quarta-feira, 1 de abril de 2026

Biografia conta como José Vicente fundou a Universidade Zumbi dos Palmares, FSp

 Isac Godinho

São Paulo

Zumbi dos Palmares é um dos principais símbolos da resistência do povo preto contra a escravidão no Brasil. Há mais de 20 anos, o herói nacional também nomeia uma instituição de ensino criada com o intuito de mudar a realidade dos negros por meio do acesso à educação formal.

Pioneira na América Latina, a Universidade Zumbi dos Palmares surgiu em 2004, em São Paulo, a partir de um desejo coletivo de ver mais pessoas negras conquistando espaços de destaque na sociedade.

Principal responsável pela criação da UniPalmares e atual reitor da instituição, o advogado e ativista José Vicente tem agora sua história contada no livro "O Sol Brilhou à Noite".

Homem negro, vestido com terno bege e gravata clara, sorri enquanto segura livro com capa preta e verde. Ao fundo, painel azul com texto 'O Clube dos Livros Lido' e estantes com livros.
O reitor da Universidade Zumbi dos Palmares José Vicente, que lança sua biografia 'O Sol Brilhou à Noite' - Antônio Silva/Divulgação

A obra, escrita pelo jornalista Ricardo Viveiros e publicada pela editora DisrupTalks, narra a trajetória do menino negro de família pobre do interior de São Paulo que se tornou uma das pessoas mais respeitadas no debate da inclusão racial no Brasil.

Reticente quanto à necessidade de transpor sua história de vida para um livro, José Vicente conta que foi convencido após insistência de Viveiros, seu amigo de longa data.

"Conversando com ele, entendi que minha trajetória traz algumas nuances muito curiosas, que poderiam não só permitir que as pessoas conhecessem como as coisas aconteceram nos bastidores, mas sobretudo até se apropriarem de algumas dessas dimensões em ações futuras", diz ele.

De acordo com ele, a importância do livro é motivar mais pessoas a pensar em alternativas para superar obstáculos criados pela estrutura social. "É como um estímulo para que as pessoas continuem otimistas e acreditando nas suas utopias."

O título da obra, "O Sol Brilhou à Noite", traduz bem essa ideia. O trabalho realizado por ele e pelas pessoas que o acompanharam nesse percurso possibilitou que algo muito improvável se tornasse realidade.

Nascido em novembro de 1959 e filho mais novo de seis irmãos, José Vicente perdeu o pai aos dois anos. Criado pela mãe, Izabel, ele cresceu no morro do Querosene, em Marília, interior de São Paulo. Trabalhou como boia-fria, engraxate e fez bicos como pintor de paredes, até virar soldado da Polícia Militar e se mudar para a capital.

Já em São Paulo, ingressou na faculdade de direito e percebeu que, na instituição em que estudava, apenas ele e outros três ou quatro eram negros. Começou ali a atuar no movimento estudantil.

Anos mais tarde, ao começar uma nova graduação na Escola de Sociologia e Política de São Paulo, notou que a realidade era quase a mesma, em termos raciais. Essa foi uma das principais motivações para o surgimento da ONG Afrobras, ainda nos anos 1990, que posteriormente serviria de pilar para a fundação da Universidade Zumbi dos Palmares.

Em mais de 20 anos, a instituição já formou cerca de 6.000 profissionais, sendo que 80% deles se declaram negros. "A gente estava falando de uma universidade negra antes mesmo de existirem cotas no país. Isso foi revolucionário e se tornou realidade", diz José Vicente.

Segundo Ricardo Viveiros, o biógrafo, o livro cumpre um papel de documentar todo o trabalho de José Vicente como um registro histórico para o movimento negro. O escritor diz esperar que a biografia também seja lida por pessoas brancas, para que elas conheçam um pouco mais das lutas da população preta.

