quarta-feira, 25 de março de 2026

Guerra impulsiona alternativas ao diesel e juro alto trava renovação da frota, diz CEO da Scania, FSP

 Marcos Hermanson

Brasília

A disparada do preço do diesel em razão da guerra no Irã pode acelerar a procura por caminhões movidos a biometano e biodiesel, afirmou Christopher Podgorski, presidente da Scania na América Latina, ao C-Level Entrevista, videocast da Folha.

"Ganhamos um impulso adicional, infelizmente em função de um aspecto geopolítico que nenhum de nós gosta, que é uma guerra", diz. "Se eu estivesse usando os sapatos do meu cliente transportador, imagino que olharia com mais carinho para as alternativas que não dependem de fatores externos."

Hoje, os caminhões movidos a biometano representam apenas 6% das vendas da empresa, mas Podgorski diz que a montadora está pronta para um eventual aumento da demanda.

Homem branco de cabelos grisalhos veste terno azul escuro e camisa branca, posando em ambiente interno com fundo desfocado que inclui quadros e brasões.
Christopher Podgorski, CEO da Scania América Latina - Divulgação/Scania

Com as bombas registrando aumento de 20% no preço do diesel, o executivo diz que a empresa está preparada para atender ao pleito do agronegócio de aumento para 20% a mistura de biodiesel no óleo diesel de origem fóssil. " A partir desse percentual, faremos provas e testes para [garantir] que nós vamos estar implementando uma solução, e não criando um pesadelo", diz.

Para Podgorski, a taxa básica de juros, hoje em 14,75% após corte de 0,25 ponto percentual no dia 18, é a principal trava para a renovação da frota de caminhões no Brasil. "Fazendo uma analogia muito simples, você compra cinco caminhões e paga seis."

Ele vê alívio no programa Move Brasil, que financia caminhões a taxas menores, mas lamenta que o programa seja temporário. "A má notícia é que ele veio, por enquanto, em caráter temporário, com um limite de financiamento e também de prazo."

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A Scania produz caminhões movidos a biometano. A volatilidade no preço do diesel causada pela Guerra no Irã dá impulso ao biometano como uma alternativa?
A resposta é sim. Ganhamos um impulso adicional, infelizmente em função de um aspecto geopolítico que nenhum de nós gosta, que é uma guerra. Mas a verdade é que o agronegócio e a produção de biocombustíveis ganham um impulso adicional para reduzir a dependência de derivados de petróleo [e do] gás natural liquefeito.

Como isso se traduz na estratégia comercial e de produção da empresa?
Temos capacidade de produção instalada. Se precisarmos aumentar o número de produtos hoje movidos a biometano ou biodiesel, não será um grande desafio. São as forças de mercado que vão fazer com que nós ajustemos o mix de produtos na nossa unidade em São Bernardo do Campo. Estamos prontos para volumes adicionais se assim o mercado demandar.

O sr. acha que haverá essa demanda? O mercado está assustado com a disparada do preço do barril do petróleo.
Se o diesel fóssil tem um preço acrescido da ordem de 20%, isso aumenta a viabilidade econômica de um produto como o gás biometano, que é produzido localmente a partir de resíduos orgânicos. A previsibilidade de custos é muito maior. Se estivesse usando os sapatos do meu cliente transportador, imagino que olharia com mais carinho para as alternativas que não dependem e não são influenciadas por fatores externos.

O agronegócio voltou a falar em aumentar a mistura de biodiesel no diesel, mas parte da indústria resiste, argumentando que o aumento do biodiesel pode danificar os motores. Qual é a posição da Scania?
A posição da Scania é que, até 20% de biodiesel junto ao diesel mineral, tranquilo, não tem grandes problemas. A partir desse percentual, nós faremos provas e testes para [garantir] que nós vamos estar implementando uma solução, não criando um pesadelo.

Como está a divisão das vendas entre os caminhões movidos a biometano e aqueles a diesel?
No ano passado, comercializamos no Brasil 13 mil veículos, e somente 800 unidades, aproximadamente, foram movidas a biometano. Vendemos mais [unidades a biodiesel no ano passado] do que a soma dos anos anteriores, o que demonstra que nós não estamos mais falando de um conceito.

