quinta-feira, 9 de abril de 2026

Drauzio Varella A falta de atenção e a memória, Drauzio Varella, FSP

 Perguntei quantos achavam que a memória estava pior. Formada por cerca de 500 estudantes de medicina, mais da metade da plateia levantou a mão. Comentei que se tratava de uma epidemia de Alzheimer juvenil. Eles riram.

Perda de memória talvez seja a queixa mais frequente nas consultas médicas de hoje. No passado, esse fenômeno ficava restrito aos poucos que insistiam em viver mais do que 70 ou 80 anos. Todos encaravam com naturalidade os avós que repetiam cinco vezes a mesma pergunta e passavam o dia à procura de objetos deixados sabe Deus onde.

Consideravam esses esquecimentos "esclerose da idade". Diziam: "Minha avó é capaz de esquecer do que foi servido no almoço, mas tem uma memória prodigiosa, lembra de fatos que ocorreram quando tinha sete anos de idade".

Na parte inferior da ilustração vemos sombras e ramos espinhosos que vão até um celular na parte direita da ilustração, o celular ilumina o rosto de um jovem, de sua cabeça partem ramos e galhos retorcidos que, como em uma ventania de outono, perdem suas folhas ao vento. O jovem vê desconfiado essas folhas que se vão.
Libero /Folhapress

Em linhas gerais, existem dois grandes grupos de memórias: as de longa e as de curta duração, estas também chamadas de memória de trabalho.

As primeiras persistem por décadas ou pelo resto da vida, especialmente quando são gravadas em momentos de forte emoção. Razão pela qual não esquecemos o lugar em que estávamos ao receber a notícia da morte de um ente querido ou da queda das Torres Gêmeas, em Nova York, ou da rua em que nos roubaram o celular.

A memória de trabalho, ao contrário, é descartável, grava por pouco tempo os acontecimentos que nos ajudam a tocar a rotina diária. Por exemplo, lembro que deixei um copo de água na mesa ao lado ou que fiquei de telefonar para minha irmã ao meio-dia ou que preciso lavar a xícara do café que acabei de tomar. Depois de executadas essas tarefas, tais lembranças serão varridas do cérebro, de modo a deixar espaço livre para outras.

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No conto "Funes el memorioso", publicado em 1942, Jorge Luis Borges narra a vida de Ireneo Funes, jovem uruguaio que depois de um acidente desenvolve a capacidade de memorizar nos mínimos detalhes tudo o que acontece ao seu redor: o rosto de uma pessoa que acabou de conhecer e que nunca mais verá, o formato das nuvens no céu dia após dia, a disposição das folhas das árvores, as ações mais insignificantes executadas em casa.

Essas habilidades, no entanto, deixavam os circuitos neuronais de sua memória tão sobrecarregados que Funes se tornou incapaz de raciocínios elementares, de pensamentos abstratos, de fazer associação de fatos e generalizações. Seu cérebro passava os dias inundado de informações inúteis que o impediam de organizar as ideias para tomar decisões racionais.

Dizer que somos o que está arquivado em nossa memória é parte da verdade; não podemos esquecer que também somos as memórias que nosso cérebro decidiu desprezar.

Voltemos aos desmemoriados de hoje. No caso dos mais velhos, há várias causas: entre elas, o envelhecimento cerebral, o volume crescente de informações armazenadas no decorrer dos anos, a dificuldade de encontrar espaço livre no hardware para arquivá-las e o desgaste na produção de neurotransmissores essenciais.

Esses fenômenos, no entanto, não explicam a epidemia de desmemoriados jovens. Como em pessoas de 20 ou 30 anos são muito raras as degenerações neurológicas, é bem provável que a causa do problema esteja ligada à falta de atenção. São tantos os estímulos simultâneos a que estão submetidas, que esse requisito fundamental para a consolidação de memórias se perde.