Viveiros afirma que, mesmo conhecendo o biografado há cerca de 40 anos, o processo de escrita do livro o fez perceber que ainda tinha muito para descobrir sobre o amigo.

"Eu entrevistei muitas pessoas que conviveram com ele ao longo de todo esse tempo. Tem gente de todo tipo, de direita e de esquerda, que conhece e respeita a luta dele, porque o José é uma pessoa de muita esperança e que luta por uma sociedade mais respeitosa."

O livro também traz relatos de personalidades brasileiras sobre o trabalho de José Vicente. Entre as figuras ouvidas estão o presidente Lula e seu vice, Geraldo Alckmin, o ex-presidente Michel Temer, o ministro do STF Luiz Fux, os cantores Martinho da Vila e Netinho de Paula, o sociólogo Edson Santos e o banqueiro Pedro Moreira Salles.

O Sol Brilhou à Noite

  • Preço R$ 149,90 (236 págs.)
  • Autoria Ricardo Viveiros
  • Editora DisrupTalks

Petrobras quer produzir toda a demanda de diesel do Brasil em 5 anos, diz Magda, FSP

 

São Paulo

A presidente da Petrobras, Magda Chambriard, disse nesta quarta-feira (1), que a estatal estuda produzir toda a demanda de diesel do Brasil em cinco anos. Segundo ela, a decisão deve ser tomada no próximo plano de negócio da empresa, que visa os investimentos nos cinco anos seguintes à publicação do planejamento.

O plano inicial da Petrobras era assumir 80% do mercado de diesel do país nos próximos cinco anos, segundo a executiva –hoje a estatal produz 70% de todo o combustível vendido no Brasil. O atual contexto da guerra no Irã e impactos no mercado mundial de petróleo, no entanto, abriram a possibilidade para a empresa aumentar seus planos.

Bico de bomba de combustível amarelo segurado por uma pessoa com braço visível ao fundo desfocado. O bico está em destaque com detalhes metálicos e interior quadrado.
Posto de gasolina na avenida Nove de Julho, em São Paulo. - Rafaela Araújo/Folhapress

"O nosso plano de negócios fala de um aumento de cerca de 300 mil barris por dia de diesel em 5 anos. E nós estamos revendo esse plano para ir nos perguntando se nós podemos chegar a 100% em 5 anos", afirmou Magda durante um evento organizado pela CNN Talks, em São Paulo.

"É uma questão que nós estamos nos fazendo. Somos capazes de fornecer nos próximos cinco anos todo o diesel que o Brasil precisa? E eu estou aguardando essa resposta; 80% nós já vemos que somos capazes", acrescentou. A discussão sobre o tema, segundo ela, deve começar em maio.

Hoje, o Brasil produz cerca de 80% do diesel consumido no país. Para além da Petrobras, refinarias privadas, como a de Mataripe, da Acelen, e a Ream, do grupo Atem, complementam essa produção. Por isso, para atender toda a demanda nacional, a Petrobras precisará expandir suas refinarias e comprar as plantas privadas —caso as compras não se viabilizem, a expansão precisará ser maior.

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Questionada sobre o tema, Magda não disse se a estatal estaria disposta a adquirir essas refinarias. "Mataripe é uma pergunta difícil", afirmou. "Desde que eu cheguei na Petrobras, se fala da possibilidade de comprar a refinaria de Mataripe. E o que eu digo é o seguinte: qualquer bom negócio para a Petrobras está valendo."

Como exemplos de como a expansão pode acontecer, a executiva citou a ampliação da capacidade de processamento da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, e da Refinaria Duque de Caxias, no Rio de Janeiro. Na primeira, a estatal planeja produzir mais 130 mil barris por dia de derivados de petróleo até 2029, sendo 88 mil de diesel. Já na segunda, o plano é produzir mais 76 mil barris por dia de diesel a partir da integração da refinaria ao Complexo de Energias Boaventura, em Itaboraí (RJ).