A Scania tem uma meta de produção de caminhões a biometano para atingir?
Os estudos apontam que, quando atingirmos o status de carbono neutro no ecossistema de transporte, o biometano representará algo em torno de 10% do volume total comercializado. Então, se pegarmos os volumes do ano passado, quando o mercado como um todo comercializou 124 mil caminhões, nós estaríamos falando num potencial de 12 mil caminhões de todas as marcas.

O biometano não é amplamente disponível nas estradas brasileiras. Esse é um entrave para a disseminação dos modelos a gás?
Nós estamos falando de criar um novo ecossistema. Já existem vários corredores verdes, por exemplo, ligando as zonas produtoras de biometano, que são principalmente as usinas de açúcar e álcool, até os portos de exportação, como o porto de Santos.

Hoje, existem várias rotas representativas em que a presença do biometano é realidade. Mas é um ecossistema em construção, e a história da demanda vai criando soluções de viabilidade econômica também para os parceiros que estão investindo na infraestrutura.

O sr. já falou que a Scania tem a intenção de fabricar caminhões elétricos no Brasil. Existe previsão para quando deve começar?
Qualquer solução verde renovável tem que ser viável econômica e financeiramente. Nós estamos prontos para a industrialização, todo o nosso sistema de produção é global e é modular. Nós podemos iniciar a industrialização de caminhões também a curto prazo, mas só vou fazer isso quando tiver uma demanda definida.

A Anfavea (Associação Nacional de Fabricantes de Veículos Automotores) vive uma disputa com as montadoras chinesas de veículos leves, recém-chegadas ao país. A Scania se preocupa com essa mesma competição no segmento de caminhões?
Eu não tenho receio de competição. Nós também atuamos há décadas em mercados como Chile e Peru, onde os impostos de importação inexistem praticamente e os chineses ganharam uma posição bastante significativa, mas a fatia de mercado e rentabilidade da Scania nesses dois países permanece.

Pode vir qualquer marca, qualquer nacionalidade, apenas deve seguir as mesmas regras que nós seguimos no aspecto regulatório e legal. Se a regra do jogo for igual, a competição será sempre sadia.

É comum vermos caminhões dos anos 1960 rodando nas estradas brasileiras. O que tem dificultado a renovação da frota brasileira?
A frota envelhecida é um problema. Um trabalho estruturado de renovação de frota já se faz necessário há muitos anos, e há muitos anos nós temos essa discussão.

A boa notícia é que, mais recentemente, o programa Move Brasil [em que o governo federal subsidia a compra de caminhões] contempla esses desafios. A má notícia é que ele veio, por enquanto, em caráter temporário, com um limite de financiamento e também de prazo —cinco meses ou R$ 10 bilhões.

O governo deveria estender o programa, ou aumentar o financiamento?
A vigência desse programa é mais ou menos para antever o que uma taxa de juros Selic representará num futuro próximo, esperamos. Se o programa vai ser realizado ou não, é uma questão do Executivo. O arcabouço legal já está aí e funciona, retirando veículos mais antigos de circulação e substituindo-os por veículos muito mais eficientes.

A redução já aconteceu, mas em dose menor do que se esperava. O que a empresa vê pela frente?
Eu não gostaria de fazer o papel de economista nem tecer qualquer comentário ou crítica em relação ao trabalho feito pelo BC. O que posso dizer é que, a uma taxa de juros de 15% [no dia 18, data posterior à realização desta entrevista, o Copom baixou a Selic para 14,75%], o empresário do transporte, para financiar o veículo, vai ter um custo ao redor de 20%. Fazendo uma analogia muito simples, você compra cinco caminhões e paga seis.

Qual é o seu palpite para o desempenho da economia brasileira neste ano de eleições?
Para o segmento de transporte, pelas dificuldades de aquisição que mencionei, sobretudo a disponibilidade de crédito e o custo desse crédito, entendemos que o ano passado e este ano vão ser bastante assemelhados, em termos de volume total [de vendas].

O gargalo é o financiamento?
O custo do financiamento e também a disponibilidade, porque os clientes também têm limites de créditos que eles podem assumir, e os bancos, as financeiras, agem de acordo com o mercado financeiro, fazendo uma análise de crédito adequada. Mas, seguramente, o grande impeditivo é o custo financeiro que parte da taxa Selic de 15%.

