domingo, 5 de abril de 2026

Faz sentido ler um jornal (ainda) feito para as redes sociais?, Alexandra Moraes - Ombudsman, FSP

 O que será que a misandria, a tartaruga Jonathan e a cantora Marina Lima têm em comum? Os três acabaram por ilustrar tensões do jornalismo feito a partir das redes —ou para elas. Enquanto os jornais esperam o arrebatamento via IA, parecem deixar de lado velhas questões com as plataformas de conteúdo.

Um dos problemas é a percepção de que um jornal não oferece nada que as próprias redes sociais já não forneçam "de graça" (na verdade, em troca de muita coisa, mas essa é outra discussão). O mais grave é quando quem assina o jornal paga por "conteúdo" distorcido, em geral produzido no ritmo emocionado das redes.

Na Folha, o texto "Discurso de misandria, o ódio contra homens, cresce na internet" carregava traços problemáticos dessa produção hiperpersonalizada.

As questões começavam no título ambíguo, que poderia indicar o crescimento do discurso contra homens, mas que na prática desqualificava essa percepção. O texto, produzido originalmente pela DW Brasil e replicado pelo jornal, se resumia à transcrição de um vídeo de menos de dois minutos feito para as redes.

Ilustração mostra um sistema de canos pretos com duas torneiras. Uma delas está aberta e apresenta um vazamento de água azul.
Ilustração de Carvall para coluna da Ombudsman - 5 de abril de 2026 - Carvall /Folhapress

O parceiro de conteúdo obviamente publica o que quiser, mas é do jornal a responsabilidade de colocar no ar algo em desacordo com seus próprios parâmetros.

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O material reproduzia a visão de apenas uma fonte, o que caberia mais num artigo de opinião, não em reportagem. A ideia de misandria crescente, que anima comunidades online de homens ressentidos, segundo o texto, seria uma "narrativa". A questão, simplificada, era encerrada sem espaço para o contraditório, mesmo num contexto inflamado pelo projeto de lei sobre misoginia.

Caberia ao jornal tentar ao menos captar como e em que medida essas comunidades se organizam contra o que percebem como misandria. Sem isso, a Folha repete erros de avaliação já cometidos com outros fenômenos.

O caso da tartaruga Jonathan parece piada perto da gravidade da discussão sobre violência. Mas é fruto de problemas parecidos, que nascem de falta de checagem e ausência de ceticismo. E, nesse caso, com ajuda do 1º de abril.

A BBC e outros, como a Folha, caíram na armadilha de um perfil no X/Twitter que se passava pelo veterinário Joe Hollins. Na vida real, ele cuida de Jonathan, a tartaruga mais velha do mundo.

O perfil fake anunciou a morte da tartaruga junto com um pedido de doação de criptomoedas. Quando a BBC colocou a história no ar, turbinou a credibilidade do malandro, que repostou a notícia. No meio da comoção, quem desconfiava era ignorado.

"O Joe verdadeiro não está no X, e a conta [golpista] está baseada nos EUA e conectada via App Store do Brasil. Jonathan aparentemente está vivo e bem", avisou ainda na rede a repórter do The Guardian Helena Horton. Mais tarde, com apuração completa e uma foto da tartaruga como "prova de vida", ela publicou um dos primeiros desmentidos. A Folha deu Erramos.

O verbete "Morte" no capítulo sobre prática jornalística do Manual da Redação orienta: "Dado o efeito especialmente danoso de um erro jornalístico nessa circunstância, nunca publique notícia sobre morte de alguém antes de obter confirmação inquestionável". Nada impede que o bom senso seja aplicado às tartarugas.

Para Jonathan e seus fãs, o final redivivo foi feliz. Para os jornais, nem tanto. Mesmo com duas décadas de convívio com as redes, ainda há defesas a serem reforçadas. Em ano eleitoral, mais ainda.

Já no caso de Marina Lima, a polêmica-bumerangue nasceu na Folha, cresceu nas redes e voltou ao jornal. A crítica do novo disco da cantora na Ilustrada foi recebida com indignação. Ela mesma postou: "Q pena. Q escroto". Vieram outras críticas à crítica.

Um leitor observou a diferença entre os títulos da crítica no papel/Edição Folha e na internet. No site, que bem ou mal integra o ecossistema da indignação de resultados ("rage bait"), o título era "Novo disco de Marina Lima, sem ideias sólidas, é o pior de sua carreira". O do papel, concluído depois de horas de polêmica online, era "Estrutura frágil faz de novo álbum o menos fulgurante de toda a obra de Marina Lima".

