quinta-feira, 21 de maio de 2026

Deolane Bezerra é presa sob suspeita de ligação com lavagem de dinheiro do PCC, FSP

 

São Paulo

A influenciadora Deolane Bezerra foi presa na manhã desta quinta-feira (21) em uma operação conjunta da Polícia Civil e do Ministério Público de São Paulo. A suspeita é de lavagem de dinheiro do PCC (Primeiro Comando da Capital) por meio de uma transportadora de fachada.

Ela foi detida, no início da manhã, no condomínio em que mora, em Barueri, na região metropolitana de São Paulo.

A Operação Vérnix também cumpre mandados de prisão contra Marco Herbas Camacho, o Marcola, considerado o chefe da facção, e parentes dele. Marcola já está preso em uma unidade de segurança máxima no Distrito Federal.

Mulher de cabelo preso e suéter azul com estampa de cachorro é escoltada por três policiais ao sair de prédio. Um policial segura microfone e outro grava com celular.
Deolane Bezerra deixa o Palácio da Polícia, na região central de São Paulo, após ser presa na manhã desta quinta-feira (21) em uma operação contra lavagem de dinheiro do PCC - Danilo Verpa/Folhapress

O advogado Rogério Nunes, que defende Deolane, disse que assim que se inteirar do caso vai se manifestar. Já Bruno Ferullo, que defende Marcola, seu imão e uma sobrinha —todos alvos de mandados de prisão na ação desta quinta— afirmou que emitirá uma nota assim que tiver mais informações a respeito da operação.

Foram decretadas seis prisões preventivas, bloqueios de valores superiores a R$ 327 milhões, sequestro de 17 veículos, incluindo modelos de luxo avaliados em mais de R$ 8 milhões, além de quatro imóveis vinculados aos investigados.

Além de Deolane, foram presos Everton de Souza, apontado como operação financeiro da organização, e Paloma Camacho, sobrinha de Marcola, detida na Espanha.

Na casa de Everton, a polícia apreendeu uma caixa como nome da influenciadora que continha dinheiro em espécie.

A polícia também cumpriu mandado de prisão contra Alejandro Herbas Camacho, irmão de Marcola, que está preso.

Segundo a polícia, a ação é resultado de uma investigação sobre uma engrenagem financeira usada para ocultar, dissimular e reinserir na economia formal valores vinculados à alta cúpula do PCC.

A investigação começou em 2019, quando bilhetes foram apreendidos pela Polícia Penal em uma penitenciária de Presidente Venceslau, no interior de São Paulo, com dois presos.

Casa grande com telhado branco e painéis solares, piscina visível no quintal. Vários carros pretos estacionados na entrada e na rua em frente, com pessoas próximas ao muro e na calçada. Palmeiras alinham a rua em frente à residência.
Polícia faz buscas na casa da Deolane Bezerra, presa na manhã de hoje em operação que mira lavagem de dinheiro do PCC - Reprodução/TV Globo

Por meio do material foi possível reunir informações sobre a dinâmica da facção, inclusive sobre a atuação de lideranças presas e possíveis ataques a autoridades.

Três inquéritos foram abertos para investigar as suspeitas. De acordo com a polícia, a análise do material apreendido com os dois presos possibilitou a identificação de ordens internas do PCC, contatos com integrantes da alta hierarquia e menções a atos violentos contra servidores públicos.

Um dos trechos analisados mencionava uma "mulher da transportadora" que teria sido responsável pela informação de endereços de agentes públicos alvos de ataques planejados.

Um segundo inquérito procurou identificar quem é essa mulher e qual é a relação dela com a transportadora do PCC. Os investigadores chegaram a uma empresa de transportes de Presidente Venceslau que seria usada para lavagem de dinheiro.

Em uma das operações sobre esse fato, chamada Lado a Lado, um celular foi apreendido e deu origem a uma nova investigação, a partir de conversas de pessoas ligadas à cúpula do PCC, além de indícios de repasses financeiros e conexões com a influenciadora, que teria vínculos pessoais com um dos gestores fantasmas da transportadora.

A operação desta quinta é baseada em um suposto esquema de lavagem de dinheiro, com ramificações empresariais, patrimoniais e financeiras.

A investigação chegou até Deolane depois de identificar a ligação dela com Everton de Souza, o Player. Ele é apontado pela polícia como gestor indireto da transportadora Lado a Lado, suspeita de pertencer PCC.

Segundo a polícia, a facção colocava na transportadora o dinheiro arrecadado com atividades criminosas, que depois eram repassados para outras pessoas. Everton era o responsável por indicar quem deveria receber a parte referente a Alejandro Camacho, irmão de Marco Camacho, o Marcola, principal líder da facção, diz a investigação.

A ordem era dada para Ciro Cesar Lemos, que figura junto com a esposa Elidiane Saldanha Lopes Lemos como proprietários legais da Lado a Lado. Os policiais afirmam que parte desse dinheiro foi depositado em contas de Deolane.

A quebra dos sigilos bancários, diz a investigação, demonstrou que Deolane movimentou milhões em nome do PCC, emprestando sua estrutura financeira e "aparente respeitabilidade social" colocar o dinheiro do crime organizado no sistema financeiro formal.