"Para o consumidor, [chegar a 100% do mercado] dará a certeza de que as volatilidades externas não os vão assombrar e, para o nosso acionista, é a garantia de [ter] um mercado que talvez seja o maior consumidor da América Latina", disse Magda.

O jovem químico que fermentou a ciência moderna, FSP

 Pedro Pequeno

Biólogo e pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia – Núcleo Roraima

A ciência depende de dados. Porém, coletar muitos deles pode ser caro, difícil ou mesmo impossível. Como chegar a resultados confiáveis quando os dados são limitados?

Era esse o problema com o qual se deparou William Sealy Gosset em seu primeiro emprego. Em 1899, ele começou a trabalhar na Guinness, uma tradicional cervejaria da Irlanda. Na época, várias outras já estavam passando da produção artesanal para a industrial. O químico inglês de apenas 23 anos foi contratado para otimizar esse processo.

Homem de perfil usando óculos e boina preta mede líquido com pipeta em tubo de ensaio, em bancada verde com vários frascos e copos vazios à frente. Ao fundo, prateleiras verdes exibem várias garrafas alinhadas.
Julia Jabur/Instituto Serrapilheira

Um dos problemas era determinar se um lote inteiro de cerveja seguia o padrão de concentrações dos ingredientes com base em uma amostra pequena, de poucas garrafas. Acontece que qualquer amostra oferece apenas um chute: a única forma de saber como de fato é um lote é medindo-o todo.

Além disso, uma amostra nunca é exatamente igual a outra: as plantas usadas como matéria-prima variam devido ao solo, ao clima, à genética. Isso cria uma variabilidade inevitável entre amostras do mesmo lote, ou erro amostral.

Em 1906, Gosset foi a Londres estudar com um dos fundadores da estatística moderna (e eugenista declarado, infelizmente) Karl Pearson. Ele recomendava usar amostras grandes, com centenas de unidades ou mais, pois a teoria de então garantia que o erro amostral seguiria um padrão previsível. Assim seria possível obter uma margem de erro válida para um chute baseado em uma amostra.

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Para testar se a teoria também funcionava com amostras pequenas, Gosset teve uma ideia engenhosa: usar cartões para simular sorteios repetidos de amostras pequenas de uma população, como um lote de cerveja.

Gosset descobriu que, em amostras pequenas, chutes muito errados ficavam muito mais frequentes que o previsto pela teoria existente. A partir disso, ele descreveu sua descoberta em termos matemáticos, obtendo medidas válidas de erro amostral.

Seu trabalho foi publicado em 1908 na Biometrika, uma das primeiras revistas de métodos quantitativos do mundo, criada por Pearson. Porém, como a Guinness proibia a divulgação de suas pesquisas a fim de não beneficiar as concorrentes, Gosset adotou um pseudônimo: Student (estudante).

O trabalho passou quase despercebido, exceto por um jovem prodígio da estatística, Ronald Fisher (sim, outro eugenista), que considerou revolucionária aquela descoberta. Os dois passaram a trocar cartas, e nos anos 1920 Fisher generalizou os achados do colega. Porém, ele manteve o pseudônimo do químico, batizando sua descoberta de distribuição t de Student.

Em 1935, Gosset foi promovido a "mestre cervejeiro" da Guiness, falecendo apenas dois anos depois, aos 61 anos. Seu legado, porém, é imortal: hoje, a distribuição t é um dos pilares da inferência estatística, sendo usada rotineiramente na ciência.

O químico também foi um pioneiro do uso de sorteios repetidos para resolver problemas matemáticos, ou simulação de Monte Carlo. E fez tudo isso com apenas 20 e poucos anos, mesmo não sendo estatístico nem matemático de formação. Sua humildade intelectual é ilustrada por uma carta de 1924 a Fisher: "estou enviando uma cópia das tabelas de Student, já que você provavelmente é o único homem que as usará algum dia!". Ele não poderia estar mais errado.