O "rage bait" já existia na Ilustrada bem antes da internet e teve vários nomes. Pepe Escobar foi um dos mais emblemáticos deles. Uma crítica a bandas de SP, em 1984, rendeu protesto dos músicos na Redação e tentativa de agressão. A fama de má passou a perseguir a Ilustrada e a ser perseguida por ela, mas já descansava no passado remoto e offline.

No caso de 1984, o jornal promoveu um evento para debater a "cena". No de agora, escolheu publicar outra crítica, mais positiva.

Não é a primeira vez que a Folha faz avaliações diferentes sobre um mesmo produto. Quando vem da parte ofendida, costuma ser dada como réplica. Nesse caso, o caminho foi diferente. "Oferecemos à cantora a possibilidade de ela escrever uma réplica, dado o teor da crítica publicada, mas ela não quis. Achamos, porém, que valia uma nova avaliação", explica o editor Silas Martí.

Samuel Pessôa - Lula 3 termina melhor do que eu imaginei no fim de 2022, FSP

 Faltam três trimestres para o fim do terceiro mandato de Lula. Ele termina melhor do que eu imaginava no final de 2022, apesar de nunca ter sido muito pessimista com Lula 3.

Cinco fatores explicam o fato de a economia ter aguentado melhor do que eu supunha o forte impacto sobre a demanda da PEC da Transição.

Primeiro, o bom desempenho do ministro Fernando Haddadtema tratado há duas semanas. Segundo, o bom desempenho de Gabriel Galípolo, tema tratado há seis meses.

Dois homens sentados em cadeiras transparentes conversam entre si. O homem à esquerda veste terno escuro e camisa branca, enquanto o homem à direita usa terno cinza, camisa branca e gravata rosa. Eles estão em um ambiente interno com fundo azul.
Presidente Lula e ministro Fernando Haddad em evento em São Paulo - Nelson Almeida/AFP

Terceiro, foi excelente o comportamento da agropecuária nos últimos três anos, como tem apontado o economista-chefe da Tullet Prebon, Fernando Montero. Cresceu 25% de 2023 a 2025, isto é, ao ritmo de 7,7% por ano. Foi a maior taxa de crescimento da agropecuária para um triênio de que se tem notícia. Bolsonaro enfrentou condições climáticas ruins. A agropecuária cresceu no seu quadriênio 3,4%, ou 0,8% por ano. O forte avanço da agropecuária neste governo Lula permitiu que a inflação de alimentos rodasse três pontos percentuais abaixo da inflação cheia.

Quarto, as estripulias de Trump na economia e seu esforço em piorar generalizadamente as instituições dos EUA enfraqueceram a moeda americana em 2025, ano em que os fundamentos, pela elevação das tarifas de importação por lá, indicariam fortalecimento do dólar. A desvalorização da moeda americana gerou uma onda desinflacionária mundial que nos atingiu.

Quinto, o mercado de trabalho apresentou maior flexibilidade. Como tratei em outubro passado, a economia brasileira consegue operar hoje com uma taxa de desemprego menor sem pressionar a inflação. A taxa corrente de desemprego, 5,5%, pressiona menos a inflação do que há 15 anos.

Assim, olhando retrospectivamente, a economia absorveu bem o choque de demanda dado pela escolha de Lula de inverter o ciclo político da despesa pública e iniciar seu terceiro mandato adicionando no Orçamento quase 2% do PIB de gasto permanente.

Evidentemente, o efeito colateral de ter rasgado o livro-texto da ciência política foi o alongamento do ciclo monetário. A Selic está elevada por muito tempo. E não houve erro de condução de política monetária. A Selic alta por muito tempo é necessária para contrair parte da demanda privada e abrir espaço para a elevação do gasto público e das transferências públicas a indivíduos. Nos livros-textos de macroeconomia, esse fenômeno é conhecido pela expressão inglesa "crowding out".

Os limites do modelo petista de governar —operar a economia além da capacidade produtiva e, portanto, forçar a base de recursos— têm como efeito colateral o forte endividamento das famílias e uma onda de recuperação judicial nas empresas.

Como apontado em recente estudo de Silvia Matos do FGV Ibre, o ciclo recente de aceleração do crescimento tem sido caracterizado por estagnação da produtividade do trabalho.

