segunda-feira, 22 de junho de 2026

Seção Tendências / Debates completa 50 anos como arena de divergências, FSP

 Naief Haddad

São Paulo

No dia 4 de abril de 1983, a zona sul de São Paulo viveu um dia de fúria. Um protesto contra o desemprego no largo 13 de Maio, em Santo Amaro, deu lugar a uma explosão popular, com lojas e supermercados saqueados. Mais de 100 pessoas ficaram feridas, e cerca de 70 foram detidas.

"A dose não deve se repetir", disse o chefe do policiamento da capital paulista. Mas no dia seguinte foi ainda pior. Em torno de mil manifestantes tentaram invadir o Palácio dos Bandeirantes, sede do governo estadual. Não conseguiram ocupar o espaço, mas derrubaram parte das grades de proteção.

Grande grupo de manifestantes derruba grade metálica em calçada durante protesto ao ar livre. Pessoas seguram faixas com mensagens, e há árvores e postes ao fundo.
Manifestantes derrubam parte das grades de segurança do Palácio dos Bandeirantes no dia 5 de abril de 1983 - Matuiti Mayezo/Folhapress

Depredações aconteceram em outras regiões além da zona sul, e um homem morreu, baleado, durante um saque no Jardim São Luis. O aumento dos tumultos levou a mais de 300 prisões.

Franco Montoro, então governador de São Paulo, negociou com os líderes dos protestos e, aos poucos, a situação se tranquilizou.

Aqueles dias de cólera tiveram acompanhamento da reportagem da Folha, mas não só. A indignação popular foi discutida sob os mais diversos ângulos na seção Tendências / Debates, lançada pelo jornal havia quase sete anos.

Nascido em 22 de junho de 1976, o espaço se consolidava em meio à fervura como uma arena aberta às divergências, uma iniciativa incomum na imprensa brasileira.

Redação ampla com várias pessoas sentadas em longas mesas organizadas em formato retangular, manuseando papéis e documentos. O espaço tem piso e colunas revestidos por mosaico, iluminação fluorescente no teto e várias estações de trabalho com máquinas de escrever e telefones. Ao fundo, outras pessoas estão em pé conversando ou caminhando pelo ambiente.
Redação da Folha em 1976, quando o jornal lançou a seção Tendências / Debates - Folhapress

Nas edições seguintes aos protestos de 1983, Tendências / Debates publicou artigos do então vice-governador, Orestes Quércia, do presidente da Associação Comercial de São Paulo, Guilherme Afif Domingos, e do padre Paul-Eugène Charbonneau. E ainda do médico do Sindicato dos Metalúrgicos e ex-deputado federal David Lerer, e dos professores da USP José Pastore e Reginaldo Prandi, entre outros.

Cada leitor que tirasse suas conclusões a partir dos argumentos desfiados por líderes da política e da economia, além de expoentes da sociedade civil. O pluralismo exposto naquele momento em Tendências / Debates estaria no cerne do Projeto Folha, amadurecido ao longo dos anos 1980.

O parágrafo que abre a seção é praticamente o mesmo meio século depois: "Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo".

Essa introdução foi escrita por Cláudio Abramo, diretor de Redação naquela época.

"A seção nasceu em meados dos anos 1970, em plena ditadura. Hoje, a convivência de opiniões livres, divergentes e até contraditórias parece algo natural. Naquele contexto, porém, era uma ousadia. O princípio de ouvir diferentes vozes e expor mais de um lado de cada questão acabou por se espalhar pela imprensa brasileira, tornando-a menos engajada, mais plural e, por consequência, mais independente", afirma Luiz Frias, publisher da Folha.

Nestas cinco décadas de existência, Tendências / Debates publicou artigos de todos aqueles que estiveram à frente da Presidência da República no período da redemocratização.

No início de outubro de 1992, em meio ao processo de impeachment, Fernando Collor foi afastado das suas funções no Planalto. No final daquele ano, renunciou.

Um ano depois do afastamento, saiu na Folha o texto "Pois É, pra quê?", em que Collor concluía: "Com a consciência tranquila e a certeza do dever cumprido, aguardo pela justiça dos homens".

Em abril de 2019, quando estava preso em Curitiba, Luiz Inácio Lula da Silva escreveu um artigo intitulado "Por que têm tanto medo do Lula livre?" para o Tendências / Debates. "Tudo o que quero é que apontem uma prova sequer contra mim", afirmou.

Em novembro de 2024, duas semanas antes de ser indiciado pela Polícia Federal por crimes como tentativa de golpe de Estado, Jair Bolsonaro assinou um texto na seção cujo título era "Aceitem a democracia". Rendeu mais de 500 comentários no site da Folha, a maioria absoluta contrária à publicação.

Esses e outros artigos de Tendências / Debates foram reunidos no livro "A Palavra e o Poder - uma Travessia Crítica por 40 Anos de Democracia Brasileira", lançado no ano passado pela editora Civilização Brasileira.

O espaço também tem destacado pontos de vista de líderes do Legislativo e do Judiciário. Ao encerrar seu período de dois anos como presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), o então ministro Luís Roberto Barroso apresentou o balanço das suas iniciativas na seção.

