quarta-feira, 29 de abril de 2026

A Times Square de São Paulo, Elio Gaspari, FSP

 De uma hora para outra, São Paulo foi levada a crer que a esquina das avenidas Ipiranga e São João pode virar uma Times Square, aquele magnífico pedaço de Manhattan. Tomara, mas a iniciativa está com forte cheiro de macaquice, supondo-se que foram os luminosos que revitalizaram a região.

Até o final do século passado o entorno da esquina da Broadway com a rua 42 passou por um inédito processo de decadência, tomada por cinemas pornô, drogas, prostituição e batedores de carteira. O cartão postal da cidade parecia irremediavelmente perdido. Comparada com a Times Square de então, a esquina de Ipiranga com São João era um brinco.

Então surgiu o prefeito Edward Koch. Vitriólico e incansável, ele criou um escritório para revitalizar a região. Pensou-se nos grandes letreiros, mas esse foi apenas um asterisco. O estado de Nova York assumiu casas de espetáculos e a prefeitura deu incentivos e, acima de tudo, o coração do pedaço foi presenteado aos pedestres.

Painel digital iluminado em fachada curva de edifício no centro de São Paulo exibe campanha cultural com rosto feminino e texto sobre eventos culturais. Ruas molhadas refletem luzes da cidade e trânsito de veículos e pedestres é visível à noite.
Vídeo da prefeitura de São Paulo anuncia a instalação de painéis de LED no centro de SP - Reprodução

Pensou-se na população. Os letreiros luminosos continuaram a ser um detalhe tradicional. A revitalização da Times Square resistiu a duas recessões, e o triunfo de Ed Koch foi completo. Conhecido por ter ideias malucas, foi ele quem ensinou os donos de cachorros a recolher o cocô dos pets. Hoje esse hábito está disseminado no mundo.

A ideia de que basta um luminoso LED para revitalizar uma região central é pobre. Precisa-se de muito mais e a renovação do centro de São Paulo está à espera de um Ed Koch. O governador Tarcísio de Freitas quer levar a administração do estado para o centro. A ideia é boa, mas falta o sopro de arquitetos audaciosos, meio malucos, enfim.

Um dia, um governador ou prefeito de São Paulo transformará a Biblioteca Mário de Andrade num novo e arrojado prédio (como o francês François Mitterrand fez com a biblioteca de Paris). Revitalizar o centro ouvindo só empresários é tão arriscado quanto lançar projetos sem ouvi-los. A Times Square mudou de rosto graças à mão pesada da iniciativa privada.

PUBLICIDADE

Se luminosos bastassem, as cidades japonesas estariam entre as mais bonitas do mundo. São as mais iluminadas, pouco mais. (A prefeitura de Roma ilumina exageradamente o Coliseu, transformando-o num anúncio de sabonete.)

A única virtude de uma São João iluminada é que, em tese, ela nada custará à Viúva. A beleza de São Paulo deve alguma coisa à sua desordem.

Logo ali fica o Rio de Janeiro. Lá, continua-se a investir no crescimento da cidade na direção de São Cristóvão. Teimosa, ela cresce na direção oposta. O primeiro projeto da Cidade Nova, unindo o Paço (atual praça XV) à Quinta da Boa Vista, é do tempo de D. João 6º. O projeto do Porto Maravilha tornou-se um estudo de caso de fracasso. Quando o novo porto oferecer moradias baratas para os tradicionais moradores da região, ela virará uma maravilha.

Quando o centro de São Paulo for revitalizado, com ou sem luminosos, ecoará o canto de Caetano Veloso: "Alguma coisa acontece no meu coração/Que só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João".


As florestas que ninguém mapeou, FSP

 Luana Costa

Mestranda em ecologia aplicada da UFLA (Universidade Federal de Lavras)

Lembro o momento em que o drone decolou pela primeira vez sobre o campus da Universidade Federal de Lavras, em Minas Gerais, onde estou concluindo o mestrado. Havia algo tanto trivial quanto curioso naquilo: um mini-helicóptero, equipado com um sensor laser, sobrevoando árvores sob as quais as pessoas passam todos os dias. Horas depois, não apareceu no computador uma fotografia, mas uma nuvem de pontos, milhões deles, cada um registrando com precisão centimétrica a posição de um edifício, uma planta, um galho. A cidade em três dimensões.