A baixa taxa de crescimento da produtividade e o elevado endividamento das famílias —em que pese o programa Desenrola— parecem estar por trás das dificuldades da popularidade do presidente Lula, apesar dos bons indicadores macroeconômicos.

Como apontou o vice-presidente Geraldo Alckmin, em entrevista na semana que passou ao jornal Valor Econômico, será necessário um ajuste fiscal em 2027. Ajuste, segundo o vice-presidente e, segundo o livro-texto da ciência política, se faz no primeiro ano de governo. A ver se até lá não teremos uma crise de crédito.


Becky S. Korich - Telas, o maior desafio para os pais, FSP

 Becky S. Korich

Advogada, escritora e dramaturga, é autora de 'Caos e Amor'; colunista da Folha

Mudei a tática em casa. Não limito mais horário máximo de joguinhos e redes. Agora a regra é o tempo mínimo sem telas. A meta: que não sobre mais de duas horas por dia.

Tudo começou no último domingo, em que meu filho passou praticamente o dia inteiro diante de uma tela. Foi um dia invertido: a tela era a atividade principal. Nos intervalos ele descansava dela. Chovia. Eu tinha muito trabalho. Ameacei tirar. Ele voltava. Deixei.

As justificativas eram plausíveis. "Não tem nada pra fazer". "Meus amigos também estão jogando". "Não tenho tempo durante a semana". E chovia. A lógica fechava. Fui flexibilizando, alargando o limite. Não por convicção, mas por exaustão.

Na madrugada veio a cobrança.

Uma dor de cabeça que não cabia nele.

Crianças olham fixamente para telas de celular, que cobrem seus rostos
Crianças olham fixamente para telas de celular e tablets - Seventyfour 18.ago.23/Adobe Stock

Ele chorava, se contorcia, rezava para conseguir dormir como se o sono fosse o único lugar onde ainda fosse possível escapar. Os remédios de casa não adiantaram. Fomos parar no hospital e ali ficamos por dois dias até controlar a dor.

Usaram medicações fortes, fizeram exames. Descartaram tudo. Nenhuma lesão, nenhuma infecção, graças a Deus.

O diagnóstico: enxaqueca. Causa provável: excesso de tela.

A pior coisa para uma mãe é quando um filho adoece. E fica ainda mais sofrido quando, no fundo, suspeita que teve alguma participação naquilo.

O que mais assusta é que não houve descuido evidente, houve uma sequência aparentemente inocente de pequenas concessões.

Hoje, não é só febre alta, crise de asma, um tombo que leva uma criança ao hospital. Existe um adoecimento que começa dentro, sem sinais na pele nem no termômetro.

As big techs sabem que crianças são as mais vulneráveis –e investem nelas. Sabem usar não só o conteúdo, mas a arquitetura para criar dependência. Quanto mais tempo ali, melhor para o negócio. Nossos filhos são os ratos de laboratório.

Recentemente, um júri da Califórnia decidiu, com base em provas, que a Meta (FacebookInstagram e WhatsApp) e a Alphabet (Googledesenvolveram produtos intencionalmente viciantes para crianças.

O Relatório Mundial da Felicidade de 2026, divulgado em março, aponta uma queda significativa no bem-estar dos jovens, em escala suficiente para virar estatística, e identifica o papel das redes sociais como um dos fatores determinantes para esse declínio.

Precisamos de mais evidências?

Não sei se devo processar alguma big tech. Também não sei se meu filho deveria me processar por essa crise de enxaqueca.

Elas seguem lucrando. Nós seguimos deixando.

Porque funciona. Porque ocupa. Porque resolve o curto prazo com uma eficiência que nenhuma outra coisa oferece. Porque não temos moral para impedir, olhando, nós mesmos, para as nossas telas.

"Vai fazer outra coisa", eu digo.

Ele se perde.

O que é "outra coisa", quando tanta coisa já foi substituída?

Essa é a parte mais difícil: não foi a tela que entrou. Foi o resto que, aos poucos, foi saindo.

Quero que meu filho redescubra, no "não tem nada para fazer", o quanto cabe nesse nada. Que ele perceba que é no vazio que as coisas começam. Que ele não precise estar sempre estimulado para vibrar.

É pedir demais, eu sei, mas a dor ainda está fresca na cabeça dele. E, pelo menos até agora, não é a mãe que impõe o limite, é o corpo.