"Considero Tendências / Debates, da Folha, um dos espaços mais importantes da imprensa brasileira, em termos de conteúdo e repercussão. Publicar ali é uma forma qualificada de participação no debate público, aberto tanto para integrantes da sociedade civil quanto para agentes políticos", afirma Barroso, que deixou o STF em outubro do ano passado e retornou à advocacia.

"Eu mesmo, sempre que há algum tema relevante em relação ao qual possa dar alguma contribuição, sou colaborador", complementa.

Entre os nomes da sociedade civil a que se refere Barroso, está José Vicente, advogado e reitor da Universidade Zumbi dos Palmares.

"Sou um dos homens negros que mais publicaram em Tendências / Debates e vi o negro sair da invisibilidade e chegar a matéria de capa na Folha. Plural, diverso, independente e disruptivo, é um espaço privilegiado de debate e um instrumento poderoso de transformação", afirma José Vicente.

Homem negro veste terno azul escuro, camisa azul clara e gravata amarela, posando contra fundo branco liso.
O reitor da Universidade Zumbi dos Palmares, José Vicente, durante o lançamento do livro "A Palavra e o Poder - Uma Travessia Crítica por 40 Anos da Democracia Brasileira" em outubro de 2025 - Ronny Santos/Folhapress

Entre os intelectuais que já publicaram na seção, estão Abdias Nascimento, Celso Furtado, Florestan Fernandes, Rose Marie Muraro e Sueli Carneiro –os artigos desses cinco autores também estão no livro "A Palavra e o Poder".

"Em tempos de polarização, um espaço como Tendências / Debates é de suma importância para a troca de ideias de forma plural, diversa e respeitosa, algo fundamental para a nossa democracia", afirma Patricia Blanco, presidente do Palavra Aberta, instituto dedicado à liberdade de imprensa e à educação midiática.

De acordo com ela, colaboradora da seção, "são 50 anos promovendo as mais importantes discussões para o Brasil, onde o respeito ao contraditório e as opiniões divergentes estimulam o diálogo, pensamento crítico e a liberdade de expressão".

Frei Betto é outro nome que contribui regularmente com a seção. "Louvo Tendências / Debates por ser um espaço democrático, de opiniões diferentes e divergentes, inclusive em relação à linha editorial do jornal", diz o escritor.

Controvérsias

Tendências / Debates tem se notabilizado ainda como um espaço aberto às controvérsias. As trocas de críticas –em tom às vezes duro, mas respeitoso– são constantes.

Em 1º de outubro de 2007, o apresentador Luciano Huck escreveu um texto considerado por ele como um "desabafo" em relação à insegurança na cidade de São Paulo.

"Passei um dia na cidade nesta semana —moro no Rio por motivos profissionais— e três assaltos passaram por mim. Meu irmão, uma funcionária e eu. Foi-se um relógio que acabara de ganhar da minha esposa em comemoração ao meu aniversário. Todos nos Jardins, com assaltantes armados, de motos e revólveres", afirmou.

Uma semana depois, o jornal publicou no mesmo espaço um artigo do escritor Ferréz em resposta a Huck. Fez um texto em primeira pessoa, como se fosse o motoboy que roubou o relógio do apresentador. "A hora estava se aproximando, tinha um braço ali vacilando. Se perguntava como alguém pode usar no braço algo que dá pra comprar várias casas na sua quebrada", escreveu.

Mais adiante, o jornalista Reinaldo Azevedo divergiu de Ferréz com veemência e, dias depois, o cantor e compositor Zeca Baleiro criticou Huck e Azevedo.

Naquele mês, o assunto dominou o Painel do Leitor. Os autores dos quatro artigos receberam "vaias e aplausos" dos leitores, como diz Sérgio Dávila, diretor de Redação da Folha.

"Se o jornal é a praça pública aberta que se contrapõe ao condomínio fechado das redes sociais, uma iniciativa como a de Tendências / Debates é o coreto da praça, em que as ideias se apresentam para seu público, para vaias e aplausos. A longevidade da seção mostra o acerto dela", afirma o jornalista.

Quase uma década depois, em março de 2016, ano em que Dilma Rousseff foi afastada da Presidência, Wagner Moura escreveu na seção o artigo "Pela legalidade". O ator considerava o processo de impeachment um "golpe clássico".

Dois dias depois, o jornalista André Barcinski respondeu ao ator com o texto "Coisa de Cinema". Dizia que, "a exemplo dos melhores cineastas e roteiristas, Moura criou uma narrativa fantástica que serve totalmente ao gosto de seu público-alvo".

Como havia ocorrido muitas vezes antes desse episódio e aconteceria tantas outras depois, vieram "vaias e aplausos" aos textos de Tendências / Debates. Erguido há meio século, com mais de 36 mil artigos publicados, o "coreto da praça" continua movimentado.