Ainda segundo a investigação, a transportadora, apesar de estar no nome do casal Ciro e Elidiane, foi criada pelo próprio PCC e é dirigida por Marcola e Alejandro. No período investigado, a transportadora movimentou mais de R$ 20 milhões, um valor considerado incompatível com as receitas declaradas.

O casal já foi condenado na Justiça e é considerado foragido. De acordo com a polícia, eles estão escondidos na Bolívia e são alvos de mandados de prisão.

Um celular apreendido na casa do casal em uma operação anterior tinha conversas via Telegram que mostravam como o esquema funcionava.

Marcola determinava as providências, traçava estratégias e estabelecia a divisão dos lucros da transportadora, diz a polícia. As ordens eram transmitidas por terceiros. Seu irmão Alejandro, também preso, dirigia a empresa e determinava a compra de caminhões.

Paloma Camacho, filha de Alejandro, e sobrinha de Marcola, foi presa na Espanha. Ela quem recebia as ordens do pai em visitas no sistema penitenciário federal e repassava a Ciro, segundo a polícia

Ela também controlava a parte do dinheiro que destinada ao pai e orientava a divisão e a transferência dos valores.

O irmão dela, Leonardo Camacho, é um dos beneficiários da divisão dos lucros da facção. Ele recebia 30% dos valores por ordem do pai.

Deolane foi presa em 2024 em operação contra jogos ilegais e lavagem de dinheiro

Deolane Bezerra já havia sido presa em investigação sobre jogos ilegais e lavagem de dinheiro. Ela foi um dos alvos da Operação Integration, uma cooperação da Polícia Civil de Recife e do Ministério Público, em 4 de setembro de 2024.

Ela foi detida com a mãe, Solange Alves, no bairro de Boa Viagem, zona sul da cidade.

Deolane ficou presa na Colônia Penal Feminina do Recife.

A investigação, segundo a Polícia Civil, foi iniciada em abril de 2023, para identificar e desarticular organização criminosa voltada à prática de jogos ilegais e lavagem de dinheiro.

Conforme o inquérito, a quadrilha usava várias empresas de eventos, publicidade, casas de câmbio, seguros e outras para lavagem de dinheiro feita por meio de depósitos e transações bancárias.

"Os jogos ilegais acontecem de várias formas. A ilegalidade dessa organização está lincada a esses jogos que não são autorizados legalmente. Eles operavam também bets. Mas o básico, o crime de origem, diz respeito a esses jogos que não são autorizados pela legislação brasileira. As bets eram utilizadas pela organização criminosa também, além de outras empresas, na lavagem do dinheiro ilícito oriundo desse ramo ilegal de jogos", declarou à época, Renato Rocha, delegado geral da Polícia Civil de Pernambuco.

Deolane a mãe foram soltas 20 dias depois, após as prisões preventivas serem revogadas.

Empresa de Ciro Nogueira tem duas mansões nos Jardins e vendeu apartamento a offshore por R$ 6,5 mi, FSP

 Lucas Marchesini

Brasília

A CNLF, empresa que pertence ao senador Ciro Nogueira (PP-PI) e é investigada pela PF (Polícia Federal), comprou duas mansões e dois apartamentos de luxo em São Paulo durante o período em que recebeu uma mesada do Banco Master, de Daniel Vorcaro.

Hoje, a empresa é dona de um apartamento na rua Oscar Freire e de duas mansões em São Paulo. Um segundo apartamento, comprado em julho de 2024, foi usado para pagar uma das mansões e não pertence mais ao senador.

A CNLF, sigla formada pelas iniciais do senador (Ciro Nogueira Lima Filho), recebeu pagamentos mensais de R$ 300 mil a R$ 500 mil do Master em 2024 e 2025, de acordo com investigação da PF. Os investigadores apuram se Nogueira teria recebido propina para agir a mando de Vorcaro no Congresso —ele nega.

Um homem sentado em uma cadeira de escritório, com uma expressão séria. Ele está vestido com um paletó claro e uma camisa escura. Ao fundo, há cortinas verticais e várias bandeiras, incluindo bandeiras do Brasil e de estados. A mesa à sua frente tem um livro aberto.
O senador Ciro Nogueira (PP-PI) - Gabriela Biló - 3.set.2025/Folhapress

A existência da primeira mansão de Nogueira foi revelada em reportagem do Portal Metrópoles. De acordo com o site, ela tem 878 m² e fica no Jardim Europa, bairro nobre da capital paulista. Como pagamento para a casa ainda em construção, o senador teria desembolsado R$ 30 milhões, dando em troca o apartamento tríplex adquirido em julho de 2024 —neste momento a CNLF de Nogueira já era sócia de uma empresa do primo de Vorcaro.

A segunda mansão tem 587 m² e fica no Condomínio Village Cidade Jardim. Ela custou R$ 5 milhões, foi comprada em outubro de 2025 e é dividida igualmente entre a empresa de Ciro e seu genro, o médico Pedro de Brito.