Essa tecnologia, o LiDAR (Light Detection and Ranging), tem revolucionado o modo como os cientistas mapeiam as florestas. O princípio é elegante: o sensor emite pulsos de laser e mede o tempo que cada pulso leva para retornar após atingir uma superfície. Com isso, é possível reconstruir a estrutura tridimensional da vegetação sem tocar em uma única árvore.

Valentina Fraiz/Instituto Serrapilheira

Essa revolução, no entanto, tem seus pontos cegos. A maior parte das pesquisas de biomassa florestal utilizando LiDAR ocorre nas grandes florestas, enquanto as florestas urbanas, justamente aquelas que cercam os espaços onde a maioria das pessoas vive, seguem sendo um ponto cego da ciência global.

Há um paradoxo: se, por um lado, nos concentramos nas florestas em suas grandes extensões e continuidades, por outro, as árvores da praça, da calçada, do bairro, seguem anônimas. São elas que formam o que os ecólogos chamam de florestas urbanas: um mosaico de parques, fragmentos florestais, quintais e jardins.

E elas importam muito. Absorvem mais carbono da atmosfera do que emitem, regulam o microclima e reduzem o calor dos bairros. Em cenários de mudanças climáticas cada vez mais severas, saber quanto carbono está estocado nessas árvores é estratégico.

O que torna desafiador o mapeamento das árvores nas cidades tropicais é também a sua maior riqueza: a diversidade. Uma árvore isolada em uma praça cresce de forma diferente de uma árvore no interior de uma floresta, que tem mais espaço, mais luz, desenvolve copas largas, resultando em um porte distinto. Não faz sentido, portanto, aplicar a mesma medida para os dois casos.

Foi essa discrepância que motivou a pesquisa que desenvolvemos no sul de Minas Gerais. Combinando inventário de campo e sensoriamento remoto, construímos equações para dois contextos: um fragmento de floresta tropical e uma área urbana com árvores isoladas. Essas equações usam a altura total e a área da copa, métricas obtidas diretamente da nuvem de pontos, que estimam a biomassa e o carbono estocado em cada planta. Com um voo sobre a cidade, é possível medir centenas de árvores.

Os resultados são promissores. Os modelos mostraram bom desempenho e produziram estimativas equivalentes às de equações consagradas na literatura, mas que exigem medições de cada árvore. O que mais nos entusiasma, porém, não é o número em si, mas seu potencial.

Ter modelos ajustados à realidade das florestas urbanas significa poder mapear, com consistência, o estoque de biomassa das árvores das cidades. Implica, ainda, identificar quais bairros têm déficit de arborização e onde o investimento teria maior impacto climático. E, ao longo do tempo, monitorar se tais cidades estão, de fato, ficando mais verdes.

As árvores sob as quais as pessoas passam todos os dias têm muito a contar. Quanto mais cedo começarmos a mapeá-las com seriedade, mais funcionais e resilientes serão os nossos ecossistemas urbanos.

Ciência Fundamental é editado pelo Serrapilheira, um instituto privado, sem fins lucrativos, de apoio à ciência no Brasil. Inscreva-se na newsletter do Serrapilheira para acompanhar as novidades do instituto e da coluna.

Texto revisado pelo orientador Rafael Dudeque Zenni

Os avanços e os 3 pontos a corrigir na privatização da Copasa, Mauricio Portugal Ribeiro - FSP

 A leitura atenta dos documentos da privatização da Copasa identifica avanços importantes e três preocupações que, se não enfrentadas, podem comprometer tanto a qualidade do serviço aos mineiros quanto a arrecadação do Estado.