O rolo do Rolex ZECA BALEIRO, FSP (29 out 2007)

 NO INÍCIO do mês, o apresentador Luciano Huck escreveu um texto sobre o roubo de seu Rolex. O artigo gerou uma avalanche de cartas ao jornal, entre as quais uma escrita por mim. Não me considero um polemista, pelo menos não no sentido espetaculoso da palavra. Temo, por ser público, parecer alguém em busca de autopromoção, algo que abomino. Por outro lado, não arredo pé de uma boa discussão, o que sempre me parece salutar. Por isso resolvi aceitar o convite a expor minha opinião, já distorcida desde então.

Reconheço que minha carta, curta, grossa e escrita num instante emocionado, num impulso, não é um primor de clareza e sabia que corria o risco de interpretações toscas. Mas há momentos em que me parece necessário botar a boca no trombone, nem que seja para não poluir o fígado com rancores inúteis. Como uma provocação.
Foi o que fiz. Foi o que fez Huck, revoltado ao ver lesado seu patrimônio, sentimento, aliás, legítimo. Eu também reclamaria caso roubassem algo comprado com o suor do rosto. Reclamaria na mesa de bar, em família, na roda de amigos. Nunca num jornal.
Esse argumento, apesar de prosaico, é pra mim o xis da questão. Por que um cidadão vem a público mostrar sua revolta com a situação do país, alardeando senso de justiça social, só quando é roubado? Lançando mão de privilégio dado a personalidades, utiliza um espaço de debates políticos e adultos para reclamações pessoais (sim, não fez mais que isso), escorado em argumentos quase infantis, como "sou cidadão, pago meus impostos". Dias depois, Ferréz, um porta-voz da periferia, escreveu texto no mesmo espaço, "romanceando" o ocorrido. Foi acusado de glamourizar o roubo e de fazer apologia do crime.
Antes que me acusem de ressentido ou revanchista, friso que lamento a violência sofrida por Huck. Não tenho nada pessoalmente contra ele, de quem não sei muito. Considero-o um bom profissional, alguém dotado de certa sensibilidade para lidar com o grande público, o que por si só me parece admirável. À distância, sei de sua rápida ascensão na TV. É, portanto, o que os mitificadores gostam de chamar de "vencedor". Alguém que conquista seu espaço à custa de trabalho me parece digno de admiração.
E-mails de leitores que chegaram até mim (os mais brandos me chamavam de "marxista babaca" e "comunista de museu") revelam uma confusão terrível de conceitos (e preconceitos) e idéias mal formuladas (há raras exceções) e me fizeram reafirmar minha triste tese de botequim de que o pensamento do nosso tempo está embotado, e as pessoas, desarticuladas.
Vi dois pobres estereótipos serem fortemente reiterados. Os que espinafraram Huck eram "comunistas", "petistas", "fascistas". Os que o apoiavam eram "burgueses", "elite", palavra que desafortunadamente usei em minha carta. Elite é palavra perigosa e, de tão levianamente usada, esquecemos seu real sentido. Recorro ao "Houaiss": "Elite - 1. o que há de mais valorizado e de melhor qualidade, especialmente em um grupo social [este sentido não se aplica à grande maioria dos ricos brasileiros]; 2. minoria que detém o prestígio e o domínio sobre o grupo social [este, sim]".
A surpreendente repercussão do fato revela que a disparidade social é um calo no pé de nossa sociedade, para o qual não parece haver remédio -desfilaram intolerância e ódio à flor da pele, a destacar o espantoso texto de Reinaldo Azevedo, colunista da revista "Veja", notório reduto da ultradireita caricata, mas nem por isso menos perigosa. Amparado em uma hipócrita "consciência democrática", propõe vetar o direito à expressão (represália a Ferréz), uma das maiores conquistas do nosso ralo processo democrático. Não cabendo em si, dispara esta pérola: "Sem ela [a propriedade privada], estaríamos de tacape na mão, puxando as moças pelos cabelos". Confesso que me peguei a imaginar esse sr. de tacape em mãos, lutando por seu lugar à sombra sem o escudo de uma revista fascistóide. Os idiotas devem ter direito à expressão, sim, sr. Reinaldo. Seu texto é prova disso.
Igual direito de expressão foi dado a Huck e Ferréz. Do imbróglio, sobram-me duas parcas conclusões. A exclusão social não justifica a delinqüência ou o pendor ao crime, mas ninguém poderá negar que alguém sem direito à escola, que cresce num cenário de miséria e abandono, está mais vulnerável aos apelos da vida bandida. Por seu turno, pessoas públicas não são blindadas (seus carros podem ser) e estão sujeitas a roubos, violências ou à desaprovação de leitores, especialmente se cometem textos fúteis sobre questões tão críticas como essa ora em debate.
Por fim, devo dizer que sempre pensei a existência como algo muito mais complexo do que um mero embate entre ricos e pobres, esquerda e direita, conservadores e progressistas, excluídos e privilegiados. O tosco debate em torno do desabafo nervoso de Huck pôs novas pulgas na minha orelha. Ao que parece, desde as priscas eras, o problema do mundo é mesmo um só -uma luta de classes cruel e sem fim.


JOSÉ DE RIBAMAR COELHO SANTOS, 41, o Zeca Baleiro, é cantor e compositor maranhense. Tem sete discos lançados, entre eles, "Pet Shop Mundo Cão".