisa Mensal de Emprego do IBGE.

No cenário doméstico, a proximidade das eleições presidenciais assustou investidores e provocou forte volatilidade no mercado financeiro.

O dólar chegou perto de R$ 4 durante o período eleitoral, atingindo aproximadamente R$ 3,95 em outubro, e encerrou o ano cotado em torno de R$ 3,55. Lembrando que é necessário considerar a inflação: R$ 4 da época seria o equivalente a R$ 15 de hoje.

A desvalorização do real pressionou a inflação, que chegou a 12,53% no ano e reduziu o poder de compra da população.

Para conter esse movimento e estabilizar o câmbio, o Banco Central elevou a taxa Selic para cerca de 25% ao ano. Os juros elevados encareceram empréstimos e financiamentos, restringindo o consumo e os investimentos.

O país ainda sentia os efeitos da crise energética de 2001, que havia provocado racionamento de eletricidade, enquanto o cenário internacional era marcado por tensões no Oriente Médio e pelo risco de guerra no Iraque — fatores que impulsionavam o preço do petróleo e aumentavam a aversão global ao risco.

Com isso, investidores retiravam recursos de mercados emergentes, pressionando ainda mais o câmbio brasileiro. Apesar das dificuldades, a desvalorização do real favoreceu as exportações e permitiu ao país encerrar o ano com um expressivo superávit comercial.

Para Marcos Crivelaro, esse contexto ajuda a explicar por que a percepção de que “tudo era mais barato” pode ser enganosa.

“O Brasil de 2002 era muito diferente. O dólar estava pressionado, os juros eram altíssimos, o crédito era escasso e a renda média da população era menor. Muitos produtos pareciam baratos, mas também eram mais difíceis de comprar”, afirma.

Entre a festa do penta e as mudanças políticas

Enquanto milhões de brasileiros comemoravam o penta, o país vivia um período de incertezas econômicas e de transição política. Nas eleições daquele ano, Lula venceu José Serra (PSDB) e foi eleito presidente.

O governo que tomou posse em 2003 herdaria uma série de desafios, como controlar a alta dos preços, recuperar a confiança dos investidores, estimular a atividade econômica, administrar o aumento da dívida pública e a redução do fluxo de capitais estrangeiros.

Antes mesmo da eleição, porém, a gestão de Fernando Henrique Cardoso (PSDB) precisou recorrer novamente ao Fundo Monetário Internacional (FMI) para enfrentar a turbulência financeira.

Em agosto de 2002, o Brasil negociou um pacote de ajuda de US$ 30,4 bilhões — o maior já aprovado pela instituição até então — com o objetivo de reforçar as reservas internacionais e assegurar que o país pudesse cumprir seus compromissos financeiros.

Naquele momento, o Brasil tinha cerca de US$ 37,8 bilhões em reservas internacionais e uma dívida externa de aproximadamente US$ 165 bilhões.

O acordo com o FMI veio acompanhado de compromissos de manutenção da disciplina fiscal e do controle da inflação, além de restaurar a confiança dos mercados em meio à volatilidade do câmbio e às incertezas do período eleitoral.

* Com colaboração de Jeferson Alves Ferreira, Angela Celeste, Giulia Tartari/Acervo TV Globo