Num trabalho conduzido anos atrás, pesquisadores submeteram jovens universitários a uma bateria de testes de atenção, em três situações distintas. Na primeira, eles deixavam o celular fora da sala em que os testes seriam aplicados; na segunda, entravam com o celular e os desligavam antes de começar a responder; na terceira, o celular permanecia ligado durante a realização dos testes.

Os maiores índices de acertos ocorreram quando os celulares ficavam do lado de fora. Os piores, quando permaneciam ligados. Os testes aplicados quando os aparelhos estavam ao alcance das mãos, mas desligados, apresentaram resultados intermediários. Quer dizer, a simples presença do celular já é capaz de desviar a atenção.

A seleção natural não moldou o cérebro humano para dar conta da infinidade de desafios cognitivos impostos pela vida online. Se lembrarmos que os mesmos fatores de risco estão por trás das crises de ansiedade e de depressão que afligem crianças e adultos de todas as idades, concluiremos que não está fácil preservar a sanidade mental no mundo de hoje.

Redução de emissões na França desacelera novamente, e metas climáticas se tornam mais distantes, FSP

 Os cortes nas emissões de gases de efeito estufa da França desaceleraram pelo segundo ano consecutivo em 2025, permanecendo bem abaixo do necessário para cumprir suas metas climáticas, segundo dados encomendados pelo governo e publicados nesta quarta-feira (8).

A desaceleração ocorre enquanto outras grandes economias também enfrentam dificuldades para cumprir suas promessas de reduzir as emissões de gases que aquecem o planeta, mesmo com as temperaturas médias globais próximas de recordes históricos.

A imagem mostra fumaça subindo de uma fábrica tirada em Lanester, no oeste da França, em 31 de maio de 2025
A redução das emissões da França desacelerou pelo segundo ano consecutivo em 2025 e permanece fora do caminho para cumprir suas metas climáticas prometidas - Fred Tanneau/AFP

As emissões da França caíram 1,5% em relação ao ano anterior, informou a Citepa, organização sem fins lucrativos encarregada pelo Ministério da Ecologia francês de contabilizar o inventário de gases de efeito estufa do país.

"A tendência de queda nas emissões continua, embora em ritmo mais lento", disse a Citepa em comunicado, mas acrescentou que a redução "permanece insuficiente" para atingir as metas climáticas da França para 2030.

A França atualizou em dezembro seu plano para alcançar a neutralidade de carbono até 2050. Para permanecer neste caminho, as emissões de gases de efeito estufa precisam cair aproximadamente 4% em média a cada ano até 2030.

Depois que a França reduziu suas emissões em 3,9% em 2022 e 6,8% em 2023, o ritmo desacelerou acentuadamente para 1,8% em 2024.

A redução final de 2025 foi ligeiramente revisada em relação à estimativa provisória da Citepa, de 1,6% em janeiro.

Como outras economias industrializadas, a França tem enfrentado dificuldades para reduzir a intensidade energética de setores politicamente sensíveis ou custosos, como transporte e refinarias.

As emissões da geração de energia aumentaram ligeiramente em 2025, interrompendo uma tendência de queda observada desde 2022, enquanto apenas pequenos cortes foram feitos no transporte.

Anne Bringault, diretora de programas da aliança de grupos ambientais Rede de Ação Climática (RAC), atribuiu os "retrocessos nas políticas públicas para a transição ecológica" à desaceleração no progresso do combate às emissões.

Os esforços para concentrar a atenção no enfrentamento das mudanças climáticas estão sendo ofuscados por guerras no Oriente Médio e na Ucrânia, uma crise energética global e crescente turbulência econômica.

Os dados da França ecoam uma desaceleração na vizinha Alemanha, onde as emissões caíram apenas 0,1% em 2025, segundo o grupo de especialistas Agora Energiewende em março.

As emissões nos Estados Unidos aumentaram 2,4% no ano passado, de acordo com o instituto de pesquisa Rhodium Group, impulsionadas pela demanda da maior economia do mundo por aquecimento e eletricidade para o boom da inteligência artificial.