RAIO-X | Christopher Podgorski, CEO da Scania na América Latina

Formado em administração de empresas, ingressou na Scania em 1998 e foi diretor-geral da empresa no México antes de se tornar vice-presidente de vendas e, depois, presidente sênior global de vendas e merketing. Em 2017, assumiu o cargo de CEO da operação industrial da Scania na América Latina.

Colaborou Eduardo Sodré

Vorcaro podia comprar tudo, menos bom gosto, Joanna Moura FSP

 Há uma trend nas redes sociais que diz mais ou menos assim: "eu tentando dormir e o meu cérebro só pensa…". Em seguida, um vídeo aparece na tela, mostrando alguma cena esdrúxula —um meme, uma música de qualidade questionável, uma curiosidade aleatória— indicando que era ele, o tema do vídeo, o responsável pela insônia do personagem inicial.

Sempre me identifiquei com a tal trend. Sou vítima do mesmo mal. Ao anoitecer, quando as crianças já foram dormir, meu cérebro considera o expediente encerrado e anseia não por dormir, mas por se vingar dos trabalhos que fora forçado a realizar durante o dia com distração barata —quanto mais acéfala, melhor.

Recentemente, meus momentos de insônia ganharam um hiperfoco: o esbanjamento de Daniel Vorcaro. O banqueiro picareta, dono do Banco Master, que está preso sob suspeita de uma série de crimes, entre eles fraude, lavagem de dinheiro, organização criminosa, corrupção, obstrução de justiça e manutenção de milícia privada, era famoso por ostentar um estilo de vida condizente com os R$ 12 bilhões que ele é acusado de ter abocanhado.

Três fotos lado a lado mostram um homem adulto com cabelo curto e escuro, vestindo camiseta branca. As imagens incluem perfil esquerdo, frente e perfil direito, com fundo branco e marcações de altura visíveis.
Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, com barba e bigode aparados, após a prisão no Complexo Penal 2 de Guarulhos, na Grande São Paulo - Divulgação Polícia Federal

Foi no noticiário, mais precisamente no podcast "O Assunto", da GloboNews, que ouvi Natuza Nery descrever o estilo de vida de Vorcaro como nababesco. Mas foi nas redes sociais que dei de cara com a materialização do estilo de vida opulento ou, como diria Milton Cunha, faraônico de Vorcaro.

Tratava-se do vídeo de seu noivado com a influenciadora digital Martha Graeff. O vídeo que circula nas redes mostra o casal apaixonado andando por um palácio na Itália: eles dançam ao som de espetáculos de música, desviam de malabaristas montados em pernas de pau, admiram fogos de artifício e se abraçam enquanto drones coreografados revelam declarações de amor no céu.

Meu choque ao ver o vídeo foi tamanho que permaneci nele bem mais tempo do que normalmente permaneceria. Meu algoritmo então tomou isso como um sinal de aprovação e passou a encher a minha timeline com vídeos de outros eventos igualmente nababescos promovidos pelo banqueiro vigarista.

Ao ver os registros, senti raiva de Vorcaro, em parte por atrapalhar meu sono, em parte pela facilidade com que transitou pelo poder, com que se beneficiou do sistema, com que enriqueceu às custas dos outros. No entanto, brasileira que sou, sinto que, no que diz respeito à falcatrua, não me surpreendo com mais nada.

De tudo o que vi, o que me chocou mesmo foi o nível de mau gosto com o qual me deparei. Nada poderia ter me preparado para tamanha cafonice. Era um tal de músculos explodindo na camisa apertada, marmanjos sem nenhum molho dançando em cima de mesas enquanto rodavam guardanapos no ar, garrafas de champanhe douradas que soltavam fogo.

Me choquei, mas, pensando bem, não deveria. Vorcaro apenas mirou no senso estético deste grupo do qual queria tanto fazer parte: o de bilionários. Talvez tenha se inspirado em Jeff Bezos, dono da Amazon, que consegue, com sua mulher, se vestir de alta costura dos pés à cabeça e ainda assim estar mal vestido.

O denominador comum dessa galera parece ser a máxima: tão pobre que a única coisa que tinha era dinheiro. No caso de Vorcaro, ainda pior: dinheiro que nem era dele.