Comece-se pelo elogio. A cláusula de não competição imposta ao acionista de referência foi bem desenhada: limita-se ao território de Minas Gerais e prevê duas exceções juridicamente acertadas –uma para fundos de investimento dos quais o adquirente participe como cotista, desde que com gestão independente, e outra para acionistas que exerçam atividades bancárias. A redação evita penalizar atividades secundárias e financeiras que nada têm a ver com saneamento, sem afrouxar a proteção contra captura de mercado pelo controlador. Nisso, aliás, o processo da Copasa avançou em relação ao da Sabesp que, por restrições, em minha opinião, indevidas, terminou afastando da disputa outros operadores do setor de saneamento.

Vista aérea de estação de tratamento de água com dois tanques circulares grandes, um com água escura e outro com água mais clara. Estruturas industriais e tanques retangulares estão ao fundo, cercados por área verde e árvores.
Estação de tratamento de esgoto da Copasa em Belo Horizonte - Divulgação - 2.jun.25/Copasa

Há, contudo, pelo menos três preocupações relevantes em relação aos documentos.

A primeira, e mais grave, é a ausência de contratualização robusta das metas de prestação dos serviços. O único contrato de concessão cujo teor já chegou a debate público é o de Belo Horizonte, município que responde por cerca de 40% da receita total da Copasa, embora concentre apenas em torno de 21% dos usuários atendidos. Contudo, a apuração que fizemos revela que aparentemente não foram estabelecidas metas consistentes a serem cumpridas pela Copasa, descrevendo obrigações de investimento de modo apenas genérico. Quanto aos demais municípios, embora se noticie a celebração de novos contratos com cerca de duas dezenas deles, nenhum desses instrumentos foi disponibilizado publicamente.

Trata-se da preocupação mais séria, por três razões. Primeiro, o processo pode resultar na não entrega da universalização e dos serviços adequados aos usuários. Segundo, a indefinição das metas torna difícil precificar custos e estabelecer limites razoáveis para sua transferência à tarifa, com risco real de pressão tarifária no futuro. Terceiro, a opacidade dos contratos abre espaço para que ofertantes menos sérios apostem em sua capacidade de renegociar com municípios, em ambiente nem sempre transparente. Isso subverte a lógica da licitação, que deveria selecionar o operador mais eficiente, não o mais hábil em renegociar a posteriori.

PUBLICIDADE

Além disso, o contrato de concessão só abrange as áreas urbanizadas. Ficaram de fora as áreas irregulares, como as favelas, que sem dúvida, são as que a chegada do saneamento –geralmente custeado por subsídios– produz o maior impacto social.

A terceira preocupação é técnica, mas potencialmente custosa. Há sinais de que o valor ofertado pelo acionista de referência (30% das ações, gravadas com cláusula de indisponibilidade temporária) integrará a coleta de intenções de investimento das demais ações (em torno de 20% do capital, destinadas à livre circulação). Caso isso se confirme, o Estado deixará dinheiro na mesa. A precificação dessas duas parcelas precisa ser inteiramente separada: ações com indisponibilidade valem menos justamente porque o adquirente assume restrição de venda; se as ações livres dessa restrição forem vendidas pelo mesmo preço definido para o acionista de referência, seus compradores poderão revendê-las, no dia seguinte, a valor de mercado, embolsando ágio que deveria ter ingressado no caixa público.

No caso da Sabesp, a CVM (Comissão de Valores Mobiliários) não admitiu dois preços na operação, em aparente dogmatismo em torno da regra do preço único em ofertas subsequentes, cego às circunstâncias concretas e ao seu impacto sobre o erário. É legítimo esperar que a CVM revise sua interpretação, evitando perdas desnecessárias ao contribuinte mineiro.

Ainda há margem para corrigir o curso. Contratualizar metas verificáveis com todos os municípios e separar a precificação das duas parcelas da oferta são ajustes factíveis. Mas é preciso reconhecer, com franqueza, que dificilmente a negociação com as 636 prefeituras se concluirá no prazo apertado da desestatização, que é o final do presente semestre.

Nesse contexto, o investidor entra no certame sem visibilidade sobre obrigações e tende a precificar essa incerteza, ou na sua oferta, ou na tarifa futura. O mineiro, por sua vez, corre o risco de pagar a conta em duplicidade: como contribuinte que recebe menos pela empresa, e como usuário que custeia a opacidade do desenho.