"É uma casa que comprei para minha filha em que paguei 50% e o pai do meu genro pagou outros 50%", afirmou o senador à Folha.

A CNLF também é dona de um apartamento de 105 m² na rua Oscar Freire comprado por R$ 660 mil em agosto de 2024. "É um pequeno apartamento que comprei para minha ex-mulher Iracema [Portela], que é minha sócia", disse o senador.

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Outra empresa de Nogueira, a Fazendas Reunidas Nogueira Lima, é dona de um lote de 940 m² em Águas Claras, no Distrito Federal, comprado em abril de 2024 por R$ 5,3 milhões.

Essa mesma empresa, a Fazendas Reunidas, comprou um apartamento de 134 m² no Itaim Bibi por R$ 1,350 milhão em 9 de outubro de 2025. O vendedor foi a CNLF, que havia adquirido o apartamento cerca de um ano antes, em 12 de agosto de 2024, por menos da metade do preço: R$ 650 mil.

A mudança nos valores se deve a uma reforma, justificou Nogueira. Segundo ele, o imóvel é utilizado pela sua mãe e sua irmã.

O parlamentar disse ainda que sua mãe é dona de 93% da Fazendas Reunidas. Já a CNLF "é praticamente toda minha e de minhas filhas".

De acordo com o senador, todos os imóveis foram comprados com recursos de suas empresas. "Nada a ver com o Master", disse.

A CNLF também vendeu outro apartamento no Jardim Paulista por R$ 6,5 milhões em abril de 2025 para a Aliqum Participações, que pertence a uma offshore sediada nas Ilhas Virgens Britânicas, um paraíso fiscal. A offshore se chama Tedax Partners e não é possível saber seu beneficiário final.

O representante legal da Aliqum é o empresário Carlos Santana. Ele foi procurado por e-mail às 15h27 de 12 de maio, por meio da assessoria de imprensa do Tecnobank, empresa da qual é dono, mas não respondeu.

De acordo com Nogueira, sua filha morava no apartamento que foi vendido quando ela se mudou para a mansão no Village Cidade Jardim. Os recursos serviram para viabilizar a compra do tríplex, que posteriormente foi dado como pagamento para a mansão no Jardim Europa.

Todos os imóveis foram adquiridos durante o período no qual a CNLF recebia uma mesada do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, segundo a Polícia Federal.

No relatório do ministro André Mendonça do STF (Supremo Tribunal Federal) autorizando a operação, há mensagens trocadas entre Daniel Vorcaro e seu primo, Felipe Vorcaro, sobre pagamentos a Nogueira.

Em 21 de junho de 2024, Felipe pergunta a Daniel se é para continuar os pagamentos de R$ 300 mil. Um ano depois, em 30 de junho de 2025, Felipe pergunta se é para continuar com os R$ 500 mil ou se ele poderia pagar R$ 300 mil naquele mês.

Os pagamentos teriam saído de uma empresa de Felipe, a BRGD, para a CNLF, de Ciro. A CNLF é administrada pelo irmão do senador, Raimundo Neto e Silva Nogueira Lima.

Em abril de 2024, a CNLF, de Nogueira, comprou 30% da Green Investimentos S.A., que era presidida por Felipe Vorcaro, primo de Daniel.

Os pagamentos e a venda de participação poderiam estar ligados, segundo apontou a PF, a uma atuação de Nogueira como parlamentar em prol do dono do Banco Master. Como exemplo disso estaria a apresentação de uma emenda aumentando a cobertura do FGC (Fundo Garantidor de Créditos) em caso de quebra de bancos de R$ 250 mil para R$ 1 milhão.

Ela foi apresentada pelo senador em agosto de 2024, durante o período da suposta mesada, e foi chamada de Emenda Master, pois ia ao encontro dos interesses comerciais do banco de Vorcaro, conhecido pelo modelo de negócios baseado na venda agressiva de CDBs, com rentabilidade bem acima da média, e protegidos pelo FGC até o valor de R$ 250 mil por CPF.

Em mensagem de Vorcaro à sua então namorada, Martha Graeff, que apareceram na CPI do INSS, o ex-banqueiro comemorou a emenda de Nogueira, a qual chamou de "bomba atômica". No relatório de Mendonça, a PF afirma que a emenda foi redigida por um executivo do Master e celebrada por Vorcaro: "saiu exatamente como mandei".

Por resistência do Banco Central e de parlamentares, a emenda não foi aprovada.

Em vídeo divulgado no dia (12), Nogueira negou ter recebido pagamentos ilícitos. Em seguida, ainda no dia 12, ele reapresentou a emenda Master.

"Nunca recebi nenhum valor ilícito ou cometi qualquer irregularidade que seja, nesse caso ou em qualquer outro. (...) Temos uma concessionária de motocicletas que fatura em torno de R$ 400 milhões por ano. E me acusam de depósito de R$ 3 milhões nessa empresa. Isso é absolutamente comum em empresas dessas. Muitas peças e serviços são pagos em dinheiro, tudo com nota fiscal, tudo descrito pela contabilidade", disse o parlamentar na gravação.