TJSP impede cobrança de ITBI sobre imóveis usados para capital social de empresas inativas, FSP

 Márcia Magalhães

São Paulo

O TJSP (Tribunal de Justiça de São Paulo) decidiu que prefeituras não podem cobrar ITBI (Imposto sobre Transmissão de Bens Imóveis) de empresas inativas ou sem receita que transferem imóveis para compor o próprio capital social. A decisão deverá ser aplicada a todos os processos no Judiciário paulista, por ter sido analisada em IRDR (Incidente de Resolução de Demandas Repetitivas).

A controvérsia envolve a interpretação da regra constitucional que impede a incidência de ITBI (concede imunidade) na transferência de imóveis para integralização de capital social, salvo quando a atividade preponderante da empresa for imobiliária. O ponto central da disputa é se essa exceção pode ser analisada quando a empresa está inativa ou sem receita.

O argumento dos municípios é de que sem receita operacional não é possível verificar a atividade preponderante e, portanto, conceder a imunidade. O tribunal, contudo, afastou a tese, fixando entendimento de que a inatividade não pode ser usada como fundamento para a cobrança do imposto.

Vista aérea de vários prédios residenciais altos em área urbana com céu parcialmente nublado. Rua com carros e vegetação acompanha os edifícios.
Vista de prédios no bairro Barra Funda, na zona oeste de São Paulo (SP) - Eduardo Knapp - 20.mar.2024/Folhapress

Ainda cabe recurso da decisão, que tem impacto direto em empresas que podem estar sem receita antes do início de sua operação, como holdings patrimoniais recém-criadas e estruturas montadas para organização patrimonial e sucessória.

Apesar do resultado inicial favorável aos contribuintes, advogados avaliam que a decisão não encerra a disputa.

"A diferença é que o contribuinte passa a litigar em posição significativamente mais favorável, com maior probabilidade de obtenção de decisões liminares e redução de riscos processuais. Em operações estruturadas, ganha força a utilização de medidas preventivas, como o mandado de segurança, para afastar a exigência antes mesmo da ocorrência do fato gerador", afirma Isabella Tralli, sócia do VBD Advogados.

Os tributaristas recomendam a judicialização dado o fato de que o entendimento do TJSP vincula o Judiciário paulista, mas não a administração pública, e prefeituras podem continuar exigindo o imposto.

"Nesse caso, o contribuinte poderá ser obrigado a ingressar com uma ação judicial para ter o seu direito assegurado ou, caso um juiz não siga a tese do IRDR nº57, utilizar a reclamação diretamente no Tribunal para garantir o cumprimento da decisão", diz André Mendes Moreira, sócio do Sacha Calmon – Misabel Derzi Advogados.

Isabella Tralli ressalta, contudo, que cada empresa deve avaliar sua situação conforme o momento da operação.

"Em operações futuras, é recomendável estruturar previamente a estratégia jurídica, considerando inclusive a possibilidade de judicialização preventiva. Nos casos em curso, a tese firmada no IRDR deve ser invocada de imediato, já em grau recursal. E, nas hipóteses em que houve recolhimento do ITBI, abre-se a possibilidade de discussão para repetição de indébito, observados os prazos prescricionais", diz.

Os especialistas apontam a existência de decisões divergentes em tribunais estaduais, o que aumenta a probabilidade de judicialização. TJs como os de Rio de Janeiro e Goiás, por exemplo, deram decisões em favor das prefeituras, enquanto os do Rio Grande do Sul, de Brasília e de São Paulo decidiram a favor do contribuinte.

"Sem uma decisão do STJ ou do STF, a Prefeitura não vai se render à tese e seguirá emitindo autos de infração", diz Richard Dotoli, tributarista do Costa Tavares Paes Advogados.

A regra constitucional que impede a incidência de ITBI na transferência de imóveis para integralização de capital social, salvo quando a atividade preponderante da empresa for imobiliária, está sendo analisada no STF (Supremo Tribunal Federal), mas sob outra perspectiva.

No tribunal se discute, em repercussão geral, a própria imunidade do ITBI para empresas com atividade imobiliária preponderante. Até agora prevalece a posição do relator, ministro Edson Fachin, de que a imunidade tributária prevista na Constituição é incondicionada, ou seja, independente da verificação da atividade preponderante da empresa.